Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado IV - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.
¿Qué futuro le espera a Hamás?: La imagen de la organización sale reforzada tras el ataque israelí sobre Gaza, pero en la práctica no obtiene ventaja ni en el exterior ni ante Fatah.
Chanceler diz ser a única pessoa capaz de formar governo de coalizão atraindo trabalhistas e Likud
ENTREVISTA Tzipi Livni
NETANYA, Israel. “O Hamas atenta contra o processo de criação de dois Estados, um israelense e um palestino, e não é parte deste esforço. Pelo contrário, o boicota”, afirma em entrevista exclusiva a ministra de Relações Exteriores e candidata à primeiraministra, nas eleições de 10 de fevereiro, Tzipi Livni, de 50 anos. “Eu dialogo com os setores pragmáticos palestinos para conseguir um acordo de paz. Mas, ao mesmo tempo, tenho que usar a força contra os radicais. O Hamas é uma organização terrorista.” Os assessores da israelense, que pretende se tornar a segunda mulher a liderar o governo, manifestam sua preocupação pelo que definem como “um sentimento anti-israelense” que reina em alguns países e pela “falta de compreensão sobre o tipo de regime ditatorial que defendem os integrantes do Hamas”.
Por isso, Livni decidiu romper o silêncio dos últimos dias com a imprensa estrangeira.
Henrique Cymerman Especial para O GLOBO
O GLOBO: Terça-feira foi o Dia Internacional do Holocausto e muitos acusam Israel de desferir uma ofensiva genocida contra a Faixa de Gaza.
TZIPI LIVNI: Qualquer tipo de comparação entre o Holocausto, a época mais horrorosa na História da Humanidade, e uma situação em que um Estado se vê obrigado a defender seus civis é inconcebível.
Diria aos que fazem essa comparação que nunca a fizessem. Nós tentamos evitar ataques terroristas contra nossos cidadãos. Os soldados israelenses estão lutando contra o terror. Lamentavelmente, os terroristas se escondem atrás dos civis, e não existe nenhuma comparação — nem estou disposta a aceitá-la — entre terroristas, que tentam convencer crianças a matar, e os soldados israelenses, que lutam contra o terrorismo. Lamentavelmente, por erro, às vezes civis morrem. Não posso evitar de sentir compaixão nesses casos. No entanto, gostaria que a comunidade internacional julgasse Israel de acordo com os mesmos valores que são manifestados em diferentes partes do mundo, na maioria do mundo livre. Não há lugar para a comparação entre um assassino e alguém que mata por engano. Os terroristas são assassinos, os soldados israelenses lutam contra o terror, embora algumas vezes, ao fazêlo, infelizmente produzam vítimas civis.
Seu ministério denuncia o aumento de ataques e de manifestações antissemitas em toda a Europa. Qual a sua opinião sobre isso?
LIVNI: Estou consciente de que em alguns países o antissemitismo cresce a cada dia, muito concretamente na Europa.
Mas este não é um problema israelense ou judeu, e sim um problema da comunidade e dos líderes dos países onde esse fenômeno ocorre. Eu creio que a comunidade internacional tem a responsabilidade de atuar segundo seus valores e frear essa perigosa onda.
Mas voltando a Gaza, mesmo em Israel há pessoas que propõem o diálogo com o Hamas...
LIVNI: Eles não estão dispostos a reconhecer Israel, e apoiam o uso da força e da resistência. É preciso entender: vivemos num aquário em que todo o mundo árabe nos olha. Por isso, toda essa história de dialogar com o Hamas é, na minha opinião, irrelevante.
Nestas eleições, seus rivais, o trabalhista Ehud Barak e o conservador Benjamin Netanyahu, são ex-oficiais do Exército que lutaram na unidade de elite “Sayeret Matkal”. O Kadima teme que a ofensiva em Gaza tenha prejudicado a possibilidade de uma mulher vencer as eleições, porque, segundo dizem, a guerra é algo machista...
LIVNI: O governo não pertence aos generais. Penso que serei uma primeira-ministra diferente, e digo aos israelenses que em 10 de fevereiro eles têm a possibilidade de fazer História. Estive em Washington pouco antes da posse do presidente Barack Obama e vi como em cada canto havia cartazes, camisetas, pratos e chocolates com sua foto. Parece-me maravilhoso que todo um povo aguarde com tanto entusiasmo um líder que ganhou as eleições, apesar de caber-lhe uma época tão complicada.
Quando ele veio a Israel durante a campanha eleitoral, fomos juntos a Sderot, a cidade mais agredida pelos foguetes do Hamas, e constatei seu grande interesse por nossa realidade e, inclusive, por questões pessoais, de cada um. Quanto a Netanyahu e Barak, creio que sou a única que pode formar um governo de unidade que inclua ambos, já que o Kadima é de centro. Nós representamos a via do meio, que pode ser um denominador comum para aqueles que estão na centroesquerda ou na centro-direita.
Além disso, juntos, os três podemos impedir os partidos setoriais (leia-se os ortodoxos e ultra-ortodoxos) de aproveitarem seu peso eleitoral para obter mais benefícios para seus eleitores.
