Pesquisar este blog

Total de visualizações de página

Perfil

Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

Translate

Seguidores

Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de junho de 2009

O INCONSCIENTE COLETIVO X JUDAÍSMO / ISRAEL

Os artigos sobre Israel sempre atualizados você encontra aqui.



O INCONSCIENTE COLETIVO X JUDAÍSMO / ISRAEL



Alfredo Prentki

RJ, em 06/06/2009


Somos de um único sangue tu e eu” – Rudyard Kliping


Alguns pensadores sustentam que a mente humana, ou psique, vem ao mundo em total vazio e tudo que nele está arquivado é devido às informações, experiências ou atividades tidas nesta vida. Jung estudou o referido assunto.


Pequeno histórico:


Por ironia do destino, “O INCONSCIENTE COLETIVO”, foi pesquisado novamente no vasto campo da Psicologia Freudiana e da moderna Parapsicologia, sendo identificado o nosso verdadeiro inimigo implacável e algoz. Nutrido constantemente, infelizmente, por informações negativas e calúnias contra o obreiro povo hebreu, desta forma, o antijudaísmo está se tornado imbatível em pleno século XXI.


É necessário urgentemente despertar a atarefada liderança comunitária judaica para recentes fatos e notícias, alertando e espelhando uma realidade ameaçadora, estranhamente ignorada.


Precisamos relembrar e divulgar nas escolas que os judeus e, também, os valentes marranos, discriminados, torturados e assassinados pela Inquisição Ibérica, foram os humanizadores da complexa sociedade humana, inclusive com o auxílio da Bíblia de Moisés, deram um amálgama de sensibilidade moral e nobreza ao homem, perante o alvorecer da consciência conflituada. Por justiça, foram classificados pelos honestos historiadores de os autênticos bandeirantes do progresso da humanidade.


O persistente antijudaísmo sanguinário cresce em progressão geométrica. Lamentavelmente, nada de eficaz foi realizado para conter e neutralizar a propagação deste terrível ódio milenar. Pesquisando a real causa desta tradicional intolerância e discriminação, desde o nascimento do Judaísmo, finalmente encontrei a razão porque agem até o século XXI, com plena liberdade e possuindo um irreconciliável ressentimento antijudaico, que já deveria estar soterrado pelo tempo e, lamentavelmente, sempre ressuscita ativo contra os obreiros judeus – povo abelha.


Na comédia política demagógica, encenada magistralmente, apenas uma miragem, não vamos encontrar o apoio e a solução para o nosso grave problema. Como atores, nas solenidades declaram ao público que são simpatizantes e defensores da heróica luta pela sobrevivência de Israel e da sofrida etnia judaica. Na prática, a realidade é outra; o diplomático quadro fantasioso muda totalmente.


Recentemente, temos um grave acontecimento, até parece ser obra de Hashem, tentando despertar a liderança judaica da ação fantasiosa envolvente das solenidades e homenagens.


Os principais jornais do País divulgaram em 25/05/2009, “Brasil: Vergonha na UNESCO”. Na barganha do troca-troca de cargos, ficou acertado: o governo brasileiro preferiu apoiar o Ministro da Cultura do Egito, Farouk Hosny, que já prometeu queimar os livros editados na língua hebraica. A UNESCO foi reforçada com mais um inimigo do povo judeu e mais um voto para condenar Israel.


Recordando, em janeiro de 2009, os jornais divulgaram a guerra de Gaza. Israel foi novamente atacado covardemente pelos foguetes do Hamas. Possuindo cerca de 25 mil km² de território, sendo apenas habitável cerca de 40% desta pequena área. Sendo duramente castigado pelos foguetes mortíferos do Hamas de Gaza.


Israel não conseguiu suportar a pressão com destruição e mortes e, incluindo o silêncio do mundo maquiavélico, conivente com o agressor árabe, foi obrigado a reagir e defender os israelenses e tentar silenciar os ativos pontos estratégicos de lançamento de foguetes do Hamas, usando inclusive escolas e hospitais como escudo.


Infelizmente, Israel não possui o direito de se defender da agressão. O mundo parcial logo despertou, reclamando da desproporção militar no confronto em Gaza. Judeu no passado era humilhado e morto e, atualmente, aprendeu audaciosamente a se defender, reagindo à agressão! A O.N.U., prontamente, protestou e condenou Israel, apoiando os agressores assassinos árabes do Hamas.


Politicamente, Israel foi derrotado, segundo divulgações de jornais. Felizmente, conseguiu na refrega derrotar o Hamas, que continua agressivo com o respaldo do Irã.


Em Brasília, na época do conflito, houve passeata e até queimaram a bandeira de Israel. Na tranqüila América do Sul, rapidamente, os atentos e solidários inimigos do povo hebreu formaram um grupo de países que se intitulam “socialistas”, que, provavelmente, em função dos poderosos petrodólares, tornaram-se fiéis seguidores das sangrentas pegadas de Hitler contra a sobrevivência do sofrido povo judeu E democraticamente tiraram a máscara: Bolívia e Venezuela, em pleno ano de 2009. A maior surpresa foi a recompensa do agressor, cujo objetivo fundamental o mundo conhece, é destruir Israel, recebeu de um país, o qual se intitula amigo do povo judeu, depois da sangrenta refrega, toneladas de medicamentos e, também, ajuda econômica.


As lideranças judaicas deveriam despertar com este audacioso exemplo. Estranho, ainda, não terem avaliado a realidade ameaçadora, que inclusive preocupa e assusta àqueles correligionários que comungam com os ideais dos ancestrais do povo judeu na Diáspora. O judeu foi sempre discriminado e odiado, desde o alvorecer do Judaísmo.


Irmãos, algo urgente precisa ser feito, usando a inteligência, para conter e neutralizar este tradicional ódio contra o povo judeu.


O único antídoto eficaz, para atuar na psique (mente) e esclarecer, é divulgar nas escolas sua heroica sobrevivência e a Humanidade alcançando o poderoso inimigo – O INCONSCIENTE COLETIVO – só assim, poderemos prosseguir na difícil luta milenar, pela continuidade da valente etnia e os sagrados ideais ancestrais hebreus.


Temos de implantar este projeto de ensino: O ENSINO SOBRE A HISTÓRIA DA INQUISIÇÃO IBÉRICA NAS ESCOLAS. Será a solução.



Leia mais:


Veja mais:

07/06/2009

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Opinião: Se Livni fracassar em Israel, Netanyahu poderá voltar

Se novas eleições gerais forem convocadas em Israel, são grandes as chances de o ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu voltar ao poder. Por isso é importante torcer por Tzipi Livni, opina o jornalista Peter Philipp. >>> Leia mais em Deutsche Welle, em 18/09/2008

domingo, 6 de julho de 2008

"Mein Kampf" (João Pereira Coutinho)

Expresso, 30 de junho de 2008

INFERNO
"Mein Kampf"

A Segunda Guerra foi um acontecimento desnecessário na história contemporânea? Pat Buchanan, em livro que tem alimentado debates ferozes Churchill, Hitler, and the Unnecessary War, defende que sim. A Segunda Guerra não se explica sem a profunda injustiça do Tratado de Versalhes, que destroçou uma Alemanha de joelhos. E não se explica sem o desejo bélico de Churchill, que arrastou os Estados Unidos para a dança e recusou a paz possível com a Alemanha. E, como conclusão, Buchanan acrescenta: se dúvidas houvesse sobre a inutilidade e a imoralidade da guerra, bastaria citar o Holocausto. O extermínio de seis milhões de judeus, mais do que um produto do anti-semitismo, foi sobretudo uma consequência lógica do conflito.

Não cabe aqui uma crítica aos argumentos de Buchanan, que aliás não constituem propriamente uma novidade entre os "revisionistas". Importa apenas dizer que, sobre o último ponto, uma das formas mais eficazes de mostrar a inevitabilidade do Holocausto passa pela publicação e leitura do livro (ou, em rigor, dos dois livros) que Hitler publicou antes de chegar ao poder. Trata-se de Mein Kampf e não deixa de ser estranho que a obra, disponível em todo o mundo, esteja banida na Alemanha até 2015. O Estado da Baviera, que detém os direitos, impede a publicação integral do texto porque acredita que o livro de Hitler é um convite à propagação de ideias neonazis e um insulto às vítimas do Reich.

