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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Hebrew Cantillation Marks

Hebrew Cantillation Marks
A short description of the Hebrew cantillation marks (ta’amim) and their usage for structuring the Bible text, by Helmut Richter.

A short description of the Hebrew cantillation marks and their usage for structuring the Bible text is given. The problems of their representation in modern character codes are briefly outlined. The article contains also tables with the Unicode and the Michigan-Claremont codings of the cantillation marks. Cantillation, which obviously is the purpose of cantillation marks, is not treated here.


Veja mais:

FERREIRA, Cláudia A.P. O pacto da memória: interpretação e identidade nas fontes bíblica e talmúdica. Tese de Doutorado em Ciência da Literatura (Poética). Rio de Janeiro, UFRJ/Faculdade de Letras, 2002. Páginas 48-49:

A acentuação massorética foi criada pelos massoretas, os escribas, antigos mestres fariseus, que preservavam o texto bíblico. Como o alfabeto hebraico só possuísse consoantes, os massoretas criaram no século IX um tipo especial de vogais, na realidade pontos e traços, colocados acima, ao lado e abaixo das consoantes, permitindo desta forma uma prosódia adequada do texto bíblico preservando o seu sentido. Os massoretas também criaram símbolos para os acentos musicais, chamados de taamim, que significa, literalmente “gostos”; denominados às vezes, neguinot “notas” ou “melodias”.[1]

Esta acentuação constituía um sistema de notação musical para o cântico do texto hebraico nas leituras públicas da Torá (Pentateuco).[2]

A entoação do texto bíblico por meio dos acentos colocados acima e abaixo das sílabas hebraicas pode ser descrita como uma forma de declamação musical, realizando a fusão da palavra com a melodia. Os taamim assemelham-se grandemente às neumas, o sistema de sinais musicais que a Igreja Bizantina foi a primeira a adotar. As neumas e os taamim apareceram no século IX: ambos representavam sistemas rudimentares e inexatos de notação de cantigas. Os taamim eram indicações ligeiras ao leitor ou entoador: eles sugeriam quando elevar, abaixar ou sustentar a voz, ou quando deveria fazer uma pausa longa ou breve. Este sistema de notação não colocava a ênfase na música, mas nas sílabas das palavras hebraicas do texto, o ritmo provinha das sílabas que havia no cântico. Com o tempo, tropos ou grupos de notas foram justapostos para a ornamentação das sílabas mais significativas visando dar-lhes maior ênfase musical e aprimorar o texto.

Os taamim não indicavam valores dinâmicos precisos em tom e em tempo e não tinham escala nem ritmo. Não havia ordem na seqüência de sons. O leitor-cantor não obedecia a regras, mas simplesmente improvisava elevando, baixando e sustentando as notas, e fazendo pausa quando os sinais indicavam que devia fazê-lo. O leitor-cantor repetia o esquema tal como aprendido a entoar segundo a tradição oral.

Surgiram várias formas de salmodias judaicas em diferentes países de acordo com diferentes correntes da tradição musical judaica. Os taamim ainda são usados na leitura em cantilena do texto bíblico.[3]

Conhecer a função de cada sinal, conjuntamente, com a passagem bíblica, nos permite compreender o sentido do texto muito além de apenas considerarmos regras gramaticais e as palavras isoladamente.



[1] Os acentos hebraicos servem basicamente a três propósitos: 1) Eles marcam a tonicidade da palavra. Ela geralmente será a última sílaba da palavra, mas também poderá ser a penúltima. 2) Eles regulam a recitação dos textos bíblicos, pois os rolos de textos bíblicos lidos nas sinagogas não têm pontuação, e as vogais e os acentos são recitados de memória. 3) Eles servem como sinais de pontuação, mostrando como era percebida a estrutura da frase por ocasião quando foram colocados no texto. Como sinais de pontuação, os acentos podem ser disjuntivos, que separam, ou conjuntivos, que ligam. Esses sinais nos ajudam a identificar as partes que compõem uma frase hebraica e são, desta forma vital para a compreensão do sentido do texto.
[2] A leitura do texto bíblico é ainda realizada nos dias atuais na forma de canto.
[3] Veja no link Navigating The Bible uma das possibilidades de cantilação do texto hebraico bíblico.

IEA: Interfaith Encounter Association


IEA: Interfaith Encounter Association

Coordinator Sought for a Jewish/Interfaith Project
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Adama Interfaith Encounter
Heart and Soul Broadcast on BBC

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Please note:
This program is the property of Heart and Soul at the BBC World Service
and is re-broadcast on this website for personal use only.


domingo, 29 de junho de 2008

O pecado e as religiões (Paulo Coelho)


Cristianismo: o jogo de xadrez O jovem disse ao abade do mosteiro: — Bem que eu gostaria de ser um monge, mas nada aprendi de importante na vida. Tudo que meu pai me ensinou foi jogar xadrez, que não serve para iluminação. Além do mais, aprendi que qualquer jogo é um pecado.

— Pode ser um pecado, mas também pode ser uma diversão, e quem sabe este mosteiro não está precisando de um pouco de ambos? — foi a resposta.

O abade pediu um tabuleiro de xadrez, chamou um monge, e mandou-o jogar com o rapaz.

Mas antes de a partida começar, acrescentou: — Embora precisemos de diversão, não podemos permitir que todo mundo fique jogando xadrez. Então, teremos apenas o melhor dos jogadores aqui. Se nosso monge perder, ele sairá do mosteiro, e abrirá uma vaga para você.

O abade falava sério. O rapaz sentiu que jogava por sua vida, e suou frio. O tabuleiro tornou-se o centro do mundo.

O monge começou a perder. O rapaz atacou, mas então viu o olhar de santidade do outro. A partir desse momento, começou a jogar errado de propósito.

Afinal de contas, preferia perder, porque o monge podia ser mais útil ao mundo. De repente, o abade jogou o tabuleiro no chão.

— Você aprendeu muito mais do que lhe ensinaram — disse. — Concentrou-se o suficiente para vencer, foi capaz de lutar pelo que desejava. Em seguida, teve compaixão e disposição para sacrificar-se em nome de uma nobre causa. Seja bem-vindo ao mosteiro, porque sabe equilibrar a disciplina com a misericórdia.


Judaísmo: perdoando no mesmo espírito O rabi Nahum de Chernobyl vivia sendo ofendido por um comerciante. Um dia, os negócios deste último começaram a andar muito mal. “Deve ser o rabino, que está pedindo vingança a Deus”, pensou. E foi pedir desculpas a Nahum.

— Eu o perdôo com o mesmo espírito que você me pede — respondeu o rabino.

Mas as perdas do homem cresceram cada vez mais, até que ele ficou reduzido à miséria. Os discípulos de Nahum, horrorizados, foram perguntar o que tinha acontecido.

— Eu o perdoei, mas ele continuou me odiando no fundo de seu coração — disse o rabino. — Então, seu ódio contaminou tudo que fazia, e a punição de Deus tornou-se ainda mais severa.


Islã: onde está Deus Numa pequena aldeia do Marrocos, um imã contemplava o único poço de toda a região. Um outro muçulmano aproximou-se: — O que tem lá dentro? — Deus está escondido aí.

— Deus está escondido dentro deste poço? Isso é pecado! O que você está vendo deve ser uma imagem deixada pelos infiéis! O imã pediu que se aproximasse e se debruçasse na borda. Refletido na água, ele pôde ver o seu próprio rosto.