Premiê da Turquia, que medeia negociação entre Israel e Síria, se retira de debate após Shimon Peres defender ação em Gaza
Discussão vira comício em que presidente de Israel é acusado de levar palestinos à fome e responde culpando Hamas e Irã por conflito
CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A DAVOS
A guerra em Gaza chegou ontem aos usualmente mansos salões de Davos, na forma de um agitado bate-boca entre o presidente de Israel, Shimon Peres, e o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, que abandonou o plenário pisando duro e anunciando que nunca mais voltaria a Davos, a cidadezinha suíça que é o palco, todo janeiro, dos encontros do Fórum Econômico Mundial.
"Justamente o melhor amigo de Israel entre os países muçulmanos", balançava a cabeça Gareth Evans, presidente do Internacional Crisis Group, para assinalar uma possível consequência política do entrevero. De fato, quatro dias antes dos primeiros bombardeios a Gaza, o premiê israelense Ehud Olmert estava na Turquia, em negociações indiretas com a Síria.
O debate sobre Gaza acabou se transformando em um comício em que Peres ficou em nítida desvantagem, já que a ação de Israel na faixa litorânea governada pelo Hamas foi duramente atacada não só por Erdogan mas também por Amr Mussa, o secretário-geral da Liga Árabe, e até pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
Ban criticou acima de tudo o ataque às instalações da ONU em Gaza, por ele qualificado de "chocante, alarmante e inaceitável". A crítica já havia sido feita antes, assim como as que Mussa e Erdogan fizeram, mas o problema é que, desta vez, estava presente uma alta autoridade israelense.
"Prisão a céu aberto"
O premiê turco, falando alto e em turco, criticou o embargo israelense a Gaza. "Nem uma caixa de tomate pode entrar sem autorização de Israel", afirmou, para emendar afirmando que o território era "uma prisão a céu aberto".
Atacou também a destruição provocada por Israel, ao afirmar que "nem US 1 bilhão ou US$ 2 bilhões bastarão para a reconstrução", em alusão aos US$ 613 milhões que Ban Ki-moon mencionara como primeira quantia a ser levantada para o território palestino.
Erdogan fez questão de defender um tema caro aos judeus, ao afirmar que sempre dissera que "o antissemitismo é um crime contra a humanidade". Mas engatou: "A islamofobia também é um crime contra a humanidade".
Mussa, por sua vez, negou que o ataque israelense tivesse sido uma reação ao contínuo disparo de foguetes pelo grupo fundamentalista Hamas. Disse que o problema de fundo é "a ocupação militar estrangeira" (israelense, no caso). E, também, a fome a que os habitantes são levados pelo bloqueio.
Peres foi o último a falar e usou tom de voz idêntico ao de Erdogan, como se ambos estivessem em um comício. Rebateu as acusações, leu trechos da carta de constituição do Hamas, que pede a morte de todos os judeus, e gritou: "A tragédia de Gaza não é Israel, é o Hamas, uma ditadura feia, muito feia".
Erdogan pediu direito de resposta, ganhou um minuto do mediador David Ignatius, editor-associado do "Washington Post", mas foi além, sempre em turco, que a intérprete não tinha condições de verter para o inglês, pela rapidez com que o premiê falava e pelas intervenções contínuas de Ignatius.
O premiê acabou levantando-se e saindo, sem cumprimentar Peres ou Ban. Só parou para receber caloroso aperto de mãos de Amr Mussa.
Depois, em rápida entrevista coletiva, Erdogan disse que Peres mentira sobre a guerra, mas deixou claro que sua irritação maior era com o mediador que lhe dera metade do tempo destinado ao israelense. "Assim não dá para ter uma discussão séria", afirmou.
Antes do incidente, Peres havia tocado incidentalmente em um aspecto que é chave para a crônica crise na região, ao dizer que ela se deve "à ambição do Irã de controlá-la". Um andar acima do debate sobre Gaza e meia hora antes, o chanceler iraniano, Manouchehr Mottaki, negava-se por duas vezes a dizer que seu país aceita a solução de dois Estados, o palestino e o israelense.
Em vez de responder, Mottaki sugeriu um plebiscito entre os palestinos para que decidam o que querem.
"Não temos o direito de tomar decisões em nome do povo palestino", afirmou, no que parece um belo exercício democrático, mas tem o grave inconveniente de que, se a proposta fosse levada adiante, os palestinos é que acabariam tomando a decisão a respeito de Israel.
Somados os dois debates, Peres ficou isolado também no quesito Hamas: Mottaki, o chanceler iraquiano Hoshyar Zebari, Mussa e Erdogan defenderam a participação dos fundamentalistas nas negociações de paz.
Conflito em Gaza aquece o Fórum Econômico Mundial: Em Davos, na Suíça, o primeiro-ministro de Israel Shimon Peres discutiu com o representante da Turquia sobre as mortes em Gaza. O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, falou sobre a crise econômica.
