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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 10 de maio de 2008

Para analista, fundação do Estado de Israel em 1948 foi tardia

MARIANA CAMPOS


da Folha Online, em 07/05/2008.


O estabelecimento de Israel, ocorrido há 60 anos, foi um ato tardio, na opinião de Peter Demant, especialista em Oriente Médio da USP e autor, entre outras obras, de "O Mundo Muçulmano".


"Foi uma vitória que veio muito tarde. Se o Estado tivesse sido estabelecido antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), poderia, teoricamente, ter salvado a vida das vítimas do Holocausto", afirmou Demant, que é judeu e nasceu na Holanda, mas vive no Brasil desde 1999, em entrevista exclusiva à Folha Online.


Sessenta anos após a criação do Estado de Israel (1948), o conflito israelo-palestino continua a ocupar espaço na mídia internacional como uma das principais questões do Oriente Médio. Para Demant, a questão poderia ser resolvido caso os grupos extremistas contrários à coexistência de dois Estados fossem reprimidos pelos governos.

"O problema é político. A maioria dos israelenses e palestinos quer a solução dos dois Estados e opta pela coexistência. Mas há grupos fanáticos em ambos os lados que não acreditam nisso. Essas minorias violentas, que deveriam ser neutralizadas, seqüestraram o processo político", diz.

Na opinião do especialista, apesar da situação atual parecer um "beco sem saída", há a possibilidade de um fim para o conflito e para a partilha do território em dois Estados independentes, que seria a solução mais adequada para a crise. Para isso, ele diz que é necessário que ambas as lideranças acreditem na proposta e "inspirem confiança mútua".

Apesar do conflito permanente entre árabes e israelenses, Demant afirma que Israel "progrediu bastante" nesses 60 anos. Ele cita o próprio estabelecimento do Estado como uma "das vitórias", e destaca também a criação de uma economia moderna, a continuidade da democracia parlamentar, com amplo respeito aos direitos civis e humanos, --amplo mas não completo, já que tanto a incompleta separação entre Estado e religião quanto a discriminação de fato dos cidadãos israelenses árabes continuam sendo um problema.


Leia abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva dada à Folha Online:

Folha Online - Excluindo o conflito israelo-palestino, o senhor acha que houve algum progresso para o Estado de Israel nesses 60 anos?
Peter Demant - Acho que a história de Israel nesses 60 anos é de muito mais vitórias que derrotas. Existem também grandes problemas, mas há de se destacar, em primeiro lugar, o estabelecimento do Estado de Israel. Foi uma vitória que veio muito tarde. Podemos pensar que, se o Estado fosse estabelecido antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), poderia, teoricamente, ter poupado as vítimas do Holocausto. O Estado foi estabelecido dentro de um contexto de culpa no mundo pós-Holocausto. Infelizmente, as pessoas para as quais este Estado foi projetado não estavam mais vivas. Mesmo assim, milhares de sobreviventes dos campos de concentração encontraram um abrigo em Israel.

Fora isso, Israel também acolheu centenas de milhares de refugiados judeus do mundo muçulmano. Todas essas pessoas foram integradas ao Estado e conseguiram formar uma nova nação. Isso proporcionou a essas pessoas a possibilidade de construir uma nova vida. Os sobreviventes obtiveram a possibilidade de dar um novo sentido as suas vidas.

Isso, por si só, já é uma imensa realização. Acho também que, para os judeus que vivem fora de Israel, a existência do Estado é um elemento importantíssimo para sua identidade coletiva. Haja vista que a maioria dos judeus não é religiosa, o que os une em ampla maioria é uma certa identificação com esse Estado que, apesar de todos os problemas, dá a muitos o sentimento de orgulho e de sentido.

Fora a sua mera existência, também é importante apontar para outros dois fatores positivos: em primeiro lugar, Israel construiu uma economia moderna que proporciona aos seus habitantes um padrão de vida que os coloca em um patamar de primeiro mundo. Não esqueçamos que o ponto de partida foi de extrema pobreza e falta de recurso.

Em segundo lugar, Israel é politicamente uma democracia parlamentar, em geral com amplo respeito aos direitos humanos. Há exceções, no que diz respeito a duas esferas problemáticas: a relação entre Estado e religião, que é até hoje incompleta; e a situação dos palestinos, já que 1 milhão de cidadãos árabes continuam sofrendo de uma discriminação informal e 3 milhões de palestinos na Cisjordânia e em Gaza vivem sob ocupação ou sob um regime de autonomia muito incompleta. Contudo, fora destas duas esferas, o Estado de Israel é moderno e, a grosso modo, respeita os direitos civis e humanos da sua população. Entre os países que chegaram à independência após a Segunda Guerra, na onda de descolonização, Israel é um dos poucos que, desde o começo, manteve sem interrupções o sistema democrático. Isso também, se pensar em todas as tensões extremas que a comunidade vivencia, é uma realização bastante impressionante.