— Mas este sou eu! — Isso mesmo. Agora você sabe onde Deus está escondido.

Extraído de:
Revista O Globo, ano 4, número 205, página 47, em 29/06/2008.

Obscura face humana

Historiadora e psicanalista, a francesa Elisabeth Roudinesco narra toda a trajetória dos perversos, cuja existência justifica a distinção entre o bem e o mal, tema de sua mesa na Flip

Ubiratan Brasil
O Estado de São Paulo, Cultura, em 29/06/2008.

Marquês de Sade, o comandante nazista Rudolf Höss, Barba-Azul, Darth Vader - a historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco conviveu com personagens pouco recomendáveis nos últimos tempos. Flagelantes, sodomitas, homossexuais, terroristas, pedófilos são pessoas que levaram uma rotina inversamente simétricas às vidas exemplares de homens ilustres e, por isso, são consideradas perversas. Interessada no fascínio despertado por tais figuras, Elisabeth reuniu abordagens até então independentes para escrever A Parte Obscura de Nós Mesmos (tradução de André Telles, 224 páginas, R$ 34), que a Jorge Zahar Editor lança nesta semana.

Em seus ensaios, a historiadora apresenta um balanço da perversão, revelada como um espelho para a humanidade por exibir a própria negatividade dos homens. “Absoluto do bem ou loucura do mal, vício ou virtude, danação ou salvação: este é o universo fechado no qual o perverso circula deleitosamente, fascinado pela idéia de poder libertar-se do tempo e da morte”, escreve ela, que viaja o mundo pregando que os perversos são uma parte de nós mesmos, pois exibem o que não cessamos de dissimular: nosso lado mais sombrio.

Na segunda-feira, aliás, ela participou, em Viena, de uma conferência em que utilizou o vilão da saga Guerra nas Estrelas como ponto de partida. “Trata-se de uma bela reflexão sobre o bem e o mal na sociedade contemporânea”, comentou ela, no dia seguinte, em conversa telefônica com o Estado. E será também esse o tema de sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na quarta-feira - Elisabeth Roudinesco é um dos destaques do dia seguinte.

Em sua mesa, ela deverá mostrar como o Marquês de Sade defendia a negação das leis que regem a sociedade ao divulgar a sodomia, o incesto e o crime em seus livros. Também Rudolf Höss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, para quem as vítimas eram as únicas responsáveis pelo próprio extermínio. Vai pregar ainda contra a eliminação da perversão, o que representaria destruir a distinção entre bem e mal que fundamenta a civilização.

Somos todos um pouco perversos?
Sim (rindo), somos. Mas há graduações, logicamente, pois todos os homens são assombrados pelo fantasma da perversidade que incentiva o desejo de matar, de molestar, de dominar, de se exibir, de fazer alguém sofrer. Por isso que intitulo meu livro como a parte obscura de nós mesmos. Acredito que ninguém escape dessa classificação, independentemente de ser um indivíduo ou uma organização, ou de estar ou não sob uma ditadura, na qual o Estado se converte em torturador e perseguidor.

E o que representa o mal absoluto dos tempos atuais? O terrorismo?
Não, de forma nenhuma, acredito que o nazismo ainda seja o pior. Trata-se da inversão radical sofrida por um Estado. A pior perversão acontece quando um Estado se torna perverso com o auxílio da ciência. Por isso que elegi o nazismo como o mal absoluto, pois foi o caso da completa inversão da lei do bem e do mal. O terrorismo também é uma forma de perversão, mas é praticada por um sujeito, ou por um grupo, e não pelo Estado. O pior da perversão acontece sob a chancela do Estado, daí ser o nazismo. Foi um momento em que todas as formas de perversões humanas foram aplicadas com o intuito de eliminar o “mal”.

A senhora acredita que a ciência ajudará a eliminar a perversão?
O melhor caminho seria uma ciência que se desenvolva pela ética.

A forma de definir o bem e o mal varia de acordo com a época. Assim, podemos dizer que a perversão ainda é sinônimo de perversidade?
Sim, gosto da idéia (aliás, freudiana também) de que dentro da perversão existe o prazer do mal. Portanto, há a perversidade também. Por isso que critico o vocabulário psiquiátrico moderno que pretende eliminar a palavra “perversão”, substituída por outro termo que lhe convém. Há o prazer de se praticar o mal e não simplesmente fazer o mal sem nenhum prazer. Por outro lado, o mal pode ser sublimado por meio da arte e da criatividade. É o que me faz pensar no Marquês de Sade: se não tivesse escrito uma obra de grande estatura, ele seria certamente um criminoso. No caso dele, ser perverso transformava-o em um duplo, pois tanto tinha contato com a alta sociedade como com a escória.

Em diversos países, o Brasil inclusive, há o confronto entre o desejo incontrolável de se desvendar a intimidade de um lado e a repressão de uma sociedade moderna de outro. Trata-se de um sintoma típico da sociedade moderna?
Com certeza, é o que trato no último capítulo do livro, A Pornografia e o Puritanismo. Trata-se de algo comum em vários países (no Brasil, nos Estados Unidos, na França), um exibicionismo não só sexual, mas de tudo que é privado. E sempre cercado por um profundo puritanismo. O exemplo americano é bem interessante - lá, a vida privada é muito preservada, mas o interesse pelo caso do presidente Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinski foi alucinante. Ou seja, o exibicionismo e o puritanismo conviviam lado a lado. O que deveria ser preservado é escancarado em praça pública. Quem são os mais perversos? Clinton e Monica? Ou aqueles que os acusaram? Os puritanos é que são os mais perversos. Não creio que isso aconteceria na França, onde se preserva um pouco mais a vida do presidente. A religião protestante e o puritanismo são, de alguma forma, incentivadores da perversão.

A cultura pop é recheada de ícones perversos e um dos mais conhecidos é Darth Vader, vilão da saga Guerra nas Estrelas. O que pensa dele? Um personagem fascinante. E por que ele te atrai?
Bem, porque é um personagem que surge como representante do bem até ser atraído pelo mal e, finalmente, retornar ao grupo dos bons.
Penso da mesma forma. Minha intenção era escrever um capítulo para o livro, mas fiz várias conferências a respeito. O que me atrai nessa saga é o lado negro da força, pelo qual Darth Vader é seduzido. O extraordinário da história é identificar como o mal habita dentro do bem, permitindo uma reflexão dialética sobre a passagem de um ao outro. Você observou bem essa troca de lados: Darth Vader passa para o lado mal por se decepcionar com o ideal do bem. E, em seguida, ele se transforma no mal absoluto, passando por uma mudança física que caracteriza sua figura abjeta, especialmente com o uso da máscara. Ele também adquire uma altura extraordinária enquanto o sábio Yoda é pequeno, tem uma estrutura frágil, mas também uma força descomunal. Trata-se de uma bela reflexão contemporânea sobre o bem e o mal, sobre a perversão. Também é um filme que faz uma pesada crítica ao totalitarismo e ao fascismo, pois o ideal da democracia é pervertido logo no início da saga, uma saga moderna que remonta às tragédias gregas.

