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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 16 de março de 2008

Clips de papel e o Holocausto




Clips de papel e o Holocausto

Natalia Wainer, representante das ONG's
“Paper Clips Brasil” e “Tolerância Brasil”

Em muitos países no mundo existem monumentos e memoriais importantes em homenagem às vítimas do Holocausto. Mas por que aquele construído por jovens da Oitava Série (8th Grade) da pequena cidade de Whitwell, Tennessee, nos EUA, merece uma atenção especial? Em primeiro lugar, haveria-se de procurar bastante por um lugar mais improvável para surgir um projeto como este. Whitwell está situada num vale rural, na parte oeste das Smoky Mountains.

Uma cidade muito pequena, 1.600 habitantes, sendo que em sua absoluta maioria de brancos de religião protestante (apenas quatro famílias de origem afro-americana e uma hispânica).

Não há estrangeiros, Católicos, Judeus ou Muçulmanos vivendo lá. A cidade tem dois semáforos, um restaurante e um posto de gasolina, no coração de uma região dos Estados Unidos conhecida por seu passado de intolerância, segregação racial e Xenofobia (fica cerca de 150km da cidade berço da Ku Klux Klan - KKK).

Por falta de dinheiro e preparo acadêmico, o sonho de cursar uma Universidade é mais distante dos alunos que cursam as escolas da região. Em segundo lugar, a atenção especial neste caso se dá devido a proporção que este projeto, inicialmente tão simples e inocente, conseguiu atingir. Veja como uma simples idéia pode se transformar em algo tão significativo para uma causa tão justa. A inspiração para o projeto surgiu em 1998 quando o Diretor Associado David Smith da Escola de Ensino Médio em Whitwell, a mando de sua Diretora Geral, Sra. Linda M. Hooper, frequentava um curso para treinamento de professores na Universidade do Tennessee em Chattanooga , em busca de um tema para um trabalho que envolveria os alunos durante o verão de 1998, algo que pudesse ter como referência a tolerância e a diversidade.

Smith, com liberdade para escolher e sugerir qualquer tema para o proposto projeto, se inspirou quando um sobrevivente do Holocausto fez uma palestra na Universidade que ele visitava. Então, através da aprovação da Sra. Hooper, membros do corpo docente de Whitwell resolveram ensinar aos seus alunos adolescentes em um curso paralelo e opcional ao currículo oficial, sobre o Holocausto, e o tema ódio e intolerância. No começo do projeto, com 16 alunos inscritos, Hooper e sua equipe acrescentaram ao currículo dos alunos, textos como "O Diário de uma Adolescente", de Anne Frank; o livro " Night" de Elie Wiesel, entre outros trabalhos de pesquisa. Os alunos também assistiram "A Lista de Schindler", de Steven Spielberg, e aprenderam os fundamentos do judaísmo, pois não sabiam nada sobre o que era um "judeu".

"A intolerância deve ser tratada com tolerância zero
e o seu combate e busca pela justiça plena
se dá através de informação e educação"

Ben Abraham, presidente da Associação Brasileira dos
Israelitas Sobreviventes do Holocausto (Sherit Hapleitá)

A Sra. Hooper ao ser questionada por um aluno sobre a quantidade de judeus assassinados durante o Holocausto pelos nazistas, e como fazer para entender a grandeza do número "6 milhões", não soube explicar, e disse que também nunca tinha visto nada que pudesse representar de uma forma concreta esta quantidade tamanha. Então, encomendou uma tarefa dentro do projeto, pois também desejava descobrir uma maneira pela qual os estudantes conseguissem captar tangencialmente a enormidade da perda destas 6 milhões de vidas inocentes.

Os alunos deveriam pesquisar o que poderia ser colecionado por eles, até se chegar ao número seis milhões, mas deveria ser pequeno, barato e fácil de armazenar, pois seis milhões de qualquer objeto por menor que seja, tratar-se-ia de um grande volume. Com a sugestão de um dos estudantes que pesquisava o que poderia ser colecionado, a escola começou a colecionar clips de papel para relembrar e honrar a perda de vidas judias.

