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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 30 de setembro de 2007

Estudos Bíblicos – Artigos de Bernard Levinson

Bernard M. Levinson is Associate Professor of Classical and Near Eastern Studies and of Law at the University of Minnesota, holds the Berman Family Chair in Jewish Studies and Hebrew Bible, and serves as the Director of Undergraduate studies for the Center for Jewish Studies. His research focuses on Hebrew Bible and ancient Near Eastern studies, specializing in biblical and cuneiform law (particularly the role of the ancient Near East in the emergence of constitutional thought); Deuteronomy and the history of interpretation; and literary approaches to biblical studies. Professor Levinson teaches graduate courses in "Biblical Law and Jewish Ethics" and "Scripture and Interpretation in Israelite Religion and Judaism." He is on the editorial boards of Journal of Biblical Literature, Zeitschrift für Altorientalische und Biblische Rechtsgeschichte, and Orientalia Biblica et Christiana. He presents regularly at national and international conferences.

Professor Levinson received his B.A. degree in English and Intellectual History with First Class Honors in 1974 from York University in Toronto. He earned a M.A. degree in Religious Studies from McMaster University in Hamilton, Ontario in 1978 and a Ph.D. in Near Eastern and Judaic Studies from Brandeis University in 1991. He was a Visiting Scholar at the School of Theology, Johannes Gutenberg University, Mainz/Germany (92-93) and also received an appointment in 1997 to the Institute for Advanced Study (Princeton), School of Social Science.


Artigos na Web:

The First Constitution: Rethinking the Origins of Separation of Powers and Rule of Law in Light of Deuteronomy, CARDOZO LAW REVIEW 27:4 (2006): 1853–1888.

You Must Not Add Anything to What I Command You: Paradoxes of Canon and Authorship in Ancient Israel, in 50:1 Numen: International Review for the History of Religions 1 (2003).

The Reconceptualization of Kingship in Deuteronomy and the Deuteronomistic Historys Transformation of Torah, 51 Vetus Testamentum 511 (2001).

Israel, Israelita, Judeu, Hebreu

Sobre o uso dos termos Israel, Israelita, Judeu, Hebreu

GOTTWALD, 1988, p.19: “Nos estudos bíblicos correntes, Israel e israelita (distintos de israelense, cidadão do moderno Estado de Israel) referem-se ao povo na sua história primitiva até ou através do exílio babilônico, enquanto judeu e judaico referem-se ao povo depois da reintegração na Palestina logo após o exílio. O termo judeu vem da palavra hebraica yehudi, judaíta (judeu na forma latinizada posterior), ou seja, da tribo ou terra ou reino de Judá no uso pré-exílico. Após o exílio, o termo yehudi referia-se principalmente a judeus em sentido inclusivo, onde quer que eles morassem, mas ocasionalmente era aplicado mais restritamente a judaítas/judeus, ou seja, àqueles judeus que habitavam numa comunidade palestinense restaurada na terra e no Estado antigo de Judá. Israel é também empregado para todo o período bíblico, especialmente ao falar do povo como entidade religiosa. Hebreus, outrora usado extensivamente para referir-se aos primitivos israelitas, agora não goza de preferência. A língua da Bíblia, uma forma do antigo cananeu, denomina-se hebraica. Assim, com Bíblia Hebraica queremos significar que as Escrituras judaicas foram escritas na língua hebraica”.

Cf. GOTTWALD, Norman K. Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. Trad. A.Alvarez. São Paulo: Paulinas, 1988. p.19.

Palestina, Judéia ou Israel?

Extraído de: SCHMIDT, Francis. Espacialização. IN: ---. O pensamento do Templo. De Jerusalém a Qumran. Trad. Paulo Meneses. São Paulo: Loyola, 1998. p.18-21.