Israel deve se limitar a operações aéreas contra pontos determinados na faixa de Gaza. O premiê israelense, Ehud Olmert, afirmou ontem que o ataque a alvos da região são uma ação preliminar e alertou que o país está disposto a dar uma "resposta maior" à morte de um soldado israelense em ataque a bomba na última terça-feira (27).
A avaliação é de Gilberto Sarfati, doutor em ciência política pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). De acordo com ele, Israel retomou os ataques mesmo após ter conseguido, de certa forma, restabelecer uma nova relação com o movimento islâmico radical Hamas.
"Parte da estrutura [do Hamas] foi destruída pelos ataques. Israel conseguiu cumprir seu objetivo de colocar um novo relacionamento com o grupo do ponto de vista de segurança", diz.
Segundo Sarfati, os integrantes do Hamas utilizavam a infraestrutura de mais de 600 túneis para fazer contrabando de armamento proveniente do Irã.
Para o professor, o posicionamento de Israel no conflito nesse momento é para deixar claro que não mais serão aceitos lançamento de mísseis e morteiros de Gaza contra o território israelense.
Olmert disse ao emissário dos Estados Unidos para o Oriente Médio, George Mitchell, que Israel abrirá as fronteiras da faixa de Gaza somente quando o Hamas entregar Gilad Shalit, soldado israelense sequestrado em junho de 2006.
Sarfati enfatiza que a grande ofensiva militar israelense em Gaza, onde em 22 dias de bombardeios consecutivos mais de 1.300 palestinos foram mortos, foi divida em duas fases, como a de ataque aéreo e terrestre que cortou o território da região em três partes.
"Depois começou a se estrangular as principais cidades da faixa de Gaza em uma tentativa de minar a capacidade de ataque que o Hamas conseguiu desenvolver no último um ano e meio", afirma o professor.
Israel exige soldado de volta para reabrir fronteira
Ehud Olmert impõe a condição ao enviado americano. Cessar-fogo volta a ser quebrado
Renata Malkes
Especial para O GLOBO
JERUSALÉM. O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, anunciou que o país só vai permitir a reabertura das fronteiras da Faixa de Gaza quando um acordo for alcançado para a libertação do soldado Gilad Shalit, sequestrado há mais de dois anos pelo Hamas. Na madrugada, a aviação israelense voltou a atacar três alvos na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza e, em resposta, um morteiro lançado pelo Hamas caiu no sul do país, em mais uma quebra de um já frágil acordo de cessar-fogo.
As declarações de Olmert foram feitas durante seu primeiro encontro com o novo enviado especial americano ao Oriente Médio, George Mitchell, e colocaram na berlinda a estreia diplomática da administração do presidente Barack Obama na região.
O grupo pacifista Paz Agora aproveitou ainda a visita de Mitchell para denunciar a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, que, segundo relatório publicado ontem, teriam crescido 60% mais rápido do que ano passado.
— Os postos de fronteira serão abertos apenas para passagem de ajuda humanitária à Faixa de Gaza. É preciso negociar a libertação de Gilad Shalit e a trégua será observada somente se houver a suspensão total do terror em Gaza, sejam foguetes ou morteiros. E o segundo parâmetro é o fim do contrabando de armas — declarou Olmert.
Mitchell chegou a Jerusalém após uma visita ao Cairo, onde se encontrou com o presidente egípcio, Hosni Mubarak. Fontes ligadas à Casa Branca afirmam que o objetivo desta primeira visita é apenas ouvir os lados envolvidos no conflito e receber informações atualizadas sobre as negociações entre israelenses, palestinos e egípcios. Mitchell reuniu-se também com o presidente de Israel, Shimon Peres, e o ministro da Defesa, Ehud Barak, e reiterou que a manutenção do cessar-fogo é “crucial” e que os EUA estão “determinados a trabalhar vigorosamente” pela paz na região. Hoje ele vai à Cisjordânia, para ouvir o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e o premier, Salam Fayyad.
Apesar de muita diplomacia, os resultados práticos da visita ainda não estão no horizonte.
Para analistas, a visita de Mitchell pode ter uma influência decisiva na visão do mundo árabe sobre a nova política externa de Barack Obama.
— É uma visita de cortesia e prova disso foi a primeira entrevista de Obama à rede Al-Arabiya, numa tentativa de acalmar o mundo árabe. Todos os lados envolvidos estão ansiosos para levar as palavras à ação e decifrar os planos da administração americana, mas é cedo. Mitchell está num campo minado, os ânimos ainda estão quentes, e pouco se pode esperar — disse ao GLOBO o analista Ohad Hemo.
Israel anuncia expulsão do embaixador venezuelano Além da instabilidade na Faixa de Gaza, o grupo pacifista Paz Agora alertou sobre outro ponto nevrálgico aos negociadores americanos: o crescimento de 60% de assentamentos judeus na Cisjordânia em 2008.
No campo diplomático, Israel expulsou ontem o embaixador e todo o corpo diplomático da Venezuela. A medida é uma reação ao anúncio do presidente Hugo Chávez de cortar as relações com Jerusalém em protesto à ofensiva em Gaza.