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- Cláudia Andréa Prata Ferreira
- Rio de Janeiro, RJ, Brazil
- Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.
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domingo, 31 de agosto de 2008
Israel 360
Cabala, Cabalismo e Cabalistas
Autor: Moshe Idel
Sinopse: A escolha de Cabala, Cabalismo e Cabalistas como obra inicial da Coleção de Estudos Judaicos, uma parceria da editora Perspectiva e do Centro Internacional para o Ensino Universitário da Civilização Judaica, da Universidade Hebraica de Jerusalém, não vem por acaso.
Neste livro reúnem-se, em caleidoscópio e sob o prisma cabalístico, filosofia, religião, pietismo e ritual, separadamente ou integrados, a partir de textos relevantes da especulação mística no judaísmo, que remontam ao fim da Antigüidade e à baixa Idade Média, chegando aos dias atuais.
Em conjunto com sua acepção religiosa e/ou transcendental, a busca dos cabalistas, em seu histórico percurso, trouxe à luz interpretações originais e valiosas da Escritura e das obras sacras, para as quais confluem desde as infiltrações gnósticas e de outras correntes que permearam a história das religiões no Oriente e no Ocidente.
À luz de seus ensinamentos, desenvolvem-se a conceituação e a percepção das relações e das experiências que demarcam e pontuam a procura de um conhecimento último da essência e dos processos que iluminam a fé, pela racionalidade e pelo êxtase, pela sondagem objetiva e subjetiva nas regiões profundas do espírito humano ? meta onipresente da humanidade em todos seus quadrantes e sua história.
O presente volume não só introduz o tema com brilho e clareza, como nos proporciona uma visão profunda deste universo, de sua riqueza e da extensão de suas possibilidades, em ensaios de eminentes pesquisadores acadêmicos, dedicados ao assunto.
sábado, 30 de agosto de 2008
Filosofia do Judaísmo em Abraham Joshua Herchel
Filosofia do Judaísmo em Abraham Joshua Herchel: Consciência Religiosa, condição Humana e DeusAutora: Glória Hazan
Editora: Perspectiva
Sinopse: Neste ensaio, que tem a qualidade de ser ao mesmo tempo acadêmico e poético, a autora Glória Hazan nos conduz ao cerne do pensamento religioso de Abraham Joshua Heschel (1907 - 1972), um dos mais importantes e criativos filósofos do judaísmo do século XX.
Um importante aspecto do pensamento de Heschel é ser uma fonte de inspiração para o reencontro com Deus e com o sagrado através da religiosidade judaica.
Ao conduzir-nos pelas sendas do pensamento hescheliano, a autora também nos inspira à reaproximação com o sublime, o maravilhoso e o prodígio, algumas das categorias usadas pelo filósofo para referir-se ao sagrado e que são tão claramente descritas aqui.
Como estudo acadêmico do pensamento religioso, Filosofia do Judaísmo em Abraham Joshua Heschel, que a editora Perspectiva publica em sua coleção Estudos, poderá ser útil não apenas ao leitor interessado no encontro com o pensamento judaico contemporâneo, mas também a todos aqueles que estão interessados no reencontro com a reflexão e a experiência do sagrado em meio à crise da modernidade que hoje vivemos.
A filosofia do judaísmo de Abraham Joshua Heschel tem sido considerada fonte de inspiração e reflexão para leitores oriundos de diversas matrizes religiosas.
Não haveria de ser diferente, pois, como escreveu o próprio Heschel: ''Nenhuma religião é uma ilha''.
Êxodos da memória entre dois mundos: pesquisadora narra a saga dos judeus egípcios expulsos de seu país e exilados no Brasil
Veja mais:
Imigração Judaica: Do Egito ao Brasil
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Guia de Elul 5768 / 5769

Centro Israelita (Porto Alegre, RS), em 28/08/2008.
Veja mais:
O mês de Elul (Beit Chabad)
Calendário – ELUL (CJB)
Elul (Centro da Cultura Judaica)
Halachot de Elul (Kehilat Mizrachi)
Qual é a importância do mês de Elul?
Israel enfrenta desafio para continuar plantando no deserto (vídeo)
Israel enfrenta desafio para continuar plantando no desertoSeca de mais de 40 anos é um dos problemas que os fazendeiros precisam contornar. Reportagem do New York Times, em 24/08/2008.
Retirada da Cisjordânia: colonos israelenses querem compensação para partir
Quando Benny Raz chega à noite em casa e desce do seu carro, seus vizinhos dão as costas para ele e desaparecem em suas casas. Raz está vestindo uma jaqueta preta curta e jeans. Sua cabeça parece uma escultura modelada de forma grosseira, com suas maçãs do rosto pronunciadas e olhos situados profundamente em suas órbitas. Ele tem 55 anos e diz: "Eu perdi todos meus amigos aqui".
Raz, um israelense, se senta em um velho sofá em sua sala de estar e acende um Imperial, a marca favorita de cigarro dos palestinos. Sua esposa entra na sala e serve Nescafé com biscoitos. Ela diz: "Só para deixar uma coisa clara, Benni: você não fala por mim". Ele é um estranho até mesmo em sua própria casa.
O lugar que ele chama de lar é a cidade de Karnei Shomron, um assentamento judeu com uma população de 6.400 pessoas no meio da Cisjordânia palestina, a região que Israel capturou na Guerra dos Seis Dias em 1967. Um total de 275 mil israelenses vive em mais de 120 assentamentos na Cisjordânia, sem contar Jerusalém Oriental.
Quando Raz se mudou para Karnei Shomron com sua família em meados dos anos 90, ele apoiava o radical Partido Moledet de direita de Israel, que deseja que os palestinos na Cisjordânia sejam assentados em países árabes.
Mas a certa altura Raz se viu tomado por dúvidas. Ele viu como as mulheres palestinas, com seus bebês, eram forçadas a esperar por horas nos postos de controle militares, e como o exército israelense detinha palestinos doentes por longos períodos. Ao longo dos anos, Raz chegou ao que pode parecer um entendimento quase banal, mas um que é impressionante para um nacionalista israelense de direita: "Nós não podemos governar outro povo".
Raz não é ativista da paz, e é tudo menos ingênuo, assim como não precisa de qualquer lição de patriotismo. Ele já serviu em uma unidade de combate do exército israelense, trabalhou no Líbano como agente da agência de inteligência israelense, o Mossad, e foi um marechal-do-ar de uma companhia aérea nacional israelense, a El Al. Em 1975, ele estava no avião que foi atacado com bazucas por terroristas no Aeroporto de Orly, em Paris. Mais de 100 israelenses foram salvos, em parte devido à sua intervenção corajosa.
Evitando uma repetição de Gaza
Agora, mais de 30 anos depois, Raz tem a sensação, novamente, de ter de proteger seus patrícios israelenses de algum mal. Mas desta vez são 80 mil em risco, que é o número de colonos vivendo ao leste do muro de segurança na Cisjordânia. O ex-primeiro-ministro Ariel Sharon justificou a construção do muro em 2003 alegando que visava proteger Israel de ataques palestinos. Mas ele também expandiu o território israelense. Ao fazê-lo, Sharon colocou a maioria dos colonos judeus sob controle israelense. Todavia, o muro deixou 77 assentamentos do outro lado - no lado palestino.