Disparidades regionais e flutuações históricas que exprimem em particular a multiplicidade dos nomes dados a esse território polimorfo, quer seja descrito do exterior por observadores como Heródoto, por geógrafos como Estrabão, por naturalistas como Plínio, o Velho, quer designado do interior por uma administração estrangeira — lágida, selêucida ou romana — ou pelos próprios judeus, o uso corrente, assim como a nomenclatura oficial, apresenta uma diversidade desconcertante.

De todas essas denominações, reterei apenas três, que atestam as legendas de três moedas. A primeira é um grande bronze posto em circulação em Naplusa, em 159-160. Na frente, o busto de Antonino, o Piedoso; no verso, um templo no cimo do monte Garizim, acompanhado da legenda grega Neapoleôs Syrias Palaistinês. A segunda moeda é um sestércio de bronze, datado de 71, com o busto de Vespasiano na frente; no verso, uma palmeira, ladeada pelo imperador à esquerda e por uma mulher judia cativa à direita, está rodeada pela legenda: Judaea capta. A terceira é uma tetradracma da segunda guerra judaica. Na frente, a fachada tetrastilo do Templo de Jerusalém; no verso, o lulav e o etrog, que fazem referência à festa de Sukkot, estão circundados pela legenda, em escrita paleo-hebraica: “Ano 1 da redenção de Israel”. Três moedas, portanto três denominações diferentes: Palestina, Judéia, Israel[1].

Literalmente, Palaistinê é o nome grego que designa o país dos filisteus. Em um comentário sobre a tábua dos povos de Génesis 10, que enumera as diversas regiões do mundo ocupadas pelos filhos de Noé, Flávio Josefo diz que Filistinos, um dos descendentes de Cam, é o único que se instalou em um país que leva o nome de seu fundador: “Com efeito”, escreve, “os gregos chamam Palestina à parte que lhe coube” (Antiguidades, 1, 136). Já no testemunho de Heródoto (Histórias, VII, 89), Palestina é o nome dado à parte da Síria onde habitam os fenícios, e a toda a costa até o Egito. Igualmente, o geógrafo Pompônio Mela (Chorographia I, 11, 63) e Plinio, o Velho (História natural, V, 69), designam assim a faixa costeira que se estende da Fenícia ao Egito. Mas tomado em uma segunda acepção, igualmente atestado por Heródoto, o termo estende-se a toda a região que está atrás, e então compreende o conjunto da Síria meridional: “Os fenícios e os sírios da Palestina reconhecem, eles próprios, ter aprendido dos egípcios o costume da circuncisão” (Histórias, II, 104, 3)[2]. Aristóteles admira-se com as fábulas que contam sobre um lago da Palestina onde flutuam na superficie todos os corpos de homens ou animais que nele são mergulhados, e que é tão salgado que nenhum peixe pode viver ali (Meteorológicos II, 359 a). A região habitada por “uma parte não desprezível da nação muito populosa ágida, dos judeus”, e muito especialmente pelos essênios, é chamada “Síria Palestina” por Filon de Alexandria (Probus, 75). Mas só depois de 135 o nome oficial da província romana da Judéia será substituído por “Síria Palestina” ou ‘Palestina”. Esse nome, que não é atestado nem nos Setenta nem na literatura apocaliptica judaica nem no Novo Testamento, só raramente é encontrado nos escritos rabínicos.

A região localizada em torno de Jerusalém, onde se estabeleceram os judeus ao voltar do exílio, foi nomeada Yehudah — traduzido por Iudaia nos Setenta —, por referência ao antigo reino de Judá. No fim do período persa, entre 360 e 331, as moedas de prata emitidas pelo governo da província da Judéia trazem a legenda YHD, Yehud na escrita aramaica antiga[3]. Na época selêucida, a Judéia designa o território habitado pelo ethnos tôn Iudaiôn, a nação dos judeus. Após a expansão do território hasmoneu, a palavra Judéia toma também sentido amplo, incluindo além da Judéia propriamente dita outras regiões, em especial a Samaria e a Galiléia. Essa segunda acepção é testemunhada, por exemplo, por Estrabão: “O país do interior, situado além da costa fenícia, até a fronteira da Arábia, entre Gaza e o Anti-Líbano, chama-se Judéia” (Geografia, XVI, 2,21). O termo designa então o conjunto das regiões habitadas majoritariamente pelos judeus. Na nomenclatura oficial da administração romana, essa acepção ampla será retida para designar a província romana da Judéia. Plínio e Flávio Josefo[4] utilizam a palavra em suas duas acepções. Contudo, na Mishnah, a Judéia, tomada no sentido estrito do termo, constitui com a Transjordânia e a Galiléia um conjunto tripartido mencionado com freqüência[5].

