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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Revivendo as lembranças de um campo de extermínio

O ensino do Holocausto é normal na Alemanha. Mas em algumas partes da Europa, onde ocorreu grande parte das mortes, o passado é enterrado sob camadas de política e história. Um grupo moldávio está instalando monumentos a respeito do pouco lembrado massacre dos judeus romenos


Michael Scott Moore

Em Berlim – Der Spiegel, em 04/12/2008.


Quando tinha 11 anos, Alexander Bantush assistiu soldados fascistas espancarem com porretes um violinista judeu na aldeia de Brichevo. Eles o forçaram a tocar seu violino e a dançar descalço sobre vidro quebrado. A imagem é tão icônica do Holocausto que poderia ser de um filme de guerra, ou uma pintura de Chagall, uma imagem da shtetl (povoados predominantemente judaicos do Leste Europeu) onde os detalhes são preenchidos sozinhos. Mas os soldados não eram nazistas. Bantush é moldávio, nascido na Romênia, e os soldados romenos agiam sob ordens de seu próprio ditador, Ion Antonescu, em vez de Hitler.


Neste ano, uma pequena organização em Moldova está revivendo a memória do Holocausto em um canto do Leste Europeu onde ela corre o risco de ser esquecida. A Nemurire, uma organização sem fins lucrativos dirigida por um historiador local chamado Iurie Zargocha, instalou vários monumentos de pedra por todo o interior norte de Moldova para marcar o caminho das marchas da morte e os locais das valas comuns de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

"Você ouve sobre o Holocausto em uma escala de números de massa, seis milhões", disse Daria Fane, uma alta funcionária da embaixada americana que tem ajudado a Nemurire. "Mas aqui é de aldeia em aldeia." Moradores locais como Bantush, que lembram de assistir as atrocidades quando eram criança, são convidados a falar em cerimônias. "Eles viveram com essas lembranças por anos, e ninguém se importava", disse Fane. "Era tabu na era soviética."


No domingo, a Nemurire inaugurou seu sexto monumento moldávio em Frasin, não longe de Brichevo. Ele marcou uma marcha da morte que parou aqui certo dia em 1941. Soldados romenos decidiram matar 300 dos judeus que vinham marchando da cidade de Edinet. Eles forçaram os prisioneiros a se despirem e começaram a arrancar dentes de ouro de suas bocas com alicates enquanto ainda estavam vivos, disse Alexander Bantush, que deu o testemunho. Bantush não é judeu, mas para alguns moldávios é uma fonte de orgulho se distanciar da política oficial romena do tempo da guerra.


"Os judeus que viviam em Brichevo eram pessoas boas", ele disse no domingo. "Eu me recordo de pessoas dando furtivamente leite para os judeus que passavam marchando pela aldeia. (...) As pessoas arriscavam suas vidas e davam o último leite que tinham." Ele acrescentou: "O povo de Frasin respeitará este monumento, o protegerá e ensinará aos nossos filhos o que o 'Holocausto' significa. Os judeus eram nossos amigos e merecem que esta história seja conhecida".

Camadas de história

A Romênia e o Estado agora independente de Moldova sofreram tanta história ruim desde 1945 que o Holocausto raramente é discutido. Mas a Romênia foi aliada da Alemanha nazista durante a guerra. Quando os nazistas passaram por aqui para invadir a Rússia em 1941, a Romênia aproveitou a oportunidade para transferir seus judeus para uma região do outro lado do Rio Dniester, que agora separa a parte de Moldova que fala romeno de sua parte eslava, conhecida com Transnistria. Essa política de limpeza étnica é um dos capítulos menos lembrados do Holocausto.


"Assim que tiveram um gosto da licença que predominava (entre os alemães) nos primeiros dias da guerra", escreve Avigdor Shachan, uma testemunha e historiador do Holocausto romeno, em seu livro "Burning Ice", "os soldados romenos promoveram operações por iniciativa própria, realizando assassinato e tortura em todo assentamento judeu pelo qual passavam". Shachan cita um discurso ao governo romeno feito pelo ditador do país, Ion Antonescu, defendendo a "expulsão dos judeus da Bessarábia e Bukovina (atualmente Moldova, aproximadamente) para o outro lado da fronteira. (...) Não há nada para eles aqui e não me importo se a história nos fizer parecer como bárbaros".


O resultado dessa política foi uma série de marchas da morte atrás da linha de frente dos soldados alemães e romenos. O número de mortos e deportados é impossível de determinar, mas um relatório de 2004 feito pelo governo romeno estima entre 280 mil e 380 mil.


O Holocausto era tabu na Romênia do pós-guerra porque os judeus não eram lembrados na história oficial soviética como as principais vítimas de Hitler: eram os comunistas. Nos livros de história soviéticos, foram os comunistas por todo o Leste Europeu que ajudaram a Rússia a derrotar os nazistas. Toda uma geração de romenos foi criada acreditando que eles e seus pais foram heróis por participarem na grande luta da Rússia contra Hitler.


