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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 30 de novembro de 2008

Universidade árabe de Israel quer dar aulas na língua do Corão

ANTONIO PITA

da Efe, em Baqa al Gharbiya (Israel) – Folha de São Paulo online, em 30/11/2008.


O maior centro árabe de ensino superior de Israel deseja se transformar na primeira universidade do Estado judeu a dar aulas na língua do Corão, algo que gera receios entre os educadores. Trata-se da Al Qasemi, um centro educacional situado na localidade de Baqa al Gharbiya, no "triângulo árabe" do norte de Israel, onde mora a maioria dos 1,4 milhão de palestinos com cidadania israelense dentre os 7 milhões de habitantes do Estado judeu.


"Nosso caso é realmente único em Israel. Primeiro porque, por definição e natureza, somos um centro árabe-islâmico e, segundo, porque aqui virão dar aulas professores não só muçulmanos, mas também cristãos e judeus", disse à agência Efe o responsável de Relações Públicas da instituição, Wasim Younis.


A instituição deu seus primeiros passos em 1989 como escola de estudos islâmicos, algo que testemunha a bela mesquita junto ao centro de ensino.


Com o passar dos anos, a direção decidiu "adaptar-se ao sinal dos tempos" e abrir-se a outras matérias, explica o relações públicas. Assim, atualmente, 120 professores (20 deles judeus) dão aulas de disciplinas como literatura, matemática e pedagogia a 1.600 estudantes, 92% mulheres, sem descuidar das aulas sobre sufismo ou história do Islã.


A Al Qasemi pretende agora alcançar a maioridade educacional com a conquista da categoria de "universidade", que permitiria expedir títulos de doutorado.


A direção apresentou um pedido neste sentido, mas tropeça em dois obstáculos principais. O primeiro é o momento. Israel não criará novas universidades nos próximos quatro anos porque sofre muito para dividir seu "ajustado" orçamento entre as oito já existentes, todas elas em localidades judias, diz à Efe um porta-voz do Conselho para a Educação Superior.


Esta medida foi aprovada em 2008, após meses de greves e manifestações estudantis contra uma proposta de aumento do custo das matrículas universitárias.


Ali Jabareen, um dos principais professores da Al Qasemi, acredita, no entanto, que o principal empecilho é "político". "As autoridades israelenses recebem com desconfiança tudo aquilo que provém da minoria árabe" porque é palestina de origem e se identifica majoritariamente com seus irmãos de sangue em Gaza e na Cisjordânia, embora tenha cidadania israelense, destaca.


Para Younis, "aceitar-nos como universidade representaria institucionalizar a cultura palestina em Israel. E muitos políticos temem que isso quebre a identidade judaica deste Estado".


O porta-voz do Conselho para a Educação Superior defende uma visão distinta: "Não vejo muito sentido em abrir uma universidade árabe. Acho que é melhor potenciar a presença de estudantes árabes nas universidades judaicas". Uma "política de integração" que levou as universidades judaicas a um percentual de estudantes árabes (18%) similar ao que representa esta minoria no país, acrescenta.


"Respeitamos as universidades israelenses. De fato, eu estudei em Tel Aviv, mas temos nossa própria cultura e língua. Queremos uma universidade que ensine em árabe. É uma questão de liberdade de escolha", disse Jabareen.


Enquanto isso, os estudantes da Al Qasemi já fazem planos para o futuro nas principais universidades de Israel.


"Claro que eu gostaria de ter uma universidade árabe, mas como ainda não existe, não me importo em ir a uma universidade hebraica. Vivemos no mesmo país e deveríamos deixar de pensar em termos de maioria e minoria (...) e começar a falar de diversidade", afirma Naryes, que utiliza um véu, como muitas alunas do centro.


Yamina é outra que sai de longe para continuar seus estudos de literatura inglesa em Tel Aviv. Suas irmãs mais novas terão que esperar três ou quatro anos para que a Al Qasemi entre no panorama universitário israelense e então possam finalmente fazer um doutorado em sua língua natal, calcula Jabareen com esperança.


Uma ligação baseada na cultura, e agora no terrorismo

Por Samuel G. Freedman

NYT, em 30/11/2008.


Lá pela metade da tarde de quarta-feira, Ani Anighotri estava na sua rotina multitarefas, navegando pela internet enquanto batia papo com um amigo sobre uma viagem de negócios recente que fez da Geórgia, onde mora, para sua terra natal, a Índia. Então uma mensagem de e-mail apareceu em sua tela e acabou com a graça da conversa. O campo do assunto dizia: "Ataque em Mumbai".


A mensagem que se seguia contava a Anighotri as notícias dos ataques aleatórios em Mumbai. Ele foi para um site e descobriu o relato de um segundo ataque, similar ao primeiro. Então, ligando uma televisão a cabo indiana, Anighotri viu que o fogo ateado pelos terroristas queimava o Palácio Taj Mahal e o Tower Hotel, o mesmo em que ele havia ficado há apenas três semanas.