Quando Ezequiel anuncia o retorno dos exilados ao país de seus pais, chama esse país “terra de Israel”. Ali, o povo e seu Deus serão reunidos[6]. Assim, em sua acepção territorial, Israel não se opõe mais a Judá como o reino do norte ao reino do sul. No decorrer de sua história, o nome conserva em geral essa conotação particular — uma terra dada por Deus a seu povo — e se opõe ao país do exílio ou ao das nações estrangeiras. Gravando sobre suas moedas o termo “Israel” e não “Judéia”, os rebelados da primeira e da segunda guerras judaicas fazem mais que declarar a independência de seu território; escolhendo esse termo, afirmam-se como herdeiros da terra ancestral e sagrada. Conforme a regra de que “todo mandamento que é dependente do país só pode se aplicar no país” (Qiddushin, 1,9), quando a Mishnah pergunta sobre os limites no interior dos quais se aplicam as prescrições do Levítico referentes ao ano sabático (Sheviit, 6,1), ou as dos Números sobre o imposto sobre a pasta do pão (Halla, 4,8), a Mishnah estabelece que só se aplicam na ‘Erets Israel. No entanto é preciso compreender que se trata aqui de um território de fronteiras sem relação com nenhuma realidade histórica. Enquanto essa designação é atestada com muita freqüência nos escritos rabínicos, é significativo constatar que o termo “Palestina”, ao contrário, raramente é encontrado.

Esses três nomes atestam que o território habitado pelos judeus, mas constituído de regiões tão díspares como a Judéia propriamente dita, a faixa costeira, a Galiléia e a Peréia, foi percebido como formando um conjunto próprio, distinto não só dos países vizinhos mas também das comunidades judaicas da diáspora. É, portanto, suscetível ser um dos referentes sobre os quais se funda o sentimento de pertença a uma mesma comunidade. Contudo, esses três nomes remetem a três percepções muito diferentes de uma mesma realidade. “Palestina” é o nome dado pelos estrangeiros à comunidade judaica. Embora consagrado pela tradição historiográfica — que opõe correntemente o judaísmo palestino ao da diáspora —, não dá conta da relação da comunidade judaica com seu território durante o período do segundo Templo. Tratando-se de uma pesquisa sobre a identidade judaica, essa primeira designação está, por assim dizer, fora do jogo. “Judéia” é empregado tanto na linguagem corrente como na nomenclatura oficial, em hebraico e também em aramaico, em grego e em latim. Sem dúvida, o termo é ambíguo, na medida em que é utilizado tanto em sentido restrito como amplo. Ao menos é empregado tanto pelos próprios judeus como pela administração romana. Quanto a “Israel”, trata-se de uma denominação própria dos judeus, não utilizada pelos estrangeiros. Por oposição ao país das nações, Israel designa a terra onde o povo mantém relações privilegiadas com seu Deus. Longe de ser equivalentes, esses dois termos implicam, cada um, uma visão judaica específica do território judaico: mais política e administrativa no caso da Judéia, mais simbólica no caso de Israel.