Folha Online - O sr. acredita que, se não tivesse existido o Holocausto na Segunda Guerra Mundial, teria sido mais difícil a criação do Estado de Israel?
Demant - Se milagrosamente tivéssemos a possibilidade de fazer voltar à vida as 6 milhões de vítimas inocentes do Holocausto, mesmo ao preço de não haver a criação do Estado de Israel, obviamente eu seria a favor desta troca. Mas, infelizmente, esta é uma hipótese impossível. Sem o Holocausto, milhões de judeus na Europa ocidental e central estariam, ainda em 1945, em situação de perigo. Eles teriam feito uma pressão internacional muito mais forte para alguma solução.

Outros cenários poderiam ter se realizado, porque nem todos os judeus foram sionistas. Por exemplo, alguma solução progressista nos Estados europeus onde os judeus moravam antes da Segunda Guerra Mundial, ou alguma migração para outros países --além da migração para um então hipotético Estado de Israel.

Folha Online - Sobre o conflito israelo-palestino, o sr. vê a possibilidade de um fim?
Demant - Há algumas possibilidades de solução. Enxergo esse conflito como uma disputa de duas nações por um pedaço de terra. Não o considero religioso, nem de classe ou econômico, mas nacional. Uma "solução" inumana, que colocaria fim ao conflito, é que uma população seja exilada ou aniquilada por outra população. Obviamente, isto é moralmente inaceitável. Uma solução humana não é a vitória completa de um e a derrota e o desaparecimento do outro. Temos de pensar em uma solução de meio-termo e de coexistência: a solução de dois Estados.

Lembro que esta idéia é hoje aceita tanto por Israel quanto pela OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Infelizmente, o programa do Hamas (grupo extremista islâmico), que governa a faixa de Gaza, chama abertamente pela destruição do Estado de Israel --assim como Hizbollah no Líbano e o governo iraniano, entre outros. O programa do Hamas não é só anti-sionista, mas anti-semita. Isso é, para mim, inaceitável.

Contudo, no Oriente Médio, nada é imutável, apesar das aparências. Uma vez que Hamas e Israel chegassem a negociar, isto já implicaria em um reconhecimento. A lógica do diálogo empurraria para posições menos extremistas. O mesmo rio foi no passado atravessado por [Iasser] Arafat e [Ytzak] Rabin...

Se pensarmos uma forma de solução de meio-termo, é teoricamente possível pensar em dois modelos: um é o Estado conjunto para israelenses e palestinos, ou seja, o projeto binacional, e o outro é a partilha do território em dois Estados. A primeira solução é mais idealista, mas utópica e inviável, porque não há possibilidade de conviverem duas populações que se detestam mutuamente e que têm uma longa pré-história de derramamento de sangue. Compartilhar um Estado é possível, no melhor dos casos, entre populações que compartilham valores, sistemas culturais, sociais, políticos e que não se detestam mutuamente.

A distância entre israelenses judeus e palestinos árabes é enorme: a religião, a língua, história e costumes, prioridades políticas, memórias de inimizade incessante --quase tudo os separa. Pontes poderiam ser construídas a partir de uma paz que dá a cada população sua segurança, dignidade e identidade distintas. Um Estado binacional não pode ser solução, ao menos agora.

Portanto, só nos resta a partilha em dois Estados independentes. Há 60 anos, a ONU (Organização das Nações Unidas) chegou exatamente à mesma conclusão. Na época, o Reino Unido estava liquidando seu império colonial após a Segunda Guerra Mundial, do qual o mandato da Palestina fazia parte. A ONU estudou e chegou à conclusão que a única solução era dividir o território em duas partes. Uma parte seria um Estado para os judeus e outro para os árabes-palestinos. O lado sionista judeu aceitou a partilha, enquanto o árabe rejeitou. Como resultado, não temos um Estado palestino. A solução deve ser necessariamente uma em que o Estado de Israel continue existindo, mas daria espaço para um Estado palestino.

Infelizmente, o aniversário de 60 anos de Israel é muito mais trágico para os palestinos. É o aniversário da "nakba", a catástrofe. Com o estabelecimento do Estado de Israel surgiu o problema que os palestinos perderam seus lugares. Cerca de 700 mil palestinos se tornaram refugiados. Uma parte simplesmente fugiu, outra foi expulsa do Estado de Israel. A questão dos refugiados é a raiz do problema de hoje. A solução incluiria o estabelecimento deste Estado palestino, postergado, no que hoje é Cisjordânia e faixa de Gaza. Seria independente, mas conviveria em paz e esperadamente em cooperação com seu vizinho judeu.