É contra esta proibição que os historiadores alemães têm marchado. Duplamente marchado. Primeiro, porque é a clandestinidade do livro, e não a sua livre publicação, que alimenta o fanatismo neonazi. E, depois, porque é importante uma edição crítica antes de 2015, ou seja, antes do dilúvio editorial; uma edição destinada a explicar e a desmontar a mentalidade expansionista, revolucionária e anti-semita de um homem que acabaria por assombrar a Humanidade.

É a atitude correcta. Porque, ao contrário do que escreve Buchanan, as ideias precedem os actos. E as más ideias, os piores actos.

Veja mais:

terça-feira, 24 de junho de 2008

Salada semita (Osias Wurman)

O Globo, Opinião, página 7, em 23/06/2008.

Salada semita

Na mesa de decisões em Israel há projetos de ação militar quase inevitáveis

OSIAS WURMAN


Árabes e judeus, no caso palestinos e israelenses, descendentes de Sem, filho de Noé (da arca), encontram-se envolvidos numa verdadeira salada político-existencial. O sonho palestino de décadas — construir um Estado nacional na Palestina — parece eternizarse como um sonho inalcançável, podendo transformar-se em lamentável pesadelo.


O problema existencial é saber como unificar um povo dividido entre facções político-religiosas, que têm vínculos e relações tão diversas, difusas e confusas. Do lado israelense, os políticos conseguiram estagnar as expectativas de uma paz próxima, num país que, apesar dos problemas, não pára de crescer tecnológica e economicamente. Certamente este não era o sonho de Herzl, o pai do sionismo político, construir uma sociedade dividida radicalmente entre ortodoxos e liberais, socialistas e colonos, além de uma visível perda do pioneirismo das maciças ondas de imigração das décadas passadas. A Autoridade Nacional Palestina-ANP acaba de completar um ano desde que foi expulsa da Faixa de Gaza, humilhada por um movimento religioso dissidente e fortemente armado, o Hamas, que vem sabotando todas as iniciativas de reaproximação e reunificação de Gaza e Cisjordânia.


Os dois territórios, que somam quatro milhões de irmãos palestinos, agora se dividem em 1,5 milhão em Gaza, e o restante na Cisjordânia. Nos intervalos da briga interna, o Hamas acha tempo para provocar o Estado de Israel, lançando sistemáticos ataques de foguetes contra a população civil fronteiriça. Para compensar a falta de união palestina, o Egito atua fortemente como mediador das conversações entre o Hamas e Israel, com participação discreta do presidente Mahmoud Abbas, tendo acertado uma trégua na fronteira, que deverá incluir a devolução do soldado israelense Shalit, seqüestrado há dois anos pelos palestinos. Iniciada na quinta-feira passada, a trégua é frágil e duvidosa, pois envolve um movimento guerrilheiro que sobrevive enquanto luta, com um país “fantasma”, segundo a definição desse mesmo grupo guerrilheiro, que teima em não reconhecer a existência de Israel.


Outro país árabe que participa como mediador na área é a Turquia, que leva e traz propostas entre a Síria e Israel, com o objetivo de neutralizar a ação antiisraelense do Hezbollah na fronteira com o Líbano, agora que o grupo xiita está mais fortalecido após derrotar militarmente o governo legal do premier Siniora.


Na mesa de decisões estratégicas em Israel se encontram projetos de ação militar nada tranqüilizadores, e quase inevitáveis: a reocupação da faixa de Gaza e a destruição do reator nuclear do Irã.


Misturem-se Hamas, Fatah, Hezbollah, ANP, Síria, Egito, Líbano, Turquia e Israel, e teremos uma salada, com ingredientes altamente explosivos, temperada com fundamentalismo, radicalismo, ódio e revanche.


Uma preocupante salada semita!


OSIAS WURMAN é jornalista. E-mail: owurman@globo.com.


quinta-feira, 22 de maio de 2008

60 anos depois, os clichês permanecem (Sheila Sacks)

Por Sheila Sacks

Declarado independente em 1948, o Estado de Israel só começou a fazer sentido no imaginário popular, uma dúzia de anos depois, através dos belíssimos olhos azuis de um star internacional, protagonista de um dos mais comoventes blockbusters épicos de todos os tempos. Com uma trilha sinfônica premiada (Oscar e Grammy), o filme norte-americano “Exodus” de Otto Preminger, com o galã Paul Newman vivendo o capitão Ari Ben Canaan, estourou nas telonas dos principais centros urbanos do planeta, em 1960, provocando uma onda de simpatia mundial em relação à minúscula e aguerrida nação que, apesar das condições adversas que enfrentava continuadamente (até então as guerras da independência, de 47 a 49, e do Canal de Suez, em 1956) resistia, não se intimidava e nem desistia.

Embalada por um signo solidário inatacável - a de servir de refúgio aos perseguidos pelos regimes autoritários, às vítimas do preconceito e aos sobreviventes do Holocausto -, a aspiração milenar do povo judeu por um abrigo legal e incontestável, incorporou-se, de forma genial, ao mito da aventura e da coragem, graças ao talento e a prodigiosa pena de Leon Uris (1924-2003). O autor do romance “Exodus”, de 600 páginas, que deu origem ao filme, teve o festejado mérito de apresentar ao grande público (mais de 15 milhões de exemplares em 35 idiomas) o lado heróico de um povo tipificado pelo sofrimento e humilhações.

Essa reviravolta de bom augúrio, porém, não durou mais que duas décadas. Desde os meados dos anos 80, após a guerra do Líbano, ao estado de Israel não é suficiente defender militarmente o seu território real. É preciso preservar o seu legado histórico, ético e moral nos preciosos espaços das áreas midiática e virtual, cada vez mais apinhados de competentes e ágeis hackers em desinformação e difusão de mensagens tendenciosas e perniciosas.

COVA DE LEÕES
O histórico dos embates travados nos gabinetes da diplomacia européia, a partir de 1897, quando da realização do primeiro Congresso Sionista, na Suíça, e o empenho do jornalista judeu Theodor Herzl (1860-1904) na campanha pela criação de um estado judeu, face ao clima de anti-semitismo reinante em Paris, são fatos que comporiam uma bela série de TV, um filme de época revelador, e até um best seller mundial. Entretanto, esses antecedentes da história de Israel ainda permanecem fadados aos livros didáticos, às pesquisas acadêmicas e a artigos oficiosos em datas comemorativas. Traduzir e verter para as diferentes linguagens da mídia o exemplo único de um povo que soube esculpir o seu destino nas maciças muralhas da intolerância e do estigma seculares, é tarefa que se impõe nesse terceiro milênio de arte e jornalismo tecnológicos. Com versatilidade, habilidade e sem amadorismos. Os clichês que ajudaram a erguer e moldar essa perversa cidadela de horror, autêntica cova dos leões, covardemente impingida e perpetuada como um suposto castigo ou vingança, precisam vir abaixo, implodidos pela própria arrogância que os sustentou. Afinal, o lobby acusatório de deicídio atormentou centenas de gerações, respondendo pela morte violenta e cruel de milhões de pessoas e por danos morais irremediáveis a outros milhares acuados pela calúnia. Seqüelas que nenhuma suposta indenização pecuniária tem o dom de curar.

JANTARES E EVENTOS
Mudar esse horizonte que ainda persiste cinzento em muitos pontos dos continentes, requer uma redefinição de prioridades capaz de assegurar o futuro dos judeus da Diáspora e de Israel. Para Michael Freund, presidente do movimento judaico religioso Shavei Israel, de busca e conversão dos chamados “judeus perdidos”, a batalha contra o anti-semitismo precisa muito mais do que “publicidade, jantares e eventos”. Ele advoga que os recursos comunitários judaicos devam ser mais bem distribuídos. Em 2007, segundo Freund, somente os orçamentos de três instituições norte-americanas que promovem a mesma causa de combate ao anti-semitismo somaram 143 milhões de dólares - Liga de Antidifamação (76 milhões), Comitê Judaico Americano (40) e Centro Simon Wiesenthal (27).

Mas, o mais preocupante para Freund são os resultados do último censo (1990 -2001) realizado pela federação judaica dos Estados Unidos (United Jewish Communities), que apontou um decréscimo de 5,5% na população judaica norte-america (a maior da Diáspora). De 5,5 milhões caiu para 5,2 (4,2 milhões de adultos e 1 milhão de crianças). “Em média o judaísmo perdeu 100 judeus por dia neste período de dez anos, enquanto a população americana cresceu 13%”, lamenta Freund (o próximo censo será feito em 2010). Essa queda teria como vilões a assimilação e os casamentos mistos, conseqüência direta do distanciamento e da falta de entendimento das pessoas (quais seriam as razões?) sobre o cerne central da questão judaica: a sua sobrevivência. O reflexo dessa situação pôde ser observado na pesquisa de 2007 do instituto Pew Research Center sobre religião e vida pública que concluiu que 51% dos judeus americanos já têm mais de 50 anos e que 72% não possuem filhos em casa. Enfim, falta uma lufada de ar fresco e de renovação no universo da maior colônia judaica fora de Israel, ainda o exemplo de paradigma para as demais comunidades judaicas do mundo. A época romântica de falar consigo mesmo, ou seja, para o mesmo público cativo que comunga idéias semelhantes, já se encerrou nos idos de 70. É preciso partir para novos desafios representados pela preservação dos que ainda se mantêm judeus e a reconquista dos que se distanciaram.

REINTERPRETAÇÃO DO REAL
Apesar dos inegáveis e meritórios esforços das organizações judaicas que labutam em várias frentes, o judaísmo e o estado de Israel ainda não se afinaram com a nova retórica desta era de comunicação tecnológica, assentada em clichês, lobbies e slogans. Em seu livro “A Saga dos Cães Perdidos”, o professor de Comunicação da USP (Universidade de São Paulo) e autor de mais de 20 livros sobre linguagens e práticas midiáticas, Ciro Marcondes Filho, alerta para o fato de que o jornalismo (filho dileto da Revolução Francesa), bem como os valores de progresso, evolução e razão, foram emanações de outra época histórica, “epifenômenos das revoluções industrial e social burguesa dos séculos 18 e 19”. Analisando os sistemas informatizados de transmissão de notícias hoje vigentes, Marcondes Filho assinala que o que se observa é a sobrevalorização da visualidade, em detrimento à literalidade, e a sobreposição de notícias fabricadas sobre os chamados fatos reais. Com a benção da TV, que valida os fatos, tornando-os “verdadeiramente” reais, conferindo uma assustadora credibilidade à máxima de que “não há vida real além da TV”. A reinterpretação do real, o expurgo da reflexão e a emoção como critério de verdade (parafraseando Umberto Eco, a verdade está nas lágrimas), são marcas desta era digital, de informação eletrônica e interativa, estruturada sob clichês. “Operar com clichês (visões do mundo parciais e preconceituosas) é mais cômodo e mais fácil para quem lida com a comunicação. Mas, acima de tudo, o clichê constrói, antecipadamente, a notícia, já que a mesma é selecionada e classificada a partir de estereótipos de quem a produz”. Daí que verdadeiro também se tornou o que toda a mídia repete e confirma. “A repetição substituiu a demonstração”.

Aí está o exemplo da Cabala da Madonna que o boca a boca da mídia vem transformando na cabala real. Há dois mil anos e nos séculos seguintes, processo semelhante de difusão e repetição recriou religiões e mitos que, ao longo do tempo, tornaram-se mais reais e, por simbiose, mais verdadeiros que os berços que lhes deram origem, favorecendo mal-entendidos e conflitos que permanecem até os dias atuais. A subavaliação de fatos também é uma forma elitizada e dúbia de omissão justificada.

MELHOR HISTÓRIA
Em janeiro de 2008, coube a 824 milhões de pessoas, sendo 40 milhões no Brasil. acessarem, na rede virtual, os conteúdos desse noticiário mercadológico, ideológico, superficial, maquiado e minimalista, de forte impacto visual e velocidade, que reconstrói a informação ao sabor do cliente. Recordistas mundiais de horas mensais em navegação (tempo médio de 23 horas e 51 minutos, segundo o Ipobe/NetRengins, em abril de 2008), os brasileiros já superam os colegas dos Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido. “A questão não é mais do átomo, mas do bit”, enfatiza Marcondes Filho, reproduzindo o pensamento do conferencista e jornalista francês Francis Pisani, articulista do “Le Monde” (França) e “El País” (Espanha), que no artigo “Penser la cyberguerre” afirma categórico: ”Não é mais aquele que tem a bomba maior que levará aos conflitos de amanhã, mas sim aquele que apresentar a melhor história.”

Extraído de:
Nosso Jornal-Rio

domingo, 18 de maio de 2008

Choque de identidades

O pensador Tzvetan Todorov fala do palestino Edward Said, que morreu há cinco anos

TZVETAN TODOROV

Edward Said [1935-2003] foi um dos intelectuais mais conhecidos e mais influentes do mundo. Autor de cerca de 20 livros, pareceu viver várias vidas ao mesmo tempo. Crítico literário no início, na veia de Georg Lukács e de Erich Auerbach, ele deveu sua notoriedade a trabalhos sobre as identidades culturais e o encontro das culturas, os nacionalismos e os imperialismos.

Foi também uma das vozes mais ouvidas em favor da causa palestina, mas cuidava para que sua defesa "levasse totalmente em conta o povo judeu e seus sofrimentos, das perseguições ao genocídio". Said nasceu em Jerusalém.

Cresceu no Cairo e estudou em um colégio britânico. Partiu para os EUA aos 16 anos, onde passou pelas universidades de elite de Princeton e Harvard, antes de lecionar, a partir de 1963, em Columbia (Nova York), onde ficou até o fim da vida.

Em seus primeiros anos lá, parece se fundir no molde americano. Mas a Guerra dos Seis Dias (1967) se encarrega de lhe lembrar de sua origem e o leva a buscar um equilíbrio entre as duas vertentes de seu ser, a levantina e a ocidental.

Consegue-o a partir de um livro de 1978, "Orientalismo" [Cia. das Letras], dedicado ao discurso habitual dos escritores, intelectuais e políticos ocidentais sobre "o Oriente".

Permanece ativo até a morte. Muito cedo na vida, Said percebe que é dotado de uma "identidade das mais incertas: um palestino escolarizado no Egito, com prenome inglês e passaporte americano".

Assim, ao final de seus estudos superiores, não sente a menor tentação de voltar "para casa" (coisa que não existe) e compreende "que um retorno ou um repatriamento integral é impossível".

Acaba por se reconhecer na figura do intelectual em diáspora, habitando uma cidade cosmopolita como Nova York. Mas não ignora que, nisso, segue o exemplo de numerosos intelectuais e artistas judeus.

Aceleração de culturas
Descobre que essa experiência encarna um dos traços característicos do mundo moderno: a aceleração dos contatos entre culturas e a pluralidade interna de cada identidade. O "orientalismo" é uma construção artificial, mas o mesmo ocorre com o "ocidentalismo" difundido entre os inimigos do Ocidente. Por isso, Said é adversário da tese do "choque de civilizações".

Se o exílio ocorre em condições favoráveis, oferece várias vantagens. O indivíduo vê cada uma de suas culturas ao mesmo tempo por dentro e por fora, o que lhe permite examiná-las com um olhar crítico.

Said estabelece uma aproximação entre essa condição e a do intelectual em geral. Este último deve idealmente manter-se afastado das autoridades, mas também de todas as afiliações impostas. Defensor veemente do laicismo, adversário de todo nacionalismo, critica com a mesma acuidade o governo dos EUA e a Autoridade Palestina.

Said pagou caro por seu envolvimento: seu escritório na universidade foi incendiado, e ele e sua família receberam diversas ameaças de morte. Apesar disso, manteve a convicção de que "a principal questão que se coloca ao intelectual hoje" continua sendo a do "sofrimento humano".

TZVETAN TODOROV é filósofo búlgaro radicado na França e está lançando no Brasil "O Espírito das Luzes" (ed. Barcarolla).
A íntegra deste texto saiu no "Le Monde". Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

Extraído de:
FSP, Caderno +mais!, em 18/05/2008.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Fundação de Israel concretiza sonho de segurança para judeus; ouça G. Dimenstein

A idéia da fundação do Estado de Israel significa um misto de proteção e de segurança, ou seja, o mínimo de garantia possível para ser judeu. O país surgiu depois dos maiores dramas da história da humanidade: o holocausto.


