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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A polêmica de Nana Caymmi

Frase dita pela cantora em entrevista publicada na edição 382 de QUEM provocou indignação na comunidade judaica.

http://revistaquem.globo.com/Quem/0,,EQG1669868-6134,00.html

No dia 14 deste mês, o jornalista Osias Wurman referiu-se à declaração, chamando de 'preconceituosa', em um elegante artigo publicado em O Globo. Em seguida, Nana se retratou escrevendo uma carta ao jornal e outra à Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, a Fierj. Confira ambas as cartas, assim como um artigo escrito pelo presidente da entidade, Sergio Niskier, especialmente para a revista.


Nana Caymmi
1)

“NO TELHADO”

Em relação ao artigo de Osias Wurman (14/1), em que sou citada, gostaria de dizer que esta circunstância a que ele se refere foi um episódio infeliz, que não corresponde aos meus profundos sentimentos. Eu não tive a menor intenção de ofender a comunidade judaica, com a qual, aliás, mantenho boas relações. Reitero a certeza do meu sincero apreço pela comunidade israelita.
Nana Caymmi (por e-mail),
publicada na seção Carta ao Leitor do jornal O Globo em 15/1/2008

2)
Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2008.
Ao Senhor Sergio Niskier
Presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro
Prezado Senhor,
Gostaria de comunicar a V. Sa. e a toda a Comunidade Israelita Brasileira que, de modo algum, foi minha intenção ofender aos judeus e sua crença na entrevista que concedi à revista QUEM Acontece, publicada em 4 de janeiro do corrente. Reitero – como já declarei em jornais – que em hipótese alguma ela se referia aos judeus e sua crença. Tenho um filho dependente químico e com seqüelas mentais devido a um acidente de motocicleta ocorrido em 1989. Na ocasião, amigos de várias religiões rezaram por ele e sempre fui muito grata a todos. Falando ao jornalista sobre o problema do meu fi lho, que tanto me aflige, usei uma expressão antiga para manifestar a dor que isso me causa. Este foi o contexto exato da entrevista. Usei assim uma expressão que pode ser considerada imprópria para expressar minha dor. Observo, outrossim, que tenho inúmeros amigos judeus de longa data que me conhecem e sabem que jamais ofenderia em qualquer hipótese a crença judaica.
Sem mais, subscrevo-me.
Atenciosamente,
Nana Caymmi


PELO RESPEITO ÀS DIFERENÇAS

Sérgio Niskier
Presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ)


Uma das formas mais cruéis do preconceito é a repetição de mentiras e infâmias, em um processo de educação que visa à destruição do outro. Uma dessas situações mais absurdas é o conceito do “deicídio”, a acusação de que os judeus teriam matado Cristo. Ou que praticam rituais secretos, com uso do sangue cristão.

Durante séculos, esses conceitos foram repetidos, e para a população representavam a verdade – e, em nome deles, praticou-se todo tipo de iniqüidade. Serviram para ajudar a justificar a tortura e a morte causadas por perseguições: as Cruzadas, a Inquisição, os Pogroms, o Holocausto.

Declarações feitas sem os devidos cuidados são encontradas aqui mesmo, em nosso país, repetidas em jornais, revistas, escolas, universidades, casas legislativas, igrejas e templos, como refl exo odioso de séculos de preconceito. Estas só servem para reforçar esses estereótipos, que nada mais fazem do que dividir nossa nação, separar nosso povo e construir uma política de ódio, incompatível com o desenvolvimento de uma sociedade.

Em 1963, o papa João XXIII recebeu representantes da comunidade judaica da Itália e, de braços abertos, disse: “Eis aqui José, o vosso irmão”, repetindo a frase de José ao encontrar seus irmãos no Egito.

No documento Nostra Aetate, por ocasião do Concílio Vaticano II, a Igreja deplorou o anti-semitismo em todas as suas formas e repudiou a alegação de “deicídio”, pela qual eram culpados os judeus de todas as gerações, afirmando ainda que Jesus, os apóstolos e a maioria de seus seguidores eram judeus e que Deus não havia revogado o Pacto com o povo de Israel. Em 1986, o papa João Paulo II visitou a Sinagoga de Roma, com as mesmas intenções de encerrar esta triste página de intolerância.

Vê-se, portanto, que a repetição de atitudes discriminatórias é inteiramente e totalmente incompatível com os próprios ditames da Igreja Católica e com a postura por ela adotada desde meados do século passado. E contraria todos os princípios elementares de respeito à dignidade humana.

No Brasil – país multiétnico e que sempre abrigou pessoas das mais diversas origens e crenças –, a legislação refl ete tal sentimento ao estabelecer ser vedado “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.

Entendemos como dever de todos lutar pela preservação da dignidade humana e condenar com veemência a fomentação de ódio e discriminação de quaisquer grupos, tais como os judeus, que aqui aportaram com o descobrimento e aqui continuam, ao lado de outras comunidades, trabalhando em prol de uma sociedade democrática, solidária, mais justa e de respeito às diferenças.

FOTOS: DIVULGAÇÃO, REPRODUÇÃO/ANDRÉ ARRUDA



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