Na quinta-feira de manhã, Anighotri havia descoberto outro ponto de conexão mais sutil. Agora estava claro que além dos hotéis, um café, uma estação de trem e dois hospitais, os terroristas haviam invadido um centro de assistência social judaico, administrado pelo movimento Chabad Lubvitch. Anighotri absorveu essas notícias na posição de co-presidente de um grupo de 80 membros na área de Atlanta chamado Coalizão Indo-Judaica.


De uma forma modesta, a coalizão se propõe a aprofundar as ligações entre judeus e indianos, seja em Israel, na Índia ou nos Estados Unidos; e os eventos desta semana demonstram talvez o elemento mais visceral e terrível desta conexão, apesar de estar longe de ser o único.

"Vejo que existe uma afinidade natural em desenvolvimento entre a Índia e Israel e o povo judeu", diz Anighotri, 48, que é dono de companhias de tecnologia e consultoria. "Porque ambos os países e povos foram afetados por esse tipo de terror - a morte de civis, algo desprezível que vem acontecendo ano após ano".


Cedric Suzman, que até recentemente era co-presidente do grupo de Atlanta, ecoou o sentimento. "Em tempos como esse, você de repente percebe que construiu pontes", disse Suzman, em entrevista por telefone. "Então em vez de recriminação e acusação, você tem um grande sentimento de simpatia e compreensão".


A afinidade de que ambos os homens falam vai muito além da experiência comum de ser alvo do terrorismo islâmico, ou dos conseqüentes laços militares e de segurança existentes entre Índia e Israel. O tecido mais fino da experiência humana - cultura, religião, valores - também liga indianos e judeus.


"A melhor forma de explicar isso é o que eu disse à minha filha: 'Se você tiver que se casar fora da Índia, case-se com um judeu", diz Shoba Narayan, escritora de Bangalore que visitou Israel com seu marido, um banqueiro de investimentos. "As culturas são tão semelhantes - o comprometimento com a educação, a capacidade de adiar as gratificações, o trabalho duro, a culpa, o fatalismo. E acho que isso é porque ambas são culturas antigas".


De fato, uma comunidade judaica conhecida como Bene Israel viveu na Índia por mais de 2.400 anos, totalmente tolerada pelas populações hindu e sikh ao redor. Mesmo assim, em suas primeiras décadas depois da independência, a Índia criticou com freqüência o sionismo e foi em parte aliada da União Soviética.


Com o fim da Guerra Fria, e do confiável fluxo de armas e equipamentos russos, a Índia voltou-se para Israel na busca de um fornecedor de armas e conhecimento militar, diz Efraim Inbar, diretor do Centro Begin-Sadat de Estudos Estratégicos na Universidade de Bar-Ilan em Israel. Israel agora vende mais de US$ 1 bilhão em armas anualmente para a Índia, incluindo o sistema de alerta Falcon e mísseis de mar-para-ar.


De uma maneira bem menos óbvia, os soldados também criaram laços. Cerca de 30 mil israelenses visitam a Índia todos os anos, muitos deles em férias prolongadas depois de cumprir o serviço militar. Por sua vez, eles levam de volta para Israel a comida, tecidos, música e misticismo da Índia, principalmente dos hindus.


A banda israelense popular Sheva incorporou instrumentos indianos e estruturas de cordas em sua música. Aulas de ioga proliferam em Israel. A comida hindu, com sua ênfase em pratos vegetarianos, foi facilmente adaptada à culinária kosher. Um festival anual chamado Boombamela celebra tudo que é indiano, ainda que com um viés um tanto inocente, meio Nova Era.


Para os judeus americanos da geração baby boom, a fascinação com a Índia começou com as buscas espirituais dos anos 60. Ao longo do tempo, a meditação budista tornou-se uma base do movimento de renovação judaica e o livro "The Jew in the Lotus" ["O Judeu no Lótus"], de Rodger Kramenetz, tornou-se um texto venerado. Na última década, havia tantos judeus praticando algum tipo de budismo, que geraram um novo nome próprio: Jew-Bu [algo como Ju-Bu].

Mais recentemente, surgiu o termo "Hinjew" ["Hinju"]. Ele não reflete uma amálgama religiosa, o que seria praticamente impossível devido ao politeísmo hindu, tanto quanto o faz o terreno cultural comum entre os judeus americanos e indianos-americanos que cresceram e foram para a escola juntos.


Em subúrbios como Great Neck em Long Island ou West Windsor, Nova Jersey, as mesmas escolas públicas de qualidade que atraíram os judeus que saíram das cidades nos anos 50 têm atraído os imigrantes indianos mais recentemente.


"Alguns de nós na comunidade indiana-americana sentimos que nossos amigos judeus-americanos demonstram um ótimo exemplo de serem bons cidadãos", diz Anighotri. "Seu ativismo, valores sociais, valores familiares, valores educacionais. Muitos deles são profissionais e empreendedores, e isso também é o que vemos na comunidade indiana".


O grau de conforto entre judeus e indianos permitiu também o surgimento de um humor específico de auto-zombaria, que pode ser um bálsamo psíquico nesses momentos de atrocidade. De acordo com uma história imitando notícia no site SatireWire:


"Líderes Hinju reconheceram hoje que a fusão do hinduísmo e do judaísmo não funcionou como planejado, em vez de formar uma super-religião para lutar contra o inimigo islâmico comum, eles acabaram criando uma raça de 900 milhões de pessoas que, não importa quantas vezes reencarnem, nunca são capazes de agradar suas mães".


