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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 16 de outubro de 2011

Diários revelam que informações sobre crimes nazistas estavam disponíveis

Der Spiegel (09/10/2011): Diários revelam que informações sobre crimes nazistas estavam disponíveis (Elke Schmitter): Diários recém-publicados de um funcionário de tribunal da era nazista documentam detalhes que muita gente convenientemente ignorou. Embora muitos alemães alegassem mais tarde que nada sabiam a respeito dos crimes nazistas, as observações críticas de Friedrich Kellner demonstram que tais informações encontravam-se disponíveis.

O penúltimo ano da guerra teve início com um discurso que exortava os alemães a perseverar. A Itália não era mais aliada da Alemanha, e o exército soviético aproximava-se das fronteiras da Polônia, da Hungria e da Romênia. O desembarque aliado na França era iminente. Após transmitir a sua mensagem aos soldados e a todos os alemães, Adolf Hitler voltou a sua atenção para o próprio Deus no seu discurso do Ano Novo de 1944. “Ele está consciente da nossa luta”, disse Hitler. “A justiça de Deus continuará a nos colocar a prova até que Ele possa emitir um julgamento. O nosso dever é garantir que não tenhamos uma aparência frágil aos olhos Dele, e que recebamos um julgamento misericordioso que diga 'vitória' e que, portanto, signifique vida!”.

Dois homens muito diferentes no Reich alemão anotaram nos seus diários as suas ideias sobre a manifestação de sentimentos religiosos de Hitler. O primeiro, Victor Kelmperer, morava com a sua mulher em uma “casa judaica” em Dresden, onde ele escreveu sobre o ditador, usando um nome falso: “Novo conteúdo: Karl torna-se religioso (a nova abordagem consiste em aproximar-se do estilo eclesiástico)”.

O segundo, Friedrich Kellner, morava com a mulher em um apartamento oficial em um prédio do tribunal de justiça da cidade de Laubach, no Estado de Hesse, onde ele redigiu a sua narrativa da guerra em um gabinete improvisado em uma sala de estar. No seu comentário sobre o discurso de Hitler, Kellner escreveu: “Deus, que tem sido insultado por todos os nacional-socialistas devido às políticas oficiais destes, está agora sendo alvo de súplicas do Führer em um momento de dificuldades. Que estranha hipocrisia!”.

O diário extenso escrito por Klemperer, um professor de Literatura de Línguas Neolatinas que havia sido demitido do seu emprego em Dresden, foi publicado em 1995 sob o título "Ich will Zeugnis ablegen bis zum letzten" (“Eu serei testemunha: Um Diário dos Anos Nazistas”). Esse talvez seja o mais importante documento particular sobre os nazistas, porque ele proporciona um relato extremamente lúcido e detalhado dos 12 anos do “Reich de mil anos” sob o ponto de vista de uma pessoa que se encontrava marginalizada. O relato detalha pequenos estorvos e grandes crimes, a vida cotidiana e o desenvolvimento da propaganda nazista.

Esse documento possui agora um congênere, os diários do inspetor judicial Friedrich Kellner. O livro de 900 páginas começou a ser escrito em setembro de 1938, e é narrado sob a ótica de um cidadão alemão que não era nazista. Ele revela também quais informações os alemães poderiam ter obtido a respeito dos nazistas, caso desejassem.

Uma família comum

Kellner, nascido em 1885, poucos anos depois de Klemperer, não era um homem privilegiado. Filho de um padeiro e de uma arrumadeira, ele seguiu uma carreira judicial após formar-se na Oberrealschule, uma escola superior vocacional. Aos 22 anos de idade, Kellner concluiu o seu período de serviço militar obrigatório de um ano como soldado de infantaria na cidade ocidental de Mainz e, em 1913, casou-se com Paulina Preuss, uma secretária. O único filho do casal nasceu três anos depois, quando Kellner retornou do front francês após ter sido ferido na Primeira Guerra Mundial.

Eles eram uma família comum de classe média baixa, mas eram também politicamente ativos. Ele distribuía panfletos, fazia discursos e recrutava novos membros para o Partido Social-Democrata. Kellner havia lido o livro de Hitler, “Mein Kampf” (“Minha Luta”), e levou a obra a sério, afirmando que o livro havia envergonhado Gutemberg. Após as eleições de 1932, nas quais o Partido Nazista tornou-se a facção mais poderosa no parlamento alemão, o Reichstag, Kellner solicitou a sua transferência de Mainz. Em 1933, duas semanas antes de Hitler tornar-se chanceler do Reich e da primeira onda de terror interno, ele começou a trabalhar como funcionário público no Tribunal Distrital de Laubach. Kellner era um desconhecido em uma cidade na qual havia uma forte simpatia por Hitler. Foi lá que Kellner escreveu o seu diário: uma conversa que ele teve consigo próprio devido ao desespero, mas também uma análise do presente e um legado planejado.

“O objetivo do meu registro”, começou ele, em 26 de setembro de 1938, “é retratar o clima atual ao meu redor, de forma que nenhuma geração futura sinta-se tentada a construir um 'grande acontecimento' baseado no que está acontecendo agora ('um período heroico' ou coisas semelhantes). Na mesma passagem, e no mesmo dia, Kellner revelou uma visão amarga e clara, ao resumir a história alemã de pós-guerra em uma sentença: “Aqueles que desejam conhecer a sociedade contemporânea, com as almas dos 'bons alemães', deveriam ler o que eu escrevi. Mas eu temo que restarão pouquíssimas pessoas decentes após os eventos ocorridos, e que a culpa não terá interesse em ver a sua desgraça documentada por escrito”.