Neste videocast especial sobre a comemoração dos 60 anos da fundação do Estado de Israel, Gilberto Dimenstein fala sobre a opressão, a humilhação e as histórias de morte e escravidão do povo judeu.


Israel aparece como um sonho de proteção de um povo e, ao mesmo tempo, surge o sonho de um lugar diferente e melhor. "Toda minha infância foi aquela idéia de que em Israel as coisas seriam melhores, seriam mais igualitárias, teria perspectivas para todos.", diz Gilberto Dimenstein.

Extraído de:
FSP on-line, em 08/05/2008.

Veja o vídeo:
Gilberto Dimenstein: Israel concretiza sonho de proteção

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Assim nasceu Israel (nos 60 anos de sua vida): Pedro Doria

Hoje é Yom Haatzmaut. Ou Nakba. É o Dia da Independência, em Israel; ou a Catástrofe, para os Palestinos. O Estado judaico foi inaugurado na Terra Santa em 14 de maio de 1948 – pelo calendário judaico, cairia na sexta-feira próxima. Para não se chocar com o Shabat, dia santo, anteciparam.


É hoje.


Em 1881, viviam na Terra Santa, que fazia parte do Império Otomano, 450.000 árabes e 25.000 judeus. A partir do Caso Dreyfuss, na França, vários setores das população judaica européia começaram a se dar conta de um crescente anti-semitismo no continente. Esta tensão inspirou vários processos migratórios, principalmente para os EUA. Mas também nasceu, ainda no século 19, o Movimento Sionista, que pregava o retorno à terra da qual haviam sido expulsos pelo Império Romano.


Os primeiros sionistas eram judeus pobres porém bem educados, socialistas, que pregavam a vida em comunas. Juntavam suas economias e aproveitavam a doações da comunidade judaica européia para comprar terras e erguer fazendas nas quais todos dividiam as tarefas. Conforme a Primeira Guerra cedeu lugar à Segunda, a migração começou a aumentar em larga escala. Era gente fugindo do terror que se avizinhava. Após a Segunda Guerra, judeus em grandes campos de refugiados na Europa serviram à pressão diplomática para a oficialização de um Estado Judaico na Palestina.


Mas lá já viviam árabes.


Israel tem pai. Chama-se David Ben-Gurion, o líder da comunidade judaica na Terra Santa. ‘Por que os árabes deveriam querer paz?’, ele se perguntou ainda em vida. ‘Nós pegamos o país deles. Claro, sei que Deus nos prometeu essa terra, mas o que isso tem a ver com eles? O nosso não é o Deus deles. Nós todos viemos originalmente de Israel, também é verdade. Mas isso foi há dois mil anos. O que eles têm a ver com isso?’ Ben-Gurion era um pragmático.


Por sua vez, os palestinos tinham muitos líderes. Um dos mais marcantes foi o grão-mufti de Jerusalém Mohammad Amin al-Husayni, escolhido a dedo pelos britânicos quando assumiram o controle da Palestina após o colapso do Império Otomano. Durante boa parte dos anos 20, foi um aliado do governo de Sua Majestade. Os britânicos, no entanto, faziam um jogo duplo. Pressionados por judeus de um lado e árabes do outro, faziam promessas igualmente tentadoras para ambos. Quando a Segunda Guerra estourou, al-Husayni não teve dúvidas em bandear-se para o lado nazista. Era um anti-semita convicto.


Cada vila árabe na Palestina funcionava de forma autônoma e tinha liderança própria, alguns fiéis ao mufti, outros nem tanto. Os principais líderes árabes nos países vizinhos – Ibn Saud, na Arábia Saudita, os reis irmãos Abdullah, da Transjordânia, e Faisal, do Iraque, Farouk I do Egito e o presidente sírio Shukri al-Quwatli tinham seus próprios projetos de anexação, além de não confiarem muito no mufti.


Quando, em 1947, a ONU decidiu pela divisão da Palestina em dois territórios, um que formaria o país árabe, outro o judaico, o conflito implodiu. Os países árabes tinham exércitos razoavelmente poderosos. A Haganá, força paramilitar considerada ilegal pelo governo britânico que funcionava sob comando de Ben-Gurion mal tinha rifles velhos. Foram à Europa comprar armas, munição e carros blindados dentre a sucata da Segunda Guerra. Tudo feito às pressas mas com razoável organização. O dinheiro para pagar a conta vinha de judeus americanos endinheirados. Enquanto isso, os árabes discutiam entre si como dividiriam o território que pretendiam conquistar sem jamais chegar a algum consenso. Estavam mal organizados. Não que do lado judaico tudo fosse claro – além da Haganá, lutaram a guerra duas organizações terroristas, a Stern Gang e a Irgun, que não reconheciam a liderança de Ben-Gurion.


A guerra foi, na verdade, duas: uma, civil, não declarada, se deu em vários conflitos e ataques terroristas de ambas as partes entre 1947 e o dia da Independência. A segunda é a invasão pelos países árabes de Israel.


Na primeira, enquanto havia razoável união judaica e um objetivo comum, o mesmo não houve entre palestinos. Havia dois árabes para cada judeu na Terra Santa, mas não conseguiram fazer com que a vantagem numérica tivesse resultado prático. Nem todos seguiam o mufti e as aldeias não se relacionavam. Divididos, não tiveram chances. O grupo de novos historiadores israelenses não têm dúvidas de que Ben-Gurion, embora jamais tenha dado ordens claras, incentivou a expulsão de palestinos de suas terras. Se os árabes não tivessem partido para o conflito primeiro, ele jamais teria tido a desculpa; se não expulsasse um bom número de palestinos, seu Estado judaico não teria maioria judaica.


Nas contas de um destes historiadores, Benny Morris, 700.000 palestinos cujas famílias viviam há séculos no mesmo local foram lançados ao exílio. Morris mapeou 389 aldeias árabes na região. Segundo sua pesquisa, pode afirmar que em 49 delas a Haganá ou outro grupo judaico expulsou a população; em 62, os árabes fugiram por conta dos boatos de que massacres estavam acontecendo nas vizinhanças; em seis, a fuga foi seguindo ordens diretas da liderança política palestina. Ataques terroristas, a explosão de casas, hotéis e mercados judaicos davam a resposta palestina.


Conforme a guerra civil corria, temendo que um genocídio pudesse ocorrer, os EUA retiraram apoio à idéia de partição. Isto, e um silêncio obsequioso britânico, deu aos árabes a impressão de que a comunidade internacional não rejeitaria seu ataque. Se tivessem vencido, talvez não rejeitasse mesmo. Egito, Iraque, Síria e Transjordânia invadiram a Terra Santa no momento em que os britânicos a deixaram. Um dos principais líderes militares árabes era um oficial inglês, o general e lorde John Bagot Glubb. Com Israel recém-nascida, Ben-Gurion fez dissolver Stern Gang, Irgun e Haganá e os juntou num exército que batizou, como convinha à época, de Forças de Defesa de Israel. Os países árabes, em conjunto, representavam uma população de 40 milhões de habitantes; a população judaica de Israel não chegava a 2 milhões. A guerra durou quase um ano e Israel rechaçou os invasores. Vários tratados de armistício foram assinados em princípios de 1949.


Israel nascera.


No total, morreram 12.000 palestinos, 6.000 judeus, 1.400 egípcios, e centenas de iraquianos, trasjordanianos e sírios.


Até 1950, uma série de pogroms, passeatas anti-semitas, incêndios de casas e sinagogas, explosões de bombas e assassinatos ocorreram em quase todos os países islâmicos – Egito, Iraque, Síria, Irã, Iêmen e Líbia. O resultado foi a expulsão de 500.000 judeus das casas nas quais suas famílias viviam fazia séculos e sua conseqüente migração para Israel. Estes, em grande parte, viriam a compor o primeiro eleitorado do Likud, o conservador partido linha-dura israelense.


Se naquela decisão de 1947 a ONU tivesse optado por não dividir a Palestina e não estabelecer um Estado judeu, ainda assim haveria a guerra. A diferença é que o lado judaico a iniciaria. O processo, nascido do pesado anti-semitismo que assolou a Europa entre os séculos 19 e 20, e do colapso dos impérios otomano e britânico, estava em curso fazia tempo.


