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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 9 de agosto de 2008

Memórias familiares da guerra

O Globo, Caderno Prosa e Verso, Página 3, em 09/08/2008.

Memórias familiares da guerra
Escritora alemã parte da história do pai para abordar uma ferida ainda aberta em seu país

ENTREVISTA
Julia Franck

Para a escritora Julia Franck, de 37 anos, a era nazista deixou marcas profundas na sociedade alemã que mesmo hoje, 63 anos depois da Segunda Guerra, são ainda visíveis. Pouco antes de embarcar para o Brasil, onde participará da Bienal do Livro de São Paulo — e passará duas semanas — Julia falou ao GLOBO sobre seu romance “A mulher do meio-dia”, que está sendo lançado pela Nova Fronteira. O livro tem muito de autobiográfico: o pai da escritora foi abandonado pela própria mãe quando era criança, no meio do caos do pós-guerra.

Graça Magalhães-Ruether
Correspondente • BERLIM

O GLOBO: Seu livro conta a história de uma mulher que abandona seu próprio filho. Até que ponto “A mulher do meio-dia” é uma obra autobiográfica?
JULIA FRANCK: Eu diria que a história em si eu precisei inventar. Mas houve um fato ocorrido na minha família. O meu pai foi um jovem como Peter (o personagem do livro). Ele nasceu em 1937, em Stettin, como filho de uma enfermeira. Seu pai deixou a família durante a guerra, como acontece no livro. Poucas semanas depois do final da Segunda Guerra, quando muitos alemães do Leste procuravam um caminho para o Ocidente, a sua mãe lhe disse para esperar em um banco — ela iria fazer compras e voltaria logo, mas não voltou. Esse acontecimento, que não é ainda uma história mas causa revolta, torna-se ainda mais marcante quando se constata, ao longo do livro, que foi intencional. Muitos se perderam no caos depois da guerra. No caso do meu pai e de sua mãe, foi uma decisão dela, premeditada. Ele morreu aos 49 anos de idade com um tumor no cérebro. Quando, no fim dos anos 90, resolvi procurar a mãe dele, soube que ela havia morrido alguns meses antes. Tentei investigar sua vida e soube que ela negou, por exemplo, ter tido um filho.

A história se passa no período do nazismo. Na sua opinião, que significado tem ainda esse tempo para a Alemanha hoje?
JULIA:
Acho que esse tempo está ainda muito presente em dois planos diferentes. Um é a cultura da memória, a historicização, relacionada à culpa de muitos alemães nascidos no pós-guerra. Quanto mais nos aprofundamos na estrutura da própria família, observamos que essa história em comum que a nossa sociedade viveu apresenta marcas ainda bastante vivas. Há pouquíssimas famílias judias na Alemanha. A família da minha mãe tem ascendência judia, o pai dela era cristão. O nazismo deixou um abismo na nossa sociedade, com os culpados de um lado e, de outro, as vítimas — vejo isso na minha família, por exemplo. Essa fissura que existe nas próprias famílias mistas deixa claro que o trauma continua dos dois lados.

Sua avó perdeu parentes no Holocausto?
JULIA:
Minha avó, que nasceu em 1915, em Berlim, perdeu primas e amigos nos campos de concentração. O seu irmão mais novo viveu em um campo de trabalhos forçados, mas felizmente sobreviveu. Nele eu via as marcas das vítimas dos nazistas. Muitos se calaram, para não ficarem presos à imagem de vitimas. Ele estudou direito e fez tudo para que as pessoas não descobrissem sua origem. Se a guerra tivesse durado mais dois anos, teria sido assassinado

A história começa com a narração sob a perspectiva da criança. Você queria criar um contraste entre a visão infantil e a dureza da época, a frieza da mãe?
JULIA:
O prólogo e o epílogo, escritos sob a perspectiva da criança, com toda a sua inocência, são a porta para se falar sobre a relação com a mãe. Tratase de uma oportunidade de mostrar como essa mulher, mesmo sendo amada pela criança, que busca nela proteção, também tem um lado de frieza. Essa tensão entre o prólogo e o epílogo e o núcleo do romance, que conta a história da mãe, mostra que nunca há apenas uma perspectiva num acontecimento.

É verdade que a roqueira Nina Hagen foi sua babá?
JULIA:
Dizer que ela foi a minha babá é um pouco de exagero. Eu e minha irmã gêmea passávamos muito tempo em creches porque minha mãe era atriz. Ela só nos buscava nos finais de semana. Na creche, havia babás que trabalhavam lá todos os dias e algumas substitutas. Uma dessas foi Nina Hagen, grande amiga da minha mãe, embora alguns anos mais jovem, quando vivíamos em Berlim Oriental. Todo mundo do meio artístico se conhecia. A minha avó era escultora e conhecia bem o dramaturgo Heiner Müller e a escritora Christa Wolf.

