Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado IV - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.
Escritor israelense se diz sem paciência para guerras inúteis e defende diálogo
ENTREVISTA A.B. Yehoshua
JERUSALÉM. Autor de 11 livros, o escritor A.B. Yehoshua foi um dos renomados intelectuais israelenses que protestaram publicamente contra a ofensiva militar na Faixa de Gaza. Seguindo o exemplo de Amos Oz, Shulamit Alonie David Grossman , Yehoshua, de 72 anos, quebrou o silêncio e pediu o fim da operação num artigo publicado no jornal italiano “La Stampa”. Dizendose cansado e sem paciência para o que chama de guerras inúteis, ele não escondeu a irritação e disse ao GLOBO que já é hora de normalizar as relações com os vizinhos do outro lado da fronteira.
Renata Malkes Especial para O GLOBO
O GLOBO: Embora o senhor tenha dito que a intervenção militar em Gaza foi uma necessidade, agora já defende seu fim.
Por quê? A.B. YEHOSHUA: Era uma necessidade porque Israel precisava reagir. Não se pode ser bombardeado com 70 mísseis por dia e ficar calado. Não se pode permitir que milhares de civis passem os dias enclausurados em abrigos antiaéreos no sul do país. Mas chega de violência! Somos todos vizinhos, quanto menos sangue, melhor será para nosso futuro.
É preciso negociar um cessar-fogo o mais rápido possível.
Israel precisa de reações mais proporcionais e o Hamas deveria ter parado com o lançamentos desses mísseis há muito tempo. O que eles ganham com isso? Por que seguem neste jogo tolo? E qual é a sua resposta para essas questões? YEHOSHUA: Não sei. Desde 2005, Israel deixou Gaza fisicamente, não há colonos ou presença militar. Se Gaza continua isolada e com os postos de controle fechados é porque o lançamento de mísseis não pára. Nunca parou por muito tempo. Gostaria que um cessarfogo verdadeiro, com garantias e mediadores internacionais, fosse alcançado, que as fronteiras fossem reabertas e que os trabalhadores de Gaza voltassem a buscar seu sustento em Israel, como no passado.
Não gosto do jogo diplomático vazio. Poderíamos negociar com o Hamas direta ou indiretamente a qualquer momento, isto é o que menos me incomoda como israelense.
O senhor mora em Haifa.
Durante a segunda guerra do Líbano, em 2006, ficou sob estado de alerta, ameaçado pelos mísseis do Hezbollah, e conheceu de perto o medo das explosões. Mesmo de longe, a violência em Gaza tem afetado seu dia-a-dia?
YEHOSHUA: Estou simplesmente incomodado com tanta burrice. Acompanho o noticiário o tempo todo, como todo o resto dos israelenses, mas estou velho e cansado.
Já presenciei várias guerras em Israel e me prometi que não fico mais preocupado, irritado ou ansioso. Tento não me aborrecer como no passado, mas admito que os últimos acontecimentos em Gaza têm me perturbado.
Que mensagem pessoal o senhor poderia enviar aos moradores de Gaza?
YEHOSHUA: Que parem de apoiar o Hamas. Gostaria que eles se perguntassem o que o grupo radical islâmico lhes proporcionou nos últimos dois anos. Segurança? Desenvolvimento econômico? Tranqüilidade? A resposta é nada: eles tomaram um rumo errado, fizeram escolhas erradas. A vida na Cisjordânia é muito melhor, e eles sabem disso. Cidades como Ramallah tiveram sua qualidade de vida melhorada.
Nem mesmo os palestinos da Cisjordânia são capazes de expressar uma solidariedade verdadeira aos moradores de Gaza. Espero que sejam capazes de voltar atrás e optar por um caminho novo e alternativo.
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Até a sogra surda ouviu explosão
São 12h25m e a cidade está tremendo, literalmente e figurativamente.
A manhã começou bem e quieta o suficiente já que não houve alertas durante a noite, o que nos deu uma falsa esperança de que o pior tinha passado. Isso até o primeiro alarme do dia, às 9h15m da manhã.
Nós descemos as escadas com os cachorros até o hall da minha sogra. Ela já nos esperava com a empregada, que murmurava alguma coisa em russo como “ói, ói, ói”. Foi então que uma forte explosão sacudiu os ares. Foi tão alta que minha sogra ouviu, e sem os aparelhos auditivos ela não escuta nada.