Tradução: Eloise De Vylder


Veja mais:

The Slaughter of the Innocents at Mumbai

The Slaughter of the Innocents at Mumbai

Rabino Gavriel e sua esposa Rivka Holtzberg


John F. Hobbins, em 29/11/2008: We are all Chabadniks now, says Ron Coleman. The missionary-minded Chabad movement rubs many people the wrong way, people who long for a world in which there are no missionaries, a world in there is nothing to live or die for, and no religion, too. But I was raised on the slogan that you are a missionary in life, or you are nothing at all. Gavriel and Rivka Holtzberg ran the Chabad center in Mumbai, a synagogue and community house, one of about 3,500 such outposts around the world established by Lubavitcher Hasidim. Without a doubt, the terrorists went out of their way to target the center and kill the rabbi and his wife out of hatred of Jews. For details, go here. >>> Leia mais, clique aqui.


Veja mais:

Massacre no Chabad de Mumbai

Baruch Dayan Ha Emet

Livro explica raízes e objetivos do terrorismo islâmico

The Slaughter of the Innocents at Mumbai

We’re all Chabadniks now


sábado, 29 de novembro de 2008

Scliar reaviva episódio do Antigo Testamento

La comparacin en la enseanza de la historia

Scliar reaviva episódio do Antigo Testamento

Escritor gaúcho faz romance a partir da história do patriarca Judá e de seus filhos


Para o integrante da ABL, texto bíblico é um desafio para ficcionistas e deve ser interpretado também como um clássico da literatura


SYLVIA COLOMBO

DA REPORTAGEM LOCAL

Folha de São Paulo, Ilustrada, em 29/11/2008.


Tensão familiar, amores contidos, intriga, traição, humor e sexo. Novela televisiva? Não. Filme de Woody Allen? Tampouco. Trata-se, nada menos, de uma passagem bíblica.


Mais especificamente, do capítulo 38 do Gênesis, do Antigo Testamento, só que relido pelos olhos do escritor gaúcho Moacyr Scliar, 71, membro da Academia Brasileira de Letras e colunista da Folha.


"Manual da Paixão Solitária", seu mais novo livro, romanceia o episódio em que o patriarca Judá tenta dar continuidade à sua linhagem. Para reavivar a passagem, Scliar traz a história para uma discussão nos dias de hoje.


Quando a obra começa, está para ser iniciada mais uma rodada anual do Congresso de Estudos Bíblicos, na qual um respeitado especialista interpretará o Manuscrito de Shelá.


Trata-se de um documento fictício, que teria sido encontrado numa caverna em Israel, e que traria elementos para preencher lacunas do texto da Bíblia. "No Gênesis, a descrição desses acontecimentos ocupa poucas páginas. Mas trata-se de uma história que provoca muitas reflexões sobre os sentimentos humanos. Por isso, me interessei por ela e quis dar contornos mais completos a personagens e ações", disse Scliar, em entrevista à Folha.


Com relação aos fatos contados na Bíblia, nada foi adulterado. O que o escritor gaúcho fez, apenas, foi criar diálogos, descrições de passagens e personalidades, e, principalmente, investigar suas emoções e a razão de suas decisões.


As coisas têm início quando Judá, filho do patriarca Jacó e irmão de José, o interpretador de sonhos, se afasta da família para criar a própria linhagem. Tem três filhos, Er, Onan e Shelá. Quando estes crescem, ele sai à busca de uma companheira para o filho mais velho. A moça chama-se Tamar. Er, porém, morre antes de engravidá-la. Segundo a tradição da época, quando isso ocorria, o irmão mais novo tinha de assumir essa tarefa. Onan une-se a Tamar e tem com ela relações sexuais, mas com coito interrompido. Assim, ela não fica grávida e a tensão aumenta, até que Onan também morre.


Tamar, mulher misteriosa e ardilosa, engana Judá, oferecendo-se a ele disfarçada, quando este empreendia uma viagem. Deste modo, fica prenhe do patriarca e tem com ele dois filhos, Perez e Zerá. "É um momento de tensão imensa, um desafio para os ficcionistas que o queiram descrever", diz o autor.


Bíblia e literatura

Para Scliar, o texto bíblico deve também ser lido como se faz com autores clássicos como Shakespeare ou Cervantes. "Os jogos de poder e as intrigas amorosas comuns à nossa natureza estão nessas obras. A Bíblia é um verdadeiro catálogo das paixões humanas."


Ele, ainda, não concorda com o modo delicado e angelical que costuma ser agregado aos personagens do Antigo Testamento. "Aquele era um mundo muito hostil e violento. Se não houvesse um extremo grau de disciplina, simplesmente não era possível sobreviver."


E acrescenta que, pelo fato de a vida ter de ser coletiva e rígida em suas leis morais, não havia espaço para o indivíduo. "Daí ser uma referência para questionar, entre outras coisas, a solidão humana", conclui Scliar.