Você tem uma biografia interessante, deixou a casa da mãe para viver sozinha quando tinha apenas 13 anos. Essas circunstâncias influenciaram sua decisão de ser escritora?
JULIA: Quando eu completei 11 anos comecei a achar terrível a convivência com minha mãe. Contei-lhe que queria viver em outro lugar. Morávamos no Norte da Alemanha Ocidental, para onde havíamos migrado no final dos anos 70. Minha mãe é muito difícil, embora seja uma pessoa maravilhosa. Quando fomos para o lado ocidental, passamos a viver numa cidade muito pequena, onde o seu estilo de vida chamava atenção. O que parecia normal na cidade grande era visto na província como provocação.

Sofremos muito. Nossos colegas não tinham permissão dos pais para nos visitar por causa do estilo de vida da minha mãe, que teve cinco filhas de diferentes homens. Resolvi então sair de casa aos 13 anos. Havia uma família conhecida em Berlim que me ofereceu um quarto no seu apartamento. Pude viver de maneira livre, embora pobre, porque minha mãe não tinha dinheiro. Por isso comecei muito cedo a trabalhar. Distribuí jornais, trabalhei como babá. Dos 13 aos 20 anos trabalhei fazendo faxina. Mais tarde cursei a universidade, fui garçonete e, depois, trabalhei como free-lancer num jornal. Isso me incentivou a escrever, porque eu não me sentia parte da minha geração. As minhas colegas não precisavam trabalhar.

Há poucas semanas houve um encontro com os tradutores do seu livro, algo que costuma ocorrer apenas em torno de nomes como Günter Grass. É importante para um autor influenciar na tradução da sua obra?
JULIA:
Achei muito importante a experiência. Antigamente, quando nem sonhava com tradução, admirava muito o costume de Grass de se encontrar com seus tradutores. Há detalhes importantes que são discutidos num encontro desses. Um deles foi a tradução do título, “A mulher do meio-dia”, uma lenda conhecida na região alemã de Lausitz. O tradutor para o inglês queria mudar o título, mas o tradutor brasileiro resolveu mantêlo e até descobriu uma expressão semelhante em uma região do Norte do Brasil, que se refere a algo ligado ao carnaval.

Obra ganhou prêmio em 2007
Julia Franck é a revelação literária do atual verão europeu. Depois de ter ganhado no ano passado o Prêmio do Livro Alemão com seu romance “A mulher do meio-dia”, conquistou o mundo. Além do Brasil, a obra chegará, nos próximos meses, a mais 3O países, da Inglaterra à Geórgia, da Argentina ao México. Na Alemanha, já foram vendidos 400 mil exemplares.

O sucesso mudou a vida da escritora que vive com os dois filhos — um menino e uma menina — em Friedenau, bairro tradicional da antiga Berlim Ocidental. Para ela, cuidar dos filhos durante o dia para dedicar-se à literatura à noite é algo penoso, “uma vida de renúncia”.

Os três primeiros livros de Julia — “Der neue koch” (O novo cozinheiro), de 1997; “Liebediener” (Servidor do amor), de 1999, e “Bauchlandung” (Aterrissagem de barriga), de 2000 — pouco venderam, apenas a ajudaram a marcar seu caminho. Mas já no quarto, “Lagerfeuer” (“Fogueira de acampamento”), de 2003, ela começou a chamar a atenção da crítica num dos mercados literários mais competitivos da Europa.

Na conversa com o GLOBO, num café perto da linha por onde passava há 19 anos o Muro de Berlim — que Julia conheceu na infância como “a barreira intransponível” — ela disse que as mulheres ainda têm dificuldade de conseguir fazer carreira na literatura e que livros escritos por mulheres não são em geral lidos por homens. Uma exceção foi, para felicidade dela, “A mulher do meio-dia”, que conquistou quase por unanimidade o júri (majoritariamente masculino) do Prêmio do Livro, o mais importante da Alemanha.

Julia iniciou sua escrita sobre o passado já em “Lagerfeuer”, cuja história acontece num campo de refugiados do Leste da Alemanha Ocidental. Como na obra, a escritora, suas quatro irmãs e sua mãe viveram durante anos no pequeno espaço de um campo de refugiados na mesma região, para onde a família da RDA comunista fugira no final dos anos 70.

Novamente a família de Julia aparece em “A mulher do meio-dia”. Mas a mãe que abandona o filho numa estação ferroviária ganha alguma redenção no final, quando se descobre que ela também padeceu com a própria mãe na infância. (G.M.R)


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