Esse ataque não foi muito longe de nossa casa, aconteceu a uns dez minutos a pé.
Depois houve mais 12 foguetes, sendo o último ainda mais perto de casa.
O Comando da Frente Interna nos disse para ficar em casa; então não vou ao trabalho hoje, mesmo já estando vestida e pronta para sair.
Shani também não vai ao trabalho hoje. As ruas estão desertas.
Uma amiga devia se casar amanhã nas cercanias de Ashdod, mas o Comando cancelou qualquer aglomeração com mais de 40 pessoas e ela desmarcou o casamento até o tumulto passar.
As lojas estão fechadas, a Universidade de Ashkelon cancelou as aulas e, apesar de o sol brilhar, este não é um dia de sol.
Minha amiga Leone tem razão: se estivéssemos tentando matar civis, com nossos ataques aéreos, 300 seria um número vergonhoso! Já teríamos matado milhares e milhares. Mas isso passa despercebido.
Estamos apenas esperando pelo próximo (ataque).
Recebemos convites de amigos e parentes distantes e até de alguns alunos meus da universidade para ficar na casa deles fora do raio de alcance dos foguetes. Mas por enquanto preferimos ficar, é muita dor de cabeça.
MORADORA DE Ashkelon, em depoimento anônimo reproduzido pelo jornal “The Jerusalem Post”
O Globo, Mundo, páginas 26, 27, 28 e 29, em 31/12/2008.
Antes que você se apresse a considerar iníquos os letais ataques aéreos israelenses contra a faixa de Gaza, seria bom que respondesse a uma pergunta: você já foi a Israel? Se foi, você talvez compreenda o quanto o país é pequeno e desprovido de defesas naturais. Você teria percebido que, do norte, sul e leste, Israel está vulnerável ao assédio daqueles que controlam o terreno dominante e as rotas de fuga. E perceberia quanto medo os israelenses ainda sentem, mesmo passadas três gerações, de que bastariam algumas horas de ofensiva para arremessá-los todos ao mar.
E acrescento uma segunda questão, se me permitem. No fundo, você acredita que o Estado de Israel tem direito a existir ou sente que o mundo seria um lugar mais simples e harmonioso caso as potências vitoriosas na Segunda Guerra Mundial tivessem encontrado outra maneira de purgar suas culpas sem que isso tornasse necessário aceitar a criação de uma pátria judaica no território da Palestina, até então sob mandato britânico?
Insegurança Bem, eu estive em Israel, percorri o país de um lado a outro em momentos mais pacíficos; conversei com líderes nacionais e com o povo. Minha impressão dominante não é a de instintos belicosos, mas a de insegurança. Você talvez desdenhe como paranóicas as preocupações de um país desenvolvido que neste ano dedicou 16% de seu orçamento à defesa, tem os EUA como protetor e desenvolveu armas nucleares. Mas é seu dever perguntar o que veio primeiro: o medo da aniquilação ou o desenvolvimento de uma capacidade militar capaz de preveni-la? Quanto ao direito de Israel a existir, eu questiono a sabedoria, e muito mais a justiça, de instalar um novo Estado em terra sobre a qual outro povo alega direitos. Um país estabelecido artificialmente, sem levar em consideração defesas naturais e que não foi libertado por sua própria força, certamente será não apenas vulnerável como uma fonte de fricção enquanto persistirem as memórias populares.
Essa desaprovação inerente talvez explique a tendência de boa parte do mundo ocidental a culpar Israel quase que antes de o país fazer qualquer coisa. Tanto no caso da ferozmente condenada invasão israelense ao Líbano, dois anos atrás, quanto agora nos ataques aéreos a Gaza, porém, os mesmos dois fatores precisam ser considerados: por um lado, a sensação continuada de insegurança entre os israelenses; por outro, o direito internacionalmente reconhecido do país a existir.
O ponto é que, tendo endossado a criação de Israel, as Nações Unidas têm a obrigação de garantir que sua existência continuada seja possível. Vezes sem conta, porém, toda espécie de garantia internacional se provou inadequada. Israel não demorou a aprender que teria de tomar conta de si mesmo.