MANUAL DA PAIXÃO SOLITÁRIA

Autor: Moacyr Scliar

Editora: Companhia das Letras

Quanto: R$ 39,50 (215 págs.)


Trecho: A impassibilidade de Tamar era estranha e, para muitos, ofensiva, mesmo porque Onan não era o único a detestá-la. Minhas primas -prima era coisa que não me faltava, com aquela quantidade de tios- a detestavam. Claro que invejavam sua beleza, mas não era só isso. Adivinhavam nela ânsias, ambições, e um desejo incontrolável por homem. (...) Tamar não se atirava sobre os homens, mas, disso as primas estavam seguras, no íntimo era o que queria fazer, era o que faria, se pudesse. Queria sexo. Também queria riqueza e poder.
Extraído de "Manual da Paixão Solitária", de Moacyr Scliar

Arqueologia Bíblica e construção de identidades: notas acerca da pesquisa arqueológica nas chamadas terras da Bíblia

Arqueologia Bíblica e construção de identidades: notas acerca da pesquisa arqueológica nas chamadas terras da Bíblia

Gabriella Barbosa RODRIGUES - G – IFCH – UNICAMP

É possível dizer que a Arqueologia Bíblica, antes mesmo de ser considerada disciplina acadêmica, já era permeada por discursos de caráter identitário. Além do aspecto religioso evidente, as chamadas “terras da Bíblia” desempenharam importante papel na construção de mitos nacionais de origem entre nações “imperialistas” ocidentais emergentes. Neste trabalho, gostaríamos de enfatizar como a cultura material, especialmente a que se relaciona ao texto bíblico, está ligada à constituição dessas identidades religiosas e, também, nacionais. Nessa mesma linha, não podemos deixar de enfocar os aspectos políticos da Arqueologia Bíblica, considerando que não são dela exclusivos, mas concernem a qualquer trabalho de Arqueologia em geral, apenas para ficar dentro da disciplina. >>> Leia mais, clique aqui.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Em nome da paz, escritor Amos Oz lança partido em Israel

Bolívar Torres, JB Online, em 27/11/2008 - ISRAEL - Trazer a paz. Esse é o objetivo do novo partido em Israel, lançado pelo escritor isralense Amos Oz. Na companhia de trinta intelectuais e figuras públicas do país, o artista, conhecido por sua luta pelo fim do conflito entre Israel e a Palestina, anunciou que a legenda, chamada provisoriamente de Nova Esquerda Democrátrica, será uma alternativa ao tradicional Partido Trabalhista.


- Chegou o momento de ir em frente - disse o escritor, lembrando os discursos de Barack Obama: - Chamamos toda a esquerda e todos aqueles que desejam a paz, dizendo que a mudança é possível.


Segundo Oz, o Partido Trabalhista perdeu a credibilidade depois das últinmas eleições municipais, realizadas no dua 11 de novembro.


- O Partido trabalhista não tem mais razão para existir, já que não consegue mais exercer uma liderança - explicou.


(Com agências)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Do mascate ao empreendedor – uma família da antiga Mooca

Rachel Mizrahi vai lançar o livro “Do mascate ao empreendedor – uma família da antiga Mooca” no dia 04 de dezembro de 2008, às 20h, na Hebraica-SP.



quarta-feira, 26 de novembro de 2008

V Encontro Brasileiro de Estudos Judaicos: Judaísmo e Globalização / Os 60 anos de Israel e o Oriente Médio

Mais informações:

Telefones: (21) 2511-7187, 2259-0826 e 9803-6777.

Para receber a programação completa: Solicite aqui


Veja mais:

Programação do V Encontro Brasileiro de Estudos Judaicos

V Encontro Brasileiro de Estudos Judaicos



terça-feira, 25 de novembro de 2008

As histórias que a diplomacia prefere esquecer

O jornalista e pesquisador Roberto Lopes apresenta nas 540 páginas do livro “Missão no Reich” o resultado de 25 anos de investigação em arquivos diplomáticos e militares de 11 países sobre a polêmica atuação dos desconhecidos e desprestigiados diplomatas latino-americanos na Alemanha nazista


Zero Hora, em 27/09/2008 - Aconteceu há exatos dois anos, na filial paulista de uma editora européia. Sentado à minha frente, o coordenador editorial da empresa, jovem e polido, de aspecto culto, aparentemente interessado no que eu trazia.


Sobre a mesa espalhei uma lágrima do resultado de mais de 25 anos de investigação em arquivos diplomáticos e militares de 11 países. Revelações surpreendentes (extraídas, por vezes, de fontes inéditas para a historiografia brasileira, como os arquivos do Estado-Maior do Exército francês) sobre o comportamento dos diplomatas latino-americanos que testemunharam o surgimento do fenômeno político Adolf Hitler na Alemanha dos anos 1920, assistiram sua caminhada rumo ao poder, e, finalmente, a consolidação de sua autoridade no aparato da ditadura nacional-socialista.