"Esses países pequenos não sentem qualquer responsabilidade", disse Judit Miklos, uma romena que vive em Berlim, se referindo ao Leste Europeu. "Eles estavam no lado da vítima (da história). (...) Os países pequenos sempre têm esse complexo e o usam como desculpa -que sempre fizeram parte do jogo das potências maiores. Os argumentos tendem nesta direção na Romênia."

Para a Romênia, o relatório de 2004 do governo marcou uma tentativa de rejeição à negação consistente. Após as declarações de meados de 2002 feitas pelo então presidente Ion Iliescu de que não ocorreu Holocausto na Romênia -e os protestos resultantes- uma comissão foi nomeada para analisar o tratamento dado pelo país aos judeus na Segunda Guerra Mundial. O resultado foi o relatório de 2004 e, em 9 de outubro daquele ano, o país celebrou seu primeiro Dia do Holocausto.


Em Moldova, o processo foi diferente. Entre as guerras mundiais ela se chamava "República Moldávia", mas a Romênia sempre reivindicou o território. Alguns soldados romenos que se juntaram à invasão nazista à Rússia ficaram para trás em Moldova como força de ocupação. Posteriormente o exército soviético invadiu, a caminho da Alemanha, e até 1991 a região foi chamada de República Socialista Soviética da Moldávia.


"Todo este país tem complexo de vítima", disse Amy Dunayevich, uma voluntária do American Peace Corps que ajudou a Nemurire a inaugurar cinco monumentos neste ano. "Eles foram vítimas da União Soviética, tanto que há uma piada aqui que os melhores tempos de Moldova foram quando a Romênia partiu e antes da chegada da Rússia", perto do final da Segunda Guerra Mundial. "Isso durou cerca de um mês."


Dunayevich disse que os moldávios tinham um relacionamento sem problemas com os judeus locais. Era "separado, mas pacífico", ela disse. "Assim, quando os moldávios falam sobre os judeus, você não escuta o ódio." Todavia, o Holocausto romeno "não é algo que eles publicam. Não é algo de que falam a respeito nas escolas."


Iurie Zagorcha e sua esposa criaram a Nemurire em 2002. Zagorcha, que não fala inglês, é moldávio, não judeu. Ele lecionava história durante a era soviética. "Seus avós escondiam judeus durante a guerra e acho que ele sente que é sua responsabilidade falar em nome das vítimas que não podem falar por conta própria", disse Dunayevich.


Os monumentos se concentram em "casos de assassinato em massa" no distrito moldávio de Edinet, no norte, onde fica a cidade de Edinet (a pronúncia é Iedinitz). Antes com 80% de judeus, a cidade foi em grande parte um gueto durante a Segunda Guerra Mundial. Agora há poucos judeus em Moldova, e quase ninguém inclinado a lembrar do Holocausto. De fato, um dia antes da cerimônia da Nemurire, em 29 de novembro, um pequeno grupo de romenos de direita promoveu uma marcha anual em uma floresta ao norte de Bucareste, carregando tochas, para celebrar o líder da ala paramilitar fascista da Romênia, a notória Guarda de Ferro.


"Nós falamos muito sobre tolerância, mas podemos não entender totalmente o que significa", disse Zagorcha na cerimônia da Nemurire no domingo, diante de cerca de 70 pessoas. "As crianças que estão aqui hoje (...) (agora) podem entender o que significa ser de uma religião ou nacionalidade diferente, mas ainda assim respeitar uns aos outros. Essas crianças assegurarão que esse monumento não seja atacado e que permaneça como um lembrete da intolerância que leva a uma tragédia horrível, e essas crianças são nossa esperança de que esse tipo de tragédia nunca acontecerá de novo."


Alexander Bantush disse que no dia do qual se lembra, em 1941, cerca de 300 judeus foram ordenados a permanecerem nus ao lado de uma vala. Após os soldados tomarem suas jóias e arrancarem seus dentes de ouro, ele disse, "eles começaram a empurrar as pessoas, ainda vivas, na vala. (...) As pessoas tentavam subir. Percebendo que seriam enterradas vivas, elas começaram a gritar, 'Nos matem! Nos matem!' (...) O chão respirava, subia e descia -eu nunca vi nada igual na minha vida e espero que ninguém jamais veja o que vi naquele dia".


A imagem do solo em movimento, respirando, também está presente em "Burning Ice", que é a história definitiva do Holocausto romeno. Enterrar as pessoas vivas parece ter sido um dos métodos usados em várias valas comuns, às vezes para economizar munição. A imagem também aparece em mais de um dos relatos de testemunhas reunidos pela Nemurire. "O chão se movia por todo o norte de Moldova em 1941", como colocou Dunayevich.


Tradução: George El Khouri Andolfato

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