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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 26 de julho de 2008

Clarice de corpo e alma: Fotobiografia contextualiza e ajuda a entender a personalidade da autora

O Globo, Caderno Prosa e Verso, página 5, em 26/07/2008.

Clarice de corpo e alma
Fotobiografia contextualiza e ajuda a entender a personalidade da autora

Marcello Rollemberg

Os olhos amendoados, quase oblíquos (mas nada dissimulados, que estes são de Capitu), as maçãs salientes do rosto, marca registrada eslava, cabelos claros e um ar altivo de eterno mistério. Clarice Lispector (1920-1977) nasceu para a escrita — e obras ímpares da literatura brasileira como “A hora da estrela”, “A paixão segundo G.H” e “A maçã no escuro” provam isso —, mas também nasceu para ser fotografada. Por mais que isso pareça uma contradição, como já foi apontado por alguns analistas, posto que Clarice era muito reservada e muitas vezes, fosse por meio de sua literatura, fosse através de entrevistas, havia dado a entender que não conseguia encontrar um posicionamento adequado no mundo. Isso não a impediu de posar para uma infinidade de fotos e deixar sua imagem registrada pelos inúmeros lugares pelos quais passou. Para muitos, Clarice Lispector era um quebra-cabeça interminável. A se pensar assim, as muitas fotos tiradas dela são peças que ajudam, se não a contar, pelo menos a compor um painel mais amplo da personalidade dessa escritora nascida ucraniana mas com alma e tônus brasileiros.

Muitas dessas peças que ajudam a ver e a compreender

Clarice por vários ângulos acabam de ser colocadas a público com o lançamento do livro “Clarice — Fotobiografia”, uma parceria da Edusp com a Imprensa Oficial de São Paulo.

É uma obra de tirar o fôlego. Ao longo de suas quase 700 páginas, o livro organizado pela professora de literatura da USP Nádia Battella Gotlib — uma das maiores especialistas em Clarice Lispector no país e que levou cerca de duas décadas arquitetando esse volume — apresenta 800 imagens que oferecem um amplo painel cronológico da vida e da obra da autora de “Água-Viva”. E o livro não se ocupa apenas com a fotos de sua biografada — o que já seria muita coisa —, mas apresenta também uma contextualização de época através de imagens históricas, que ajudam o leitor a compreender melhor o período em que cada ação está se desenrolando.

Por exemplo: ao falar dos primeiros momentos de vida de Clarice na Ucrânia, Nádia Gotlib vai buscar as fotos referentes à Revolução Russa, que engolfou também o país natal da escritora, para traçar um painel de época que torne mais compreensível — visual e textualmente — a história que se está contando.

Afinal, Clarice foi uma mulher de muitas paragens, de muitas viagens. E é isso que sua alentada fotobiografia mostra com extremo apuro.

Nascida em Tchechelnik, na Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil com dois anos de idade, acompanhada dos pais e de suas duas irmãs, fugindo da guerra civil que estava destroçando seu país, um desdobramento da Revolução de Outubro de 1917. Sua família passou por Maceió e Recife, até se fixar no Rio de Janeiro.

Foi lá que Clarice conheceu e se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem viveu entre 1943 e 1959. Nesse período, Clarice o acompanhou em várias missões — algumas ainda durante a Segunda Guerra Mundial — em cidades como Belém do Pará, Berna (Suíça), Nápoles, na Itália e Torquay, na Inglaterra.

Por todos esses lugares Clarice se deixou fotografar — e muitos desses registros estão agora no livro da Edusp, como aquele em que ela aparece como enfermeira voluntária em Nápoles, quando as bombas da guerra ainda espocavam pela Europa.

Talvez este seja uma dos principais atributos dessa “Fotobiografia”: ilustrar de forma clara o percurso de vida de uma mulher em busca de seu lugar no mundo.

Mais de uma vez, Clarice Lispector deu a entender em seus textos e em entrevistas que “não pertencia” a lugar algum.

Seu mundo era outro, sua linguagem, seus sentidos. O mundo podia até ser uma maçã no escuro, que ela tateava e procurava compreender. É essa relação muito peculiar com o mundo, esse correr riscos com a palavra e com a vida que faz da literatura de Clarice algo único, algo que já em seu primeiro romance — “Perto do coração selvagem” — chamava a atenção de críticos como Antonio Candido e Lúcio Cardoso. A escrita fragmentada de Clarice nesse primeiro trabalho, que vai se apresentar em outros, são as “pulsações” que reinventam seu lugar no tempo e no espaço, criando uma escrita que perturba, ao mesmo tempo em que atrai. E ela não era uma autora de fazer concessões. “Eu escrevo para nada e para ninguém.