Aos olhos do rapaz foram desfilando, um após outro, o cônsul brasileiro que tentou trazer Hitler em visita ao Brasil; o diplomata peruano que os alemães julgavam, poderia ajudá-los em seu programa militar de foguetes; o chargé d’affaires boliviano em quem Hitler e seu propagandista-chefe, Goebbels, confiavam; o cônsul chileno metido até as orelhas na campanha pelo rearmamento da Alemanha; os representantes da Argentina e do Brasil que freqüentavam os órgãos de repressão do III Reich; o cônsul equatoriano que, em Hamburgo, tripudiava (de forma desastrada) sobre os judeus; o encarregado de negócios uruguaio Luis Dupuy, que se deixara seduzir pela figura do Führer – “Um grande caudilho, um verdadeiro condutor de multidões, a quem o povo alemão segue cegamente porque ele sabe (...) de seus deveres de governante e considera o bem do povo a lei suprema”.


Meu interlocutor examinou as fotos – raras – daquela gente que não conhecia. Olhou seus rostos; alguns, detidamente. Depois, sempre gentil, disse que encaminharia o assunto, prometendo telefonar-me sobre a possível contratação do livro que eu sugeria – provisoriamente intitulado Missão no Reich. E então...


Então foi como se todo o pó de 80 anos de história tivesse descido, subitamente, sobre ele. O moço da editora desapareceu.


Passado mais de um mês obtive, a certo custo, que o rapaz se reintegrasse na forma de uma voz sem emoção, ao telefone. Tratou-me como vaga lembrança. Não pediu desculpas pelo abandono, ou pela desatenção. Explicou, sem se alongar, que sobre o assunto da minha pesquisa consultara colegas de sua editora em outros pontos da América Latina (citou a Colômbia). “Me disseram que esse é um tema muito desgastado”, foi a sentença.


O autor dessa estultice, e os amigos dele, ficariam pasmos se soubessem dos rigores da diplomacia com os seus segredos. (E do contentamento dela com os intelectuais que se resignam diante deles.)


Ano passado, uma equipe da BBC TV tentou a permissão do Foreign Office para remexer nos arquivos britânicos sobre a guerra das Malvinas, de 1982. Seus integrantes foram informados de que serão bem-vindos, se vivos estiverem, a partir do ano de 2072. Motivo: o embargo de 90 anos decretado pelo governo de Londres sobre decisões cruciais desse conflito – como a de torpedear um cruzador argentino do tempo da IIª Guerra (verdadeiro museu flutuante, que já não ameaçava), e matar, de um só golpe, 323 marinheiros.


Os cuidados dos ingleses na proteção à política manejada contra os nazistas não são menores. A expectativa é de que somente nos próximos 20 ou 25 anos o Public Record Office aceite liberar dados sobre as razões que levaram o governo de Sua Majestade a desprezar os pedidos de ajuda que chegaram às ilhas, vindos de elementos da resistência alemã a Hitler. Nos anos de 1938 e 1939, ao tratar os antinazistas com ceticismo – quase indiferença – as autoridades britânicas teriam carimbado o embarque da humanidade para um cataclisma de 50 milhões de vítimas. Mas isso, espera-se, a História, dentro de mais algum tempo, terá condições de julgar.


Na parte latina da América não há previsão alguma. Os arquivos diplomáticos estão trancados, e pronto. Houve progresso na Argentina – que aceitou verificar se os seus diplomatas foram responsáveis pelo abandono de judeus naturalizados argentinos à morte, em campos de concentração –, e, recentemente, uma certa abertura do Itamaraty para a publicação, por uma equipe da Universidade de São Paulo, de comunicados sobre as restrições ao ingresso de refugiados judeus no Brasil. Mas, bem ao contrário do que supõem alguns, as ligações entre a América Latina e o nazi-fascismo ainda permanecem na fria penumbra dos cofres, das caixas, das gavetas fechadas à chave.


Missão no Reich, Glória e Covardia dos Diplomatas Latinos-Americanos na Alemanha de Hitler desvenda uma parcela significativa desses segredos, recorrendo à metodologia da análise dos telegramas, ofícios, relatórios, cartas e anotações pessoais dos representantes latino-americanos que serviram em Berlim e em outras importantes cidades européias, ao tempo de Hitler e de seu alter ego italiano, Mussolini. Não foi, essa arte de investigação da verdade, o seu único trunfo. Tão importante quanto ela foi buscar as pistas iniciais na Europa e nos Estados Unidos – em Austin (Texas), Munique, Paris, Roma –, para só depois completar a investigação através de abordagens pontuais, objetivas, nos serviços diplomáticos latino-americanos.


As descobertas de Missão no Reich destroem a tese de historiadores preconceituosos, de que Berlim ignorava a América Latina – ou desprezava sua importância para um eventual esforço de guerra. Suas páginas mostram com clareza que, ao menos sete anos antes de entrar pela primeira vez em seu amplo gabinete da Chancelaria do Reich, o extremista de direita Hitler já ouvira relatos detalhados sobre o Brasil. E ainda durante a sua campanha pelo poder, escutara dissertações acerca dos minerais bolivianos, da amizade histórica que unia os chilenos aos alemães, do firme progresso da Argentina, do sentimento antiamericano arraigado nos mexicanos. Goering, o piloto-herói e extrovertido do círculo íntimo do Führer, também ouvira – e lera – sobre os sul-americanos. Schacht, o presidente do Reichsbank, pensava até em investir nos garimpos da Colômbia.


