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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 4 de maio de 2008

A cabala da galera - Em busca do judeu que existe em mim

A cabala da galera

Como é o dia-a-dia na filial carioca do badalado Kabbalah Centre, que já tem três milhões de adeptos em todo mundo, a maioria não judeus
(chamada de capa)


(p.50-56)

Em busca do judeu que existe em mim

Adeptos de várias religiões procuram conforto espiritual na outrora fechadíssima cabala, procurando incorporar as tradições israelitas

Alguma coisa está fora da ordem — fora da velha ordem mundial. É essa a sensação quando se penetra nos domínios do Kabbalah Centre, o ultrabadalado centro de estudos da cabala que tem sua sede em Los Angeles e já soma três milhões de adeptos no mundo todo. A versão carioca da entidade ocupa um gigantesco apartamento na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. Na noite do último dia 19, um sábado, Shmuel Lemle, que se autodenomina rabino, comandou ali um ritual para mais de cem pessoas, em sua maioria católicos praticantes do judaísmo, uma religião que, como se sabe, exige mais do que desejo de seguir — exige nascimento do útero de uma mulher descendente do povo de Israel.

O jantar de Pessach, a Páscoa judaica, que celebra a libertação dos judeus da escravidão no Egito, começou pontualmente às 20h. A cerimônia teve direito a todos os detalhes da tradição: beber quatro taças de vinho, pendendo o corpo para a esquerda; mastigar uma raiz-forte até lágrimas pularem dos olhos; comer ovos com sal; devorar nacos de matzá, um pão preparado sem fermento que simboliza o combate ao inflado ego de todos nós. Ao todo, foram seguidos 15 passos.

O rabino deu início ao cumprimento de cada tarefa pronunciando palavras impronunciáveis em hebraico. As comemorações do Pessach haviam começado na noite anterior, com a celebração do início do shabbat, o dia da semana em que judeus seguidores das tradições cruzam os braços para refletir sobre os significados profundos da vida. Dali para frente, seriam dez dias de abstenção de alimentos fermentados e muitas, muitas orações. Segundo Shmuel, um cabalista não precisa virar praticante dos ritos judaicos. Mas, se quiser aproveitar todas as maravilhas da cabala, o melhor a fazer é, digamos, encontrar o judeu que existe dentro de cada um. E cair nas baladas espirituais como manda o figurino.

— Na leitura cabalista da Torá (a bíblia judaica), o Pessach é uma ferramenta poderosa para nos libertar da escravidão de regras de conduta.

O Egito seria um código para simbolizar o nosso ego. Por isso guardamos o Pessach.

A ferramenta é válida para todos, judeus ou não-judeus. Todos podem usufruir dessa data cósmica — diz Shmuel. — A difusão do judaísmo é positiva, quebra preconceitos e idéias erroneamente preconcebidas. Do ponto de vista da religião, no entanto, a simples prática não transforma ninguém em judeu — esclarece o rabino Michel Schlesinger, presidente da Congregação Israelita Paulista, a maior comunidade judaica do país.

Inaugurado no Brasil em 1998, o Kabbalah Centre já não é mais só uma modinha capitaneada por uma garota-propaganda de peso — a cabalista Madonna. Segundo Shmuel, um carioca de 40 anos, mais de dez mil pessoas passaram por seus cursos, que custam R$ 500 por dez aulas. Desse total, cerca de 500 viraram seguidores de carteirinha, sendo mais de 90% não judeus.

O centro começou ministrando apenas um curso, o de Cabala 1. Hoje já oferece até o Cabala 9, além de outras variações sobre o mesmo tema. O mais badalado é o de Astrologia Cabalística, que discorre sobre a energia espiritual de cada mês. Não é fácil entender — ou explicar — a cabala. Teoricamente, trata-se de uma leitura mística do judaísmo que se propõe a desvendar os significados ocultos da Torá.Não é a religião israelita em si, mas uma interpretação de supostos códigos do livro sagrado dos judeus, baseada em abstrações matemáticas e em uma lógica muito peculiar, cuja compreensão exige dedicação e conhecimento profundo das tradições judaicas.

No Kaballah Centre, as explicações da cabala ganham uma dimensão contemporânea para facilitar as coisas para quem não nasceu nas tradições. O rabino repete sem parar que a cabala é um conjunto de ferramentas para se acessar as energias positivas disponíveis no universo. Uma das tais ferramentas, por exemplo, é “escanear” o Zohar, o livro que contém a sabedoria cabalística, escrito em aramaico e traduzido para o hebraico somente no início do século XX — os praticantes da cabala apenas passam os olhos pela estranha escrita. Os símbolos em hebraico, segundo Shmuel, seriam como códigos de barras, que não são compreendidos mas podem ser absorvidos pela alma. O jeito pop de ensinar a cabala, adotado pelos rabinos de todos os Kabbalah Centre do mundo, já rendeu até um apelido para a instituição: McMisticismo.