Se alguém me ler será por conta própria e auto-risco”, escreveu ela, certa vez. Ela sabia do risco que era lê-la. Todos sabiam. E continuavam a ler, como se fosse um mantra, como se cada página virada fosse uma mandala arquitetada.

Esboços de texto, cartas, idéias anotadas em cheque
Essas peculiaridades da personalidade e da obra de Clarice transparecem por todas as 656 páginas de sua “Fotobiografia”.

São originais fora de ordem, são esboços de textos que um dia virariam livros, são cartas de vários tons e semitons, idéias anotadas em folhas de cheque. É Clarice de corpo inteiro. Mesmo quando ela se ocupa de preocupações pueris, como pedir, em uma carta, que o escritor mineiro Murilo Rubião parasse de publicar fotos dela quando estava “temporariamente gorda”.

“Mando-lhe fotografias (recentíssimas, do final do mês de dezembro) e em troca você me manda todos os negativos que você tem. Certo?”, escreveu ela em 9 de janeiro de 1974. “Afinal, o fato de escrever não me faz perder um pouco da vaidade, não sou homem.” O livro que Nádia Gotlib organizou é um registro importantíssimo.

E não é pelas centenas de fotos que o compõem. É, podese dizer, pelo “conjunto da obra”. As imagens detalhadamente escolhidas, o apuro técnico e editorial, e um alentado apêndice, com comentários sobre as imagens e uma cronologia das mais completas. É Clarice de alma e face fotografadas.

Imagens e dados que proporciona, como diz Nádia Gotlib, “encontros mágicos” para o leitor/ espectador dessa “Fotobiografia”.

Em se tratando de Clarice Lispector, não poderia mesmo ser diferente.

sábado, 12 de julho de 2008

O Judaísmo Encalacrado: mística e religião em "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector

O Judaísmo Encalacrado: mística e religião em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
Evandro Cesar Cantaria da Silva
Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião (UMESP)
Data da defesa:
13/03/2006.
Resumo: O objetivo deste trabalho foi o de demonstrar a importância e pertinência do diálogo entre literatura e religião, concentrando o âmbito de sua pesquisa a partir das relações entre a escritura de Clarice Lispector e as ressonâncias de uma tradição (judaísmo), que embora não tenha sido assumida pela autora, persiste, encalacrada em toda a sua obra. Tendo, como objeto de pesquisa o romance A Hora da Estrela, esta dissertação procurou entender como o drama da narrativa, em seu jogo de tensões e identidades, em sua pluralidade de títulos e referências, sinaliza também um profundo problema com a religião. Focando, de forma especial a personagem Macabéa, este estudo procurou compreender como as referencias da personagem, sua dificuldade com as palavras, seus desencontros do outro (tu) e sua rejeição social, revelam um grave problema de ordem teológica, demonstrando os equívocos de uma sociedade, que fundada sobre o prisma da religião, massacra os mais fracos. O desfecho do livro sinaliza uma possível epifania, mas, desvela-se num fracasso da religião e de seu poder salvífico. O trabalho procurou a partir dos principais temas do romance, perceber suas correspondências com o tema da religião. Pode com isso, a partir das contribuições de Scholem, ver como dilema existencial e subjetivo da personagem possui proximidade com o drama místico cabalístico, além disso, perceber as correlações entre a obra clariceana e textos da tradição judaíca, quer na sua referência explícita (nome da personagem), como também, em seu aspecto de busca, em sua forma de midrash e nas inúmeras exegeses e comentários que propicia. Finaliza seu esforço, levantando uma discussão ética sobre os valores teológicos da sociedade e seus profundos equívocos, ante a vida e morte da pobre Macabéa, uma mulher que viveu a religião nos limites da própria existência.

sábado, 19 de abril de 2008

Clarice é pop

Tema de recém-lançada fotobiografia, Clarice Lispector supera cem comunidades no Orkut e é tema de blogs e vídeos no YouTube.

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL - FSP, Ilustrada, em 19/04/2008.

Toda estrela que se preze já ganhou biografia não-autorizada ou álbum de fotos de sua carreira. Com Clarice Lispector (1920-1977) não poderia ser diferente. "Clarice - Fotobiografia" (Imprensa Oficial; R$ 90, 656 págs.), livro com 800 imagens, muitas delas inéditas, reforça o apelo extraliterário, o "star quality" da autora de "A Paixão Segundo G. H.", cujos traços singulares muitas vezes pareciam ecoar a estranheza de seus próprios livros.