Quando Raz viu quão caótico foi processo de evacuação forçada dos assentamentos na Faixa de Gaza e quão profundamente ele dividiu seu país, ele decidiu se envolver. Por estar convencido de que Israel algum dia removerá a maioria dos assentamentos na Cisjordânia, ele contatou parlamentares do Partido Likud de direita e propôs uma nova lei, sob a qual o Estado compensaria os colonos dispostos a deixarem suas casas voluntariamente, para que assim possam construir novas casas em território israelense. O argumento por trás de sua proposta era de que assim que a retirada estiver oficialmente marcada, os colonos seriam forçados a vender suas velhas casas por valor bem abaixo do de mercado, se conseguissem vender.
Os políticos de direita não se interessaram pela idéia de Raz. Do ponto de vista deles, uma evacuação voluntária seria um sinal de fraqueza. Mas Raz conseguiu encontrar aliados na esquerda. Juntamente com parlamentares do Partido Merez e do Partido Trabalhista de esquerda, ele fundou o movimento Bait Echad, ou "Uma Casa". Ele tem tido um sucesso inesperado.
Importantes políticos dentro da coalizão de governo israelense passaram a apoiar a iniciativa legislativa de Raz. O ministro da Defesa, Ehud Barak, agora a apóia, assim como a ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni, atualmente a principal candidata a suceder o primeiro-ministro Ehud Olmert. O princípio da retirada em troca de compensação também faz parte do plano de paz que Olmert propôs aos palestinos.
O vice-primeiro-ministro Haim Ramon acredita que, ao aprovar a legislação, o governo poderá provar aos palestinos e à comunidade internacional que fala sério a respeito da solução de dois Estados. Ao mesmo tempo, diz Ramon, isso fortaleceria a reivindicação de Israel de manter seus assentamentos a oeste do muro.
Nessas áreas, Jerusalém ainda aprova a construção de novas casas e prédios de apartamentos, uma política que é desaprovada até mesmo pelo governo americano pró-israelense. Como o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, assegurou ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, um Estado palestino não deve se parecer com um "queijo suíço".
Mas mesmo se o processo de paz com os palestinos fracassar, a maioria dos israelenses é contrária a uma permanência nas áreas palestinas. O Partido Kadima de Olmert já anunciou que Israel planeja a retirada da maioria dos assentamentos na Cisjordânia - se não após as negociações com os palestinos, então unilateralmente, seguindo o modelo da retirada da Faixa de Gaza em 2005.
Moti Morel, um profissional de relações públicas, está encarregado de divulgar o Bait Echad. Ele já aconselhou vários políticos, incluindo o líder do Partido Likud, Benjamin Netanyahu. "Diferente de Gaza, onde os colonos foram evacuados no último minuto, nós estamos planejando antecipadamente a retirada da Cisjordânia", diz Morel. Ele diz que 5 mil colonos já se registraram no programa Bait Echad. A meta da organização, segundo Morel, é registrar o máximo de pessoas para que os políticos sejam forçados a aceitar a lei.
Morel não é escrupuloso quando se trata de escolher seus métodos. Em uma campanha, ele imprimiu cartões verdes dobrados, semelhantes a passaportes, com o selo da Autoridade Autônoma Palestina e os enviou a todos os colonos a leste do muro da fronteira. A mensagem era clara: cedo ou tarde, seus assentamentos serão evacuados. Se permanecerem, vocês se tornarão cidadãos do Estado da Palestina.
As chances de sucesso do plano são boas, diz Morel. Muitos dos judeus que vivem na Cisjordânia não são fanáticos religiosos que acreditam que é a vontade de Deus que se estabeleçam na Erez Israel (Terra de Israel) bíblica. Segundo uma pesquisa encomendada por Morel, 53% dos colonos não se mudaram para a Cisjordânia por motivos ideológicos, mas porque os terrenos eram mais baratos do que em Tel Aviv, por exemplo. O problema, diz Benni Raz, é que os colonos religiosos estão pressionando a todos. Os líderes dos colonos alegam que os renegados quase não têm apoio. Mas na verdade eles vêem o Bait Echad como uma grave ameaça, diz Zwi Kazower, o presidente do conselho comunitário de Kiryat Arba, perto de Hebron: "Se a lei for aprovada, mais do que alguns poucos colonos deixarão este lugar".
'Quão rapidamente posso sair daqui?'
É pouco antes das 21 horas da noite de domingo. Benny Raz fez uma viagem ao assentamento vizinho de Nofim, lar de pouco mais de 100 famílias. Na casa da família Friedman, ele conhece Avshalom Vilan, um membro do Parlamento israelense, o Knesset, que faz parte do Partido Merez de esquerda. Juntamente com o anfitrião Kobi Friedman, um empresário local, eles organizaram uma reunião para fornecer informações sobre o Bait Echad. O telefone toca assim que estão prestes a sair para o centro comunitário. Um amigo do outro lado da linha os aconselha a cancelarem o evento, alertando que pessoas planejam perturbar a reunião.
Os Friedman decidem realizar a reunião em sua casa. Algumas poucas pessoas têm coragem de vir, com uma dúzia presente no final. Vilan, o membro do Knesset, explica a lei de compensação. Ele diz: "Ou chegamos a um acordo com os palestinos, sendo que nesse caso vocês terão que partir. Ou ocorrerá uma terceira intifada, e então vocês serão os primeiros alvos". Friedman, o anfitrião, acrescenta: "Nós nos mudamos para cá porque era o que o governo israelense queria. Agora as condições mudaram, então o governo tem de nos ajudar a partir de novo".
Um jovem com cabeça raspada diz: "Eu não me mudei para cá por motivos ideológicos. Eu só estou interessado em uma coisa: Quão rapidamente posso sair daqui se a proposta se tornar lei?" Outro homem concorda, acrescentando: "Desde a construção do muro, viver aqui é como viver no gueto".
No final da reunião, um homem com barba branca diz: "Nós somos colonos para defender Israel. Veja o que está acontecendo em Gaza. Nós partimos e agora eles estão disparando foguetes contra nós. Nós não podemos dar terras aos árabes".
Esta posição sem concessão e fútil é uma forma de ver as coisas e era como Raz costumava se sentir. Sua campanha é uma tentativa de encontrar uma saída.
Tradução: George El Khouri Andolfato
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Manuscritos do Mar Morto são digitalizados: Polêmica deve aumentar depois que documentos de 2 mil anos chegarem à internet
O Globo, Ciência, Página 36, em 28/08/2008. Cientistas israelenses estão tirando fotografias digitais dos Manuscritos do Mar Morto com o propósito de que os documentos, de cerca de dois mil anos de idade, estejam disponíveis na internet. A Autoridade Israelense de Antigüidades, que tem sob custódia os textos que lançam luz sobre a vida dos judeus e dos primeiros cristãos, disse que serão necessários mais de dois anos para completar o projeto.Os documentos — considerados alguns dos mais estudados e, ainda assim, controvertidos da História — foram encontrados em cavernas próximas ao Mar Morto, em 1947, por pastores beduínos e durante muitos anos só um reduzido número de estudiosos pôde vê-los. O acesso, entretanto, foi ampliado depois e os textos foram publicados na íntegra há sete anos. A chegada dos textos à internet poderá aumentar a polêmica, pois permitirá novas interpretações para pontos que hoje já são debatidos.
Usando câmaras de precisão e focos que não emitem calor, os cientistas israelenses puderam decifrar capítulos e caracteres invisíveis ao olho humano.
Os manuscritos são as cópias mais antigas da Bíblia em hebraico e incluem textos apócrifos que remontam do século III a.C. até o primeiro século da era cristã. Os especialistas fotografaram cerca de nove mil fragmentos.
