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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 9 de março de 2008

1, 7, 8, 9... Hitler

"O Livro Negro da Revolução Francesa" faz revisão da história e sugere que movimento antecipou o nazismo e o anti-semitismo

MONA OZOUF

Esse livro grosso ["Le Livre Noir de la Révolution Française", O Livro Negro da Revolução Francesa], vestido de luto, é recebido do mesmo modo que se descobre na caixa de cartas um ataúde ameaçador.

O ar do tempo soprou sobre esse objeto lúgubre, novo avatar da história justiceira: depois de nos ter obrigado a nos arrepender do tráfico negreiro, do genocídio armênio, da colonização, somos convidados a fazer penitência pela Revolução Francesa [1789].

Assim, aqui desfilam as cabeças na ponta de lanças, os padres massacrados, o calvário do pequeno Luís 17. E, do outro lado -pois toda história negra pede sua biblioteca cor-de-rosa-, Luís 16 - "o único grande homem da Revolução"- e Maria Antonieta -"alma mozartiana, piedosa e heróica".

Ocultar verdades
Portanto, é um livro de época, que sonha com uma sociedade em que a Igreja Católica informaria novamente os quadros da existência coletiva: por trás dele vemos perfilar outro livro negro, desta vez o da laicidade, que deveria agradar ao cônego de Latrão.

Livro de época, ainda, que aponta à punição pública os "historiadores", espécie nebulosa ocupada em esconder, travestir, "ocultar" as verdades desagradáveis, como o sacrifício do rei, "apagado pela normalização histórica".

A Revolução, dizem-nos, gozou até hoje do "singular privilégio de ficar fora do inventário, para sempre intocável". Intocável? Quem pode crer nisso, depois de dois séculos de análises, de processos, de provas esmagadoras exibidas em tribunal e da armada de procuradores, de Joseph de Maistre a Léon Bloy?

Livro de época, ainda, para entoar a canção da moda: do Iluminismo saiu o Gulag, Lênin procede de Rousseau e o totalitarismo nazista tem raízes na Revolução Francesa. Ele inverte radicalmente os princípios, mas aqui ninguém se preocupa com esse detalhe, e a simplificação inspira os trechos mais extravagantes da obra.

Ficamos sabendo que a Revolução Francesa inventou o anti-semitismo, que "o que os revolucionários quiseram -fazer desaparecer os judeus-, Hitler conseguiu na Europa".

Um silogismo implacável preside algumas dessas loucas demonstrações. Como se sabe, reconhecemos os fascistas por alguns traços genéricos: fulgurância, audácia, insolência, laconismo, sobriedade. Ora, Saint-Just possuía essas características; logo, Saint-Just é um precursor do fascismo. Uma casualidade, você disse? Não se engane, "não há casualidade".

Triunfo autoritário
Poderíamos esperar que uma exploração da vertente negra da revolução fizesse surgir grandes questões, ainda abertas: por que os franceses fizeram da rejeição radical de seu passado o princípio da revolução? Por que a concepção autoritária do poder triunfou tão rapidamente sobre a inspiração liberal? E "como fazer a comparação entre a França e os países que se pouparam de uma revolução?", pergunta herdada de Pierre Chaunu (do qual tomamos emprestado um texto do bicentenário que resume a Revolução Francesa em quatro vocábulos: "Rancor, ignorância, vaidade, estupidez").

Mas não esperem ver tratados aqui esses grandes temas. O grupo de "ensaístas", de "dramaturgos", de "historiadores" e de "filósofos" que esse livro reúne não se dedica a compreender, mas a julgar o passado nacional e, para o futuro, a formular votos: primeiro, que "o século 21, ao terminar, veja um retorno da fé cristã"; depois, que surja enfim o princípio salvador capaz de garantir a unidade do país. E "por que não seria um rei?". A obra termina com essa esperança ardente.

Obra cinzenta
O coordenador negligente desse livro obscuro - não se hesita em definir a Revolução como "um prisma que se auto-refrata"-, sentiu a necessidade de algumas grandes assinaturas. Jean Tulard e Emmanuel le Roy Ladurie se prontificaram, sem grande empenho.

O primeiro sobre Napoleão e a Revolução, o segundo sobre o clima: textos honrosos, mas fora do tema, pedras incertas trazidas para o edifício. Sim, Le Roy Ladurie nos informa que fez um tempo horrível em 1788: ondas de calor numa primavera tórrida, granizo e chuvas num verão podre.

A revolução, no entanto, ele reconhece de bom grado, eclodiu por razões complexas, "que não têm nada a ver com nosso atual relato". Uma conclusão que poderia ser adotada por quase todos os contribuintes fatigados de um livro cinzento.


A íntegra deste texto foi publicada na revista "Nouvel Observateur". Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves


LE LIVRE NOIR DE LA RÉVOLUTION FRANÇAISE
Org.
: Renaud Escande
Editora: Editions du Cerf
Quanto: 44, R$ 112 (882 págs.)

ONDE ENCOMENDAR - Livros em francês podem ser encomendados

pelo site www.alapage.com


Extraído de:
FSP, Caderno +mais!, em 09/03/2008.

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