Está em curso, diga-se. Há 60 anos.


Sim, a história é complicada. Talvez alguns de vocês queiram discutir a maneira como a conto. Há muitas versões – procurei ser o mais isento possível, tarefa que na verdade é impossível. Mas tenta-se, ainda assim. Principalmente, tenhamos uma discussão civilizada a respeito de Israel e Palestina. Civilizada quer dizer algo simples: podemos ter idéias fortes, podemos ter convicções profundas, mas respeitemos aqueles com quem não concordamos. Não vamos partir do princípio de que o outro age de má-fé. Esta é uma história que mexe com razão e com emoção ao mesmo tempo. Convicções são honestas. Lealdade para com o adversário também.


Extraído de:
Pedro Doria, em 07/05/2008.




60 anos de Israel, entre o júbilo e o luto (Peter Philipp)

O aniversário da proclamação de Israel é ocasião para um lado festejar e demonstrar força, e de tristeza, luto e sensação de inferioridade para o outro lado, escreve Peter Philipp.

Sessenta anos de Israel: israelenses e palestinos detêm-se por algumas horas ou dias para lembrar o ano de 1948, quando tudo começou. E mais uma vez a data é ocasião, para um lado, de festejar e demonstrar força, e, para o outro, de tristeza, luto e sensação de inferioridade.

Tanto mais espantoso é que a reflexão se manifeste agora também pelo lado israelense-judaico. Há alguns anos teria sido impensável o que o diário Haaretz publicou sobre o jubileu: "60 anos de nakba, 60 anos de nada".

Nakba (catástrofe) – esta é a expressão usada pelos palestinos para denominar a data da proclamação de Israel. Naturalmente que o autor do texto não considera a fundação de Israel uma catástrofe, mas sim o que aconteceu desde aquela época. E também o que deixou de acontecer: o fato de não se ter alcançado a paz.

No último grande jubileu, há dez anos, ainda se estava otimista e se acreditava que o Acordo de Oslo poderia levar a alguma coisa. Mas isso deixou de existir há tempos. E poucos ainda acreditam no êxito das tentativas de George W. Bush de selar a paz no Oriente Médio antes do fim de seu mandato. Oitenta por cento dos israelenses não acreditam nisso. Entre os palestinos, a porcentagem deve ser maior ainda.

Este pessimismo minimiza a história de sucesso que Israel representa em tantas outras áreas: o Estado judaico não só se tornou nova pátria para centenas de milhares de sobreviventes do Holocausto, mas também se desenvolveu em um país moderno e progressista: apesar de todas as bizarrices sociopolíticas, é uma democracia viva, o país líder na região nos setores da ciência e da medicina, tem um bom desempenho econômico e seu exército é – ainda – o mais forte.

De que servem todos estes avanços se falta a paz, que seria a precondição para finalmente poder gozar tudo isso? Os 60 anos da história de Israel estão repletos de chances perdidas na busca pela paz.

Chances estas perdidas por ambos os lados. Assim como os palestinos – e com eles o mundo árabe –, que por tempo demais rejeitaram qualquer idéia de paz e reconhecimento, também todos os governos israelenses preferiram confiar na força militar em vez de apostar na diplomacia e na disposição de fazer concessões.

Em Israel costuma-se freqüentemente lembrar os "três nãos" dos árabes após a Guerra dos Seis Dias: "não" às negociações com Israel, "não" ao reconhecimento de Israel, "não" à paz com Israel.

Mas também Israel tem uma longa lista de "nãos": por muito tempo não se quis reconhecer os palestinos como um povo. Depois a idéia de um Estado palestino seria rejeitada.

Hoje, os principais tabus para Israel são a questão do retorno dos refugiados e um consenso sobre Jerusalém. Isto para citar apenas os "nãos" mais importantes. Outra "catástrofe" para ambos os lados: eles estão constantemente tratando de fazer voltar a roda da história. (rw)

Peter Philipp é chefe da equipe de correspondentes da Deutsche Welle e especialista em Oriente Médio.

Extraído de:
Deutsche Welle, em 08/05/2008.


Dramática involução (Osias Wurman)

O Globo, Opinião, página 7, em 08/05/2008.

domingo, 6 de abril de 2008

Mein Führer, ousadia e frustração

Le Monde Diplomatique, em março de 2008.

OUTROS CINEMAS

Mein Führer, ousadia e frustração

Lento e forçadamente debochado, o filme mais recente de Dani Levy pretende debater a relação entre Hitler e o poder. Mas, ao criar a imagem de um ditador pobre-coitado, converte-se em obra estéril, que não dialoga nem com a História, nem com a atualidade.

Bruno Carmelo

Elaborar uma comédia sobre um dos ditadores mais odiados da história é um projeto, no mínimo, arriscado. Não que Hitler nunca tenha feito rir anteriormente: Mel Brooks já havia realizado, em 1968, The Producers, no qual uma peça de teatro exaltando a glória nazista obtinha sucesso inesperado.

Mas nesse filme, Hitler nunca era um personagem de verdade, apenas uma figura da peça dentro do filme; e feito com intuito claro de que a montagem fosse um fracasso (para que, após a falência, o dinheiro do seguro fosse para os produtores). Neste caso, a grande surpresa era justamente o fato do público gostar do ditador.

Mein Führer toma uma posição muito mais ousada. Hitler é protagonista, numa espécie de biografia na época final da Segunda Guerra. Se Mel Brooks defendia-se com a estrutura de "ficção dentro da ficção", o diretor Dani Levy apóia-se nos próprios fatos históricos.

O grande conflito do filme consiste em colocar o ditador face a um judeu — no caso, um professor de teatro, obrigado a ajudar Hitler com importante discurso que visa encorajar a Alemanha nazista a resistir à derrota na guerra. Vemos esse professor se contorcendo de raiva, ao ajudar Hitler a melhor pronunciar frases como "vamos nos livrar desses judeus imundos".

Um dos fatores mais controversos do filme é a caracterização de Hitler como um homem triste, deprimido. Ele é manipulado pelo malvado ministro Goebbels, mas sua grande intenção é unicamente a de ajudar o povo. "Eu nem odeio tanto os judeus", ele diz, para em seguida lembrar que teria um bisavô judeu.

Um Hitler bonzinho? Mesmo o professor passa a ter piedade pelo pobre sujeito, e por conseqüência o espectador também é incitado a ver no ditador alguém que é manipulado pela própria propaganda e poder. Enfim, uma irônica vítima do nazismo. Entretanto, estamos longe do processo de "humanização" proposto por outros filmes nos quais o ditador era mostrado do modo mais objetivo possível. Aqui, ele chega a ser defendido como homem ignorante e fraco, e por isso mesmo sem responsabilidade por seus atos. Mais questionável ainda do que defender as idéias nazistas é retirar a culpa do "führer" e assim apagar uma importante página da História.

Numa obra em que Hitler é um pobre-coitado, e na qual genocídio e campos de concentração são secundários, parece irônico alimentar-se de pretensões documentais ou analíticas

O papel da comédia na narrativa é mínimo e, por esse motivo, a cada vez que um elemento cômico aparece, ele faz de tudo para chamar atenção para si mesmo. O resultado é um festival de micro-elementos de humor físico e exaltações do patético: vemos Hitler de pijama, seu cachorro que o utiliza como poste, sem falar nas inúmeras crises de choro (um rápido psicanalismo do estilo "meu pai me batia quando eu era pequeno" visa a justificar as atitudes do ditador) e nos ataques à masculinidade, em decorrência dos problemas de ereção de Hitler.

Exceto essas inserções ocasionais de simples deboche, Mein Führer tem um ritmo surpreendentemente lento para uma comédia. Situado entre as inevitáveis cenas de drama correspondentes à amizade entre Hitler e o professor judeu e a comédia que nunca se desenvolve nas ações (e sim nos elementos cômicos propositadamente inseridos dentro delas), o filme não comove nem faz rir. Para uma proposta inusitada que funciona como maior publicidade ao filme, o diretor quis se precaver e fez uma obra pequena, modesta, ainda que um pouco mais pretensiosa no final.