Agora, voltando a figuras reais, o que dizer de certos escritores que sofreram por suas atitudes, como Oscar Wilde?
Ah, um exemplo notável. Veja bem: ao fim do século 19, a literatura é marcada pela descrição de si mesma e do mundo que a rodeia. Temos Balzac, Victor Hugo e também Oscar Wilde, especialmente seu personagem Dorian Gray, uma belíssima ilustração da perversão, pois é, ao mesmo tempo, um homem sublime e abjeto. No meu livro, eu o comparo a outro importante personagem, Gregor Samsa, de A Metamorfose, escrito por Franz Kafka. Apesar de se transformar em uma figura horrenda, Samsa carrega uma alma plena de ternura. Já a metamorfose sofrida por Gray, que se entrega a uma vida de excessos e ainda mantém intacta a beleza, deixará marcas profundas em seu retrato. São dois livros nos quais a perversão está na própria metamorfose.

sábado, 28 de junho de 2008

Pequenos Milagres Judaicos

Pequenos Milagres Judaicos
Yitta Halberstam e Judith Leventhal
Sinopse:
Desde a abertura do Mar Vermelho, o povo judeu tem acreditado em milagres... e pequenos milagres continuam acontecendo até hoje!
Em aproximadamente quatro milênios de história, o povo judeu sobreviveu a todo tipo de adversidade ? a Diáspora, as perseguições, o Holocausto ? e, mesmo assim, ele continua a celebrar os milagres de Deus, grandes ou pequenos, durante suas festas e comemorações. Além disso, pessoas comuns continuam a vivenciar incríveis viradas em seus destinos, provando e confirmando a certeza de que nada acontece por acaso. Essas "coincidências extraordinárias" podem ser consideradas pequenos milagres ? provavelmente artimanhas dos Céus ou mensagens do Poder Superior.
Em Pequenos Milagres Judaicos, você vai encontrar histórias reais que lhe parecerão envoltas em mágica ou simplesmente surpreendentes ? não importando qual seja a sua crença ou fé.
Você vai ler sobre reencontros incríveis, revelações extraordinárias e coincidências misteriosas, que vão inspirá-lo ou, até mesmo, abrir seus olhos para as bênçãos que nos rodeiam o tempo todo.
Yitta Halberstam e Judith Leventhal reuniram uma variedade de contos que certamente vão mudar o seu modo de encarar a vida.


A Escola da Tradição - Ieshivá de Petrópolis

Revista National Geographic Brasil, julho de 2008 (2 páginas)

Escola ortodoxa
O dia-a-dia de jovens rabinos em Petrópolis.
Por Claudia Altschüller
Fotos de Felipe Goifman

A escola da tradição
Nas montanhas de Petrópolis, orar é lição diária, e o hebraico é fluente entre os alunos do mais antigo colégio para judeus ortodoxos do Brasil.

Meu filho me deu uma lição. Quando Daniel estudou numa escola rabínica, entre 2004 e 2005, ele era exceção. Tais escolas, as yeshivás, são mais procuradas por filhos de rabinos ou de famílias que praticam o judaísmo com o devido rigor. O pai de Daniel não é judeu e eu, apesar de ser, nunca tive uma educação dentro dos rígidos preceitos da religião. Um dia, porém, meu filho foi à sinagoga Beit Aharon, que fica perto de nossa casa, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Começou a ter aulas com o rabino Berkes. Meses depois, o menino que não falava hebraico se transformou em um jovem ávido para aprender os valores da religião e a ler a Torá, o livro sagrado. E, com isso, me fez despertar para um retorno às origens de minha própria história.

Eu percebo bem o quanto ele se tornou querido entre os alunos da escola numa tarde gelada e ventosa de domingo, quando somos recebidos com alegria na Yeshivá Colegial Machané Israel, no alto das montanhas fluminenses, em Petrópolis. Muitos alunos, seus ex-colegas de classe, correm em sua direção gritando por "Schuller!", seu apelido na escola. É um reencontro emocionado, e o dia é de festa: estudantes, professores e convidados celebram o 80o aniversário da libertação do rabino Yossef Yitschac Schneersohn, o sexto rebe de Lubavitch ("mestre", em hebraico, da cidade bielo-russa em que se iniciou o movimento ortodoxo Chabad, ou hassidismo, no fim do século 18). Proibido de preservar o judaísmo na recém-formada União Soviética, o religioso acabou preso por agentes do Partido Comunista. Chegou a ser condenado à morte, mas a pressão internacional forçou os soviéticos a comutarem a sentença para exílio e, em seguida, libertá-lo.

Depois das boas-vindas, a celebração. Como manda a tradição ortodoxa, homens e mulheres são separados por biombos na sinagoga do colégio interno. A reza e os discursos em homenagem à data são comandados pela ala masculina e intercalados com danças em volta da mesa principal. As mulheres participam a distância: acompanham a liturgia, conversam entre si e tomam conta das crianças menores. Os homens mais velhos bebem vodca. Esforço-me para enxergar a alegria deles pelos vãos do biombo de madeira. Vale a pena: o ritmo das canções hassídicas, do gênero chamado nigunim, é contagiante.

Mais que um costume, preservar tradições como essa tem sido a missão da Machané Israel, a mais antiga yeshivá da América Latina, fundada, em 1966, pelo húngaro Chaim Binjamini. Nascido em Budapeste, em 1922, e sobrevivente do campo de concentração alemão de Bergen-Belsen, junto com outros seis rabinos, Binjamini encontrou um porto seguro no Brasil ao desembarcar aqui em 1954, após ter trabalhado como agricultor em Israel e ter participado da guerra pela independência (1948). "Depois de tantos percalços passados, nos sentimos bem no bairro de Carangola. Encontramos um lar", lembra-se ele. A escola ocupa uma área de 120 mil metros quadrados e mais parece um hotel de montanha: tem bosques, quadras, piscinas, salão de jogos, refeitório, sinagoga, mikve (um reservatório de água construído em conformidade com a lei judaica) e alojamentos. A entrada fica no pé de uma colina, vigiada por cães. Para chegar à casa é necessário subir uma íngreme ladeira, ladeada pela mata onde, na primavera, as hortênsias florescem para encanto dos visitantes. Patos nadam em um lago.

A idílica paisagem serrana e a atual ocupação contrastam com a história do belo casarão da década de 1940. A propriedade pertencia à família de Berl Landau, um alemão investigado na época por atividades ilegais no Brasil, ligadas ao nazismo. Na primeira visita à casa, Chaim Binjamini e o grupo que o acompanhava pararam para ler os Salmos antes de entrar na sede, onde havia uma biblioteca cheia de livros de temática nazista. (Por incrível que pareça, o recinto foi transformado na primeira sinagoga da escola.) Outra curiosidade: o antigo proprietário havia mandado plantar duas palmeiras em forma de V para simbolizar uma pretensa vitória nazista. As árvores ainda estão vivas ao lado da secretaria.

A semana na yeshivá começa cedo. Os atuais 23 alunos acordam antes do raiar do dia para a reza da manhã, a shacharit. No judaísmo, se possível, a pessoa deve rezar em congregação no mínimo dez homens maiores de 13 anos em uma sinagoga. Em seguida, os estudantes tomam o café-da-manhã no refeitório, onde as refeições seguem as leis alimentares do kashrut a observância de tais leis tem servido para unificar o povo judeu através dos séculos. Misturar leite com carne, ao cozinhar ou ao servir, por exemplo, é uma violação dessas leis.

