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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Daniel Barenboim: "O meu sonho é que israelenses e palestinos tenham a coragem de enfrentar o passado"

Daniel Barenboim
Especial para o "Le Monde", em 24/07/2008.

Não se passa um dia sem que eu pense a respeito do conflito palestino-israelense. E não se passa um dia sem que ele me faça sofrer. Tudo o que eu faço se inspira neste sofrimento, nesta ferida que o tempo só faz aumentar.

Estou assombrado por este pensamento, quer eu esteja dirigindo (a Orquestra Filarmônica) em Berlim, quer eu tome a iniciativa de fundar a orquestra Divan, composta por israelenses e árabes, quer eu me apresente num concerto, conforme ocorreu recentemente em Jerusalém, destinado aos nossos dois povos. Este conflito me atormenta, me obceca. O fato de ter apertado as mãos, quando criança, de David Ben Gourion ou de Moshe Dayan, heróis da fundação de Israel, de nada serviu para me converter para a política. Eu considero que os políticos e os militares nada fizeram a não ser agravar o conflito. Um conflito cujas raízes são profundamente e unicamente humanas. É por esta razão que eu me sinto qualificado para falar no assunto. Há tanto tempo que venho sonhando com a "solução".

Nasci na Argentina em 1942. Os meus avôs, paternos e maternos, eram judeus russos que tinham fugido dos pogroms [massacres em massa] em 1904. Eu nunca lhes fiz perguntas para que me contassem tudo detalhadamente, mas a história dos meus avôs maternos sempre me deixou fascinado. Os dois juntos haviam empreendido fazer, sozinhos, a perigosa viagem; ela tinha 14 anos, ele, 16. Na chegada do seu navio, as autoridades argentinas anunciaram que somente as famílias teriam direito a desembarcar. "Vamos nos casar!", sugeriu o meu avô. Foi o que eles fizeram, antes de desembarcarem. Então, eles se separaram, e acabaram se reencontrando por acaso, dois ou três anos mais tarde. Foi quando eles se apaixonaram um pelo outro. "Na verdade, ele já estava apaixonado por mim, ainda no navio", sempre disse a minha avó.

Ela era uma sionista fervorosa. Em 1929, ela até mesmo decidiu fazer uma viagem de seis meses na Palestina, levando as suas três filhas a tiracolo (inclusive a minha mãe, que tinha então 17 anos), para conferir se era possível instalar-se nessa região. A família do meu pai, em contrapartida, estava totalmente assimilada (na Argentina), e a idéia de uma "Terra Santa" não tinha mais significado algum para ela. A comunidade judaica argentina era importante, era até mesmo a terceira maior no mundo depois daquelas dos Estados Unidos e da União Soviética. Nós freqüentávamos a sinagoga menos por razões religiosas, e sim muito mais porque ela constituía um centro da vida social judaica onde nos divertíamos, cantávamos e dançávamos.

Nós não sofríamos com o anti-semitismo. Mas eu sei que, em 1943 ou 1944, o organizador de um concerto que o meu pai iria apresentar no sul da Argentina lhe pedira para fazer a saudação nazista antes da apresentação. De fato, o general Perón havia imposto ao país um ambiente bastante peculiar. Ele havia exigido o pagamento de quantias importantes para permitir que numerosos criminosos nazistas entrassem na Argentina: Bormann, Eichmann, Mengele. Depois disso, ele havia aceitado o dinheiro de judeus abastados para acolher milhares de sobreviventes da Shoah. Corria o rumor segundo o qual, para um navio de 600 pessoas era preciso pagar meio-milhão de dólares!

O meu pai, que odiava esta mentalidade corrupta, havia recusado que me fosse atribuída uma bolsa que levava o nome de Eva Perón. Então, à medida que o meu talento de músico foi se tornando mais evidente, os meus pais pensaram que era importante que eu pudesse crescer e me desenvolver num país no qual eu pertenceria muito naturalmente à maioria, em vez de fazer parte de uma minoria, em algum lugar na diáspora. Portanto, a decisão foi tomada: em 1952, a família Barenboim emigrou para Israel.

Havia um otimismo tão grande, então, neste país! Naquela época predominava a seguinte palavra de ordem: "Transformemos o deserto num jardim". E não havia país mais social e mais idealista. Tudo parecia possível. Tudo estava em progresso. Eu tinha apenas 10 anos e não falava outra língua senão o espanhol, mas eu não demorei a me adaptar. E embora nele eu tivesse permanecido por relativamente pouco tempo - foi muito rápido o processo que me conduziu a viajar para os meus estudos e meus concertos -, abracei imediatamente o ideal, a energia, o entusiasmo deste país. Nele, a minoria que havia sido perseguida ao longo de séculos se transformava numa maioria ardorosa; uma nação na qual havia não apenas advogados, médicos, banqueiros ou artistas, aquelas famosas profissões "livres" da diáspora, como também agricultores, policiais, e até mesmo prostitutas. Eu não queria mais ter qualquer espécie de relação com a Argentina. A minha alma inteira estava envolvida com o presente e o futuro de Israel.

Em 1966, encontrei-me em Londres com a violoncelista Jacqueline du Pré. Nós nos apaixonamos imediatamente e decidimos nos casar. Por iniciativa própria, ela optou por converter-se (ao judaísmo), sem dúvida pensando nos filhos que nós poderíamos ter. E foi depois de uma decisão conjunta, no momento em que a guerra parecia inevitável e que os blindados estavam a caminho, que nós viajamos, em 31 de maio de 1967, num dos últimos vôos de passageiros para Israel, com o objetivo de nos apresentarmos em concertos. A música era a nossa arma.

Até então, eu havia conhecido poucos palestinos e nunca me preocupara com a sua situação. Os comentários que nós escutávamos a seu respeito os descreviam como ignorantes, ladrões, desprovidos de cultura. Alguns afirmavam que todos eles haviam deixado a Palestina, em 1948, porque não aceitavam o Estado hebreu. A verdade era que, nos melhores dos casos, eles haviam sido "incentivados" a partirem, e, nos piores, eles haviam sido colocados para fora! Em 1970, depois do famoso Setembro Negro, quando foram massacrados milhares de palestinos pelas tropas do rei Hussein da Jordânia, Golda Meir, a primeira-ministra israelense, exclamou: "O que motiva toda essa gente a nos falar dos palestinos? O povo palestino somos nós!" Para mim, aquilo foi um choque, e um despertar. A nossa atitude despontou de repente como moralmente inaceitável; então, eu comecei a me interessar por aqueles que, diferentemente do que reza a opinião comum dominante, já formavam uma população em nosso solo muito antes que nós nele nos instalássemos. Já não era sem tempo, eu tinha 27 anos!

De qualquer forma, tudo mudou depois da Guerra dos Seis Dias (1967). Israel voltou-se então decididamente para os Estados Unidos. Os tradicionalistas disseram: "Está fora de questão que abandonemos os novos territórios: eles não estão ocupados, eles foram liberados". Os religiosos insistiram: "Eles não foram apenas liberados, são territórios 'bíblicos' liberados". Demos adeus ao socialismo.

Em vez de comportar-se como um conquistador responsável pela situação dos conquistados, conforme mandaria a regra, Israel agiu para com os palestinos, movido pelo mais completo desprezo. Onde estão as escolas, os hospitais, os conservatórios que ele deveria ter se empenhado em construir na borda oeste do rio Jordão? Por que a permanência desses campos de refugiados miseráveis, quando teria sido tão fácil para o exército substituí-los por alojamentos decentes?

Tudo seria então diferente! Será que o mundo se dá conta de que 85% dos palestinos que vivem nos territórios têm menos de 33 anos e que eles não conheceram outra vida? Nós sabemos que o ódio se transmite de geração em geração. O que se viu não foi apenas uma carência de humanidade, mas também uma falta de visão. Onde será que foi parar o mito da inteligência judaica? Como é possível não compreender que a nossa obstinação em não reconhecermos a história está colocando em perigo a própria existência de Israel?