Os alunos deveriam pesquisar o que poderia ser colecionado por eles, até se chegar ao número seis milhões, mas deveria ser pequeno, barato e fácil de armazenar, pois seis milhões de qualquer objeto por menor que seja, tratar-se-ia de um grande volume. Com a sugestão de um dos estudantes que pesquisava o que poderia ser colecionado, a escola começou a colecionar clips de papel para relembrar e honrar a perda de vidas judias.

Mas porque o clips de papel? A inspiração veio de uma lição histórica. Os judeus noruegueses estavam sendo mandados para os Campos de Concentração e Extermínio, assim como todos os judeus da Europa ocupada, então noruegueses não judeus começaram a usar clips de papel (paper clips) na lapela de seus ternos e camisas, como protesto contra os nazistas que haviam invadido seu país e estavam cometendo tantas atrocidades. Um protesto silencioso, fácil de ser ocultado em caso de suspeita em um ambiente público, mas também uma forma de identificação silenciosa entre pessoas que não concordavam com o que estava acontecendo. Naquela época era muito comum usar pequenos broches e alfinetes com temas políticos (como muito bem ilustrado no filme "A Lista de Schindler").Nos países conquistados, havia uma proibição imposta pelos nazistas referente a ostentação de qualquer símbolo nacionalista que não fosse alemão e/ou nazista.

Os noruegueses, proibidos então de usar qualquer objeto que demonstrasse lealdade ao Rei e ao governo norueguês, escolheram o clips de papel como símbolo de resistência naquele momento, pois até hoje, por ter sido o inventor norueguês Johan Vaaler, o detentor da patente da primeira versão do clips de papel, este é o símbolo nacional da Noruega (símbolo não político).

Aquilo que começou como um pequeno córrego de clips de papel, chegando um a um, solicitados através do website da escola e uma campanha de escrever cartas, transformou-se numa torrente na ocasião em que a sobrevivente do Holocausto Lena Gitter, na época com 94 anos, soube do projeto. Gitter avisou um casal de jornalistas alemães Dagmar e Peter Schroeder, nascidos no período da Segunda Guerra e hoje correspondentes na Casa Branca, em Washington, para a mídia alemã e austríaca, pois sempre se mostraram solidários as vítimas do Holocausto em seus trabalhos. Estes subsequentemente escreveram estórias sobre o projeto e compilaram um livro, intitulado "O Projeto dos Clips de Papel", que foi publicado inicialmente na Europa, em alemão. A seguir, em Abril de 2001, a editora do Jornal Washington Post, Dita Smith, publicou uma matéria sobre o projeto, e após o relato na televisão no programa "Nightly News", da NBC, com Tom Brokaw, cartas e e-mails apoiando o projeto dos estudantes chegavam acompanhados por um verdadeiro dilúvio de clips de papel.

A quantidade de clips enviados pulou de 150.000 para 24 milhões em seis semanas! Enquanto que a meta dos jovens era conseguir 6 milhões de unidades, um para cada judeu assassinado pelos nazistas e colaboradores, muito mais se obteve- os milhões de clips chegavam acompanhados de inúmeras cartas de apoio de todas as partes do mundo - que até hoje são catalogadas, uma a uma, inclusive de personalidades da política mundial, como Presidentes, Primeiros-Ministros, Embaixadores, e também artistas, escritores, atores e diretores de cinema e televisão, atletas, jornalistas.

No entanto, o mais significativo para os estudantes, foram os envelopes mandados por parentes das vítimas do Holocausto. Os envelopes geralmente com um ou mais clips de papel, acompanham os nomes das vítimas - alguns com fotografias - junto com testemunhos de quem conseguiu sobreviver. Enquanto nenhum estudante de Whitwell havia conhecido um judeu antes do início do projeto, desde então, conheceram alguns sobreviventes do Holocausto que visitaram a escola para contar suas estórias de vida e agradecer a iniciativa pessoalmente. No início o projeto era destinado aos alunos da Oitava Série, depois a totalidade da Escola de Ensino Médio envolveu-se plenamente com todas as tarefas administrativas envolvidas, até que os habitantes da cidade se voluntariaram para ajudar na contagem de milhões de clips de papel, colocando-os em barris e catalogando e respondendo cada carta e e-mail. Até o serviço de correio da cidade teve de se adaptar a nova situação. E como armazenar todas estas manifestações de apoio através de tantos clips?