Os meninos estão maduros para estudar na yeshivá a partir dos 12 anos, ou seja, pouco antes do bar mitzvah, a maioridade religiosa de um judeu. As turmas são pequenas: vão da 6a série ao terceiro ano do ensino médio. A manhã serve para o ensino religioso, em português e em hebraico, como as aulas de talmud, parte do judaísmo que explica significado e aplicações de leis ditadas pelo Pentateuco, a Torá. Depois do almoço e da oração da tarde, os alunos seguem ao estudo laico. Ao contrário do que se pensa, nem todos serão rabinos: vários irão prestar vestibular e cursar uma faculdade. "Muitos ex-alunos, mesmo em profissões liberais, ocupam postos em instituições de educação judaica. A meta é repassar essa educação para a comunidade", diz Abrahão Binjamini, um dos professores da escola.

Os rapazes ficam no colégio a semana inteira, exceto às sextas-feiras, quando vão para Petrópolis. "Eles visitam lojas e casas para levar mensagens do judaísmo e rezar", explica Binjamini. Na volta, preparam-se para o shabat, que começa no pôr-do-sol da sexta-feira e termina quando surge a primeira estrela do sábado. Nesse dia, os judeus não realizam tarefas cotidianas como escrever, trabalhar, acender a luz ou andar de carro. O tempo é todo dedicado ao descanso e à oração. Para tanto, vestem as melhores roupas para ir à sinagoga: terno preto, camisa social branca e chapéu de feltro preto por cima do solidéu.

Apesar das vestes escuras, de aparência medieval, do chapéu soturno e da idéia de reclusão monástica que temos do lado de fora, os meninos da yeshivá fazem tudo o que é normal para alguém da idade deles. Jogam futebol, lêem revistas, vão à piscina, fazem trilhas nas matas adjacentes à escola, navegam na internet.

Meu filho, Daniel Felipe Altschüller, tem agora 19 anos e faz faculdade de história. Na época da yeshivá, eu costumava visitá-lo nos domingos à tarde, mas sempre pensava nele ao longo da semana, sentado na sala após o jantar com os colegas, em pequenos grupos, para revisão e debate dos estudos. Essa cena até hoje me faz recordar o filme Yentl (1983), estrelado por Barbra Streisend. A obra, baseada em um conto homônimo de Isaac Bashevis Singer, mostra o cotidiano de uma escola rabínica na Polônia do início do século passado. O tempo, de fato, parece correr em outro ritmo dentro de uma yeshivá. Passado e presente não se distinguem. As tradições estão acima de tudo. Para um judeu, estar ali é estar em casa: meu filho me deu essa lição.

A semana na yeshivá começa cedo. Os atuais 23 alunos acordam antes do raiar do dia para a reza da manhã, a shacharit. No judaísmo, se possível, a pessoa deve rezar em congregação no mínimo dez homens maiores de 13 anos em uma sinagoga. Em seguida, os estudantes tomam o café-da-manhã no refeitório, onde as refeições seguem as leis alimentares do kashrut a observância de tais leis tem servido para unificar o povo judeu através dos séculos. Misturar leite com carne, ao cozinhar ou ao servir, por exemplo, é uma violação dessas leis.

Os meninos estão maduros para estudar na yeshivá a partir dos 12 anos, ou seja, pouco antes do bar mitzvah, a maioridade religiosa de um judeu. As turmas são pequenas: vão da 6a série ao terceiro ano do ensino médio. A manhã serve para o ensino religioso, em português e em hebraico, como as aulas de talmud, parte do judaísmo que explica significado e aplicações de leis ditadas pelo Pentateuco, a Torá. Depois do almoço e da oração da tarde, os alunos seguem ao estudo laico. Ao contrário do que se pensa, nem todos serão rabinos: vários irão prestar vestibular e cursar uma faculdade. "Muitos ex-alunos, mesmo em profissões liberais, ocupam postos em instituições de educação judaica. A meta é repassar essa educação para a comunidade", diz Abrahão Binjamini, um dos professores da escola.

Os rapazes ficam no colégio a semana inteira, exceto às sextas-feiras, quando vão para Petrópolis. "Eles visitam lojas e casas para levar mensagens do judaísmo e rezar", explica Binjamini. Na volta, preparam-se para o shabat, que começa no pôr-do-sol da sexta-feira e termina quando surge a primeira estrela do sábado. Nesse dia, os judeus não realizam tarefas cotidianas como escrever, trabalhar, acender a luz ou andar de carro. O tempo é todo dedicado ao descanso e à oração. Para tanto, vestem as melhores roupas para ir à sinagoga: terno preto, camisa social branca e chapéu de feltro preto por cima do solidéu.

Apesar das vestes escuras, de aparência medieval, do chapéu soturno e da idéia de reclusão monástica que temos do lado de fora, os meninos da yeshivá fazem tudo o que é normal para alguém da idade deles. Jogam futebol, lêem revistas, vão à piscina, fazem trilhas nas matas adjacentes à escola, navegam na internet.

Meu filho, Daniel Felipe Altschüller, tem agora 19 anos e faz faculdade de história. Na época da yeshivá, eu costumava visitá-lo nos domingos à tarde, mas sempre pensava nele ao longo da semana, sentado na sala após o jantar com os colegas, em pequenos grupos, para revisão e debate dos estudos. Essa cena até hoje me faz recordar o filme Yentl (1983), estrelado por Barbra Streisend. A obra, baseada em um conto homônimo de Isaac Bashevis Singer, mostra o cotidiano de uma escola rabínica na Polônia do início do século passado. O tempo, de fato, parece correr em outro ritmo dentro de uma yeshivá. Passado e presente não se distinguem. As tradições estão acima de tudo. Para um judeu, estar ali é estar em casa: meu filho me deu essa lição.

Primeiro romance de Nathan Englander aborda a ditadura argentina pelo olhar de uma família judia

Uma Buenos Aires sem asas

Entrevista Nathan Englander
Primeiro romance do americano aborda a ditadura argentina pelo olhar de uma família judia

Juliana Krapp
Jornal do Brasil, Caderno Idéias, página 3, em 28/06/2008.


Ele é cabeludo e tagarela. Adora literatura latino-americana, mas confunde um pouco as bolas (cita Cortázar no mesmo rol que Jorge Amado). Explica que planejou escrever sobre Buenos Aires como uma metáfora de Jerusalém. Fez de tudo para fugir dos papagaios mágicos, e acabou dando à luz uma obra preciosa sobre a ditadura na Argentina.

O ministério de casos especiais é o segundo livro de Nathan Englander, o judeu boa-praça que se apresenta na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na sexta-feira. Ao lado do argentino Martín Kohan e do gaúcho Vitor Ramil, está na mesa Estética do frio – que ele não faz idéia do que significa.

O romance – seu primeiro, que demorou quase 10 anos para ficar pronto – gira em torno da família de Kaddish Poznan, judeu que ganha a vida apagando lápides de prostitutas e cafetões em um cemitério, a pedido de suas famílias. Seu filho Pato é um dos muitos desaparecidos da ditadura argentina, em 1976.

Em O ministério há trechos do mais inesquecível terror, como a conversa de Poznan com o piloto de avião que assume ter jogado os jovens prisioneiros no Rio da Prata. Mas há também o hilariante, como a passagem em que Poznan aceita uma cirurgia plástica no nariz como pagamento aos seus serviços. Com tamanha habilidade narrativa, Englander vem repetindo o sucesso de seu primeiro livro, Para alívio dos impulsos insuportáveis, a coletânea de contos que o fez ser considerado um dos melhores escritores surgidos nos últimos anos.

O americano conversou por telefone com o Idéias, de sua casa em Nova York. Onde, ele jura, poderia dormir num banco de praça sem nenhum problema.

A história de O ministério de casos especiais é muito forte, dolorosa. Foi sofrido escrevê-la?
– É engraçado, muitas pessoas me perguntam isso, e às vezes eu tenho o ímpeto de dizer logo "não, não". Em outras, digo sim. Porque estamos falando de uma mistura estranha. Escrever é muito normal para mim. E é também inacreditavelmente desafiador, muito forte e ao mesmo tempo aterrorizante de diferentes maneiras. Mas é o que eu mais gosto de fazer. Na verdade, com O ministério de casos especiais aconteceu o oposto do que vinha ocorrendo com meus contos, nos anos anteriores: eu fiquei completamente obcecado por esse romance. Ele me tirou tudo o que eu tinha, e eu passei a viver dentro do livro. Sim, é desafiador. Mas eu não vejo a hora de ser absorvido por um outro livro novamente. E de novamente perder tudo de mim dentro dele, por um longo tempo.

Você nasceu e vive em Nova York, e morou alguns anos em Jerusalém. Por que seu primeiro romance se passa na Argentina?
– Acho que essa resposta só foi ficando clara para mim com o tempo. Não que no início eu não tivesse vestígios dela, mas acontece que o seu sentido vai mudando. Eu vejo agora, com um certo distanciamento, o quanto esse romance é uma metáfora sobre o tempo que estive em Jerusalém. Eu amo as cidades, sou um amante delas. Se um dia eu tivesse que dormir ao léu na Times Square, em Manhattan, acharia ótimo.

E essa metáfora de Jerusalém, do que trata?
– Eu sou um nova-iorquino e me mudei para Jerusalém. São cidades muito diferentes, mas são cidades centrais, intensas. Os países vivem ao seu redor. Ou as evitam. Quando fui para Jerusalém, esperava fazer a paz, colaborar com esse lindo novo mundo de paz no Oriente Médio. Acabei observando as coisas ficarem negras. E eu acho que várias pessoas sabem o que é isso, quando uma cidade se transforma. Mas uma cidade pode continuar amada pelos seus moradores. E eu acho que Buenos Aires é assim, os portenhos são tão dedicados e obcecados por aquela cidade, leais a ela para sempre. Acredito que essa cidade, num sentido histórico, continua sempre se transformando, virando os seus próprios moradores. E eu queria explorar isso: como decisões governamentais influenciam a vida das pessoas, cidades complicadas, família, identidade. Buenos Aires se tornou o lugar perfeito para que a história com todos esses elementos acontecesse, ainda mais naquela época.

Você então chegou muito perto da intimidade argentina.
– Sim, quanto mais tempo eu passava em Buenos Aires, mais eu me tornava obcecado por ela. Pode ter começado como uma metáfora, mas agora eu não poderia ser mais interessado por ela do que já sou. No início ela não era tão íntima do meu coração, mas agora eu me sinto realmente muito próximo. Inclusive da sua história de uma ditadura sangrenta. Como um garoto judeu, o holocausto era ensinado para mim da seguinte forma: "essa é sua memória sobre a história". E às vezes eu de fato me pego pensando sobre o genocídio. E o livro é sobre isso, sobre como nós herdamos nossas narrativas. Nossa família nos dá uma história, nosso país nos dá uma história. Se temos uma religião, ela também nos dá uma história, tudo nos é transmitido. Nesses anos todos obcecado pela época da ditadura na Argentina, ela se tornou muito próxima de mim. É como o Brasil, aquele tempo na América do Sul é uma época terrível, assassina. Eu posso ter começado a escrever sobre a Argentina por um motivo, mas acabei terminando por outro.

Uma curiosidade: você aprecia a literatura argentina?
– Sim, adoro. E isso é um perigo. Enfrento vários desafios quando escrevo um livro. Por exemplo, há uma espécie de sirene que toca quando algo pode ser muito óbvio. Como adoro a literatura da América do Sul, percebi que eu poderia cometer muitos erros óbvios. Quando comecei a escrever, tive que tomar a seguinte decisão: iria escrever sobre a minha Buenos Aires, a minha história, com a minha voz e o que mais esse livro demandasse. Pois eu amo (Julio) Cortázar, (Jorge Luis) Borges, (Gabriel García) Márquez, Jorge Amado. Existem tantos bons escritores na América do Sul que eu precisava ficar me lembrando sempre: ninguém nesse livro terá asas, não haverá anjos, nem papagaios mágicos. Este é o oposto do realismo fantástico do Cortázar. Na minha Buenos Aires, não haverá magia. Eu faço o meu trabalho.

É verdade que você é um workaholic?
– Sim, isso é absolutamente verdade. Sempre converso com meus amigos sobre o quanto eu trabalho. Mas, apesar disso, eles ainda me reconhecem (risos). No metrô ou no restaurante, sempre tem alguém dizendo "olá, Nathan". Então meus amigos acham que, para um workaholic, eu conheço bastante gente. No fim das contas, até que eu saio um bocado e, para um escritor, sou bastante sociável. Alguns de meus colegas não precisam das pessoas. Mas eu não, eu realmente preciso delas, dos meus amigos, preciso sair de casa. No entanto, quando estava escrevendo esse livro, me dedicava a ele literalmente sete dias por semana, dia e noite. Quando começo um livro, o trabalho toma conta de tudo.

Você já esteve no Brasil?
– Bem, seu governo gentilmente pagou minha ida a Paraty. Quando eu preenchi o formulário da viagem, quase marquei não na pergunta sobre se eu já havia estado no país. Mas me lembrei de que, uma certa vez, tive de fazer uma conexão no Rio e passei uma noite na cidade.

O que você espera da festa literária em Paraty?
– Eu sei muito pouco sobre ela. Só ouvi dizer que Paraty é extremamente bonita e que tem uma importância histórica. Todos os escritores que conheço que já foram ao balneário disseram que é um lugar fantástico. Estou muito animado.

Você conhece o trabalho dos escritores Martín Kohan e Vitor Ramil, com quem vai debater na Flip?
– Vou ser sincero: ainda não fiz meu dever de casa. Mas vou tentar, até lá.

Visões Judaicas sobre Identidade: O Eu e o Outro


quinta-feira, 26 de junho de 2008

Adon Olam

Veja o vídeo (com arranjo de Adon Olam)

Adon Olam (em hebraico, “Senhor do Mundo”). Cântico entoado usualmente ao fim do serviço matinal de Shabat. Sua autoria tem sido atribuída a Salomão Ibn Gabirol (1021-1058) – Poeta e filósofo judeu que exerceu influência no pensamento cristão ocidental. Era um filósofo neoplatônico, o primeiro que surgiu na Espanha.

Sua grande obra Mekor Chaim “A Fonte de Vida” foi escrita em árabe e traduzida para o latim. Não utiliza provas bíblicas para suas afirmações, baseando-se apenas nas provas racionais.

Desenvolveu o sentido moral do texto bíblico com a finalidade de provar a racionalidade do mesmo. Aplicou ao texto bíblico as doutrinas místicas neoplatônicas das emanações em voga no pensamento teológico e filosófico cristão.

