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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 10 de maio de 2008

"Em Israel a política escorre pelo seu quarto", diz o cineasta Amos Gitai

Israel Punzano
Em Barcelona

O cineasta israelense Amos Gitai (nascido em Haifa em 1950), ao qual o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (Macba) dedica um ciclo, é um sobrevivente. Em seu caso não se trata de uma metáfora: ele mesmo participou da guerra de Yom Kipur. Seus filmes -"Zona Livre" (2005), "Terra Prometida" (2004) ou "Éden" (2001)- reivindicam a utopia e mostram a realidade da região-estopim que o viu nascer.

El País - O cinema como entretenimento o aborrece?
Amos Gitai - Todas as disciplinas da arte entretêm, mas é necessário algo mais. Não podemos ser só consumidores, mas devemos nos transformar em espectadores-intérpretes, como acontece quando nos colocamos diante de um quadro de Velázquez.

EP - Seus filmes têm uma grande carga biográfica. Não é de estranhar, porque está vivo por milagre...
Gitai -
Isso de sobrevivente é verdade. Quando jovem, em 1973, participei da guerra de Yom Kipur. Em meu aniversário, num dia ensolarado de outubro, estava sobrevoando com um helicóptero a frente líbia em busca de feridos para transportá-los para o hospital. O helicóptero foi derrubado por um míssil. O co-piloto estava a menos de um metro de mim e morreu decapitado. Éramos sete tripulantes. A maioria ficou ferida e morreu depois. Eu consegui sobreviver. As forças aéreas israelenses telefonaram para minha mãe e lhe disseram com secura que seu filho era uma exceção à estatística: ninguém sobrevive a uma coisa assim. Como não sou místico, aquela afirmação me perturbou.

EP - Sente-se à vontade quando rotulam seus filmes como "cinema político"?
Gitai - Quando se vive em um país como Israel, mesmo que pretenda ignorá-la, a política escorre por baixo da porta do seu quarto. O arrasta, seja qual for seu estado. É a tragédia da região em que vivo. Quando o conflito diminui e as pessoas começam a sarar e a estabelecer novas relações sociais, ressurge a selvageria que as atrai para o redemoinho.

EP - Seu cinema é a outra face do que contam as notícias?
Gitai - Não aceito os discursos politicamente corretos. Vivemos em uma situação de conflito altamente intoxicado pelas imagens dos telejornais. Todos juntos, tanto israelenses como palestinos, aceitamos ser colaboracionistas com a intoxicação que se faz de nossa imagem. Caímos em uma armadilha e damos carniça para alimentar os telejornais universais da noite, que nos consideram uma novela digna de ser vista de vez em quando. Cada um de nós utiliza suas feridas para obter vantagens políticas, sem entender que somos todos perdedores.

EP - Não resta sequer a esperança?
Gitai - Ao refletir sobre isso, penso em minha mãe, que nasceu em Israel quando ainda era simplesmente palestina. Tinha raízes dos judeus da Rússia. Casou-se com meu futuro pai nos anos 1930 e passaram a lua-de-mel no Líbano. Quando eu era pequeno, as fronteiras já estavam fechadas e cruzá-las me parecia algo extremamente perigoso. Mas em cima da mesa na qual almoçávamos minha mãe sempre punha umas estranhas passagens de trem com o trajeto Haifa-Beirute, os da sua lua-de-mel. Parecia-me muito preocupante que algum dia tivesse havido essa possibilidade de viajar em paz. Com esse gesto, minha mãe queria nos dizer que se aquele trem havia existido no passado poderia voltar a existir. Em Israel não devemos perder a esperança.

EP - Como decide se uma história deve ser um filme de ficção ou um documentário?
Gitai -
Por razões éticas. Quando rodei "Terra Prometida", fiz um acompanhamento do tráfico de mulheres do Leste Europeu para o Oriente Médio para exercer a prostituição. Quando se trata de explorar essas mulheres, não há problemas. Os mafiosos israelenses e palestinos se unem pelo bem do negócio. Nesse caso não quis utilizá-las para fazer um exorcismo de seu sofrimento e optei pela ficção. O documentário exige mais pudor que um filme de ficção, porque as pessoas que aparecem nele seguirão suas vidas quando o filme terminar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Extraído de:
El País, em 10/05/2008.

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