— Cabala significa receber. O que as pessoas querem receber? Amor, paz, segurança, prosperidade... São coisas não-físicas que podem ser traduzidas em uma palavra: energia.

A cabala é um conjunto de ferramentas para se acessar essa energia — diz Shmuel. Um fim de semana no Kabbalah Centre, que tem QGs no Leblon e na Rua Oscar Freire, em São Paulo, é conhecer uma turma que parece ter encontrado seu caminho, entre os tantos oferecidos nestes tempos de frenética busca espiritual. Lá tem gente de todos os estilos e idades, de descolados, como o cabeleireiro Neandro, a madames, como Terezinha Soares, exmulher de Jô Soares. O primeiro pregou símbolos em hebraico no espelho do salão onde trabalha, o Care, em Ipanema, e dispara emails cabalísticos para o seu poderoso mailing. A história dos símbolos é mais ou menos assim: no Velho Testamento, a travessia do Mar Vermelho pelos judeus tem seu clímax em três versículos, cada um com 72 letras. Na interpretação cabalística, permutações dessas letras revelariam os 72 nomes de Deus, que seriam chaves para a elevação espiritual. Todos os seguidores da cabala costumam manter combinações desses símbolos por perto.

Terezinha também segue à risca as mandingas judaicas. Na sala de sua casa, ela mantém um Zohar. Para os adeptos da cabala, só ter os 23 volumes na estante já atrai energia positiva para o ambiente. Terezinha faz questão de dizer que a cabala mudou sua vida. Ela conta que “estava péssima, batendo de frente com tudo, perdida e pessimista”, quando um amigo indicou o Kabbalah Centre, em abril do ano passado. No começo, ela não entendia os rituais. Depois, começou a penetrar nos significados e se encontrou. Segundo a mãe do filho de Jô — Rafael, de 42 anos, um rapaz autista e muito doce —, a cabala altera a configuração da máquina.

— A cabala exige mudança total de paradigmas. Quando isso acontece, tudo ao seu redor muda. Meu terapeuta me disse outro dia, em tom de ordem: “Continua na cabala” — diverte-se Terezinha. a Uma coisa curiosa nos papos com os freqüentadores do Kabbalah Centre é a obsessão pela própria árvore genealógica. Lá atrás, em alguma geração perdida, quase todo mundo descobre — e adora descobrir — um pé no judaísmo. O filósofo e professor Jones Rodrigues Neves, de 62 anos, por exemplo, é bisneto de um judeu que “perdeu o ventre” quando se casou com sua bisavó, que era cristã. Cabalista dedicado, muito bem articulado, Jones garante que o conhecimento o transformou profundamente. Trouxe o que ele sempre buscou: equilíbrio. Ele é um dos mais antigos alunos do rabino Shmuel. Está no Kabbalah Centre desde a fundação, há dez anos.

O empresário Mauro Alves também tem um vínculo com o judaísmo. Só não sabe precisar em que geração. Ele está convencido de que a cabala é uma tecnologia espiritual acessada quando se apura o conhecimento através do estudo. Mauro acredita ter recebido uma demonstração prática do poder da cabala. Seu filho, João Pedro, nasceu de sete meses, com comprometimentos pulmonares graves. Chegou a ser desenganado pelos médicos. Durante o doloroso período em que o bebê permaneceu na UTI, há dois anos, Mauro preencheu o tempo “escaneando” o Zohar. Numa noite em que ficou em casa, resolveu ler na versão em inglês um dos versos do livro cabalista. Ali teria encontrado um antídoto para neutralizar a morte. Depois de acessar a tal ferramenta, lendo e meditando sobre a passagem, teve a notícia de que o bebê estava fora de perigo.

— O Zohar é um bilhão de vezes o computador da Nasa. Toda a sabedoria do universo está ali. É um prazer estúpido quando você vai descobrindo e entendendo as ferramentas para se transformar e transformar o seu entorno. No caso do meu filho, eu estava com a ferramenta certa e no dia perfeito para uma conexão maior — arrisca Mauro.

Mundanamente falando, o grande milagre do Kabbalah Centre é a atração que exerce sobre gente famosa e endinheirada. A versão americana tem nas suas fileiras nomes como Mick Jagger, Demi Moore e Susan Sarandon. Madonna, no entanto, é, de longe, a mais fiel — e generosa — seguidora. Ela desembolsou US$ 6 milhões para a construção da filial londrina, quando se mudou para a Inglaterra. Por aqui, a modelo Ellen Jabour, o apresentador Alex Lerner, os cantores Marina Lima e Paulo Ricardo, os donos da editora Rocco, Angela e Paulo Rocco, e o publicitário Nizan Guanaes são alguns dos freqüentadores.

