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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 2 de março de 2008

Holocausto e Carnaval - Uma Reflexão (Nilton Bonder)

"HOLOCAUSTO E CARNAVAL"- UMA REFLEXÃO
FEVEREIRO DE 2008

Rabino Nilton Bonder

Estamos todos no "arrepio" dos eventos relativos à comunidade e o carnaval. Escrevi um artigo que não enviei aos órgãos de imprensa para não desautorizar instituições comunitárias. Mas acho que o momento exige reflexão interna além dos arrepios. Sei também que momentos polêmicos são os mais difíceis para refletirmos. Se não for para refletir, se for para entrar no plano do "sim" ou "não", do bonzinho e do bandido... então....como diziam bons rabinos do passado.... Ehhh....fargues!
Nilton Bonder

Holocausto e Carnaval
Há polêmicas que se produzem entre um certo e um errado.

Há, porém, polêmicas entre dois certos e polêmicas entre dois errados.

A atual polêmica sobre o carro alegórico da Viradouro me parece uma dessas entre dois errados.

E se isso já é muito complicado, saiba que há polêmicas onde o erro é em relação ao outro, mas há polêmicas também onde um é errado em relação a si mesmo. No meu julgamento estamos diante de uma polêmica entre dois errados para consigo mesmos.

A comunidade judaica se vê legitimamente responsável pela preservação da memória das vítimas do Holocausto. Empreende essa tarefa num mundo de revisionismo histórico e negação sobre um dos episódios mais bem documentados da História da civilização. Documentado não apenas na carne de vítimas ainda vivas, mas pela própria perversidade de seus perpetradores que registraram seus atos ensandecidos por lhes atribuir valores às avessas. Revisionismo esse que é usado como arma política por países como o Irã ou como munição de ódio por grupos racistas. Em meio a tudo isso é indiscutível a legitimidade e a necessidade desta vigilância, mas também a maneira de exercê-la.

É motivo de discussão hoje se os judeus deveriam carrear para si essa tarefa tornando-a uma causa de sua História particular ou se tal responsabilidade deveria ser no mínimo repartida com uma Europa que internamente se perceba promotora e culpada destes acontecimentos. Uma coisa é a cobrança externa, o dedo em riste e outra é a difícil e visceral crítica interna -- uma responde pela reparação e a outra pelo remorso e contrição. Discussão profunda e difícil, mas aponta uma questão importante para a comunidade judaica. Seu policiamento, na medida em que tiver que se dar, está condicionado a não se exceder, sob o risco de obliterar processos próprios de autoconsciência da civilização e que elevam o Holocausto a um símbolo universal, a uma iniqüidade contra a humanidade e não apenas contra os judeus. O claro divisor de águas está na motivação e na intenção de representar o Holocausto - seja querendo revê-lo e, portanto reduzi-lo, seja acolhendo-o como memória universal e promovendo contrição. Num mundo tão iconográfico e onde imperam valores de liberdade será impossível exercer este papel de vigilância sem que ele seja descaracterizado e compreendido como um papel autocentrado, que por um lado rouba a universalidade de um tema e por outro representa uma agenda particular de um grupo ao invés da humanidade como um todo. O contexto do carnaval e dos enredos das Escolas de Samba não é aos olhos e corações brasileiros uma passarela profana, mas uma agenda popular e pluralista que muito interessa nutrir. Se a intenção for certa, a impropriedade ou o grotesco serão sempre riscos que acredito valha a pena correr para que estas questões não fiquem prisioneiras de espaços blindados pelo politicamente-correto. Estes espaços além de reduzidos e elitistas tem a mesma motivação do fundamentalismo islâmico que quer controlar o olhar que o outro tem sobre aquilo que lhe é sagrado. No meu ver um erro para consigo.

Por outro lado os carnavalescos desejosos de trazer ao público temas com conteúdo humano e de conscientização devem fazer uma profunda análise sobre sua intenção na combinação entre conteúdo e forma. Se o carnaval quer apenas se utilizar de temas fortes e impactantes para dar cor a suas alegorias se tornará uma extensão do mundo do marketing sensacionalista e da exploração da essência pela forma. Deixará suas raízes de criatividade e humanidade para aderir ao magnético efeito da mídia e da propaganda a qualquer custo. Até porque a maior das alegorias do Carnaval não é a fantasia vã, nascida do desejo unicamente estético. O Carnaval esconde a dor e ao mesmo tempo o sonho de um povo pobre, escravizado e marginalizado. Esconde no glamour questões que emanam da luta milenar humana por um mundo mais igualitário, onde a fantasia de um não tenha que ser a de vestir-se do outro porque como excluído só pode ser a si se for o outro. Mas um mundo onde todos sejamos reis, onde o respeito se alastre como epidemia, e todo o mortal, todo o trabalhador humilde, descubra em si uma alegria que o faz folião desta vida. Aí seremos reis e rainhas, pierrôs e colombinas, não de um mundo de fantasias que deságua numa quarta-feira de ainda tanta desigualdade e intolerância. Aí o mundo poderá ser esta alegoria de uma vida que é uma passarela por onde desfila a alegria e a diversidade.

Não há polemica entre a Comunidade Judaica e o Carnaval. Há questões internas muito importantes para serem amadurecidas. Será deste amadurecimento que não teremos que nos refugiar em fantasias; dele advirá a possibilidade de que horrores como o do Holocausto deixem a todos verdadeiramente arrepiados.

Extraído de:
CJB, em fevereiro de 2008.

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