Nosso Blog é melhor visualizado no navegador Mozilla Firefox.

Pesquisar este blog

Total de visualizações de página

Google+ Followers

Follow by Email

Perfil

Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

Translate

Seguidores

domingo, 13 de julho de 2008

Ferida aberta para israelense: Yoav Ben David ficou em poder dos sírios oito meses em 1973


Ferida aberta para israelense

Yoav Ben David ficou em poder dos sírios oito meses em 1973

Renata Malkes
Especial para O GLOBO,
O Globo, O Mundo, página 38, em 13/07/2008.

TEL AVIV. A libertação de Ingrid Betancourt na Colômbia pôs o iatista Yoav Ben David, de 55 anos, na máquina do tempo. Instintivamente, os relatos do cativeiro, a euforia pela libertação e o constante medo da morte levaramno de volta ao ano de 1973, quando, aos 19 anos, o então jovem do Exército de Israel foi capturado pelos sírios numa batalha pelas Colinas de Golã durante a Guerra do Yom Kippur.

As lembranças de oito meses nos porões da prisão de Damasco sobrevivem ao tempo e já provocaram sérios abalos na vida social operador de tanque do veterano militar, que hoje busca no esporte o equilíbrio abalado. Para ele, depois de uma experiência como prisioneiro de guerra, o pós-trauma torna-se uma doença passível de administração, mas nunca de cura.

— Sinto-me um paraplégico que nunca vai se curar, mas apenas administrar e conviver com limitações. Até hoje a dificuldade de concentração, os ataques súbitos de ira, as crises de pânico, a palpitação, o suor frio me acompanham. Posso estar bem e, de repente, um cheiro, uma expressão, uma imagem me fazem sentir em 1973 de novo. É angustiante. Ando de bicicleta e busco nos esportes aquáticos uma maneira de extravasar.

Crises de pânico, depressão e impaciência Um dos diretores da ONG Acordados na Madrugada, que presta apoio a 300 ex-reféns de guerra, Ben David conta que levou pelo menos 12 anos para compreender que seus distúrbios psicológicos eram herança do cativeiro. Após a euforia da volta para casa, ele tinha crises de pânico, depressão e perdia a paciência facilmente, mas estudou cinema e trabalhava na produção de documentários. Casouse em 1980 e, em 1982, somente quando a mulher teve um câncer diagnosticado, foi buscar ajuda. Eram tempos difíceis, de muitas brigas familiares e pouco dinheiro. Qualquer contratempo era motivo de ataques de ódio e, além do emprego, perderamse ainda muitos amigos.

— Certa vez, gravando um programa sobre pães, vi o forno movido a gás. O cheiro era o mesmo dos aquecedores dos chuveiros sírios e me transportei ao passado. Entrei em pânico, precisei me acalmar e larguei o set de filmagem. Eu já não conseguia mais trabalho em lugar nenhum. Explodia o tempo todo, ficava meses sem trabalhar, me endividava. Minha mulher sofreu muito. Ela revelou o problema a uma das assistentes sociais que conhecera durante a quimioterapia e só assim, forçado, fui buscar ajuda médica.

Ben David passou as duas primeiras semanas de cativeiro confinado numa pequena cela com os punhos amarrados e os olhos vendados. Enfrentou horas de interrogatórios e agressões físicas.

— As horas de incerteza são insuportáveis, além da dor física, de não poder se mover. Você faz uma inversão de papéis: pensa na família e nos amigos lá fora, quando na verdade, sabe que eles estão bem, quem está mal é você mesmo — diz ele.

Depois do período de isolamento, Ben David foi transferido para uma cela de 30 metros quadrados junto com mais 30 reféns israelenses. Durante cinco meses, não viram a luz do dia e revezavam-se para dormir no chão frio. Banhos, só uma vez por semana, mas sair para as duchas era um momento de pânico e humilhação, já que oficiais sírios e carcereiros chegavam para participar de longas sessões de espancamento.

A libertação só veio numa troca e presos entre Síria e Israel em junho de 1974.

(O trecho acima faz parte da matéria O Tracho acima faz parte da “Prisioneiros de um pesadelo: Ex-reféns contam os dramas do seqüestro e o processo de readaptação à normalidade” publicada no jornal O Globo, O Mundo, páginas 37 e 38, em 13/07/2008.)

Nenhum comentário: