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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 6 de setembro de 2008

A caixa-preta de OZ

O Globo, Caderno Prosa e Verso, página 1, em 06/09/2008.

Autor israelense fala sobre seu novo livro, em que explora o que há de único e de banal na cabeça de um escritor


Rimas da vida e da morte, de Amós Oz. Tradução de Paulo Geiger. Companhia das Letras, 118 pgs. R$ 31

Nelson Vasconcelos

Um famoso escritor israelense se prepara para mais uma — mais uma! — leitura pública de trechos de um livro seu, o que implica ouvir textos que, evidentemente, já conhece e — pior que isso — encarar perguntas de leitores. Experiente, o escritor já sabe que terá de responder a coisas do tipo “Você escreve à mão ou usa um computador? O que pensa a sua ex-mulher das figuras femininas em seus livros? O que você quis dizer com seu último livro?” São os ônus de quem ganha a vida com a indústria do entretenimento. Fazer o quê? Relaxar. Para isso, basta ligar o motorzinho que move as idéias de criaturas criativas. É o que faz o narrador de Amós Oz neste “Rimas da vida e da morte”, identificado apenas por “o escritor”, assim mesmo, em minúsculas. O bom é que a gente nunca sabe o que vai sair da cabeça de um escritor. Nem Oz sabe, pelo jeito...

— Depois de anos escrevendo romances e histórias, achei que era hora de escrever um livro sobre a própria escrita e observar como se escreve um livro do ponto de vista do escritor — explica Oz, em entrevista (na página 3) à repórter Renata Malkes, em Israel.

Nesta novela curta, que se passa em Tel Aviv, ao longo de uma noite dos anos 80, vemos o israelense Amós Oz revirando a caixa-preta que é a cabeça de um escritor. Tudo que sai lá de dentro não é necessariamente ficção, invencionice. Há verdades, também. Difícil é saber, no entanto, onde termina a mentira, onde começa a realidade. E no fim das contas fica a pergunta: faz diferença? Para o leitor, (tentar) desatar esse nó é um prazer.

Certamente o mais importante escritor israelense da atualidade, Amós Oz construiu uma novela que mostra que fazer novelas é quase uma compulsão para almas criativas. Para o escritor destas “Rimas da vida e da morte”— ou para um poeta, ou um artista... — basta a calcinha de uma garçonete para que se crie um grande romance. Ou basta olhar para um sujeito qualquer e logo inventar seu nome e sua história... São essas manhas que permitem ao escritor fugir da chatice do dia-a-dia. E elas estão longe de ser de uso privativo da categoria dos escritores. Ou são? Esta é a grande manha deste livro de Oz: fisgar o leitor, a partir de situações banais, mostrando que escritores são gente como a gente, entende? Não cabe a eles manter-se intocáveis, superiores, em pedestais, à espera da Glória Suprema. Pelo contrário. Escritores também têm desejos, também são contraditórios ou engraçadinhos ou qualquer coisa. E também falham na hora H, como bem demonstra “o escritor” de Oz. Negar isso é bestice.

A propósito, bem poderíamos dizer que, já que vivemos tempos em que expor as próprias intimidades está na ordem do dia, Oz fez questão de dizer o que pensa disso. Mas seria bobagem.Se quisesse dizer algo objetivamente, Oz escreveria um artigo — fluido, direto — e não uma peça de ficção, sujeita a tantas interpretações quanto seu número de leitores.

“Rimas da vida e da morte”, do falecido poeta Beit-Halachmi, norteiam as reflexões do escritor a respeito dos fatos cotidianos.

São velhas verdades, naquele tom moralista que caracterizava versos publicados em jornais de antigamente. Mas não adianta procurar informações sobre Beit-Halachmi. Ele não existe. Faz diferença?


O Globo, Caderno Prosa e Verso, página 3 em 06/09/2008.

'Cada livro é um risco'

Aos 69 anos, sempre cotado para o Nobel, escritor diz que não usa a literatura para ´passar mensagens´

ENTREVISTA Amós Oz
Depois de 27 livros publicados, o israelense Amós Oz decidiu ousar. Aos 69 anos, citado como forte candidato ao Nobel de Literatura, Oz deixou de lado os romances tradicionais e construiu uma obra sobre a própria literatura no silêncio de sua casa, encravada no deserto do Negev, no sul de Israel. Ou, como ele mesmo diz em entrevista por telefone ao GLOBO, um livro “do ponto de vista do escritor”. Em “Rimas de vida e morte”, o protagonista, identificado apenas como “o escritor”, vive durante oito horas de encontros e desencontros na Tel Aviv dos anos 80 a odisséia de criar histórias sobre tudo o que vê. Oz jura que criador e criatura não se misturam e surpreende os leitores ao abrir sua caixa-preta, revelando segredos da produção literária.

Renata Malkes Especial para O GLOBO - TEL AVIV

O GLOBO: O senhor rompeu a barreira do romance convencional e fez um livro sobre como escrever um livro. É uma mudança no estilo Amós Oz de escrever?
AMÓS OZ:
Não. Depois de anos escrevendo romances e histórias, achei que era hora de escrever um livro sobre a própria escrita e observar como se escreve um livro do ponto de vista do escritor. Sua curiosidade, sua maneira de ver os personagens e o mundo. É um livro versátil, com várias faces, alterando e construindo links entre realidade, imaginação e invenção. “Rimas de vida e morte” é um diálogo solitário entre “o escritor” e seus personagens, pois é isso que fazemos o tempo todo quando estamos sós. Reviramos a cabeça com pensamentos sobre quem está ausente, seja namorado, marido, amigo, mãe, pai. O tempo todo conversamos mentalmente com quem não está. Afinal, é mais fácil, pois ninguém pode nos interromper. É o que fazemos na vida, nos sonhos e com os mortos.