Paulo Ricardo conta que desde garoto tem fixação pelas diferentes ramificações do esoterismo, da astrologia ao I Ching, e que comprou seu primeiro livro sobre cabala aos 15 anos, muito antes de a cantora de “Like a virgin” pensar em virar cabalista. Ele e a mulher, Raquel Silveira, fizeram o primeiro curso no Kabbalah Centre há dois anos. Atualmente freqüentam os workshops de Astrologia da Cabala. Paulo Ricardo diz que o que o pegou na cabala foi a praticidade dos ensinamentos. Aprende-se nas aulas e aplica-se na vida.

Instantaneamente. — Essa coisa de programação mental é de aplicação muito prática. É como fazer uma aplicação financeira. Hoje me sinto muito mais dono das minhas emoções, do meu comportamento, mais senhor de mim mesmo. A cabala nos ajuda a entender com muita objetividade a lei da ação e da reação. Hoje eu penso positivo, dou importância para o que tem importância — comenta o músico. — O curso de Cabala 1 foi um grande divisor de águas para mim. Ali eu tive a certeza de que eu podia operar milagres na minha vida e na vida das pessoas Na velha ordem mundial, seria impossível imaginar que a cabala viraria uma filosofia pop. Seus estudos remontam à Idade Média. O Zohar, um compêndio dos ensinamentos até então orais dos rabinos, foi escrito há dois mil anos. Até o início do século passado, a cabala era restrita a homens judeus com mais de 40 anos.

Acreditava-se necessário um preparo especial para compreender seus ensinamentos. No início do século XX, um judeu alemão chamado Gershom Scholem traduziu o Zohar do aramaico para o hebraico e criou uma cadeira de estudos da cabala em uma universidade de Jerusalém. Foi a primeira iniciativa para disseminar a filosofia. Mesmo assim, ela continuou fechada nos círculos judaicos. A popularização se deve ao americano Freivel Gruberger, um ex-corretor de seguros que fundou o Kabbalah Centre, em 1971, em Nova York. Nos anos 80 a sede migrou para Los Angeles. Gruberger estudou em Israel, empacotou a cabala e trouxe uma versão mastigada para o Ocidente. Hoje, são mais de 50 Kabbalah Centres no mundo, além de grupos que ensinam a cabala pelo Skype. A direção geral do Kabbalah Centre está nas mãos dos filhos de Freivel Gruberger, Yehuda Berg e Michael Berg. O primeiro é a celebridade do clã, mentor espiritual da turma de Beverly Hills. Os mais conservadores costumam torcer o nariz para os Berg. Eles são acusados de transpor a antiga sabedoria judaica para o terreno da auto-ajuda. O Kabbalah Centre tem uma infinidade de livros best-sellers no mercado e uma miríade de produtos idem. Entre eles, um fio de lã vermelha que custa US$ 26 (no Brasil, R$ 80).

Segundo Shmuel, comandante do Kabbalah Centre por aqui e aluno de Yehuda Berg, a tal pulseirinha é feita de uma lã que é levada até a Palestina e amarrada em volta do túmulo da matriarca Raquel para ser energizada. O centro vende ainda a água da cabala, proveniente das montanhas de Israel, braceletes com símbolos em hebraico (US$ 100), incensos (US$ 72), velas (US$ 22). Agora, está lançando um energético da cabala. — Nos últimos anos, a cabala ganhou uma roupagem para atrair um público maior. Os cabalistas modernos desenvolveram um pacote que mistura o estudo judaico a coisas da cultura americana.

A cabala virou um produto para agradar ao freguês. Tem uma estrutura de auto-ajuda, com um sentido mágico — diz o rabino Nilton Bonder, autor da trilogia “A cabala da comida”, “A cabala do dinheiro” e “A cabala da inveja”. — Estamos, na verdade, diante de um processo dos nossos tempos. A massificação de um material extremamente profundo é muito questionável. Leonardo da Fonseca Reis tem 27 anos e confessa que virou cabalista por obra e graça de Madonna. Ele era um grande fã quando ela lançou, em 1998, “Ray of light”, disco em que propagava a sua nova fé. Seis anos depois, um amigo o convidou para assistir a uma palestra no Kabbalah Centre.

Ele fez e refez todos os cursos. Em 2007, foi passar o Pessach com cabalistas do mundo inteiro num resort em Miami e, depois, seguiu para Israel, para celebrar o Rosh Hashanah, outra importante data do calendário judaico. Na volta, largou um emprego de oito anos na Petrobras, onde coordenava projetos culturais, para se dedicar apenas ao Kabbalah Centre. Virou coordenador dos cursos. Em casa, ele tem todos os apetrechos que convêm a um cabalista, da água da cabala ao Zohar. Sua parafernália espiritual convive muito bem, obrigada, com os santos dos pais, cristãos praticantes. — Acredito que o sucesso da cabala esteja ligado diretamente à busca do ser humano pelo místico. A cabala é o “Harry Potter” do judaísmo — compara o rabino Michel Schlesinger.

Extraído de:
Revista O Globo, ano 4, número 197, em 04/05/2008.
Material impresso com Fotos e texto. Pág.50-56.
Por Karla Monteiro.
Fotos de Marizilda Cruppe.

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