No total há 900 rolos, com 15 mil fragmentos. Como estão partidos, os textos permitem mais de uma interpretação.
Parte dos manuscritos está em exposição permanente no Museu de Israel. A coleção completa só havia sido fotografada uma vez, nos anos 50, com a ajuda de infravermelho. As imagens reveladas estão acomodadas em salas com temperatura controlada porque mostram detalhes que foram perdidos dos originais. Essas antigas fotos também serão escaneadas dentro do novo projeto. Os cientistas esperam que a tecnologia ajude também a preservar os manuscritos ao detectar qualquer dano causado por umidade e calor.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Congresso Internacional Sefaradi
O “Congresso Internacional Sefaradi” acontecerá, no México no período de 09 a 11 de setembro de 2008. Para obter mais informações, clique aqui.segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Nazismo: o terror sem disfarces
BBC – Revista História - 12 edições com os temas mais marcantes da História
BBC História é uma publicação da editora Tríada do grupo DOMO (São Paulo, SP)
Destaques
Dossiê Hitler: 20 páginas sobre o ditador
O planejamento do Holocausto
Os horrores de um campo de extermínio
Reportagens
Relatos de arrebatadores dilemas vividos durante a guerra
A fantástica fuga de uma judia pelo interior da Alemanha
O dia em que o futebol ofuscou a Operação Barbarossa
Confissões e arrependimentos de um soldado veterano nazista
A controversa aventura nos ares de Rudolf Hess, o vice de Hitler
Um ato de defesa a favor de Pio XII, o suposto “papa de Hitler”
Detalhes do comemorado Tribunal de Nuremberg
E ainda
Imagens da morte de um povo
Filmes e livros definitivos sobre o nazismo
Um debate sobre a ação dos Aliados
Clique aqui para baixar a versão em pdf.
domingo, 24 de agosto de 2008
Vândalos picham suásticas em monumento em memória do Holocausto em Berlim
Os papéis perdidos de Kafka
O mistério que cerca o apartamento desordenado de Hava Hoffe em Tel Aviv mantém na expectativa grande parte da intelectualidade israelense. Ninguém sabe exatamente que manuscritos de Franz Kafka e de seu amigo íntimo, o dramaturgo Max Brod, Hoffe guarda no apartamento que herdou no ano passado, com os papéis dentro. Como fizera sua mãe, até agora Hoffe se negou a revelar o conteúdo da herança de Brod e a mostrá-lo às autoridades israelenses, muito interessadas em que a obra do grande autor judeu não saia do país. A correspondência dos dois amigos, fragmentos do diário pessoal do autor de "A Metamorfose" ou mesmo alguma obra inacabada poderiam estar entre os papéis em poder de Hoffe, segundo especialistas.
Graças a Brod e sua traição a seu grande amigo, o mundo conhece as obras de Kafka. O escritor, que nasceu em Praga em 1883 e morreu jovem de tuberculose, nunca se interessou em deixar provas de sua existência. Nem sequer foi partidário de mostrar seu trabalho, porque não o convencia nem lhe parecia digno de ser publicado. Por isso, antes de morrer, pediu que seu amigo Brod queimasse seus escritos, os fizesse desaparecer. Convencido da genialidade de Kafka, Brod traiu seu amigo e lutou em Praga e mais tarde em Tel Aviv para encontrar editores que quisessem publicar a obra. Parte dos manuscritos acabou viajando para Israel em 1939, junto com o ensaísta, poeta e crítico literário Brod, que saiu de Praga fugindo dos nazistas e se instalou em Tel Aviv.
Antes de morrer, em 1968, Brod decidiu deixar os papéis de Kafka em herança para sua secretária e companheira, Esther Hoffe. Essa mulher, amante de gatos e que levou uma vida solitária, se encarregou de vender para meio mundo o legado de Kafka pelo melhor preço. Quando Esther morreu, no ano passado, suas filhas herdaram o apartamento, supostamente com as cartas, escritos e desenhos em seu interior. Longe de ter esclarecido o que há nesse apartamento, sua filha Hava Hoffe, de 74 anos, protege os papéis como se fossem os segredos da Virgem de Fátima. Não quer falar com ninguém e não responde aos pedidos das autoridades israelenses, que ameaçam, mas sabem que têm escassa margem de manobra.
Segundo a lei israelense, quando um material é especialmente importante para o país ou a comunidade judia, o Estado tem o direito de pedir que seja fotografado antes de sair do país, mas isso é tudo. "Eu não posso mandar a polícia", diz Yehoshua Freundlich, chefe do arquivo estatal, onde são guardados todos os documentos relevantes para o país, desde os acordos de paz até as obras literárias. "Se Hoffe pegar um avião amanhã e levar os documentos, não posso detê-la", diz esse homem, que tentou sem sucesso entrar em contato com Hava e sua irmã. Ele também não sabe exatamente que papéis existem no apartamento em Tel Aviv.
A demonstração de amor de Brod por sua secretária ainda consegue irritar Mark Gelber, professor de literatura na Universidade Ben Gurion quando lembra disso. Gelber conta como coube a ele lidar com Esther Hoffe para convencê-la a doar o material para os arquivos estatais ou pelo menos que o deixasse ver o que havia ali. "Era uma pessoa muito difícil. Negou-se a colaborar em todo momento e vendeu a coleção peça por peça. Foi um crime literário. Agora não sabemos o que resta lá; não sabemos se as irmãs Hoffe conseguiram tirá-lo ilegalmente do país. Não podem levar algo tão importante para Israel: é como levar uma peça arqueológica."
A importância de Kafka para a comunidade judia e o papel que o judaísmo teve na vida do escritor ainda hoje são objeto de debate entre os especialistas. "Para Israel é muito importante recuperar nosso passado, recuperar papéis como os de Kafka. O Holocausto tornou muito mais difícil para os judeus apreender esse passado, mas não podemos esquecer", diz Jacob Hessing, professor de literatura alemã na Universidade Hebraica de Jerusalém.
Hessing, diferentemente de outros estudiosos, está convencido de que o judaísmo e o sionismo foram elementos centrais na vida de Kafka. Ele explica que embora em sua obra não haja referências a esses temas nos diários e na correspondência eles estão muito presentes: "Muitos de seus amigos eram sionistas. Muito provavelmente ele teria emigrado para Israel como fez Brod quando os nazistas chegaram a Praga. Senão, para onde teria ido?", pergunta-se Hessing.
Ofer Aderet é o jornalista do "Haaretz" que no início do verão revelou a história ao encontrar a identidade e o endereço de Hava Hoffe. Estudioso da obra de Kafka, Aderet acredita que os manuscritos "devem ficar em Israel e não viajar para a Alemanha, onde está seu grande arquivo, por razões morais". Afirma que Kafka, morto aos 42 anos antes de começar a guerra, poderia ter tido a mesma sorte que seus familiares, que acabaram em um campo de extermínio nazista. Até certo ponto, entende que Hava Hoffe queira enriquecer com a venda do material literário, mas o que não consegue entender é que ninguém em Israel, ou mesmo algum milionário judeu americano, esteja disposto a comprá-lo. "Talvez agora, que tudo veio à luz, alguém se interesse", consola-se.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
sábado, 23 de agosto de 2008
Idosos planejam furar bloqueio israelense a Gaza pelo mar
Há duas semanas, os dormitórios da Universidade de Nicósia vêm sendo ocupados por estudantes de uma média de idade de ce 60 anos, originários de uma dezena de países. Eles se preparam para a travessia que os levará de Chipre a Gaza a bordo de um barco pesqueiro "de bolso" e de um pequeno veleiro, comprados para esta ocasião. Esta travessia - cuja partida é iminente - representa um desafio que envolve altos riscos. Ela destina-se a alertar a opinião pública internacional em relação ao calvário sofrido pela população da faixa costeira palestina, uma área que vem sendo estrangulada há mais de um ano pelo bloqueio israelense.