Não é de estranhar, portanto, que depois de ter dado o primeiro passo no sentido de preparar a vingança contra os vencedores da I Guerra – sua retirada da Liga das Nações, no início do segundo semestre de 1933 – o governo Hitler tenha levado menos de seis meses para organizar a viagem à América do Sul de um grupo de peritos em comércio internacional. Hermann Goering, o aviador que controlava as importações de mercadorias de valor estratégico (leia-se suprimentos de guerra) demonstrava interesse especial no potencial econômico do Peru.


Há ainda milhares de importantes mistérios que só poderão ser desvendados através de uma apuração persistente. Em 1939: o Ano das Esperanças Mortas, volume que em 2009 se seguirá ao Missão no Reich, relatando como os diplomatas latino-americanos descreveram para os seus superiores a crise que desaguou na invasão da Polônia, vêm à tona os documentos em que diplomatas latino-americanos lotados em Varsóvia designavam as residências de judeus ricos na cidade como sede de suas representações diplomáticas e consulares. Os certificados foram datados do dia em que esses diplomatas se retiraram da capital sitiada pelos alemães, e supostamente conferiam certa inviolabilidade aos imóveis, contra os desmandos dos invasores. Mas quais teriam sido os critérios de sua outorga? Um novo achaque contra os judeus desesperados?


E o que dizer dos representantes latino-americanos cujos nomes aparecem numa lista elaborada em agosto de 1943 por diplomatas do III Reich, como sendo a dos diplomatas em postos europeus que deveriam ser liberados para voltar aos seus países, a fim de continuar a propaganda nazista na parte pobre da América? Agosto de 1943! As Américas já haviam rompido relações com Berlim há um ano e meio, e ainda havia latino-americanos que eram considerados pelos hitleristas como merecedores de confiança...


Missão no Reich, que vêm à luz com o selo da Odisséia Editorial, abarca o período conhecido como a “Era Dourada” do nazismo. A fase (até março de 1939) em que Hitler conquistava povos e territórios sem guerra, em que a nata do nazismo ainda se divertia em banquetes seguidos de música, balés e óperas. Eram os dias em que o Ministro Plenipotenciário da Bolívia, por exemplo, atendia os convites do Protocolo alemão de braços não apenas com a sua mulher, mas também com a irmã dela (o que intrigava seus anfitriões). Nas ruas, confundidos pelos milicianos hitleristas com o estereótipo do judeu – testa alta, nariz adunco e orelhas de abano – alguns outros diplomatas latino-americanos eram, vez por outra, surrados sem dó. Mas a falta dos meios de comunicação instantâneos favorecia a tarefa das Chancelarias da América Ibérica para abafar esses casos. Agiram dessa forma, entre outros, os serviços diplomáticos do México, do Peru, da Colômbia e do Brasil.


Em junho de 1933, o líder sindicalista Ley, que Hitler distinguia com sua amizade, irritou-se, em Genebra com a falta de apoio ao seu nome, para integrar as comissões da assembléia da Organização Internacional do Trabalho. E reclamou com jornalistas dos colegas estrangeiros que o boicotavam: “Ouçam bem: entre eles estão Cuba, Uruguai e Bolívia e não sei quantos idiotas sul-americanos mais. Acreditem que o delegado fascista (italiano) e eu temos atrás de nós mais milhões de homens do que toda essa bolha de sabão”.


As 540 páginas de Missão no Reich guardam dezenas de episódios como esse. E muitos outros que falam sobre diplomatas latino-americanos que resistiram ao exibicionismo dos nazistas, que socorreram judeus em desafio à mais perfeita máquina jamais montada para vigiar, investigar, deter e fazer desaparecer seres humanos.


É do dramaturgo francês Racine o alerta: “não há segredos que o tempo não revele”. Especialista na alma das mulheres e nas confissões do amor, Jean Racine, no século 17, não se referia, é certo, às informações confidenciais entre governos. Mas sua advertência não deve ser desprezada.


Afinal, os fatos históricos, em qualquer campo da atividade, são derivados do comportamento dos homens. As páginas de Missão no Reich, que a partir de 10 de outubro estarão nas livrarias, provam isso.


*Roberto Lopes é jornalista e pesquisador do Laboratório de Estudos da Etnicidade, Racismo e Discriminação do Departamento de História da Universidade de São Paulo.


ROBERTO LOPES*


Saiba mais sobre o livro Missão no Reich


Veja mais:

Carrascos no século 20, Adolf Hitler e seus comandantes, em foto de 1933, são protegidos pelos atuais governos da América Latina que não abrem os arquivos do período com medo de exibir seu passado nazista

Diplomatas brasileiros fazem pose, em Berlim, em 1917

Sala de estar da embaixada brasileira em Berlim, nos anos 1930

Roberto Lopes é autor de...

