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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Diante da dor dos judeus

Diante da dor dos judeus

Adriana Dias
30/01/2008

O enredo deste ano da escola de samba Viradouro, do Rio de Janeiro, cujo título "É de Arrepiar", pretende recordar, como descreve em sua poética, "dissabores, infelicidades, vidas perdidas nesse mundo de maldade". Quer desfilar, ainda dentro deste discurso, um carro alegórico representando o Holocausto, o extermínio de 6 milhões de judeus pelos nazistas. Procurada, anteriormente, pelo carnavalesco e o presidente da Unidos do Viradouro, a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro se posicionou desfavorável à maneira como aquela escola trataria um tema tão delicado, que evoca dores e marcas muitos profundas nos judeus, e outros mortos nos campos nazistas, em todo o mundo. Alguns formadores de opinião advogam o "direito dos carnavalescos de decidirem acerca do que desfilam" no Sambódromo.

Neste momento me recordo das dezenas de sobreviventes do Holocausto que conheci: a percepção de tão hedionda violência nos preenche de terror. A violência do holocausto não marcou apenas seus corpos, as cicatrizes da alma são ainda mais profundas: como escreveu Jorge Semprun, ninguém sai exatamente vivo de um campo de concentração.

A Unidos do Viradouro tem, ao que tudo indica, uma boa intenção: quer, como escreveu a FIERJ em nota oficial, “usar a arte como denúncia de fatos que marcaram de forma terrível a História”. A questão é que na mesma nota a Federação Israelita considera “totalmente inadequado e mesmo desrespeitoso à memória de dezenas de milhões de mortos, incluindo aí os 6 milhões de judeus”.

A maior das questões reside em que tipo de memória se deseja envolver as marcas do genocídio nazista. Como escreveu Susan Sontag, em Diante das dor dos outros, "a compreensão da guerra entre pessoas que não vivenciaram uma guerra é, agora, sobretudo um produto do impacto dessas imagens." Das imagens criadas para esta guerra, das diversas formas possíveis. Diante da dor dos judeus é preciso repensar o proposto pela Viradouro.

Não é uma questão de propriedade, no sentido emprestado a ela por um jornalista que defendendo a "liberdade artística da Viradouro", afirmou: "os judeus não são donos do Holocausto". Frase infeliz. Os judeus arcam com as dores do Holocausto, nas peles, nas almas, nas vidas. Por isso a dor é deles, e isto, quem não viveu não pode entender.

Quero concluir com mais de Susan Sontag: ""Nós" – esse "nós" é qualquer um que nunca passou por nada parecido com o que eles sofreram – não compreendemos. Nós não percebemos. Não podemos na verdade, imaginar como é isso. Não podemos imaginar como é pavorosa, como é aterradora a guerra; e como ela se torna normal. Não podemos compreender, não podemos imaginar. É isso o que todo soldado, todo jornalista, todo socorrista e todo observador independente que passou algum tempo sob o fogo da guerra e teve a sorte de driblar a morte que abatia outros, à sua volta, sente de forma obstinada. E eles têm razão."


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Autora:
Adriana Abreu Magalhães Dias.
Data da defesa: 06 de novembro de 2007.

Sobre a dissertação:
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Edição 380 - 12 a 25 de novembro de 2007

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