"O mundo precisa despertar", diz Hedy Epstein, uma sobrevivente da Shoah com idade de 84 anos. "O exército israelense vem dando continuidade ao seu plano de estrangular a Faixa de Gaza, enquanto o Ocidente observa em silêncio, por temer ser tachado de anti-semita. Os perseguidos tornaram-se perseguidores". Junto com os seus companheiros de cabelos acinzentados, todos eles veteranos, como ela, da luta em prol da causa palestina, Hedy sonha em alcançar Gaza e abrir uma linha marítima com destino ao enclave arenoso, que seria a primeira desde que ele passou a ser ocupado pelas tropas do Estado judaico, em 1967.
Se as lanchas torpedeiras da Marinha israelense se interpuserem, os marinheiros amotinados do movimento Free Gaza (Libertar Gaza) planejam permanecer no mar, onde ficarão esperando por uma mobilização dos meios de comunicação em seu favor. "Não vai dar para comer filé mignon todos os dias, mas nós temos reservas suficientes para agüentar", diz a senhora idosa, indignada. "Se o povo de Gaza consegue sobreviver, por que não poderíamos fazer o mesmo?"
Este projeto extravagante, digno de uma operação de comando, foi imaginado durante o verão de 2006, depois do encerramento da segunda guerra do Líbano. Seis meses antes, como forma de reação à vitória eleitoral do Hamas, o exército israelense começou a enclausurar a Faixa de Gaza. Galvanizado pela resistência imprevista do Hizbollah, um quarteto de militantes pacifistas baseados em Beirute, em Londres e na Califórnia, sente a necessidade de chamar a atenção do mundo por meio de uma ação espetacular. "Nós estávamos constatando que o fato de redigir e-mails e participar de manifestações não era mais suficiente", explica Ramzi Kyzia, um americano de cerca de 30 anos de origem libanesa que se define como um "moushkalji" ("agitador") profissional. "Chegamos à conclusão de que era preciso trabalhar em favor da paz de uma maneira tão determinada quanto Israel e os Estados Unidos trabalham em favor da guerra. E que a nossa ação deveria ser proporcional à gravidade da crise".
De tanto trocarem idéias a respeito na Internet, surge a idéia maluca. "E se nós viajássemos de navio até Gaza?" O projeto inicial prevê uma partida de Nova York, aos pés da Estátua da Liberdade. Um pouco mais tarde, eles estudam a possibilidade de partirem de Marselha, para imitarem o Exodus, o navio lotado de sobreviventes da Shoah que partira do porto de Sete (a pouca distância de Marselha), em 1947, e fora interceptado pela Marinha britânica ao largo da orla do futuro Estado de Israel. Finalmente, Ramzi e seus colegas - Paul Larudee, um aferidor de pianos de San Francisco, Greta Berlin, uma consultora em relações públicas, e Bella Locke, uma inglesa - optam por um trajeto mais curto, a partir de Chipre.
Começa então uma maratona para levantar o dinheiro necessário. Considerando-se o caráter "subversivo" da empreitada, é melhor nem tentar arriscar a opção de alugar as embarcações. É preciso comprá-los. Os armadores do Mediterrâneo até hoje não se esqueceram dos infortúnios sofridos pelo Sol Phryne, um barco ruim que havia sido fretado, em 1988, pela OLP (Organização de Liberação da Palestina) e que se destinava a transportar de volta para a sua terra natal uma centena de palestinos expulsos em 1948, quando da fundação de Israel. Em 16 de fevereiro daquele ano, algumas horas antes da partida, um artefato explosivo havia destruído o casco do navio, que estava ancorado no porto de Limassol, em Chipre, aniquilando com isso o sonho de retorno dos refugiados. Na véspera do atentado, na mesma cidade, três dirigentes da OLP haviam sido mortos em outro atentado, desta vez com carro-bomba, o qual fora atribuído, mais uma vez, ao Mossad, a tenebrosa central de inteligência israelense.
Conscientes de poderem contar apenas com as suas próprias forças e sua determinação, os dirigentes da Free Gaza lançam uma vasta operação de arrecadação de fundos. "Nós multiplicamos as apresentações, nas igrejas, nas escolas, nas associações", conta Greta Berlin, 67 anos, uma antiga diretora de peças de teatro. "Os montantes das doações foram variados, de US$ 20.000 [ cerca de R$ 32.700] para a maior quantia, até US$ 1,50 [R$ 2,45] para a mais modesta". Na primavera, o financiamento parece estar concluído. Riad Hamad, um americano-libanês, professor de informática no Texas, e responsável de uma associação caritativa especializada em ajudar as crianças de Gaza, prometeu pagar US$ 25.000 (mais de R$ 40.000). Ou seja, o suficiente para finalizar a compra de um navio turco.
Contudo, em 14 de abril, o seu corpo foi encontrado sem vida num lago de Austin (a capital do Texas). Apesar do fato de que as suas mãos e suas pernas tivessem sido atadas, a polícia concluiu que aquele fora um suicídio. Os seus familiares e amigos, integrantes do movimento pro - palestino, incriminam o assédio constante do FBI e das autoridades fiscais americanas que, algumas semanas mais cedo, haviam efetuado uma operação de busca em seu domicílio, no quadro de um inquérito por fraude e lavagem de dinheiro.
"Ele não suportou a pressão", diz Greta Berlin. "As suas contas foram imediatamente congeladas. Além dos US$ 300.000 [cerca de R$ 490.000] que nós havíamos conseguido arrecadar, tivemos de contrair um empréstimo de US$ 250.000 [cerca de R$ 410.000], um dinheiro que nos permitiu finalmente comprar na Grécia, no início de junho, dois barcos". Os seus nomes: Free Gaza e USS Liberty, este segundo em homenagem ao navio americano do mesmo nome, que fora afundado, em 1967, pela aviação israelense. Aquele fora um "erro", segundo a versão oficial, que custara a vida de 34 marinheiros.
Em 29 de julho, os organizadores do projeto recebem o reforço, em Chipre, de cerca de trinta militantes, dos quais uma freira americana de 81 anos, Ann Montgomery, além de um palestino de Gaza, proibido por Israel de permanecer em sua terra, Mushir Al-Farra, e do antropólogo Jeff Halper, um expoente do movimento de luta contra a ocupação israelense. Ao longo de duas semanas, eles ficam aguardando a chegada dos navios, que saíram de Creta e foram retardados pelo mau tempo. A seu bordo, uma dezena de ativistas, entre os quais Paul Larudee e a jornalista Lauren Booth, uma cunhada de Tony Blair.
Para fugirem do tédio, os "cipriotas" cozinham, visitam Nicósia, dedicam-se a ensaiar algumas rotinas de primeiros-socorros e, escaldados pela sabotagem de 1988, trancam cuidadosamente as portas dos seus quartos. "Os israelenses estão nos vigiando", assegura Greta Berlin. "Eles já tentaram destruir o material de transmissão por satélite que está embarcado nos navios. Nós também recebemos visitas suspeitas no campus. Além disso, membros do grupo receberam até mesmo ameaças por telefone. Uma voz anônima disse ao marido de Lauren Booth que era bom avisar seus filhos de que 'Mamãe não retornará'".