... Missão no Reich, Glória e Covardia dos Diplomatas Latino-Americanos na Alemanha de Hitler (Odisséia, 540 páginas R$ 79,90)

domingo, 23 de novembro de 2008

Revelações sobre «operação papéis falsos» para salvar judeus

Memórias de Mirjam Viterbi Ben Orin na Itália do nazi-fascismo


ROMA, domingo, 23 de novembro de 2008 (ZENIT.org).- Em sua edição diária de 17-18 de novembro de 2008, o jornal vaticano L'Osservatore Romano revela tudo o que um bispo católico, de forma heróica, fez por uma menina judia, que escreve suas memórias, e por sua família perseguida pelas leis raciais nazi-fascistas.


«Recordo a grande simplicidade e a pureza do seu olhar, algo bom e ingênuo que parecia liberar-se, junto a uma grande força, de cada gesto, de cada palavra sua. Na sombra e no silêncio das grandes estâncias, a figura do bispo dava segurança, como algo em que a pessoa podia se apoiar.»


O prelado de quem se fala é Dom Giuseppe Placido Nicolini, e quem recorda sua figura, mais de 60 anos após o encontro, é Mirjam Viterbi Ben Horin. Era 1943 e ela uma menina que, com seus pais e irmã, pôde liberar-se da perseguição nazi-fascista em Assis, graças à organização de socorro aos judeus posta em prática precisamente pelo bispo com a ajuda de dois sacerdotes em especial: Pe. Aldo Brunacci e o Pe. Rufino Nicacci.


Os três protagonistas do acontecimento foram reconhecidos como «Justos entre as Nações» pelo museu da memória judaica de Jerusalém, Yad Vashem. Mas este documento constitui um ulterior tijolo para a reconstrução da verdade histórica daqueles anos trágicos.


Cada relato revela algo inédito – ainda que só seja do ponto de vista do narrador – junto à gratidão por aquela ajuda desinteressada, não isenta de riscos. Precisamente o reconhecimento impulsionou Mirjam Viterbi Ben Horin a divulgar sua recordação, filtrada pelo olhar de uma menina.


Mirjam Viterbi Ben Horin escreveu em italiano o livro «Com os olhos de então» («Con gli occhi di allora», Morcelliana, 2008), no qual narra sua história de menina judia que, após as leis raciais de 1938, foi obrigada a deixar a casa de Pádua e a refugiar-se com a família em Assis, entre 1943 e 1944.


E lá descobriu a existência de homens e mulheres que não renunciaram à sua própria humanidade, que não se subtraíram ao dever do bem, ainda conscientes de que aquilo teria podido custar-lhes a vida.


«Escrever estas páginas é também a maneira com que hoje agradeço todos aqueles que me fizeram sentir que a vida, inclusive nos momentos mais escuros, pode ser bela, se alguém está perto, estende-nos a mão ou simplesmente, inclusive com seu próprio silêncio, está junto de nós; alguém que com a sua presença rompe a bolha de nossa solidão e do medo.»


A figura central do relato é a do bispo, narrando como se fosse hoje o primeiro encontro com a família Viterbi: «Papai e mamãe lhe explicaram quem éramos – recorda Mirjam – e lhe entregaram os poucos objetos judaicos que nos haviam acompanhado desde Pádua e que, se fossem descobertos, teriam podido denunciar nossa identidade».


«Dom Nicolini lhes recolheu tudo com atenção e delicadeza, garantindo que colocaria os objetos em um lugar seguro pessoalmente. Com efeito, como depois se soube, acostumava escondê-los ele mesmo na parte subterrânea do palácio episcopal, tampando a entrada depois ele mesmo, enquanto Dom Aldo Brunacci iluminava o lugar com um candeeiro.»


Uma vez postos em segurança, revela Mirjam, o seguinte objetivo era conseguir «papéis falsos», algo «essencial para nosso futuro, de que se teria ocupado mais diretamente Dom Aldo».


O principal problema para os judeus era a questão dos documentos. Era preciso criar documentos falsos, e normalmente se usavam nomes de pessoas residentes em áreas da Itália meridional, já libertadas, onde era mais difícil efetuar controles. Para tal fim, por indicação do bispo, colocaram-se em contato com um impressor declaradamente comunista, Luigi Brizi, que aceitou, envolvendo inclusive seu filho Trento, apesar dos riscos de tal atividade.


Dom Brunacci relatou muitas vezes como nasceu a organização. Na 3ª quinta-feira de setembro de 1943, após a acostumada reunião mensal do clero, que acontecia no seminário diocesano, o bispo o chamou à parte junto à capela e, mostrando-lhe uma carta da Secretaria de Estado, disse-lhe: «Temos de organizar-nos para prestar ajuda aos perseguidos e sobretudo aos judeus, esta é a vontade do Santo Padre Pio XII. Tudo deve ser feito com a máxima reserva e prudência. Ninguém, nem sequer entre os sacerdotes, deve saber».


Seguindo seus direcionamentos, o bispo procurou coordenar os esforços e sobretudo transmitir um exemplo aos fiéis. «Não se tratava apenas – afirmou recentemente o secretário de Estado de Bento XVI, cardeal Tarcisio Bertone – de organizar burocraticamente a busca dos dispersos e a assistência aos presos.»