Nos últimos momentos, uma voz off de um personagem (ou do diretor?) vem nos lembrar didaticamente que "fazemos filmes para tentar entender o que ainda não compreendemos". Numa obra sobre a Segunda Guerra Mundial em que Hitler é um pobre-coitado, e na qual as idéias de limpeza étnica, genocídio e campos de concentração são secundárias, parece irônico alimentar-se de pretensões documentais ou analíticas.

Na época do lançamento de Mein Führer na Alemanha, o diretor se defendeu das críticas pelo fato de ser judeu. Talvez por isso mesmo seja ainda mais decepcionante ver essa obra em que se fala da história sem refletir sobre ela, em que se utiliza de uma figura histórica sem qualquer questionamento ético e moral.

Não se pode abordar um tema tão importante sem ter responsabilidades pelo retrato, e é capaz que o resultado do filme fosse mais interessante se o diretor realmente fizesse uma obra extrema, defendendo visceralmente um ponto de vista. Neste caso, quando isenta de responsabilidades tanto Hitler quanto a si próprio, ele cria uma obra estéril, que não dialoga nem com a História, nem com a atualidade.

Mein Führer (Mein Führer - Die wirklich wahrste Wahrheit über Adolf Hitler)
Filme alemão de Dani Levy.
Com Helge Schneider, Ulrich Mühe, Sylvester Groth.
Ano de produção: 2006.
Duração: 1h35.



sábado, 29 de março de 2008

Os caminhos do Estado de Israel (Arnaldo Niskier)

Os caminhos do Estado de Israel

Arnaldo Niskier
Integrante da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/RJ

Há muitas razões para que sejam comemorados condignamente os primeiros 60 anos da independência do Estado de Israel, em que houve a mão brasileira do chanceler Osvaldo Aranha. Uma visita extensiva ao país, como acabamos de realizar, permite uma série de observações que, de longe, se tornam menos perceptíveis, qualquer que seja a religião do observador. Berço do judaísmo, do islamismo e do catolicismo, sempre haverá razões e esperança de que ali se estabeleça uma paz definitiva, para benefício dos povos respectivos.

O Estado de Israel, nascido em 1948, sempre se destacou pelo grande apreço ao desenvolvimento científico e tecnológico. O seu primeiro presidente foi o cientista Chaim Weizmann, que citava uma frase lapidar: "Devemos construir uma ponte segura entre a ciência e o espírito humano". Assim foi criado o Instituto Weizmann de Ciências, uma das 10 maiores instituições de pesquisa do mundo, que tivemos o prazer de revisitar, em Rehovot.

Conhecemos incríveis projetos, como os que se desenvolvem em telecomunicações, software, tecnologia celular, agricultura irrigada (por gotejamento), transplantes de órgãos, células-tronco embrionárias e a milagrosa cura da esclerose múltipla, além de transplantes de órgãos. Não é de se estranhar, pois, que em 60 anos a única democracia representativa do Oriente Médio tenha sido capaz de ganhar nove Prêmios Nobel, em áreas diversificadas, como a matemática, a física, a química, a literatura – Agnon, que só escrevia em hebraico – e a consagradora vitória no Prêmio Nobel da Paz, com dois dos seus grandes líderes, Menasche Begin e Itzhak Rabin.

Passa pela nossa lembrança a primeira visita feita ao IWC, em 1967, logo após a Guerra dos Seis Dias. Conversamos longamente com o matemático Chaim Pekeris, colaborador de Albert Einstein, na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e que fora a cabeça responsável pela construção do computador Golen. Claro, na época, era uma imensa máquina, pesada, mas que continha os princípios norteadores do que viria a ser a maior conquista tecnológica dos nossos tempos.

Há outras particularidades que devem ser lembradas e com as quais travamos contato: Israel trouxe da África 60 mil pessoas para viver em liberdade, e não como escravos. São cidadãos comuns, empenhados, como todos os 5,8 milhões de israelenses, na conquista do progresso. Aliás, comenta-se muito, naturalmente com orgulho, que o país construiu 15 novas cidades para levar o progresso a regiões como Carmiel, que também visitamos.

Há mais de 1 milhão de árabes vivendo em Israel. Têm direito ao mesmo ensino gratuito oferecido a todas as crianças dos 5 aos 17 anos.

Israel ainda não é um paraíso, os professores reclamam dos salários, o orçamento absorve 16% com as despesas de segurança. De olhos voltados para a tradição, com uma arqueologia de primeiro mundo, o país vê o futuro com muito otimismo, calcado num crescimento anual de cerca de 4% do PIB. A paz, para o seu povo, por isso mesmo, é vital.

Extraído de:
Jornal do Brasil, Internacional, em 29/03/2008.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Mais crítica faria bem a Israel

Em sua visita a Israel, a premiê alemã, Angela Merkel, deveria ter feito críticas à atuação israelense nos territórios palestinos, em vez de se restringir a efervescentes declarações de amizade, opina Peter Philipp.

Há muitos anos, Yohanan Meroz, que viria a ser embaixador israelense em Bonn, explicou que as relações bilaterais eram "muito boas, mas nada normais". Naquela época, os políticos alemães se esforçavam para ouvir dos israelenses a palavra "normal". No fundo, esperavam poder passar para as questões em pauta e deixar o passado em paz. Hoje já não se faz mais nenhuma tentativa nesse sentido, já não se briga mais por causa de um adjetivo. O que se pratica agora é o que parecia impensável e impossível até aos mais otimistas – não apenas há seis décadas, na época da fundação de Israel, mas durante muitos anos depois –: amizade e vínculo profundos.

A visita da chanceler federal [Angela Merkel] a Israel deu novo realce a essa caracterização das relações bilaterais. E ao mesmo tempo ressaltou o que Meroz já dizia na época: "normal" isso não é. Com o pano de fundo do extermínio sistemático dos judeus pelo nazismo, normalidade também é impensável.

Por isso também é bom, naturalmente, que as relações bilaterais se desenvolvam e melhorem. Mas ainda se poderia perguntar se, neste caso, não se fez demais pelo bem. Mesmo a inusitada introdução de encontros regulares entre os gabinetes de ambos os países não consegue disfarçar o fato de que a relação da Alemanha com Israel não pode ser vista isoladamente: Se antigamente Bonn tentou se esconder por trás de uma política européia para o Oriente Médio, algo que mal existia, faz tempo que Berlim se tornou um importante agente da política internacional. Inclusive no Oriente Médio. Então daria para questionar se seria o caso de celebrar a ligação com Israel através de uma ausência de crítica tão evidente, em vez de pronunciar abertamente – "com toda amizade" – as verdades já há muito aceitas em todo em mundo e até em amplos círculos em Israel. Por exemplo, teria sido oportuno dizer algumas palavras francas contra a linha dura na Faixa de Gaza, bem como contra a ampliação das colônias israelenses na Cisjordânia. Será que essa crítica seria inoportuna ao visitar Israel para parabenizar o país por seus 60 anos de existência? Talvez. Se a chanceler federal não tivesse viajado com a metade do governo para consultas políticas. Intercâmbio de jovens, cooperação científica, cultural e econômica certamente são coisas importantes. Quanto à cooperação militar, atualmente deveria haver mais cautela. Aquilo de que Israel, os palestinos e o Oriente Médio mais precisam é de paz. Incentivos à política que promove a paz e críticas a tudo que vá contra isso. E disso já há o bastante na região. (sm)

Peter Philipp é chefe da equipe de correspondentes da Deutsche Welle e especialista em Oriente Médio.

Extraído de:
Deutsche Welle, em 19/03/2008.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O filme "Escritores da Liberdade" e a função do pensamento em Hannah Arendt

por Raymundo de Lima

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)


Há muitos filmes americanos sobre escola, mas não como "Escritores da Liberdade". (Freedom Writers, EUA, 2007). Porque é o único filme dessa categoria que incentiva os alunos a lerem literatura, ponto de partida para testar a vocação de cada um para escrever dede um diário sobre o cotidiano trágico de suas vidas até uma poesia hip hop ou um livro de ficção. O valor desse filme também está na ousadia da linguagem cinematográfica mostrando os problemas psico-sócio-culturais que atingem a escola contemporânea; também porque ele dá visibilidade à diversidade dos grupos, com seu rígido código de honra, cada um no seu território, o narcisismo da recusa e da intolerância para com "os outros", o boicote às aulas, a prontidão para aumentar os índices de violência entre os jovens e transformar a escola no seu avesso, isto é, uma comunidade bem próxima da barbárie, o que de fato vai acontecer em 1992, em Los Angeles, EUA.

O filme é baseado na história real de Erin (interpretada por Hilary Swank[1]), uma professora novata interessada em lecionar Língua Inglesa e Literatura para uma turma de adolescentes resistentes ao ensino convencional; alguns estão ali cumprindo pena judicial, e todos são reféns das gangues avessas ao convívio pacífico com os diferentes.

Como em outros filmes sobre turmas problemáticas, a professora Erin toma sua tarefa como um grande desafio: educar e civilizar aquela turma esquizofrênizada e estigmatizada como "os sem-futuro" pelos demais professores. Percebe que seu trabalho deve ir para além da sala de aula, por exemplo, visitando o museu do holocausto, possibilitando aos jovens saber os efeitos traumáticos da ideologia da "grande gangue" nazista, que provocou a 2ª. Guerra Mundial e o holocausto, e também reconhecer as semelhanças com suas "pequenas gangues" da escola. Nota: a palavra "holocausto"[2], referida no filme, é usada mais pelos judeus. E, "genocídio"[3] é o termo cunhado pelo Direito Internacional do pós Guerra. Ambas significam o ato racional de eliminação de seres humanos em escala inimaginável (conferir nota de rodapé).

O método da jovem professora consistiu em entregar para cada aluno um caderno para que escrevessem, diariamente, sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares e sociais. Também, instigou-os a ler livros como "O Diário de Anne Frank" com o propósito de despertar alguma identificação e empatia, ainda que os personagens vivam em épocas diferentes; a partir de eventuais encontros imaginários cada aluno poderia desenvolver uma atitude especial de tolerância para com o "outro". Na vida real, os diários foram reunidos em um livro publicado nos Estados Unidos, em 1999, e terminaram inspirando o diretor Richard LaGravenese para fazer esse filme.

Formada em Direito, Erin se torna professora, desagradando seu pai e marido. No início, ela demonstra ingenuidade, timidez, curiosidade e determinação; sua vocação para o magistério vai se construindo conforme os desafios que ela encontra entre os alunos e ao lidar com a burocracia e o conservadorismo dos funcionários do sistema pedagógico da escola. Os judeus nova-iorquinos diriam que o diferencial de Erin é ela ter "chutzpah": ousadia, garra, determinação, toma iniciativa, ir-à-luta. Os diversos obstáculos próprios de qualquer sistema escolar faz com que ela se sinta desafiada a fazer algo-mais.

Seu estilo não é teatral, tal como os professores protagonistas dos filmes "O triunfo", "Sociedade dos poetas mortos", "Escola da vida". Também não é autoritária como "Meu mestre, minha vida", e nem experimentalista como é o professor Ross, do filme "A onda". Seu estilo pedagógico está para o ensaísmo apaixonado, romântico, humanista, mas sem perder de vista a racionalidade do propósito educativo. Primeiro, ela tenta "dar aula" segundo manda o modelo tradicional, que não funciona com alunos indiferentes ao propósito da escola eminentemente ensinante. Uma aluna questiona pra que serve aprender tal conteúdo abstrato considerado inútil para melhorar sua vida real; outro dirá que o fato de ela ser professora "branca" não é suficiente para ele respeitá-la. Cabe à professora ter argumentos consistentes que respondam essas questões imprescindíveis na escola contemporânea. No segundo momento, Erin faz o reconhecimento dos grupos de iguais (narcísicos), e, obviamente sente empatia com os excluídos. Terceiro, devolve aos alunos esse reconhecimento com um pensamento crítico, fazendo-os reconhecer, sentir e pensar sobre a realidade criada por eles próprios. Quarto, não os aceita na condição de vítimas reativas, e cobra-lhes responsabilidade por suas escolhas e seus atos de exclusão para com os diferentes. Ou seja, sua ação pedagógica é inovadora porque desperta a motivação dos alunos para expressar seus sentimentos, ler, pensar, escrever, e mudar a partir do reconhecimento como sujeito-de-sua-história.

Na concepção de Hannah Arendt, duas causas podem ter relação profunda com a crise da educação em nossa época: a incapacidade de a escola levar os alunos para pensar e a perda da autoridade dos pais e professores. Ambas fazem com que as crianças e adolescentes fiquem sujeitos à tirania de uma maioria qualquer (grupo social, tribos, gangs) e de um líder carismático ou populista. Portanto, o ato educativo de Erin é ao mesmo tempo político e ético, porque visa transformar alunos "não-pensantes", "incivilizados", "não-humanizados", em seres humanos que podem exercitar o pensamento crítico sobre a realidade e seus atos; suas propostas de dinâmicas com os grupos leva-os a rememorar situações e rever suas posições na história de cada um, podendo até criar em cada aluno uma nova ética que melhor orienta seus gestos e palavras para evitar magoar o seu próximo. As dinâmicas e debates em sala de aula desmarcaram o recorrente discurso vitimista desses grupos, que tendem ao comodismo da sua desgraça, e ao mesmo tempo projeta no outro a responsabilidade pela sua própria irresponsabilidade ou fracasso como sujeito-cidadão no meio social. É preciso que cada qual se responsabilize e se comprometa "fazer sua parte", ou como diz a velhinha que abrigou Anne Frank: "fazer a coisa certa" ou ética, como uma pessoa comum, anônima, e representante do que é ser civilizado.

Uma educação que não exercita o ato de pensar, com todos os seus riscos, além da própria ausência de pensamento, tem como efeito o não comprometimento, o não tomar decisões, ou não se responsabilizar por elas. "A tarefa fundamental do pensar é descongelar as definições que vão sendo produzidas, inclusive pelo conhecimento e pela compreensão e que vão sendo cristalizados na história. A tarefa do pensar é abrir o que os conceitos sintetizam, é permitir que aquilo que ficou preso nos limites da sua própria definição seja liberado. É livrar o sentido e o significado dos acontecimentos e das coisas da camisa-de-força dos conceitos" (CRITELLI, 2006, p. 80).

É preciso, portanto, criar dispositivos – como ler, escrever, falar elaborado – que "operem como obstáculo para que aqueles que não se decidiram a ser maus não cometam maldades" (CORREIA, A. 2006, p. 50). Conforme diz Arendt: "os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão, e, sem lembrança, nada consegue detê-los [...]. O maior mal não é radical, mas possui raízes, e, por não ter raízes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo", como foi a trágica experiência dos regimes totalitários, o nazi-fascismo e o stalinismo.

Para alguns, é insuficiente o(a) professor(a) apenas "fazer sua parte", visto existir um mundo para além dos limites de sua sala de aula. Mas, a lição da professora do filme está em "fazer-bem-sua-parte" exatamente no ponto nevrálgico e temporal que é a educação: ser um ato civilizatório entre o passado e o futuro. Diz ela: "A tarefa da educação é justamente a de apresentar o mundo às gerações do presente, tentando fazê-las conscientes de que comparecem a um mundo que é o lar comum de múltiplas gerações humanas. Ao conscientizá-los do mundo a que vieram, estas deverão compreender a importância de sua relação e ligação com as outras gerações, passadas e vindouras. Tal relação se dará, primeiro, no sentido de preservar o tesouro das gerações passadas, isto é, no sentido de a geração do presente tomar o cuidado de trazer a esse mundo sua novidade sem que isso implique a alteração, até o irreconhecimento, do próprio mundo, da construção coletiva do passado" (apud FRANCISCO, 2006, p.35).

Tal posicionamento pedagógico-político-ético da função docente deve ser marcado pela sua autoridade, sensibilidade, e senso de inovação, que ao ser testado na realidade cotidiana da escola costuma pagar um preço em forma de resistências, incompreensões e críticas maldosas. Assim posicionado nesse tripé é que o docente pode tanto se defender dos ataques de fora como resistir às frustrações advindas do seu próprio trabalho. Também, a partir desse estilo ela pode melhor se preparar para evitar cair no criticismo raso dirigido ao sistema, como forma única de luta; ou seja, a experiência tem demonstrado que muitos na escola e na universidade usam de verbosidade sem ação, não se comprometem de corpo e alma testando táticas inovadas de lutas (no sentido da esquerda política) visando melhorar a qualidade do ensino; outros ficam esperando que o governo ou dono de escola tomem iniciativas, ou autorizem (o)a professor(a) fazer algo inovador no seu trabalho docente no sentido de reverter o baixo rendimento dos alunos, por exemplo.