A interpretação de Ibn Gabirol era considerada contrária ao pensamento judaico tradicional sobre Deus e a Criação no texto bíblico.

Veiculação de mensagens neonazistas mostra falhas no comércio online

Selo com perfil do vice de Hitler, Rudolf Hess, camisetas que denunciam o fabricante e a divulgação oficial de dados pessoais de cidadãos na internet mostram falhas no sistema de ofertas online.

Deutsche Welle, em 25/06/2008 - Como o país das máquinas e da logística, a Alemanha reúne as melhores condições para o desenvolvimento do setor de serviços através da internet. Até mesmo o carteiro não se faz necessário, já que a encomenda pode ser recebida ou enviada na caixa automática de correio.

A economia de mão-de-obra não é a única conseqüência da automatização de serviços. A internet possibilita a personalização do desejo de compra de um consumidor cada vez mais exigente e permite, por exemplo, que funcionários de uma repartição pública tenham acesso aos dados dos cidadãos.

No entanto, a recente disponibilização de dados de milhares de cidadãos alemães na internet, como também uma encomenda online de neonazistas e de uma blogueira mostraram falhas nas vantagens do mundo automatizado que o setor de serviços já há muito descobriu.

Selo de Hess

Desde fevereiro, clientes da Deutsche Post (companhia de correios alemães) podem encomendar envelopes e selos personalizados através da internet. Para tal, basta o freguês enviar uma foto digital para o servidor dos correios. Esta será então impressa em forma de selo, que poderá ser usado normalmente na correspondência. Para evitar o mau uso, um grupo de doze pessoas é responsável pelo controle das fotos enviadas, informou a Deutsche Post.

Isto não impediu, no entanto, que neonazistas tenham enviado a foto de perfil do vice de Hitler, Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua após a Segunda Guerra, que foi impressa em 20 selos dos correios alemães em março último. A ação só veio a público porque os próprios neonazistas se vangloriaram do fato na sua página de internet.

"Normalmente, não há problemas, só com a foto de Hess deu errado", afirmou o porta-voz dos correios Dirk Klasen à emissora WDR. Os correios não desistirão de sua oferta online e acirrarão o controle dos selos personalizados, explicou Klasen, salientando, no entanto, que "100% de segurança não é possível". Os correios teriam que aumentar seu grupo de controladores para 500 especialistas, explicou.

Camisetas da Tchibo

A Tchibo, uma das maiores torradeiras de café da Alemanha, que domina também o mercado online de não-alimentos, retirou sua oferta de impressão de camisetas personalizadas através da internet, após a blogueira e ativista do Greepeace, Kirsten Brodde, que há muito se ocupa de processos de produção de vestimentas, ter encomendado duas camisetas com os dizeres "Camisetas da Tchibo: feitas por um salário de fome" e "Esta camiseta foi costurado por uma criança para a Tchibo".

Para a surpresa de Brodde, as camisetas lhe foram enviadas no começo de junho. A responsável pelo blog Grüne Mode (moda verde) posou então com uma delas em frente a uma loja da Tchibo em Hamburgo, conclamando os passantes a indagá-la sobre a camiseta que vestia. Depois de pouco mais de meia hora, policiais encerraram a ação da blogueira.

Sobre o assunto, a Tchibo informou à revista Spiegel Online que "estamos contentes que descobrimos lacunas em nosso controle de qualidade através da ação da Sra. Brodde". Informada anteriormente sobre o fato pela própria blogueira, a Tchibo exigira a devolução das camisetas, oferecendo em troca, além do preço de compra, um pacote de café de comércio justo – que não se pode comprar nas lojas da Tchibo, comenta a Spiegel Online.

Serviços de internet de repartições públicas

Falhas de controle podem ser usadas para ações de conscientização, mas podem também prejudicar milhares de cidadãos. Este foi o caso da colocação, por engano na internet, dos dados de centenas de milhares pessoas por parte das prefeituras alemãs. A culpa foi de uma firma de software, cujo erro foi constatado somente na semana passada. Dados como endereço, estado civil, religião, data de nascimento e até mesmo fotos estavam disponibilizados online.

Por falta de atenção dos programadores, a firma de software HSH publicou em sua página de internet a senha de acesso aos dados de cidadãos inscritos em prefeituras de toda a Alemanha, que por sua vez não modificaram as senhas dos programas instalados pela HSH. Segundo a mídia alemã, o número de municípios afetados poderiam chegar a duzentos.

A firma HSH admitiu o erro, mas afirmou que somente 15 municípios foram prejudicados. HSH já se corrigiu, mas, como afirmou a porta-voz de política interna da bancada do Partido Liberal no Parlamento alemão, Gisela Piltz, casos deste tipo abalam a confiança nos serviços de internet de repartições públicas.

Ídiche: uma introdução ao idioma, literatura e cultura

Dia 08 de julho (3ª-feira) às 19 horas - O Museu Judaico do Rio de Janeiro e Genni Blank convidam para o coquetel de lançamento do livro “Ídiche: uma introdução ao idioma, literatura e cultura – aprendizado sem mestre – em dois volumes”, no Clube Israelita Brasileiro (CIB) – Rua Barata Ribeiro 489, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ.

Na ocasião, o Prof. Dr. Nachman Falbel (USP), diretor do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro, fará uma palestra sobre “A Literatura Ídiche no Brasil”.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Cruz Vermelha alemã admite passado nazista

Cruz Vermelha alemã admite passado nazista

Organização publica em livro um estudo em que revela ter colaborado com crimes da ditadura de Hitler

Graça Magalhães-Ruether
Correspondente BERLIM.
O Globo, O Mundo, página 32, em 25/06/2008.

Sessenta e três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Cruz Vermelha Alemã (DRK, na sigla em alemão) admitiu o envolvimento com o regime nazista entre 1933 e 1945. Durante a apresentação de um estudo das historiadoras Brigitte Morgenbrod e Stephanie Mekenich—“Das Deutsche Rote Kreuz unter der NS-Diktatur” (A Cruz Vermelha Alemã sob a Ditadura Nazista) — o presidente da entidade, Rudolf Seiters, disse que a DRK ignorou sua função ao seguir a ideologia nazista.

— É triste pensar o quanto a Cruz Vermelha se distanciou dos seus princípios humanitários — disse Seiters, que foi ministro do Interior do governo do chanceler federal Helmut Kohl.

O estudo lançado ontem foi encomendando pela própria DRK depois de duas publicações sobre o assunto. Em 1992, o historiador Dieter Riesenberger publicou “A Cruz Vermelha Alemã — Uma História. 1864-1939”. Alguns anos depois, o médico Horst Seithe confirmou a existência de uma colaboração com os nazistas em “A Cruz Vermelha Alemã no Terceiro Reich”.

A DRK segue a tendência de diversas grandes empresas que tentam se livrar do fardo histórico ao abrir os seus porões para a pesquisa. Empresas como a Volkswagen e bancos, como Dresdner Bank e Deutsche Bank, investiram grandes quantias na investigação dos seus papéis durante a ditadura nazista.

Até agora, a Cruz Vermelha Alemã ou se calava sobre o assunto ou maquiava o seu envolvimento, como se tivesse participado da resistência aos nazistas.

Depois de vasculhar mais de 20 arquivos, as historiadoras Morgenbrod e Mekenich confirmaram a suspeita que já existia desde as publicações dos anos 90: a DRK adotou a ideologia nazista já nas primeiras semanas da ditadura, com um expurgo de judeus e outras pessoas consideradas indesejáveis dos seus quadros.

