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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A caça (Luiz Felipe Pondé)

FSP, Ilustrada, em 16/02/2009

Luiz Felipe Pondé: A caça


Há uma solidão típica em quem se sente "espécie caçada'; a qualquer sinal de risco, o medo emerge


EM 1980 , eu morava em Israel. Ofereci-me como voluntário para trabalhar num kibutz nas Colinas do Golan, na fronteira com o Líbano e a Síria. Dois brasileiros, eu e três israelenses trabalhávamos na plantação de abacate, que ficava longe, por isso saíamos às 5h da manhã. Soldados nos transportavam até o local.


Estávamos na fronteira norte do país. Portávamos três metralhadoras.


Antes do café, um carro do Exército chegou. Conversaram rapidamente conosco e foram embora. Terroristas estavam na área. Fomos para o galpão de ferramentas. Ficamos sentados horas, esperando algum sinal de que podíamos voltar pra casa. Falávamos pouco. À tarde, cansados de esperar, com fome e sem saber exatamente o que acontecia, decidimos voltar andando. Fomos parados por uma patrulha. Enquanto falávamos com os soldados, lembro-me do rosto de um soldado com seu uniforme de inverno. A metralhadora de seu jipe estava pousada, por acaso, em minha direção, e ele me olhava com um olhar vago.


Havia lugar para uma pessoa no jipe, e um dos brasileiros, que se sentia mal, foi com os soldados. O restante continuou a pé, até que um carro do kibutz nos buscou. Ao chegarmos, às 15h, uma festa nos esperava. Ninguém tinha ido trabalhar. O alarme soara, mas depois de sairmos. Catorze mortos. Você não diz facilmente "o que fazer" para pessoas que têm experiências cotidianas como essas (e piores). Israel é um país marcado pela consciência do risco, alimentado por uma ancestralidade trágica. Há uma solidão típica em quem se sente uma "espécie caçada". A qualquer sinal de risco, o medo vem à superfície.


Nessas eleições, o medo se associou a um cansaço triste. O crescimento da "direita" (sempre cética em relação às instituições representativas dos palestinos) é uma "vitória" do radicalismo islâmico que sufoca aqueles que querem viver em paz, de ambos os lados.


Há um "novo" drama nessas eleições: o crescimento do partido Israel Beitenu. Esse partido associa uma retórica antirreligiosa (que atraiu eleitores da esquerda cansados do poder dos religiosos) a uma defesa radical da identidade judaica do Estado de Israel. Esse fato é de enorme significado, porque empurra Israel para um impasse histórico. A pergunta é: pode Israel sustentar legalmente sua identidade judaica sem apelo à religião? A "cultura judaica" pode sustentar a identidade do Estado?


A resposta do filósofo judeu Leo Strauss e dos historiadores pós-sionistas é "não". Isso não significa defender uma Israel teocrática, mas sim que o sionismo implica um drama histórico: sem a religião, sobra para o sionismo apenas a justificativa biológica.


Na origem, o sionismo era um projeto político e cultural, não religioso. Mas a realidade se mostrou outra.


"Quem" decide a identidade judaica de uma pessoa é o ventre materno, logo, a descendência é biológica (conversões existem, mas é objeto de controvérsia quanto ao reconhecimento pelas instâncias religiosas israelenses). A religião e a linhagem materna decidem "quem é judeu", e não a "cultura".


Essa descendência ou é apenas herança biológica, ou é um fato teológico (eleição divina manifesta na herança materna). Ninguém é legalmente visto como judeu pelo Estado de Israel simplesmente porque lê livros judeus, gosta de comida judaica ou se lembra das piadas que seu avô contava (hábitos culturais), mas sim porque o Rabinato reconhece a descendência. Israel corre assim o risco de se descobrir uma teocracia que afirma a identidade judaica do Estado a partir de pressupostos teológicos (Terra Prometida, eleição divina) ou de cair numa armadilha racial: se você tem mãe judia, você é judeu. Os que recusam a fundamentação religiosa e a armadilha racial ficam órfãos. O ódio islâmico piora esse impasse, porque fortalece as duas posições radicais. O problema é que o sionismo acaba sendo ou religioso ou vítima da armadilha racial. Nunca apenas "cultural". O crescimento da população religiosa é significativo e isso pressiona a sociedade em direção a uma forma de teocracia implícita. O pós-sionismo e a aceitação de um Estado binacional implicam a aceitação de uma população árabe que cresce mais do que a judaica, e consequente risco de perda da identidade judaica de Israel. E mais: os não religiosos tendem a ser displicentes com a transmissão da herança judaica. O problema é muito maior do que Gaza.

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