Apesar desta tensão, os aprendizes de marujo estão agüentando firme. O anúncio, publicado pelo diário "Haaretz", segundo o qual a Marinha israelense está planejando interceptar sua frotinha para uma operação de inspeção não os deixa desanimados. Após dois anos de preparativos épicos, todos eles têm o sentimento de terem triunfado. "Se os israelenses nos detiverem nas águas internacionais, isso constituirá um crime", diz Ramzi Kyzia. "Se eles nos detiverem nas águas de Gaza, esta será a prova de que, a despeito da evacuação dos colonos, este território permanece até hoje sob ocupação. Ora, reza o direito internacional que o ocupante tem por obrigação garantir o bem-estar da população, uma regra que obviamente não é respeitada por Israel. Nos dois casos, nós somos vencedores. Nós estamos surpreendendo Israel em flagrante, no momento em que ele comete uma violação do direito internacional".
Hedy Epstein, a super vovó da tropa, tampouco se mostra preocupada. Antes de deixar o seu domicílio, em Saint Louis, no Missouri, ela seguiu aulas de natação na piscina municipal. "Agora, eu não estou mais com medo de colocar a cabeça debaixo da água", diz. "Estou pronta para desembarcar em Gaza".
Tradução: Jean-Yves de Neufville
Israel teme que tenham roubado parte de seu legado musical
Tudo começou com uma ligação tarde da noite em uma sexta-feira em julho. Uma mulher de Nova York perguntava a Gil Flam, que dirige a seção musical da Biblioteca Nacional de Israel sobre um manuscrito de um século autografado por um compositor suíço. Seria da coleção da biblioteca?Quando Flam verificou, descobriu que a peça estava no inventário, mas não no arquivo. Outros itens também estavam faltando. De fato, ela começou a se lembrar que os usuários da biblioteca vinham reclamando de não encontrar os documentos listados.
A biblioteca descobriu que centenas de itens estavam desaparecidos, inclusive fotografias, manuscritos e cartas de Yehudi Menuhin, Jascha Heifetz, Pablo Casals, Felix Mendelssohn e Richard Strauss. Muitos itens também sumiram do arquivo da Orquestra Filarmônica de Israel em Tel Aviv e de uma biblioteca musical histórica em Haifa. A busca em outros arquivos musicais está apenas começando.
A polícia apontou como suspeito um arquiteto de Haifa de 60 anos que há vários anos vem visitando os arquivos da nação, alegando ser um músico amigável fazendo pesquisa pessoal. Ele colocava os documentos entre seus papéis e os vendia abertamente no eBay, provavelmente, por centenas de milhares de dólares no total.
"Estamos falando sobre a história musical do país, que este sujeito vinha minando. Ele não roubou uma biblioteca simplesmente, mas seu país", diz Bill Ecker, corretor de Nova York que, sem saber, comprou do suspeito uma carta roubada de 1879 e ajudou a polícia israelense a prendê-lo.O caso ocorreu em uma época especialmente desagradável para Biblioteca Nacional, repositório da maior coleção do mundo de manuscritos judeus e hebraicos. Ela foi acusada por anos pela imprensa israelense e um comitê internacional de especialistas de não proteger adequadamente a herança do país, por causa de seus telhados com goteiras, orçamentos insuficientes, espaço de armazenagem superlotado e tecnologia antiquada.
Agora parece que a falta de segurança será acrescentada à lista, enquanto a biblioteca espera reinventar-se. Inclusive, ela vem tentando adquirir uma série de importantes coleções, inclusive o que resta dos papéis de Franz Kafka em Tel Aviv.
"Isso é muito difícil porque acabamos de começar o processo de planejamento de construção de uma nova Biblioteca Nacional de alta tecnologia, ultramoderna" disse o diretor-geral da biblioteca, Shmuel Har Noy, quando perguntado sobre os documentos desaparecidos.
O suspeito no caso, Meir Bizanski, não cooperou com a polícia, que invadiu sua casa encontrou centenas de itens que as bibliotecas e a orquestra dizem pertencer-lhes, de acordo com o porta-voz da polícia, Micky Rosenfeld. Grande parte do material estava em um depósito atrás da casa, arrumada em caixas por assuntos e em prateleiras, contaram alguns que participaram da busca.Bizanski foi preso e depois transferido para prisão domiciliar. Agora, enquanto os detetives reúnem suas acusações -eBay diz que vai cooperar- ele está livre, sob condição de não deixar o país nem contatar arquivos musicais.
Por telefone, Bizanski recusou um pedido de entrevista. Seu advogado respondeu com uma curta declaração por correio eletrônico dizendo que Bizanski é um colecionador que freqüentemente visitava bibliotecas e arquivos e não havia cometido nenhum crime, e que a polícia não compreendia os colecionadores. O advogado, Gadi Tal, acrescentou por telefone que Bizanksi havia comprado tudo legalmente.
Os arquivistas da Biblioteca Nacional e da Filarmônica disseram que nunca venderam nenhum dos itens. Em teoria, Bizanski poderia ter sido vítima de um ladrão de quem teria comprado os documentos. No entanto, quando pediam as notas de compra dos bens, Tal recusou-se a responder.O caso começou com Jude Lubrano, que, junto com seu marido, Paul, dirige um antiquário musical em sua casa em Long Island há trinta anos. Lubrano disse que comprou quatro documentos desse homem por US$ 5.000 (cerca de R$ 8.000).
Quando os documentos chegaram, ela verificou em livros de referência e encontrou uma fotografia de um deles, um manuscrito de três páginas assinado por Arthur Honegger, compositor suíço francês do século 20. O livro dizia que o manuscrito pertencia a uma coleção oficial em Israel. Foi aí que ela telefonou à Flam.
Lubrano escreveu a Bizanski, dizendo a ele que havia vendido bens roubados e que queria seu dinheiro de volta.
"Se essas cifras foram roubadas, eventualmente posso ter problemas. Então lhe peço que os devolva", escreveu. Ele enviou o dinheiro de volta. Lubrano devolveu o manuscrito à biblioteca.Flam, que trabalha no departamento de música da Biblioteca Nacional há 14 anos, tem um orçamento minúsculo e pouca ajuda. Mesmo assim vem organizando os arquivos e ficou devastada com o roubo. Ela disse que Bizanski havia visitado a instituição várias vezes por mês. Entretanto, ele de fato pensava em dinheiro porque só pegava coisas autografadas, as quais poderiam vender facilmente, disse ela.
Agora ela se preocupa que todo o sistema de pesquisa terá que ser ajustado para levar em conta a possibilidade de roubo. O arquivista da Filarmônica israelense também reconheceu Bizanski de suas muitas visitas.
Har Noy, o diretor da Biblioteca Nacional, admitiu que sua instituição, que até 1º de agosto era conhecida como Biblioteca Nacional e Universitária Judaica, há muito tem sido uma espécie de filho postiço entre os arquivos nacionais, porque era parcialmente administrada pela Universidade Hebraica e nunca teve status ou um orçamento como a Biblioteca do Congresso.
De fato, em 1998, um grupo de especialistas internacionais liderado pelo bibliotecário do congresso, James H. Billington, advertiu Israel que a biblioteca estava desorganizada e que, na ausência de mudanças substanciais, "Israel teria uma Biblioteca Nacional apenas no nome".
O Parlamento levou uma década para agir, mas em novembro último aprovou uma lei estabelecendo a Biblioteca Nacional de Israel, o novo nome da instituição, e garantindo um período de transição de três anos para sair da administração universitária.