Experiências com cobaias humanas Durante a guerra, revela o estudo, cerca de 600 mil médicos, sanitaristas e ajudantes eram orientados a socorrer apenas soldados e vítimas civis que fossem considerados da etnia alemã. Os perseguidos pelo regime eram ignorados.

Em 1944, a organização ajudou a sedimentar a mentira dos nazistas sobre os seus campos de concentração durante visita ao de Theresienstadt, na então Tchecoslováquia (hoje, na República Tcheca). Os alemães acompanharam os enviados do Comitê Internacional da organização, a quem mostraram apenas um roteiro pré-determinado, ocultando os crimes bárbaros que aconteciam ali.

Mas a DRK seguiu em parte a política da sede, na Suíça. Em 1942, a DRK informou ao Comitê Internacional sobre os campos de concentração, mas eles resolveram se calar sobre o assunto.

— É triste tomar conhecimento sobre como o regime nacionalsocialista instrumentalizou a Cruz Vermelha — disse Seiters.

Entre as descobertas citadas no livro estão experiências monstruosas com cobaias humanas praticadas em um hospital dirigido pela entidade em Hohenlynchen.

Livro sobre anti-semitismo pode levar historiador à prisão

Promotores na Polônia estão cogitando denunciar o historiador norte-americano Jan Tomasz Gross por ter difamado a nação polonesa, após a publicação do seu livro sobre o anti-semitismo no país depois da Segunda Guerra Mundial. O livro gerou uma onda de controvérsia

Siobhán Dowling
Em Berlim
Der Spiegel, em 24/06/2008.

Um novo livro que investiga o assassinato de judeus na Polônia após o término da Segunda Guerra Mundial não só gerou uma onda de controvérsia, mas também poderá fazer com que o seu autor vá parar na cadeia. A Promotoria de Cracóvia está cogitando denunciar o historiador polaco-americano Jan Tomasz Gross pelo seu livro "Fear: Anti-Semitism in Poland after Auschwitz" ("Medo: O Anti-Semitismo na Polônia Após Auschwitz"). A acusação? Ter difamado a nação polonesa.

O livro gerou um enorme debate no país desde que a versão em língua polonesa chegou às livrarias. Embora alguns acadêmicos, clérigos e políticos tenham criticado o livro devido àquilo que vêem como generalizações sobre os ataques realizados contra judeus na Polônia do pós-guerra, outros o defenderam devido à sua contribuição para o debate sobre o passado da Polônia.

O livro de Gross focaliza-se no pogrom de Kielse, em 1946, no qual 40 judeus foram assassinados. Ele alega que tais casos demonstram um desejo generalizado na sociedade polonesa de acabar com os judeus do país. Ele argumenta que isso foi motivado pelo anti-semitismo e por pessoas que desejavam evitar litígios em torno de propriedades com os vizinhos judeus que retornavam.

Segundo o Instituto da Memória Nacional da Polônia, que investiga os crimes nazistas e comunistas, entre 600 e 3.000 dos aproximadamente 300 mil judeus que sobreviveram ao Holocausto foram posteriormente mortos na Polônia. Gross, professor da Universidade de Princeton, diz que cerca de 200 mil judeus decidiram deixar o país após os ataques anti-semitas.

"Queimar livros é inapropriado"
O autor está atualmente sendo investigado por promotores públicos em Cracóvia, onde fica a sua editora, a Znak. Eles procuram determinar se o livro violou a lei que determina que difamar a nação polonesa é crime. O Estatuto 132 foi aprovado pelo governo do ex-primeiro-ministro Jaroslaw Kaczynski em 2006, e estabelece uma pena de três anos de prisão para quem "acuse publicamente a nação polonesa de participar, organizar ou ser responsável por crimes nazistas e comunistas".

Gross diz ter ficado chocado com a investigação. "Acho bastante inapropriado submeter livros a julgamento ou queimá-los", disse ele a "Spiegel Online". "Livros deveriam ser discutidos em um fórum totalmente diferente".

Os promotores têm 30 dias para tomar uma decisão, mas devem anunciar a sua conclusão antes disso. Gross acredita que não se chegará ao ponto de submetê-lo à denúncia criminal. Afinal, a própria lei deverá ser revista em breve pelo supremo tribunal do país, depois que ativistas dos direitos humanos reclamaram dela.

Mesmo se Gross não acabar no tribunal, o livro já gerou uma onda de controvérsia na Polônia, e muitos comentaristas de direita criticam as suas conclusões. Gross suspeita que tais críticas são feitas principalmente por quem ainda não leu o livro. "Creio que a discussão vai rumar progressivamente para uma direção mais substantiva, tão logo as pessoas leiam o livro", disse ele, com esperança.

A polêmica não está prejudicando nem um pouco as vendas. Segundo a editora, 20 mil cópias já foram vendidas desde que o livro foi lançado em 11 de janeiro, e os livros sumiram das prateleiras tão rapidamente que os editores precisaram se apressar para imprimir um novo lote.

Reação da direita
Um dos maiores críticos de Gross é Marek Jan Chodakiewicz, um historiador do Instituto de Políticas Mundiais, em Washington. No seu livro, "After the Holocaust: Polish-Jewish Conflict in the Wake of World War II" ("Após o Holocausto: O Conflito Judaico-Polonês Depois da Segunda Guerra Mundial"), Chodakiewicz vê o assassinato de judeus no contexto da ditadura comunista imposta pelos soviéticos. Ele escreveu um editorial no jornal "Rzeczpospolita", publicado na última sexta-feira, acusando Gross de selecionar os fatos para apoiar a sua teoria. Mas Gross repele as acusações de Chodakiewicz, afirmando que ele "não é bem um historiador e sim um apologista da direita".

O livro também gerou irritação junto ao establishment conservador da Polônia. O arcebispo de Cracóvia, Stanislaw Dziwisz, que foi descrito como sendo o braço direito do papa João Paulo 2º, escreveu uma carta à editora polonesa a fim de reclamar do livro. Ele afirmou que a editora deveria propagar a verdade histórica e não "despertar demônios antipoloneses e anti-semitas". O arcebispo disse que o livro não levou em conta as realidades políticas na Polônia da época, e acrescentou que não deseja encontrar-se com Gross, que atualmente está na Polônia divulgando a sua obra.

Enquanto isso, a ultraconservadora Liga das Famílias Polonesas, que participou do último governo de coalizão polonês, não resistiu e entrou na polêmica, tendo pedido que Gross seja considerado "persona non-grata" no país.

Os editores não dão muita importância a essas reclamações. "Devemos falar sobre essas questões difíceis", disse a "Spiegel Online" o porta-voz da editora Znak, Tomasz Miedzik. "Temos a liberdade para formular perguntas difíceis sobre a nossa história e devemos fazer tal coisa".

Gross, que nasceu em Varsóvia em 1947, emigrou para os Estados Unidos com a sua família em 1968. O seu livro anterior, "Neighbors" ("Vizinhos"), também gerou controvérsias quando foi publicado na Polônia em 2001. Ele aborda o massacre de judeus por moradores da vila polonesa de Jedwabne em 1941. Gross concluiu que os judeus da cidade foram mortos pelos seus próprios vizinhos poloneses, e não pelos nazistas, como se acreditava anteriormente.