É um paradoxo que um dos mais vulneráveis Estados do Oriente Médio tenha, assim, ganho reputação de agressor e de adepto da intimidação. E os inimigos de Israel tampouco se abstiveram de explorar alguns aspectos dessa vulnerabilidade.
A guerra do Yom Kippur, em 1973, recebeu este nome porque Egito e Síria lançaram seu ataque em um dos mais sagrados feriados judaicos. Todos os tratados de paz que Israel conseguiu negociar com seus inimigos, até o momento, foram obtidos de uma posição de força militar, ao menos aos olhos de um observador israelense. A retirada das forças israelenses de Gaza, na metade de 2005, foi um raro episódio em que Israel aceitou um risco como primeiro estágio de um programa de retiradas de territórios ocupados adotado, sob considerável risco político, pelo então premiê Ariel Sharon.
Apostas erradas
A aposta israelense era a de que, se deixada no controle, a Autoridade Palestina se provaria capaz de impedir ataques com foguetes ou de outra espécie contra Israel. A aposta não deu resultado. A Autoridade Palestina, apesar de seus melhores esforços, não conseguiu manter o controle sobre os extremistas. Uma eleição foi realizada e vencida pelo Hamas. Impedido de assumir, ou até mesmo compartilhar, o poder na Autoridade Palestina como um todo, o Hamas tomou o poder em Gaza. Os ataques esporádicos com foguetes contra o território israelense foram ganhando intensidade. No começo deste mês, o Hamas anunciou que não renovaria um cessar-fogo assinado seis meses atrás. Depois de novos ataques com foguetes, Israel, que está em meio a uma campanha eleitoral disputada, decidiu recorrer à força. Uma vez mais, os palestinos de Gaza transformaram em símbolo de honra a sua posição de vítimas.
Seria razoável perguntar de que maneira as coisas poderiam ter transcorrido, diante de algumas mudanças. Caso os EUA e Israel tivessem reconhecido a vitória eleitoral do Hamas; caso o acordo de divisão de poder entre Hamas e Fatah tivesse dado certo; caso Israel não tivesse fechado os pontos de entrada em Gaza. Mas as coisas não transcorreram assim.
Sem garantia
Agora, como na guerra do Líbano, os críticos de Israel acusam o país de ter usado força "desproporcional" em Gaza; "proporcional", presumivelmente, seria arremessar alguns foguetes contra áreas civis de Gaza de maneira aleatória. Israel poderia retorquir, e não sem razão, que, se o Hamas deseja guerra, terá guerra: os israelenses estão sempre dispostos a combater por sua futura segurança. O que esses mesmos críticos ocidentais deveriam estar se perguntando, no entanto, é por que os israelenses se sentem ameaçados a ponto de recorrer à força, sabendo muito bem que isso valerá opróbrio internacional ao país.
A resposta é que se, no passado, o mundo externo tivesse se disposto a garantir a segurança israelense, então nem Israel nem os palestinos de Gaza teriam precisado recorrer à violência neste final de ano. Os excessos em Gaza são conseqüência de um fracasso muito anterior: o fracasso quanto a impor as leis internacionais e garantir verdadeiramente o direito de Israel a existir.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Ashkelon hospital moves its essential departments underground: A situação em Ashkelon é tão grave que as alas de maternidade e atendimento a idosos do hospital Barzelai foram removidas para os bunkers do hospital. A cidade também está sendo atingida por foguetes militares Katiusha (INFORME FIERJ 404, em 29/12/2008).
BarzilaiHospital put emergency plan into operation in wake of air Israeli strikes on Gaza. Fearing missile strikes from the Gaza Strip, Ashkelon's BarzilaiHospital on Saturday moved its most essential departments into an underground bomb shelter. The hospital in this city of 120,000 people about 17 kilometers (11 miles) north of the Gaza border has sent half its patients home to get them out of harm's way. Those remaining have been placed in cramped rooms previously used for storage. In February, a rocket from Gaza landed adjacent to the hospital's helicopter pad and in May a rocket crashed into a busy shopping mall in the city, injuring 14 people. After Israel an air offensive against Palestinian militants in Gaza on Saturday, Barzilai put its emergency plans into operation. >>> Leia mais, clique aqui.