Um novo projeto dentro do projeto! Na verdade, mais do que uma tarefa extra, e sim praticamente uma missão impossível. Os professores com o apoio do casal de jornalistas alemães, resolveram então tentar encontrar e comprar um vagão de gado que transportava judeus para os campos de morte na Alemanha e na Europa ocupada, para se construir um monumento que abrigasse estes símbolos de expressão. Eram mais de cem campos e muitas linhas férreas e trens; os trens na maioria com cerca de 40 vagões - cada vagão transportava até 150 pessoas, sendo várias delas crianças menores de 12 anos - não paravam dia e noite, mas 60 anos após o final da Guerra, seria muito difícil encontrar um em condições adequadas para servir o propósito almejado. O casal Schroeder se propôs viajar à Alemanha, aonde após muita pesquisa, em um pátio abandonado, encontrava-se um vagão trazido da cidade de Sobibor - ao lado de um dos mais famosos Campos de Concentração e Extermínio. Após um trabalho árduo, a autentificação do vagão, muita negociação e um transporte muito difícil, o vagão 011-003 vendido pela direção do Museu Alemão de Vias Férreas, desembarcou no porto de Baltimore em 09 de setembro de 2001 - dois dias antes do ataque ao World Trade Center - finalmente chegando ao seu destino final.

Hoje, ao lado da Escola, em um espaço ao ar livre, preparado especialmente para abrigá-lo - após uma cerimônia emocionante em 09 de novembro daquele mesmo ano - onde várias personalidades estiveram presentes e praticamente toda a população da cidade, o vagão memorial foi oficialmente aberto ao público, com visitação permanente. Dentro dele, através de paredes de acrílico, podem ser vistos milhões de clips de papel, de todas as cores e tamanhos, protegidos em um monumento duradouro à tragédia do Holocausto. 6 milhões representando as vítimas judias, entre elas um milhão e meio de crianças, e 5 milhões representando outras vítimas dos nazistas. Outras vítimas incluem milhares de Roma (ciganos), Testemunhas de Jeová, comunistas, homossexuais, deficientes físicos, e tantos outros considerados "Untermeschen" - termo usado pelos nazistas para designar os "menos do que humanos", totalizando 11 milhões de clips expostos no vagão. Sandra Roberts, professora de arte em Whitwell, e uma das principais responsáveis pelo sucesso do projeto, diz que está orgulhosa dos seus alunos e do trabalho que estão desenvolvendo: "Nosso objetivo era ensinar aos jovens e as crianças o que acontece quando a intolerância reina e a discriminação passa despercebida”. E acrescenta: "Eles acreditam piamente no que estão fazendo, e se eu digo que temos um influxo de correspondência eles chegam duas horas antes, ou ficam duas horas além do horário escolar". Não, o projeto não acabou!

Hoje, mais de 30 milhões de Clips de Papel estão armazenados em um galpão ao lado da escola, exclusivamente construído para abrigar outros clips que excederam o número proposto originalmente, e todas as manifestações de apoio e testemunhos enviados do mundo inteiro. Estes clips que não foram utilizados inicialmente, hoje servem de incentivo a novos projetos sobre intolerância (com o Holocausto como seu exemplo maior), para outras escolas interessadas em várias partes do mundo. Os alunos de Whitwell, quando solicitados, preparam e enviam uma "Caixa Shtetl" ("Caixa Cidadela/Povoado Judaico") contendo o número exato de paper clips representando cada vida perdida neste povoado destruído, e sua história, plantando assim uma semente para um novo trabalho. Hoje, os alunos formados de Whitwell são convidados frequentemente para falar sobre o projeto em outras escolas de vários estados. E também recebem em sua cidade "field trips", vindos de escolas em cidades vizinhas, para visitar o Memorial, aprenderem mais sobre o assunto, e saber como lidar quando situações de intolerância se apresentam.

Extraído de:
Jornal Alef, em 16/03/2008.

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