Um debate bem-vindo
Muitos jornalistas e acadêmicos correram para defender o livro de Gross, ainda que discordem da sua tese central, porque apreciam o debate sobre o passado da Polônia gerado pela obra. "O livro atacou os mitos poloneses, e por este motivo deveria ser lido e discutido", afirma Miedzik.

Marcin Zaremba, um historiador da Universidade de Varsóvia, diz que concorda com o argumento de que os poloneses tiveram a sua participação no Holocausto. "Naquela época o anti-semitismo era um tipo de código cultural usado pelos poloneses", disse ele à Rádio Polonesa.

O rabino polonês Burt Schuman diz receber bem o debate, embora sinta que é injusto retratar o país como anti-semita. Ele disse à rede de notícias "Bloomberg" que isto que ocorre agora está "prejudicando a nossa meta de reconciliação".

Escrevendo para o jornal de esquerda "Gazeta Wyborcza" na segunda-feira (23/06), o influente colunista polonês Marek Beylin pediu "um debate sincero a respeito dos segredos sombrios do passado polonês". Embora critique o livro de Gross por não salientar as diferenças entre o anti-semitismo nazista do Holocausto e o anti-semitismo polonês, ele elogia "o desafio que Gross apresenta para os nossos esforços no sentido de nos reconciliarmos com o nosso passado".

Beylin argumenta que os "argumentos cortantes do livro e a sua linguagem confrontadora" contribuíram mais para gerar o debate do que todos os educados tomos históricos conseguiram fazer no passado.

E ele questiona se as críticas ao livro não seriam um sinal do crescente nacionalismo polonês. "Será que a propaganda do governo anterior, de Kaczynski, segundo a qual há inimigos tentando destruir a Polônia e a identidade polonesa, tornou a população indiferente aos erros poloneses?", pergunta Beylin.

Tradução: UOL

Israel 60 anos (16ª parte)

Leia a cobertura completa sobre os 60 anos de Israel (Folha de São Paulo online)


Israel 60 anos:

Trilha de quatro dias ao norte de Israel segue passos de Jesus

LAURIE COPANS
da Associated Press, em Israel
FSP online, Turismo, em 10/06/2008.

Uma trilha difícil começa por entre a estrada que sai de um local sagrado repleto de ônibus no mar da Galiléia, indo parar num monte coberto de aveia selvagem e espinhos.

Todos os anos, milhares de peregrinos visitam a igreja de pedra em Tabgha e outros santuários celebrando os milagres de Jesus. Mas poucos se aventuram além das multidões até o cenário em que Jesus caminhou na Galiléia. Aqueles que o fazem encontram silêncio e conforto nos montes de pedras e nas sobras das oliveiras que cobrem as planícies.

Um projeto privado israelense está realizando caminhadas de 65 km pela região onde Jesus ministrou seus ensinamentos. A Trilha de Jesus espera levar milhares de turistas a seguir seus passos e ouvir os cantos dos pássaros, sentir o aroma do dill e refletir ao longo do caminho.


Como a trilha ainda não está demarcada, os viajantes têm de contratar um guia, baixar as coordenadas de GPS pelo site Jesustrail.com ou adquirir mapas em sites turísticos.


O caminho pode ser percorrido em quatro dias. O peregrino tem a opção de se hospedar em um kibutz ou uma residência árabe, ou ainda levar uma barraca e acampar.


"Acima de tudo, acho que a trilha mostra a natureza humana de Jesus, quando a Bíblia fala dele tornando-se carne e vivendo entre as pessoas", considera David Landis, norte-americano que tem ajudado a demarcar o caminho.


"Você fica mais reflexivo, meditativo, pensando na sua relação com Jesus durante a caminhada", diz o pastor David Hughes. "Quanto mais íntimo você fica dessa terra, mais íntima ela fica de você, dos aromas, dos sentimentos e das montanhas."


O Ministério do Turismo de Israel afirma que também está projetando uma demarcação da trilha. Outra iniciativa, da Universidade de Harvard (The Abraham Path, ou A Trilha de Abraão), pretende promover os caminhos do profeta Abraão, em um total de mais de 1.200 km, da Turquia até seu túmulo, em Hebron.

Veja mais:

terça-feira, 24 de junho de 2008

Salada semita (Osias Wurman)

O Globo, Opinião, página 7, em 23/06/2008.

Salada semita

Na mesa de decisões em Israel há projetos de ação militar quase inevitáveis

OSIAS WURMAN


Árabes e judeus, no caso palestinos e israelenses, descendentes de Sem, filho de Noé (da arca), encontram-se envolvidos numa verdadeira salada político-existencial. O sonho palestino de décadas — construir um Estado nacional na Palestina — parece eternizarse como um sonho inalcançável, podendo transformar-se em lamentável pesadelo.


O problema existencial é saber como unificar um povo dividido entre facções político-religiosas, que têm vínculos e relações tão diversas, difusas e confusas. Do lado israelense, os políticos conseguiram estagnar as expectativas de uma paz próxima, num país que, apesar dos problemas, não pára de crescer tecnológica e economicamente. Certamente este não era o sonho de Herzl, o pai do sionismo político, construir uma sociedade dividida radicalmente entre ortodoxos e liberais, socialistas e colonos, além de uma visível perda do pioneirismo das maciças ondas de imigração das décadas passadas. A Autoridade Nacional Palestina-ANP acaba de completar um ano desde que foi expulsa da Faixa de Gaza, humilhada por um movimento religioso dissidente e fortemente armado, o Hamas, que vem sabotando todas as iniciativas de reaproximação e reunificação de Gaza e Cisjordânia.


Os dois territórios, que somam quatro milhões de irmãos palestinos, agora se dividem em 1,5 milhão em Gaza, e o restante na Cisjordânia. Nos intervalos da briga interna, o Hamas acha tempo para provocar o Estado de Israel, lançando sistemáticos ataques de foguetes contra a população civil fronteiriça. Para compensar a falta de união palestina, o Egito atua fortemente como mediador das conversações entre o Hamas e Israel, com participação discreta do presidente Mahmoud Abbas, tendo acertado uma trégua na fronteira, que deverá incluir a devolução do soldado israelense Shalit, seqüestrado há dois anos pelos palestinos. Iniciada na quinta-feira passada, a trégua é frágil e duvidosa, pois envolve um movimento guerrilheiro que sobrevive enquanto luta, com um país “fantasma”, segundo a definição desse mesmo grupo guerrilheiro, que teima em não reconhecer a existência de Israel.


Outro país árabe que participa como mediador na área é a Turquia, que leva e traz propostas entre a Síria e Israel, com o objetivo de neutralizar a ação antiisraelense do Hezbollah na fronteira com o Líbano, agora que o grupo xiita está mais fortalecido após derrotar militarmente o governo legal do premier Siniora.


Na mesa de decisões estratégicas em Israel se encontram projetos de ação militar nada tranqüilizadores, e quase inevitáveis: a reocupação da faixa de Gaza e a destruição do reator nuclear do Irã.


Misturem-se Hamas, Fatah, Hezbollah, ANP, Síria, Egito, Líbano, Turquia e Israel, e teremos uma salada, com ingredientes altamente explosivos, temperada com fundamentalismo, radicalismo, ódio e revanche.


Uma preocupante salada semita!


OSIAS WURMAN é jornalista. E-mail: owurman@globo.com.