A violência nada faz senão suceder à violência, e a guerra aos atentados terroristas. Tudo isso, por muito tempo, ocupou as manchetes dos jornais. Atualmente, este noticiário foi relegado para as páginas internas, uma vez que o "nosso" conflito daqui para frente está englobado no contexto de uma crise mais mundial. Mas o drama prossegue. Toda noite, os israelenses sonham que ao despertarem, os palestinos terão desaparecido, enquanto os palestinos sonham que na primeira hora do dia os israelenses terão deixado o país.

Por minha vez, eu tenho um outro sonho. Em primeiro lugar, o de que os dirigentes reconheçam que não existe nenhuma solução militar para resolver o conflito. A negociação de Annapolis (EUA) não passa de uma caricatura, enquanto cada triunfo militar israelense só contribui para enfraquecer politicamente Israel. Em segundo lugar, o de que os dirigentes retornem serenamente para a fonte do problema, que é a convicção, compartilhada pelos nossos dois povos, de termos o direito de viver no mesmo território. É exatamente neste ponto que é preciso concentrar-se.

É necessário que nós tenhamos a coragem de enfrentar o passado. Os palestinos precisam de que os israelenses reconheçam que a terra que eles investiram e da qual eles quiseram fazer a sua propriedade exclusiva depois da tragédia da Shoah - com o assentimento do mundo ocidental corroído pela culpabilidade - já estava povoada por eles. Os israelenses precisam de que os palestinos aceitem a legitimidade do Estado de Israel. Os palestinos necessitam de justiça, os israelenses de segurança. Toda violência é contraproducente. Os destinos dos nossos dois povos são associados de maneira inextricável.

O meu sonho é que as nossas duas populações, a partir dessas premissas, retomem o diálogo. Eu sonho com que elas tenham vontade de construir coletivamente o futuro. E sonho com que dois Estados independentes e interdependentes se desenvolvam lado a lado, compartilhando uma vida econômica, científica. . . e cultural. Haverá um lugar melhor do que uma orquestra para experimentar esta noção de interdependência?

Zoom
Por Raphaëlle Bacqué e Annick Cojean

Nós havíamos recebido a permissão para penetrar furtivamente, naquela tarde de junho, na vasta sala escura da Scala de Milão, onde Daniel Barenboim, debruçado sobre partituras espalhadas sobre uma escrivaninha fracamente iluminada, dirigia um ensaio de "O Jogador", a ópera de Prokofiev. Ele estava concentrado, o seu olhar acompanhava alternadamente as diferentes partituras, a orquestra, que estava no tradicional poço, e o palco onde jovens cantores evoluíam em meio a um cenário estranhamente moderno.

De repente, com um ar contrariado, ele deixou escapar algumas palavras em russo. Ele interrompeu a música para interpelar o cantor, desta vez em inglês. No momento de retomar o ensaio, ele fez uma pergunta ao produtor do espetáculo, em francês, querendo saber se o palco contava com um bom retorno do som; ele fez então alguns comentários, em alemão, para um assistente; e deu aos seus músicos algumas coordenadas. . . em italiano.

Nós não lhe perguntamos, depois do ensaio, em qual língua ele sonhava. Será em espanhol, a sua língua natal, uma vez que ele nasceu na Argentina? Em hebreu, a do país que acolheu há tanto tempo sua família, a língua que ocupa o seu coração e obceca a sua mente? Em todo caso, foi se expressando num francês perfeito que o maestro descreveu seu sonho de paz entre os povos israelense e palestino. Um sonho que é também um engajamento antigo, profundo, renovado, da sua parte, conforme prova a orquestra árabe-israelense que ele fundou, e que se apresentará em Paris em 25 de agosto. E conforme mostra também o passaporte palestino que ele recebeu recentemente, do qual ele se diz imensamente orgulhoso.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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