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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 18 de maio de 2008

Choque de identidades

O pensador Tzvetan Todorov fala do palestino Edward Said, que morreu há cinco anos

TZVETAN TODOROV

Edward Said [1935-2003] foi um dos intelectuais mais conhecidos e mais influentes do mundo. Autor de cerca de 20 livros, pareceu viver várias vidas ao mesmo tempo. Crítico literário no início, na veia de Georg Lukács e de Erich Auerbach, ele deveu sua notoriedade a trabalhos sobre as identidades culturais e o encontro das culturas, os nacionalismos e os imperialismos.

Foi também uma das vozes mais ouvidas em favor da causa palestina, mas cuidava para que sua defesa "levasse totalmente em conta o povo judeu e seus sofrimentos, das perseguições ao genocídio". Said nasceu em Jerusalém.

Cresceu no Cairo e estudou em um colégio britânico. Partiu para os EUA aos 16 anos, onde passou pelas universidades de elite de Princeton e Harvard, antes de lecionar, a partir de 1963, em Columbia (Nova York), onde ficou até o fim da vida.

Em seus primeiros anos lá, parece se fundir no molde americano. Mas a Guerra dos Seis Dias (1967) se encarrega de lhe lembrar de sua origem e o leva a buscar um equilíbrio entre as duas vertentes de seu ser, a levantina e a ocidental.

Consegue-o a partir de um livro de 1978, "Orientalismo" [Cia. das Letras], dedicado ao discurso habitual dos escritores, intelectuais e políticos ocidentais sobre "o Oriente".

Permanece ativo até a morte. Muito cedo na vida, Said percebe que é dotado de uma "identidade das mais incertas: um palestino escolarizado no Egito, com prenome inglês e passaporte americano".

Assim, ao final de seus estudos superiores, não sente a menor tentação de voltar "para casa" (coisa que não existe) e compreende "que um retorno ou um repatriamento integral é impossível".

Acaba por se reconhecer na figura do intelectual em diáspora, habitando uma cidade cosmopolita como Nova York. Mas não ignora que, nisso, segue o exemplo de numerosos intelectuais e artistas judeus.

Aceleração de culturas
Descobre que essa experiência encarna um dos traços característicos do mundo moderno: a aceleração dos contatos entre culturas e a pluralidade interna de cada identidade. O "orientalismo" é uma construção artificial, mas o mesmo ocorre com o "ocidentalismo" difundido entre os inimigos do Ocidente. Por isso, Said é adversário da tese do "choque de civilizações".

Se o exílio ocorre em condições favoráveis, oferece várias vantagens. O indivíduo vê cada uma de suas culturas ao mesmo tempo por dentro e por fora, o que lhe permite examiná-las com um olhar crítico.

Said estabelece uma aproximação entre essa condição e a do intelectual em geral. Este último deve idealmente manter-se afastado das autoridades, mas também de todas as afiliações impostas. Defensor veemente do laicismo, adversário de todo nacionalismo, critica com a mesma acuidade o governo dos EUA e a Autoridade Palestina.

Said pagou caro por seu envolvimento: seu escritório na universidade foi incendiado, e ele e sua família receberam diversas ameaças de morte. Apesar disso, manteve a convicção de que "a principal questão que se coloca ao intelectual hoje" continua sendo a do "sofrimento humano".

TZVETAN TODOROV é filósofo búlgaro radicado na França e está lançando no Brasil "O Espírito das Luzes" (ed. Barcarolla).
A íntegra deste texto saiu no "Le Monde". Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Extraído de:
FSP, Caderno +mais!, em 18/05/2008.