[1] Sobre o conjunto dos nomes dados à Palestina: Abel 1933, I, pp. 3 10-332. Sobre a oposição entre “Judéia” e “Palestina”: Feldman 1990, pp. 1-23. A moeda de Naplusa: Rosenberger, III, 1977, p. 6. A moeda da Judéia cativa: Rappaport 1984, p. 51, gravura IV, 6. A tetradracma da segunda guerra judaica: Mildenberg 1984, pp. 123-125.
[2] Segundo Flávio Josefo, Antiguidades, VIII, 262; Contra Ápio, 1, 168 ss., esses sírios da Palestina são exatamente os judeus: ver Stern 1976 (onde se encontrará um comentário magistral de todos os outros textos gregos e romanos aqui citados), I, pp. 2-4. a IV, 6.
[3] Sobre essa cunhagem de moeda da província de Judéia: Mildenberg 1979, pp.183-196.
[4] Plinio, História naturalis, V,70; Flávio Josefo, Guerra, III, 5 1-55 (a Judéia propriamente dita); III, 143, 409 (a Judéia em sentido amplo).

[5] Assim Mishnali, Cheviit, 9, 2; Ketubbot, 13, 9; Babba Batra, 3, 2.

[6] ‘Erets Israel. Sobre uma análise semântica do vocabulário da “terra” (‘admat Israel e ‘erets Israel) em Ezequiel, ver Keller 1975, pp.481-490.

O Território



Extraído de: SCHMIDT, Francis. Espacialização. IN: ---. O pensamento do Templo. De Jerusalém a Qumran. Trad. Paulo Meneses. São Paulo: Loyola, 1998. p.17-18.

Na época selêucida, a comunidade judaica leva o nome oficial de ethnos tôn Iudaiôn. O território dessa “nação dos judeus” se estende até o Jordão e o Mar Morto a leste. Limitado pela Iduméia ao sul, não vai além de Betsur, no caminho de Hebron a Jerusalém. A oeste, não alcança a costa, mas pára além de Lida. Ao norte, o limite entre a Judéia e a Sarnaria começa pouco depois de Modin, a aldeia dos macabeus, Betel e Jericó. Trata-se, pois, de um território de dimensões modestas, que quase não ultrapassa o da cidade de Jerusalém[1].

Com o tempo, a política de anexação dos hasmoneus teve por efeito dar a esse território uma extensão considerável. Por ocasião da morte de Alexandre Janeu, em 76 a.C., o reino hasmoneu comporta, além da Judéia, a Sarnaria, a Galiléia, a Iduméia, o litoral do monte Carmelo até Rafia, e além do Jordão e do Mar Morto uma faixa de território que se estende da Gaulanítide ao norte até o país de Moab ao sul.

Depois da intervenção romana e da dominação da Judéia, sob o controle de Roma, o reino de Herodes Magno, “amigo e aliado do povo romano”, volta a ter as dimensões do tempo de Alexandre Janeu. São acrescentadas a Batanéia, a Traconítide e a Auranitide, a leste do lago de Genesaré.

Essa expansão territorial foi acompanhada de uma política de judaização das regiões anexadas. Vêm agregar-se à Judéia regiões mais ou menos recentemente judaizadas: assim a Iduméia na época de João Hircano (134-104); o norte da Galiléia na época de Aristóbulo I (104-103), ou muito mais recentemente, na época herodiana, as regiões situadas a leste do lago de Tiberíades. Aparecem, pois, no interior do país judaico, disparidades regionais, históricas, acompanhadas muitas vezes de particularidades halákhicas[2]. Em suma, um território de limites flutuantes, de estatutos políticos múltiplos e cambiantes, de regionalismos fortemente marcados.



[1] Sobre as fronteiras de Israel, ver Vidal-Naquet 1989, pp. 848-854.

[2] Schürer 1979, II, pp. 13-14; contra Schiffinan 1992, pp. 143-156.

Citação de datas

Segue a tendência internacional para pesquisas de culturas não-cristãs:

a.E.C. (antes da Era Comum) = a.C. (antes de Cristo)
E.C. (Era Comum) = d.C. (depois de Cristo)