Esse apelo é reconhecível sobretudo entre os jovens, cujo fascínio por Clarice tem um forte termômetro na internet. O site de relacionamentos Orkut, por exemplo, tem 103 comunidades dedicadas a Clarice. Ali, a escritora bate os poetas Carlos Drummond de Andrade (77) e Manuel Bandeira (58), com grupos chamados "Clarice Lispector sexy!" ("para quem acha Clarice a escritora mais sexy da literatura brasileira!") ou "Clarice Lispector me dá tesão!" ("como se não bastasse ela ser inteligente, tinha que ter essa boca e esses olhos?").

Na blogosfera, não é diferente. Há seis meses, a estudante Keidy Lee Costa, 19, administra, do Rio Grande do Norte, o blog claricelispector.blogspot.com, que chega a ter mais de 4.700 visitas diárias. Para a estudante, a recém-lançada fotobiografia tem "800 novas maneiras de tentar entendê-la e de se apaixonar ainda mais", pois, "quando se olha nos olhos de uma foto de Clarice, a sensação que se tem é de mistério".

Imagem a favor da obra
Autora do livro "Clarice -Uma Vida que se Conta", a professora da USP Nádia Battella Gotlib, que organizou a fotobiografia, diz que não pensou no "estrelato" de Clarice, e sim na história da literatura por trás das fotografias. Gotlib acredita que o apelo entre os jovens se dê pela capacidade de Clarice de traduzir traços da personalidade humana, sobretudo em fase de formação e em ritos de passagem.

"Ela possuía uma capacidade de fisgar o leitor em pontos sensíveis. E o adolescente está com a sensibilidade à flor da pele, tem uma percepção lisérgica das coisas", diz a professora, numa referência ao escritor Hélio Pellegrino (1924-1988), para quem Clarice tinha uma "personalidade lisérgica". Gotlib também reconhece que a figura da escritora é forte e encantadora. Mas ressalva: "É uma imagem a favor da literatura, porque instiga a pessoa a ler a sua obra".

Clarice é emo?
Outro altar de celebração da imagem de Clarice é o YouTube, em que uma busca pelo nome da escritora gera mais de 170 resultados, entre eles videopoemas em sua homenagem e trechos da última entrevista que ela concedeu, em 1977, à TV Cultura.

Após ver uma passagem da tal entrevista em que Clarice comenta que seu conto "O Ovo e a Galinha" era um mistério para ela mesma, uma leitora do blog Ovos Não Voam chegou a comentar: "Clarice Lispector é emo!", referindo-se ao lado "emotional hardcore" (emocionalmente pesado) da escritora.

Fã de Clarice, a estudante Fernanda Markus, 17, também parece identificar a tal faceta "hardcore": "Ela atrai os jovens porque era confusa, vivia num mundo de paradoxos em que nós, jovens, também vivemos. Ler Clarice parece um remédio para tanto desconforto".

Autora do perfil "Clarice Lispector" (Publifolha), Yudith Rosenbaum acredita que a obra de Clarice seja uma literatura de iniciação de adolescentes, mais "abertos" ao que a escritora chamava de "experiência de contato" de seus textos.

Rosenbaum, no entanto, não concorda que a fotobiografia estimule a idolatria ou celebre o lado "pop" da autora. Para ela, "o livro mostra faces novas da escritora e renova o quadro de imagens já estabelecido sobre ela. Tudo se mostra mais contextualizado e inter-relacionado, criando condições para uma apreciação menos idealizada e mais fundamentada sobre a trama vida/obra de Clarice".

Amor antigo
Há quem discorde. O poeta Ferreira Gullar, colunista da Folha, diz que foi "vítima" da beleza de Clarice na sua juventude. Gullar tem até hoje uma foto da musa, recortada de uma revista, sobre uma estante. Ele conta que, quando a conheceu, em 1954, na casa da escultora Zélia Salgado, ficou impressionado com a beleza exótica da mulher de "traços asiáticos, pomos saltados e olhos oblíquos".

"Não por acaso se faz um álbum assim com Clarice. É justamente porque ela é uma mulher bonita e misteriosa. Clarice tem algo raro, a beleza estranha, diferente da brasileira, que se junta ao talento, também fora do comum, um talento estranho, indagador de coisas que não têm respostas. Vai ser assim pro resto da vida."