Dez volumes escritos documentaram os fatos que Kellner experimentou e observou e, acima de tudo, aquilo que ele leu e ouviu. Kellner recortou discursos e convocações de jornais e os analisou, e escreveu notas sobre leis e decretos. Ele contrastou a informação fornecida pelo governo com os fatos, tanto no cotidiano de Hessen quanto no front distante. Kellner escutava, quando podia, estações de rádio estrangeiras. Mas, acima de tudo, ele analisava a propaganda sob um ponto de vista crítico. Ao comentar o “Tratado de Amizade” de 1939 com a União Soviética, ele escreveu: “Nós tivemos que apelar para uma aliança com a Rússia a fim de que pudéssemos ter pelo menos um 'amigo'. Logo a Rússia, dentre todos os países. Os nacional-socialistas devem a sua existência inteiramente à luta contra o bolchevismo (Inimigo Público Número Um, Pacto Anti-Comintern). Para onde foram vocês, guerreiros desaparecidos que lutavam contra a desgraça asiática?”.

Clipagens e evidências

Menos de dois anos mais tarde, os guerreiros retornaram, supostamente para prevenir um ataque por parte da União Soviética. Em 22 de junho de 1941, Kellner escreveu no seu diário: “Mais uma vez, um país tornou-se vítima do pacto de não agressão com a Alemanha. Não importa como as nossas ações estejam sendo justificadas, a verdade será encontrada somente na economia. Os recursos naturais são o trunfo. E, se vocês não obedecerem, eu estou preparado para recorrer à violência”. Mas praticamente ninguém enxergava os acontecimentos como ele. As mulheres, durante o chá, gostavam de se referir aos alemães que “tomavam” uma cidade, uma região ou até mesmo um país inteiro. Kellner estava horrorizado, tanto pela tolice quanto pelo barbarismo das pessoas a sua volta.

Usando clipagens de reportagens militares, obituários daqueles que morreram “pela grandeza e pela liberdade da Alemanha”, caricaturas, artigos de jornais e conversas com pessoas comuns, Kellner criou uma imagem da Alemanha nazista que jamais existiu de uma forma tão vívida, concisa e controversa. Até então, as discussões sobre a culpa alemã flutuavam dentro de um universo amplo situado entre duas posições opostas. Um lado enfatiza a campanha de desinformação deliberada da propaganda nazista e a ideia de que os cidadãos comuns viviam em estado de medo e terror, concluindo que eles não tinham como saber melhor o que estava acontecendo. O outro lado adota a posição oposta, afirmando que a maioria dos alemães estava consciente de tudo.

Os escritos de Kellner nos permitem ver o que todo mundo poderia ter sabido a respeito da guerra de extermínio no leste, dos crimes contra os judeus e dos atos de terror cometidos pelo Partido Nazista. Ele escreveu a respeito das execuções de “pragas” que fazem observações “derrotistas” e sobre “higiene racial”. Em julho de 1941, Kellner escreveu: “Os hospitais psiquiátricos transformaram-se em centros de assassinato”. Uma família que havia levado o filho a uma instituição psiquiátrica recebeu mais tarde, por engano, a informação de que ele havia morrido e que as suas cinzas seriam entregues em breve. “O departamento esqueceu de remover o nome do rapaz da lista da morte. Como resultado, o assassinato deliberado foi revelado”, relatou Kellner.

Sob a vigilância nazista

Quem lê os diários de Kellner e descobre aquilo que os alemães poderiam ter sabido, sente-se tentado a refletir sobre como surgiu a expressão “Nós nada sabíamos sobre essas coisas!”. Segundo Kellner, as pessoas simplesmente ignoraram as informações disponíveis, ou por terem preguiça, ou por sentirem entusiasmo pelas vitórias bélicas alemãs. Quando essa negação da realidade deixou de funcionar, quando muita coisa foi revelada a respeito daquilo que os nazistas estavam fazendo em nome da Alemanha, a maioria dos alemães não tinha mais como retroceder. “'Eu fiz isso', diz a minha memória'”, escreveu Nietzsche. “'Eu não poderia ter feito isso', diz o meu orgulho, de forma inexorável. Um dia, a memória acaba cedendo”.

O próprio Kellner escreveu que “esta patética nação alemã” tem sido mantida refém pelos perpetradores. “Todo mundo está convencido de que nós temos que triunfar, de forma que não estamos completamente perdidos”. Os próprios nazistas advertiram a população para a vingança dos perpetradores. Para a maioria dos alemães, o único desfecho concebível para a guerra era a vitória – ou o aniquilamento total”.

Kellner viveu até 1970. Apesar de ter sido colocado sob vigilância pelo partido e de ser questionado várias vezes, ele conseguiu evitar que fosse enviado para um campo de concentração. Em uma denúncia redigida em 1940, um oficial nazista chamado Engst escreveu: “Se quisermos prender pessoas como Kellner, teremos que atraí-los dos cantos em que eles se encontram e possibilitar que eles próprios se coloquem na posição de culpados. O momento não é propício para uma abordagem como aquela que tem sido usada com os judeus. Isso só poderá ocorrer após a guerra”.

No epílogo, o neto do autor descreve a história da publicação dos diários de Kellner. A princípio os editores alemães não se mostraram interessados. Mas os diários atraíram atenção, quando, em abril de 2005, “Der Spiegel” noticiou que o ex-presidente dos Estados Unidos George Bush havia examinado os cadernos oficiais de Kellner na Biblioteca Presidencial George Bush, na Universidade A&M do Texas.

Agora que finalmente foram publicados, os volumes provavelmente encontrarão um lugar ao lado dos diários de Klamperer nas bibliotecas alemãs e também nas prateleiras das livrarias.

Tradução: UOL


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