Har Noy disse que, com os documentos de Einstein, Ben-Gurion e outros, a Biblioteca Nacional tinha grandes ambições e propósitos. "Este roubo foi horrível", disse ele. "Mas aprendemos com o que aconteceu e faremos melhor. Israel merece uma verdadeira Biblioteca Nacional e a terá."
Tradução: Deborah Weinberg
A dádiva de Imre Kertész
O Globo, Caderno Prosa e Verso, página 4, em 23/08/2008.Refletindo sobre a existência, ganhador do Nobel afirma opção pela vida
Tatiana Salem Levy
Em “Eu, um outro”, Imre Kertész, ganhador do Nobel de Literatura de 2002, compartilha com o leitor reflexões sobre a identidade, a morte, a escrita e a existência. De 1991 a 1995, entre palestras e passeios por países como Áustria, Hungria, Israel e Alemanha, o escritor húngaro, quase sempre acompanhado da mulher (que ele chama apenas de A.), faz anotações sobre os fatos à sua volta, mas, como ele mesmo diz, essas notas não se assemelham em nada aos fatos.Em vez da coleção de imagens e anedotas do turista habitual, trata-se aqui de uma viagem em busca de uma identidade. Mas uma identidade que se sabe estilhaçada, um “eu” sempre outro. Embora levante de vez em quando a questão “quem sou eu?”, Kertész não está exatamente preocupado em respondê-la, pois sabe que não existe resposta possível. O que lhe interessa, isso sim, é construir caminhos por onde esse “eu” possa se fazer e se desfazer. Diz já não estar mais à procura de sua pátria, nem de sua identidade.
Afirma-se, acima de tudo, como escritor: “tenho uma única identidade, a identidade do escrever”. Ao optar pela literatura, Kertész opta também pela alteridade, pela diferença, libertando-se do aprisionamento de certos estigmas em que ele próprio, pela sua condição de judeu húngaro, se encontra.
Autor foi deportado para Auschwitz aos 15 anos
Em 1944, aos 15 anos, Kertész foi deportado para Auschwitz , de pois para Buchenwald e Zeitz. Conheceu os horrores dos campos de concentração nazistas e sobreviveu a eles. E, claro, como intelectual e escritor, questionouse imensamente, após a guerra, sobre sua identidade: judeu? Húngaro? Judeu e húngaro, talvez, se isso fosse possível. Não é sem lamento, portanto, que constata que sua língua materna, “essa língua estrangeira”, o ajuda a entender seus próprios assassinos. Kertész morou em vários lugares, está sempre viajando, como atesta “Eu, um outro” (em ótima tradução de Sandra Nagy), e não consegue fazer seu ninho em lugar nenhum. Assumese como um eterno exilado, como um estrangeiro em qualquer lugar onde esteja, na Hungria ou em Israel.
A idéia do escritor como um estrangeiro dentro da própria língua já foi muito explorada e discutida. Mesmo correndo o risco da repetição, porém, é inevitável voltar a esta analogia, pois a situação de Imre Kertész é justamente a de um escritor que não tem pátria, nem em seu próprio país. Um escritor que escreve numa língua ao mesmo tempo materna e estrangeira. Não é de se espantar, portanto, que, ao falar de suas inúmeras viagens, ele afirme viver como um exilado: “Nesse único aspecto vivo corretamente: sou um exilado”. Sobrevivente de Auschwitz, judeu numa Hungria antisemita e, durante anos, stalinista, escritor e viajante, Kertész vive o exílio tanto física quanto simbolicamente.
Quase todos os seus textos, como a trilogia “Sem destino”, “Fiasco” e “Kadish”, tratam do Holocausto, seja de forma ficcional ou reflexiva. Mas seria um erro pensar que Kertész escreve porque viveu a experiência traumática dos campos. A lógica é outra: ele escreve e, como escritor que passou por essa experiência particular, não poderia deixar de abordá-la. Estaria mentindo para si mesmo se pretendesse esquecê-la, sem mencioná-la. No entanto, a grandeza de sua literatura reside no fato de que ela ultrapassa os limites do estritamente pessoal e transforma o Holocausto num assunto referente a toda a Humanidade, não apenas ao povo judeu ou àqueles que sofreram tal atrocidade.
O escritor é levado, pela paixão de seu ofício, “a descrever a condição humana” e, por esse motivo, precisa “abrir seu coração para a total miséria que reside nessa condição”. Isso não significa uma vida ( ou uma obra) feita de lamentos. Ao contrário: a felicidade, afinal, só é possível para quem encara o mundo sem esquivar-se, mesmo quando a realidade alcança o insuportável, como no caso dos campos de concentração.
Em “Eu, um outro”, Kertész demonstra uma lucidez gritante, e, sem dúvida, é essa lucidez que o torna feliz. Como ele nos lembra, felicidade não é esse sentimento pasteurizado que se vende por aí quase como obrigação, mas algo que se obtém quando se está disposto a fazer parte do mundo, aberto a tudo o que ele tem de belo e triste. É por isso que falar dos horrores do Holocausto torna-se inevitável para um escritor como Kertész. Afinal, como ressalta Nietzsche (aliás, um dos filósofos traduzidos por ele para o húngaro), é preciso lembrar para esquecer.
Leveza e doçura, mesmo com os temas mais duros
No entanto, lucidez não é, aqui, sinônimo de compreensão. “Não entendemos o mundo porque não é essa a nossa tarefa na terra”, diz o narrador de “Eu, um outro”. Em vez de buscar uma explicação que encapsule o sentido de nossa existência, Kertész estende a mão ao leitor e convida-o para um passeio por seus pensamentos e sensações. Há algo de leve e doce em suas palavras, mesmo quando tratam de temas duros, desde barbáries coletivas a dramas individuais, como a doença da esposa. Há também, e acima de tudo, uma generosidade rara. Nada é mais generoso do que enfrentar as intempéries e, sem perdera esperança, continuar acreditando na Humanidade. Nesse sentido, a opção de Kertész pela vida e pela escrita é um verdadeiro dom, a dádiva de um “eu” aos outros.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Um bafômetro contra o câncer: Israelense desenvolve aparelho que detecta células alteradas antes da formação de tumor
Renata MalkesEspecial para O GLOBO • TEL AVIV
O Globo, Ciência, página 34, em 22/08/2008.
Uma técnica que promete identificar células cancerígenas antes mesmo da formação de um tumor levou o pesquisador israelense Hussam Haik, do Instituto Technion, em Haifa, Israel, à lista dos 35 jovens cientistas mais promissores do mundo, segundo relatório anual do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês).
Aos 33 anos, Haik ganhou destaque ao desenvolver o chamado "nariz eletrônico", aparelho que detecta células cancerígenas no intestino grosso, nas mamas e nos pulmões após a análise de moléculas odoríferas. Basta o paciente soprar no aparelho, nos mesmos moldes do bafômetro usado para detectar a ingestão de álcool.
A técnica vem sendo desenvolvida em laboratórios de diversas universidades européias e americanas, mas a equipe liderada por Haik assumiu a liderança das pesquisas ao descobrir novos biopolímeros, substâncias feitas de diferentes moléculas orgânicas, que poderiam detectar um câncer e o estágio em que a doença está.
Como num bafômetro, a idéia é que o paciente sopre dentro de um tubo com os chamados biopolímeros.
Proteínas liberadas na respiração reagem com os compostos e indicam — ou não — a presença de células cancerosas através de um sensor eletrônico. A identificação da doença antes da formação do tumor pode levar as chances de cura para até 90%.
— Trata-se de um grande avanço, pois identificamos o processo inicial de formação do tumor. Com isso, podemos dar uma chance muito maior ao paciente. Já temos os biopolímeros necessários para identificar alterações nos seios, no intestino grosso e nos pulmões.Nosso maior desafio agora é conseguir identificar com exatidão o estágio em que a doença se encontra, antes de estudar maneiras de detectar outros tipos de câncer — explicou Haik, um árabe-cristão nascido na cidade de Nazaré.
O trabalho do pesquisador ganhou impulso há dois anos, quando recebeu uma bolsa de US$ 2,2 milhões concedida pela União Européia para jovens cientistas, após concluir com sucesso um pós-doutorado no Instituto de Tecnologia da Califórnia. O dinheiro foi investido no laboratório e na contratação de mão de obra qualificada. A equipe de Haik trabalha com 20 pesquisadores, entre israelenses, alemães, chineses e indianos.
Os primeiros testes em seres humanos já estão sendo realizados no Hospital Rambam, no norte de Israel, com resultados satisfatórios.
Há expectativas de que o aparelho possa estar à disposição dos médicos já a partir de 2010.
— Estamos ainda em fase de pesquisa. O aparelho final será portátil e, sobretudo, estamos trabalhando para que seja também acessível.
Quando chegar a fase de comercialização do produto, já pensamos em parcerias para que cada médico possa tê-lo em seu consultório. Não queremos que seu custo final ultrapasse US$ 1 mil — disse Haik.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
O Verbo Hebraico (Cláudia Andréa Prata Ferreira)
O Verbo Hebraico - parte 1 (Cláudia Andréa Prata Ferreira)
O Verbo Hebraico - parte 2 (Cláudia Andréa Prata Ferreira)
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Characterizing Esther from the Outset: The Contribution of the Story in Esther 2:1-20 (Jonathan Jacobs)
domingo, 17 de agosto de 2008
Moses outside the Torah and the Construction of A Diaspora Identity (Thomas Römer)
This article deals with how, in texts inside and outside the Torah, Moses became a figure of identification for the different Jewish Diasporas during the Persian Period The following themes are investigated: 1. The Shared Figure of Moses and the Pentateuch; 2. The death of Moses outside the land; 3. Moses, the magician; 4. Moses, the leprous; 5. Moses and the foreign women; 6. Moses, the warrior.
sábado, 16 de agosto de 2008
Israel vai criar primeira rede de carros elétricos do mundo
A instalação de 500 mil tomadas permitirá recarregar as baterias em todo o país.
Viver sem petróleo. É o sonho da legião de países importadores que aspiram a reduzir as emissões de gases poluentes, deixar de depender de países politicamente instáveis e sanar os bolsos dos consumidores. No caso de Israel, país em conflito com seus vizinhos do Oriente Médio, as aspirações de suficiência energética são muito sérias. E pretendem consegui-la com a implantação da primeira rede de carros elétricos do mundo, que terá 500 mil pontos para recarga de baterias por todo o país e cujos automóveis a pilha começarão a sair às ruas no ano que vem. Para alimentar a rede elétrica, o governo vai semear placas solares no deserto de Neguev e implementará uma série de medidas legislativas.
"No passado já fizemos isso com a alta tecnologia, com o software. No futuro vamos liderar o mundo das energias renováveis", explica Hezi Kugler, diretor-geral do Ministério de Infra-Estruturas de Israel.
Até agora os carros elétricos não pegaram no mercado, em parte pela falta de autonomia e de pontos para recarregar as baterias. Israel considera que, por suas características, pode ser o lugar ideal para esse tipo de projeto. Nesse pequeno país, a distância entre os núcleos urbanos não supera
O carro poderá ser carregado em casa à noite, usando os excedentes energéticos do dia, ou em pontos distribuídos pelo país, assim como em postos de serviço. As fábricas Nissan e Renault se comprometeram a produzir esses veículos em massa em 2011, mas os primeiros começarão a circular no próximo ano.
Os israelenses procuram deixar para trás o conceito de carro-motorista/proprietário. O novo modelo econômico se parece muito com o dos telefones celulares. Os carros seriam os aparelhos e a rede de baterias a companhia telefônica. "As pessoas vão parar de comprar carros, assim como pararam de comprar telefones. O que se contrata é o uso do aparelho para um número máximo de quilômetros, assim como o serviço técnico", explica Dafna Berezovski, diretora de marketing da Better Place, a empresa que está por trás do invento. O preço mensal do contrato do carro elétrico, afirmam, será sempre menor do que o que os motoristas gastam hoje por mês
"Israel é só o primeiro passo. Aspiramos a uma revolução energética em todo o mundo", diz Agassi. Será a empresa privada Better Place que cobrirá os gastos desse projeto, para o qual contam com financiamento pelo menos para a primeira fase (130,5 milhões de euros, aos quais deverão se acrescentar outros 533 milhões). O governo, por sua vez, modificará as leis e incentivará o uso dos novos carros. Hoje os israelenses pagam até 80% de impostos ao comprar um carro; o Executivo os reduzirá para 20% para a compra de veículos elétricos.
A idéia foi gestada há um ano, quando Agassi encantou o presidente Shimon Peres durante um encontro de empresários. Entusiasmado Peres, Agassi o informou sobre as reformas legislativas necessárias, incluindo poderosos incentivos fiscais. Eles são detalhados pelo diretor-geral Kugler, que conta que os carros são apenas uma peça da engrenagem da revolução energética com a qual Israel pretende em 2020 ter reduzido pelo menos 25% das importações de petróleo. "Esses carros têm de se alimentar com energia limpa. Não faria sentido reduzir por um lado as emissões e por outro aumentá-las para produzir a eletricidade que consomem."
Nesta mesma semana o governo aprovou um pacote legislativo milionário para incentivar as energias renováveis. Tem na cabeça tirar o máximo rendimento energético do deserto de Neguev, no sul do país, onde serão instalados projetos de energia solar de até 4 mil megawatts. Até cinco ministérios deverão se coordenar para levar adiante esses projetos faraônicos.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
PALESTRA: Novas perspectivas de estudo de Misticismo: Cabala Cristã e Cabala Judaica (Prof. Moshe Idel)
PALESTRA: Novas perspectivas de estudo de Misticismo: Cabala Cristã e Cabala Judaica
Prof. Moshe Idel
Um dos maiores especialistas em estudos de cabala e da mística judaica. Ex-aluno de Gershom Scholem e Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.
26 de agosto de 2008, às 13:00h.
PUC-Rio – Rua Marquês de São Vicente, 225, sala F300
22453-100 - Gávea, RJ
Tel.: 21-3527-1447
Fax: 21-3527-1446
www.letras.puc-rio.br
Organização: Departamento de Letras da PUC-Rio
Apoio: Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Do proibido ao permitido: Kahal Kadosh Zur Israel - A primeira comunidade judaica legal das Américas
Dia 28 de agosto de 2008, às 18h - O Museu Judaico do Rio de Janeiro e Frank Ramos convidam para o lançamento do livro “Do proibido ao permitido: Kahal Kadosh Zur Israel - A primeira comunidade judaica legal das Américas”, no Clube Israelita Brasileiro (CIB) – Rua Barata Ribeiro 489, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ.
Frank Ramos é bacharel e licenciado em História pela UFF desde 2002, tendo concluído seu mestrado
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Israel usa canhão fedorento para dispersar ativistas
O Globo, O Mundo, página 24, em 12/08/2008.