Que cada professor(a) faça diferença no seu ato de ensinar. O ensino regular visa levar os alunos aprenderem os conteúdos programados pelos currículos. Contudo, não se pode ensinar sem incluir também uma mudança educativa. Um ensino sem educação para o pensar é vazio de sentido prático e existencial. Uma educação sem aprendizagem dos conteúdos também é vazia e tende a degenerar em retórica moral e emocional. Ensinar e educar implicam em responsabilidades: pedagógica, política e moral, dentro e fora da escola; implica, ainda, na responsabilidade do coletivo[4] do professorado de civilizar a nova geração que irá povoar o mundo.

No dizer de Arendt (1989) "A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para expulsá-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum".

Nós, professores e professoras, devemos assistir ao filme "Escritores da Liberdade" por várias razões: para que possamos inovar o ato de ensinar adequado à realidade cultural dos alunos; para que, além de ensinar, também possamos adotar uma atitude de pesquisa-ação com os grupos que se formam em sala de aula e na escola, quase sempre atraídos pela semelhança formando grupos narcísicos, cujo sintoma visível é a intolerância para com os demais; para que aprendamos a acolher e contextualizar as situações de vida dos alunos com as de outras vidas relatadas pela história da humanidade – que, através de um diário ou redação qualquer eles aprendam a significar suas histórias com outras histórias; para que os professores do nosso Brasil se empenhem mais-e-mais em ler literatura, porque só podemos cobrar dos alunos esse hábito se nós também nos habituamos a ler, isto é, se ler e compreender[5] já fazem parte de nossa virtude pessoal. (aquele que lê e compreende tem maior probabilidade de escrever suas próprias narrativas); para que os professores façam autocrítica sobre o quantum de paixão (ou libido) têm pelo trabalho com os alunos não deve necessariamente implicar a sua desatenção (ou desapaixonamento) para com os seus próximos: marido, esposa, filhos, etc.

Bom filme pra todos!!!


Filme: Escritores da liberdade (Original: Freedom Writers) País: EUA/Alemanha - Gênero: drama. Classificação: 14 anos. Duração: 123 min. Ano: 2007. Direção: Richard LaGravenese . Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April Lee Hernandez, Mario, Kristin Herrera, Jacklyn Ngan, Sergio Montalvo, Jason Finn, Deance Wyatt, Vanetta Smith, Gabriel Chavarria, Hunter Parrish, Antonio Garcia.

Sinopse: Hilary Swank é uma professora novata que tenta inspirar seus alunos problemáticos a aprender algo mais sobre tolerância, valorizar a si mesmos, investir em seus sonhos e dar continuidade a seus estudos além da escola básica. Também ela é ousada ao enfrentar os grupos formadores de gangs em sala de aula, levando-os a pensar sobre a formação e ideologia dos próprios.


Referências
ARENDT, H. As origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.
ARENDT, Hanna. A crise na educação. In: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 238-9.
CORREIA, Adriano. O pensamento pode evitar o mal? In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educação. São Paulo: Segmento, n.4, 2006, p.46-55.
CRITELLI, Dulce. O ofício de pensar. In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educação. São Paulo: Segmento, n.4, 2006, p.74-83.
FRANCISCO, Maria de Fátima S. Preservar e renovar o mundo. In: Rev. Educação: Hannah Arendt pensa a educação. São Paulo: Segmento, n.4, 2006, p. 26-35.
REBELLO DE SOUZA, Denise Trento. Formação continuada dos professores e fracasso escolar: problematizando o argumento da incompetência. In: rev. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.32, n3, p.477-492, set./dez.2006.

Notas
[1] A novata atriz Hilary Swank é merecedora de dois prêmios Oscar pelos filmes: "Menina de ouro" e "Meninos não choram".
[2] Holocausto [gr. Holókauston], originalmente, significava o "sacrifício em que a vítima – um animal - era queimada inteira", tendo assim um sentido de imolação ou expiação. No período nazista, entre 1935 e 1945, os judeus se viram diante de um novo holocausto, sendo obrigados à perda da cidadania, a trabalhos forçados, a suportarem a brutal separação dos membros da família inclusive de crianças, a serem fuzilados em massa, a serem transportados pela força para os campos de concentração onde terminavam sendo exterminados coletivamente em câmaras de gás. Durante o holocausto, cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados para cumprir o que os nazistas chamavam de 'solução final'. Alguns analistas entendem que o emprego da palavra holocausto teve o intuito de significar mais que a palavra 'genocídio'. C. Lash (1990), por exemplo, argumenta que "o massacre dos judeus tornou-se holocausto porque a palavra "genocídio", numa época genocida havia perdido a capacidade de evocar os sentimentos apropriados aos fatos que procurava caracterizar. Ao buscar uma linguagem ainda mais extrema, os historiadores do holocausto contribuíram para a degradação do "genocídio" (...). Contra os poloneses e outros povos cativos da Europa oriental, Hitler praticou o que pode ser denominado de genocídio, de acordo com Y. Bauer (...). [isto é, a política nazista assassinou sistematicamente judeus, e, também, comunistas, homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová, e todos as pessoas consideras pelos nazistas como 'inferiores'. No entanto], "é preciso alertar que somente os judeus experimentaram um holocausto" (LASH, 91). Portanto, mais do que o genocídio, a palavra holocausto passou a ser empregada com o sentido de extermínio em massa racionalizado e insano dos judeus, coisa que era "impensável" até acontecer de fato como o maior acontecimento trágico do século 20.
[3] Ver nosso artigo disponível em: <www.espacoacademico.com.br> n. 45, em fevereiro/2005.
O 'Genocídio' [do latim genus = família, raça, tronco, do grego genos e caedere = matar, cortar] é uma palavra cunhada por Raphael Lemkin em 1944 para especificamente se referir à política do governo nazista de extermínio completo dos judeus, ciganos, comunistas e homossexuais. Até então a humanidade não tinha sofrido nada igual; nunca o crime foi imaginado, racionalmente planejado e executado pelo Estado, em proporções gigantescas. O crime de genocídio constituiu uma das acusações contra os líderes nazistas no Tribunal Militar Internacional de Nuremberg em 1944, e, posteriormente, passou a vigorar na ONU sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio (UNGC), que entrou em vigor em 1951, mas até hoje raras vezes foi aplicado. Lemkin imaginava que a palavra genocídio poderia evocar nas pessoas uma atitude de repulsa ao crime de massa e de luta pelos direitos humanos. A rigor, o genocídio é definido como "crime contra a humanidade, que consiste em cometer, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, qualquer dos seguintes atos: I) matar membros do grupo; II) causar-lhes lesão grave à integridade física ou mental; III) submeter o grupo a condições de existência capazes de destruí-lo fisicamente, no todo ou em parte...". (Dic. Aurélio). Também é considerado genocídio, a interdição da reprodução biológica e social de membros de grupos étnicos, bem como também a prática de terror contra supostos inimigos reais ou potenciais. O Brasil regula e define o genocídio pela Lei no. 2. 889, de 1º. de outubro de 1956. A Lei no. 8.072, de 25-07-1990, o considera como "crime hediondo" e, como tal, insustentável de anistia, graça, indulto, fiança e liberdade provisória.

[4] Na verdade, esse "coletivo" tem duas faces: a cultura dos professores da escola e a estrutura técnico-burocrática que orienta o funcionamento da escola. Os programas de formação continuada dos professores, por exemplo, até agora não problematizam sobre a necessidade de mudar (reformar ou revolucionar) o modelo de ensino da escola e sua cultura específica. Para uma análise sobre os programas de formação continuada dos professores, ver: REBELLO DE SOUZA, Denise Trento. Formação continuada dos professores e fracasso escolar: problematizando o argumento da incompetência. In: rev. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.32, n3, p.477-492, set./dez.2006.
[5]
Sobre a incompreensão na leitura, ler nosso artigo nessa revista www.espacoacademico.com.br (ver "arquivo do autor").


Extraído de:
Revista Espaço Acadêmico, Número 82, Março de 2008.