O protagonista começa a história com perguntas sobre como, por quê e para quem escrever. O senhor certamente já passou pelos mesmos questionamentos. Foi um desabafo?
OZ:
Nunca escrevi um livro para passar mensagens. Fiz essas perguntas no início do livro com um sorriso. Porque são perguntas que normalmente não se pode responder. As respostas estão na própria história. Não há outras respostas fora do contexto do livro.

A erótica, o misticismo e mesmo situações constrangedoras do dia-a-dia dos personagens foram usadas para torná-los verdadeiros. Como “o escritor”, retraído e distante, conseguiu despertar simpatia, solidariedade e até mesmo asco nos leitores?
OZ:
Você disse “verdadeiro” e esta é a palavra-chave. O escritor observa durante oito horas a vida e todos os seus fenômenos, sejam eróticos, místicos, físicos e até mesmo os que provocam asco, quando o personagem Yeroham limpa o nariz. Ele consegue olhar todos os ângulos em sua grandeza e profundidade.

A imagem de uma mulher insegura se destaca em dez páginas numa cena sensual contada em exatidão de detalhes. Por quê o carinho especial por essa personagem, já que todas as outras histórias são curtas?
OZ:
Fico feliz que você diga “exatidão”. Tentei escrever uma cena erótica com a exatidão máxima. Não é uma cena romântica, sentimental, ou mesmo pornográfica, mas exata. Na verdade, esse trecho é o principal do livro. Rochale e o autor têm uma história que não é exatamente de amor, mas também não é uma diversão de uma noite só. É uma noite cheia de benevolência e compaixão.

O senhor teve medo de que a natureza diferente do livro a tornasse uma obra pouco comercial, como alguns críticos anunciaram?
OZ:
Sempre me arrisco. Cada livro é um risco. Quando escrevi “De amor e trevas” tinha certeza de que era um livro não-comercial, um livro contando minha vida em Jerusalém há 60 anos. Achei que ninguém teria interesse em ler. É impossível saber o que vende e o que não. Não penso nisso. “Rimas de vida e morte” foi muito bem aceito em Israel e em outros países. Espero que seja assim também no Brasil.

O senhor busca suas histórias na rua, no carro, no restaurante, como seu personagem?
OZ:
Quando criança, meus pais me levavam para um café com os amigos. Falavam sobre coisas que eu não entendia e diziam “senta e fica quieto que no fim damos um sorvete”. Comecei a observar as pessoas ao redor, recortava partes dos diálogos que ouvia, olhava as roupas, os sapatos. Como um espião, inventava mentalmente as histórias de cada um. Era meu cinema, meu passatempo. E é o que tenho feito todos os dias da minha vida. E sugiro a todos tentar! Quando estiver numa clínica, no aeroporto, no ponto de ônibus, em vez de ler o jornal, é muito melhor olhar para as pessoas. A vontade de imaginar as pessoas e nos perguntar “o que seria se eu fosse ele ou ela?” E é isso que temos nesse livro.

Como é seu processo de criação?
OZ:
Eu escrevo em casa todos os dias, sete ou oito horas. Acordo às 5h, dou uma volta no deserto, já que moro em Arad, uma cidade no Negev. Quando volto, tomo um café e escrevo.De tarde, sento e apago tudo o que fiz de manhã.

Como o senhor acha que a literatura vem acompanhando a era digital, a internet e a queda conseqüente do número de consumidores de livros?
OZ:
A literatura não tem que mudar por conta da tecnologia. A literatura não pode ser nada diferente de sua essência. Sempre vai haver quem goste de boa literatura e quem goste de diversão eletrônica. Escrevo para quem gosta de ler. E há muita gente assim.

Soube que o senhor não usa a internet. É verdade?
OZ:
Não, não tenho tempo. Nem internet, nem e-mail, nem nada. Se tivesse uma conta de e-mail teria que sentar-me da manhã até a noite para responder. Tenho muito o que fazer na vida.

O senhor esteve na Flip de Paraty no ano passado. Como foi o contato com os leitores brasileiros?
OZ: Foi minha segunda viagem ao Brasil. Tive mais tempo de conhecer o país e me diverti muito. Foi um encontro tão carinhoso, tão emociante que nunca vou esquecer. Escrevi um livro para crianças e, de repente, me fizeram uma surpresa em Paraty. Organizaram um encontro com centenas de crianças que encenaram uma peça de teatro sobre a história. Eu, claro, não compreendo uma palavra em português. Sentei e vi aqueles pequenos dando vida aos personagens que inventei em Israel. Foi emocionante. Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos.

O senhor sempre se posicionou à esquerda no conturbado cenário político local. Ainda acredita que haverá paz entre Israel e seus vizinhos?
OZ:
Tenho certeza que sim, só não sei quando. Tanto israelenses quanto palestinos já sabem que não há outra maneira. Ninguém vai abandonar a terra, ninguém vai mudar para outro lugar. Se judeus e palestinos quiserem ser uma só família feliz, terão de ter dois Estados e dividir suas casas, juntos, numa casa bifamiliar.

Os críticos sempre o apontam como forte candidato ao Nobel de Literatura nos últimos anos. O que falta para o prêmio?
OZ:
Não falta nada. Recebi muitos prêmios importantes. Se não receber um prêmio Nobel, não vou morrer por isso, mas talvez ainda chegue lá.

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