O nome é sugestivo e parece apropriado. Chamado boash, que em hebraico significa “gambá”, consiste num canhão capaz de disparar um líquido extremamente fedorento contra os manifestantes, que rapidamente batem em retirada.
A nova arma foi usada pela primeira vez no último fim de semana na aldeia de Nialin, na Cijordânia, e atingiu igualmente pacifistas israelenses e palestinos que protestavam contra o muro que Israel está construindo no território. De acordo com a Polícia da Fronteira, a nova arma foi usada com sucesso.
— Os manifestantes saíram correndo para tomar banho e trocar de roupa — contou o porta-voz da polícia à BBC.
O ativista israelense Kobi Mintz, do grupo Anarquistas Contra a Cerca, contou ao site de notícias Ynet que o líquido tem um cheiro horrível, parecido com o de um cadáver
— A
Balas revestidas com borracha podem matar O manifestante lamentou principalmente o fato de o canhão “gambá” ter sido usado duas semanas depois de dois adolescentes palestinos, um de 11 e outro de 17 anos, terem sido mortos por soldados israelenses durante manifestações contra a construção da barreira
Para dispersar manifestações, o Exército israelense costuma usar gás lacrimogêneo, granadas de efeito moral, canhões de água, bombas de efeito moral ou balas revestidas com borracha. São armas consideradas não letais. Mas mesmo este último tipo de arma, se usada de forma inadequada, pode matar. Disparada a curta distância, contra a cabeça ou os olhos, a bala revestida com borracha apresenta um alto risco para a vítima.
O canhão “gambá”, por outro lado, parece não ter contraindicações letais e teve a permissão do Ministério da Saúde para ser usado. Até o momento, o único prejuízo parece estar no bolso dos manifestantes.
Eles contam que o cheiro não sai da roupa mesmo após ela ser lavada algumas vezes, acabando inutilizada.
Colonização judaica das Colinas de Golã continua apesar das negociações entre Israel e Síria
Benjamin Barthe
Enviado especial a Katsrin
Le Monde, em 12/08/2008.
Loiras e sorridentes, as duas jovens russas fazem poses, com os cotovelos apoiados num balcão de quitanda sobre o qual disputam espaços potes de tapenade* e garrafinhas de azeite. "Sorriam... Foto!" Elas estão participando de uma estadia "Taglit", um desses programas especiais que se destinam a promover Israel junto à diáspora judaica.
Atrás delas, os seus congêneres de short e sandálias se acotovelam em volta de outro balcão, reservado para a degustação. O entusiasmo dos comensais diante dos pratos repletos de cubinhos de pão torrado acompanhados por condimentos encobre as explanações do vendedor que está vangloriando a qualidade do seu azeite. "Produzido conforme as técnicas da época talmúdica", garante. Com os braços carregados de suvenires - sabonetes, garrafas de azeite ou de vinho, ou ainda frascos de cremes de beleza -, os visitantes fazem fila para passar no caixa, e então retornam ao seu ônibus, sob os olhares vigilantes de dois acompanhantes que exibem um fuzil a tiracolo.
Será preciso devolver o Golã para fazer as pazes com este preocupante vizinho? As discussões que vêm sendo travadas a este respeito em Israel não têm nenhum impacto verdadeiro sobre os moradores do planalto. "Esta região é a fronteira natural de Israel com a Síria", martela Valentina Litinski, a guia do grupo "Taglit". "Ela constitui um trunfo estratégico que nós não podemos nos dar ao luxo de abandonar. Se um dia a Síria se democratizar, nós poderemos então considerar seriamente um acordo. Mas, por enquanto, está claro que este país não é um parceiro digno deste nome".
Os buldôzeres que seguem escavando em várias áreas do planalto corroboram esse discurso agressivo. Aos planos de retirada, os colonos do Golã respondem com uma orgia de canteiros de obras. Uma companhia de tecnologia avançada com sede em Herzliya, uma cidade do litoral, planejou instalar-se na zona industrial de Katsrin. Alguns quilômetros mais ao sul, no moshav (cooperativa agrícola) Bnei Yehuda, uma galeria comercial está em fase de acabamento num terreno de três mil metros quadrados. Irá se tratar do segundo complexo desse tipo depois do de Kessem Hagolan ("A Magia do Golã"), um vasto conjunto de construções composto por lojinhas de suvenires, por um circuito especial para os visitantes e uma cervejaria. Situado na entrada da capital, este foi inaugurado há um ano. Rumores alardeiam até mesmo a possível construção de um aeroporto.
Esses projetos recentes vêm se acrescentar à criação mais antiga de explorações vinícolas cujos melhores vinhos, como o Château Golan, gozam atualmente de uma reputação mundial. O objetivo deste desenvolvimento acelerado é fazer do Golã um destino turístico inevitável, um parque natural dedicado à glória do "bem viver" e, assim fazendo, enraizá-lo na paisagem mental israelense. "Nós queremos criar uma rotina, de tal modo que, na mente das pessoas, o Golã seja uma evidência, assim como Tel Aviv [a capital política]", resume Pini Ohayon, o gerente da cervejaria.
A aposta não é tão simples quanto parece. Diferentemente da Cisjordânia, próxima aos centros urbanos israelenses, as vertentes desoladas do Golã nunca chegaram a atrair os exaltados do "Grande Israel". Trinta anos mais tarde, a cidade de Katsrin, que foi fundada em 1977, não abriga mais do que 7.500 habitantes, ou seja, a metade da população judaica do Golã. Às famílias dos soldados que ocupam postos no planalto, acrescentou uma pequena minoria de ultra-ortodoxos, que foram seduzidos pelo ascetismo do local, e alguns milhares de novos imigrantes ucranianos, enviados para esses remotos rincões tão logo chegaram de avião.
"O que importa saber é que 70% da população de Israel se opõem à cessão do Golã em troca da paz", diz Sami Bar Lev, o prefeito da colônia-capital, referindo-se a uma recente pesquisa. "Um país tão pequeno quanto o nosso não pode renunciar a um lugar tão estratégico".
A saída programada de Ehoud Olmert do governo, que foi forçado a ceder seu lugar em conseqüência de acusações de corrupção, apaziguou sem demora suas preocupações. "A retirada de Israel não irá acontecer tão cedo. Estamos planejando aumentar a população de Katsrin em mil habitantes por ano no decorrer dos próximos dez anos".
Miran, um arquiteto paisagista de 37 anos, pretende ser um deles. Ele que reside atualmente num moshav da Alta Galiléia, decidiu mudar-se para Katsrin por causa "do sol, da paisagem e da proximidade do lago de Tiberíade", onde ele já está sonhando em divertir-se com a sua prancha a vela. Em pé num dos acostamentos, ele está discutindo a obra da sua futura casa de campo junto com um dos seus operários, Salah, um druso do Golã. Com a ajuda dos seus compatriotas sírios, este trintão atarracado já construiu dezenas de casas para os judeus de Katsrin e a sua agenda permanece repleta de encomendas. "Os israelenses vão negociando e construindo simultaneamente", diz. "Eles vivem nessa contradição permanente". Todas essas obras lhe proporcionaram um nível de vida inesperado. Mas ele não se ilude com essa situação. "Os israelenses tomaram o Golã por meio da guerra. Portanto, eles deverão devolvê-lo se quiserem a paz".
*Nota do tradutor - a tapenade é um patê típico da culinária provençal a base de azeitonas pretas, anchovas e alcaparras, geralmente servido em canapês como aperitivo.
Tradução: Jean-Yves de Neufville