Desta indicação geral e da diretiva de Dom Nicolini, nasceu em Assis o Comitê de Assistência aos Desalojados, um nome para uma atividade de alto risco. O convento das clarissas de São Quirico se converteu no quartel general da organização. Aqui – como nas hospedarias das coletinas (da família religiosa inspirada em Santa Clara de Assis), clarissas, estigmatinas (da família franciscana), religiosas capuchinhas alemãs e beneditinas de Santo Apolinário –, os perseguidos eram albergados até que se conseguisse encontrar para eles novos documentos de identidade, graças aos quais obtinham as carteiras de alimentação e podiam morar em um hotel ou em casas privadas.


Bruno Angeli, outro judeu foragido com a família, «foi o primeiro que nos falou de uma organização que ajudava de forma extraordinária todos os judeus que chegavam a Assis – relata Mirjam –, proporcionando inclusive documentos de reconhecimento com generalidades falsas, ou seja ‘árias’».


«A todos os conventos, inclusive os de clausura, foi enviada uma ordem de abrir suas portas aos perseguidos para hospedá-los. E nossa identidade religiosa era respeitada até tal ponto que, poucos dias antes, no final do jejum de Kippur, as clarissas do Mosteiro de São Quirico prepararam uma grande mesa com flores, querendo servir elas mesmas a comida que concluía a longa jornada de oração e penitência.»


O Pe. Vincenzo, do convento de São Damião, se aproximou deles e disse à família Viterbi: «Se tendes um amigo judeu, dizei-lhe que venha ao nosso convento e que vista o hábito dos frades». Os Viterbi já sabiam do que se tratava, pois era uma orientação do padre guardião, Nicacci.


Mas Mirjam e seus familiares não se refugiaram no convento, e sim em casas privadas. Sempre preparadas, contudo, para escapar imediatamente.


«Naquele período – narra Mirjam – eu controlava cada vez mais atentamente minha maletinha, sempre preparada em um lugar, especialmente quando pela tarde ouvia um caminhão deter-se em frente da casa, ou o ruído das botas no chão. Sabia o que havia acontecido a outros e o que podia acontecer conosco. Não me sentia culpada de estar viva; não; mas... até quando? Com aquelas malas alinhadas, eu creio que comecei a compreender então, talvez sem perceber plenamente, que na vida é preciso estar sempre dispostos a partir. Não se sabe para onde. Não se sabe por quê.»


Mas as coisas em um certo momento pareceram precipitar-se. Os nazi-fascistas intensificaram os controles.


E mais uma vez nas lembranças da menina emerge a figura de Dom Nicolini: «Meu pai foi pedir conselho ao bispo e pedir-lhe se, em caso de extrema necessidade, poderia acolher-nos no bispado, que já era refúgio de um incrível número de desalojados e perseguidos. Dom Nicolini sorriu, com aquela expressão bondosa sua: ‘Só restam meu dormitório e o apartamento – disse com espontaneidade –, mas posso muito bem ficar com o apartamento, e o dormitório eu deixo para vocês’. Papai, diante da oferta tão generosa, não se sentiu capaz de aceitar, obviamente».


A atividade de ajuda aos judeu não passou totalmente despercebida. Dom Brunacci foi preso pela polícia fascista, que o esperou em frente de casa. Foi levado a Perúgia pelo prefeito Rocchi e liberado cerca de dez dias depois, com a condição de que abandonasse Assis e fosse à Cidade do Vaticano. Aquela notícia criou inquietude entre os judeus refugiados na cidade, mas felizmente não aconteceu nada, até que chegaram os libertadores, na manhã de 17 de junho de 1944.


Mais de 300 judeus se salvaram da deportação graças ao bispo, aos dois sacerdotes e às pessoas que apoiavam à organização de diversas formas.


Acabada a guerra, Mirjam e sua família tentaram voltar a Pádua. «Nossa casa havia sido incendiada – recorda – e a meu pai não restou outra possibilidade senão desfazer-se dela, com um agudo sentimento de laceração. Foi reintegrado na Universidade e na Academia Paduana, mas não teve forças para voltar a morar em Pádua, ainda estando afetivamente muito ligado a ela. Reiniciou seu trabalho na Universidade de Perúgia. Com a incerteza de não saber onde estabelecer-nos, permanecemos em Assis durante 7 anos. Em 1950 nos transferimos a Roma».


Foi precisamente o pai de Mirjam, Emilio Viterbi, que expressou publicamente – como testificam outros documentos – a gratidão dos salvos: «Nós, os judeus refugiados em Assis, não nos esqueceremos nunca do que se fez por nossa salvação. Porque em uma perseguição que aniquilou seis milhões de judeus, em Assis não afetou nenhum».


Na cidade de São Francisco – escreve Mirjam Viterbi Ben Horin –, «o ‘Pax et Bonum’ se converteu para mim na saudação mais espontânea, não sabia que era precisamente como dizer ‘shalom’ em hebraico». Deste modo, confessa, «realizou-se um milagre de amor». Um milagre que tinha os rostos de Dom Nicolini e de seus sacerdotes colaboradores. Rostos que os olhos daquela menina não esqueceram.