Folha Online - A grande questão seria Jerusalém?
Demant - É uma grande questão, mas não a única. Temos quatro grandes questões. A primeira é onde seriam as fronteiras entre estes Estados; o segundo é Jerusalém; o terceiro seriam os assentamentos israelenses nos territórios palestinos; e o quarto problema, os refugiados palestinos originários do que hoje é Israel. Existem soluções viáveis para todos eles. O problema das fronteiras é relativamente o mais simples, pois elas seguiriam essencialmente as linhas do armistício entre Israel e Jordânia de 1949. Isso implicaria em uma retirada israelense da maior parte da Cisjordânia (Gaza já foi entregue). O problema, no entanto, é que há entre 200 mil e 300 mil judeus morando em assentamentos na Cisjordânia. Uma solução seria desmantelar a maioria dos assentamentos menores e anexar a Israel os assentamentos maiores e mais populosos, dando em troca aos palestinos uma parcela do território de Israel. Tudo muito complicado, mas com boa vontade, dá para resolver.

Folha Online - Não daria pra ser feito como foi programado em 1947 pela ONU?
Demant - Não exatamente. Já na Guerra da Independência, em 1948, Israel conquistou 20% a mais de território. Ao menos os países que assinaram a paz com Israel, que são Egito e Jordânia, aceitam isso. A Liga Árabe, a OLP e os árabes que se conciliaram com a existência de Israel exigem a retirada israelense até as linhas de armistício de 1949.

Dificilmente Israel ofereceria mais... Com alguma boa vontade é também possível reabilitar os refugiados palestinos de 1948 e seus descendentes, hoje dispersados em todo o mundo árabe e afora. Quem optar para isso, poderia ser reassentado dentro do Estado palestino. Israel, que é co-responsável pela tragédia palestina, deveria ajudar materialmente e também aceitar o retorno de um número limitado. Mas, a maioria dos refugiados sem dúvida preferirá ficar onde está, como na Jordânia. Amã é hoje a maior cidade palestina.

A mesma necessidade de boa vontade vale para uma solução da questão de Jerusalém. Há uma série de modelos que poderiam ser aplicados. Jerusalém consiste num mosaico de etnias. Há bairros com população judaica e outros com população árabe-palestina. O mais lógico é que Israel obtivesse a soberania sobre os bairros judaicos e os palestinos obtivessem a soberania sobre os bairros árabes. Jerusalém ocidental continuaria capital de Israel, Jerusalém oriental será capital da Palestina.

Essa é a solução mais viável. Mas a cidade também precisa de cooperação. Ambas as comunidades colaborariam nas questões práticas, por exemplo, serviços comuns como bombeiros, ônibus, coleta de lixo, planejamento sobre a construção de prédios e supermercados ou preservação de prédios históricos. Tudo o que temos também em São Paulo. Para isso, precisa ser criado algo como um "supermunicípio". Por outro lado, em assuntos culturais e religiosos, ambas as comunidades teriam autonomia. A combinação de autonomia cultural e cooperação socioeconômica funciona em cidades multiculturais tais como Bruxelas, por que não poderia funcionar em Jerusalém?

É preciso inventar arranjos criativos sobre a Cidade Velha, com seus lugares sagrados para as três grandes religiões monoteístas: quem vai ter o controle sobre a Esplanada das Mesquitas, Muro das Lamentações?

O conflito é político e passível de solução. A maioria dos israelenses e dos palestinos aceita a solução dos dois Estados e opta pela coexistência. O obstáculo são os grupos fanáticos em ambos os lados que rejeitam a partilha, que têm uma visão fundamentalista religiosa. Tal visão coloca o controle, a soberania e a possessão totalmente a seu próprio lado, e denega os direitos do outro lado. Hoje são particularmente os movimentos islâmicos palestinos que usam a violência para prevenir uma situação de pacífica coexistência, mas o potencial de violência existe também entre colonos judeus extremistas e seus simpatizantes. O assassino de Rabin, que abrira negociações de paz com Arafat, integrou aquela ideologia.

Para retomar as negociações sérias, interrompidas com o fracasso de Camp David em 2000, você deveria neutralizar essas minorias violentas. Uma solução do conflito não é utopia, mas antes as lideranças israelense e palestina devem confrontar o problema político. Não pode haver soluções até que se tenha, em ambos os lados, um governo que quer promover uma coexistência de dois Estados. Essa situação não existe hoje no lado palestino, ao menos em Gaza, que esta sob domínio do Hamas. Além do mais, é também preciso, em ambos os lados, um governo que saiba reprimir seus próprios extremistas: tanto Israel quanto os palestinos carecem de força de vontade necessária para isso. Finalmente, é necessário também governos que inspirem um mínimo de confiança na outra população, no adversário.

Folha Online - E também na comunidade internacional, não?
Demant - Sim, mas uma vez que ambos os lados negociem, a comunidade internacional diria: "Ok, o que eles decidirem, vamos aceitar". Mas, o caminho é ainda longo. A médio prazo sou pessimista. Porém, uma vez que o processo político seja retomado de verdade, haverá lugar para esperança.

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