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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 21 de junho de 2008

Quando o futebol, a política e os conflitos se misturam em Israel

David Goldblatt*

Prospect Magazine, em 21/06/2008.


O futebol chegou tarde a Jerusalém. Os judeus europeus o jogavam na planície costeira antes de 1917, mas nem as pequenas comunidades judaicas do oeste de Jerusalém e nem seus vizinhos árabes em Al Quds se interessavam pela bola. O esporte chegou com o exército britânico e logo se envolveu nos conflitos amargos da cidade.


Em 1929, um menino judeu chutou uma bola em um jardim árabe. Na briga que se seguiu, o menino foi morto e seu funeral foi o estopim para grandes tumultos. Aparentemente inabalados pela capacidade do esporte de gerar conflito, os judeus de Jerusalém assumiram a organização do futebol no início dos anos 30, e as equipes da cidade se dividiram segundo as mesmas linhas políticas que caracterizavam outros aspectos do movimento sionista: o Hapoel na esquerda, o Maccabi no centro, e o Beitar na direita.


As amargas divisões locais de Jerusalém -entre judeus asquenazes e sefarditas, o Partido Trabalhista e o Harut (o antecessor do Likud), o establishment e os excluídos- se desenrolavam nas divisões inferiores entre o Hapoel e o Beitar. Uma carteirinha do Hapoel era a chave para obter empregos e acesso aos serviços públicos, mas era possível encontrar vários detentores de carteirinhas do Hapoel passando seu fim de semana nas arquibancadas do Beitar. Havia árabes ali também, algo impossível de imaginar atualmente.


O destino do Beitar, como o de toda Jerusalém, mudou com a guerra dos seis dias de 1967. Os israelenses tomaram todo o leste de Jerusalém e expandiram as fronteiras municipais até a Cisjordânia. De uma cidade provincial, Jerusalém assumiu o manto de "capital eterna" de Israel. Na temporada seguinte o Beitar chegou à primeira divisão pela primeira vez. Passada outra década, o Beitar estava estabelecido no topo, enquanto o Likud chegava ao poder sob Menachem Begin, um ex-chefe do Irgun.


As cidadelas do futebol e do establishment político foram rompidas, e o Beitar, apesar de toda sua marginalidade autodeclarada, se tornou um time popular. Membros dos gabinetes do Likud, de Benjamin Netanyahu a Ehud Olmert, podiam ser vistos nas arquibancadas. O comboio amarelo de carros e ônibus percorria a via estreita ao longo do corredor de Jerusalém em dias de partida, enquanto torcedores vinham de todo o país.


Quarenta anos depois da guerra dos seis dias, Jerusalém e seu futebol se transformaram. Sob o prefeito Teddy Kollek, o Partido Trabalhista manteve no poder municipal até o início dos anos 90. Mas os filhos e filhas da esquerda já tinham partido em massa, enquanto os eleitores da direita permaneceram, se mudando para as novas áreas dormitórios que a municipalidade estabeleceu nas periferias da cidade. Os ultra-ortodoxos, atualmente com acesso ao Muro das Lamentações, se multiplicaram enormemente. De fato, o número deles e a disciplina de voto são de tal dimensão que nem o Likud e nem o Partido Trabalhista se darão ao trabalho de apresentar um candidato a prefeito em novembro contra o candidato ultra-ortodoxo.


Com a ascensão do Beitar, o Hapoel Jerusalem entrou em declínio, caindo pelas tabelas. O clima nas arquibancadas se tornou tão ruim, e os proprietários tão implacáveis, que no ano passado os remanescentes da esquerda esportiva de Jerusalém tomaram a importante decisão de romper com o Hapoel e formar seu próprio clube. Mais de 3 mil pessoas ingressaram no projeto e, agora, disputando a quarta divisão, o Hapoel Katamon é o último bastião da esquerda secular judaica em Jerusalém.


No anel superior das arquibancadas é possível encontrar o que chamam de Casa dos Lordes -os escreventes, professores e capitalistas de risco. Abaixo ficam seus filhos e seus amigos, os etíopes que o clube tem atraído, os taxistas e suas famílias. Os jogos do Hapoel no Teddy Stadium são os melhor freqüentados das divisões inferiores, sua causa é justa e suas energias são perseverantes, mas eles parecem sitiados na vasta arena de pedra.


Mas, mesmo recentemente, o Beitar nem sempre teve um caminho fácil. Como o Hapoel, o clube teve uma série de donos irracionais que o levaram à beira da falência, e ele teve que contar com suas conexões políticas para socorrê-lo. Desde a assinatura dos acordos de Oslo no início dos anos 90, os torcedores do Beitar se tornaram cada vez mais militantes antiárabes e pró-assentamentos.


Há cinco anos, esta massa fervente de raiva e descontentamento ganhou forma organizada com a criação da torcida La Familia, os ultras que torciam para o Beitar Jerusalem que importaram as técnicas aperfeiçoadas no futebol italiano. Mas o Beitar ainda não conseguia chegar ao topo do futebol israelense. A velha guarda, como o Maccabi Haifa e o Maccabi Tel Aviv, mantiveram sua vantagem, continuando a estimular o senso de marginalidade da torcida do Beitar.

O que finalmente levou o Beitar ao topo do futebol israelense foi a chegada de Arcadi Gaydamak, um bilionário russo-israelense que é dono do time desde 2005. Um homem de muitos passaportes, ele geralmente viaja com seu diplomático angolano. Alegações de lavagem de dinheiro e venda de armas pairam sobre ele na França e em outros lugares. Desde sua chegada a Israel, ele comprou empresas da mídia, de alimentos e supermercados. O Beitar foi uma de suas primeiras aquisições, e após o dinheiro de Gaydamak ter comprado grande parte da seleção nacional e estrangeiros seletos, o Beitar conquistou o campeonato no ano passado.


Não contente em sacudir o futebol israelense, Gaydamak mergulhou a ponta do pé na política do país. Durante a segunda guerra no Líbano em 2006, ele estabeleceu uma cidade de tendas em uma praia do Mediterrâneo para a qual os moradores das cidades de fronteira sob ataque podiam fugir. Ele fez o mesmo em Sderot no sul, quando a cidade passou a sofrer ataques persistentes de foguetes Qassam de Gaza. Então, em meados de 2007, ele criou um partido político, o Justiça Social, e declarou sua intenção de concorrer a prefeito de Jerusalém neste ano e ao Knesset em 2009.


Nós chegamos para conhecer Guy Israeli, o "chefão" do La Familia, no campo de treinamento do Beitar, no sul de Jerusalém. Guy está atrasado, e fomos recebidos em seu lugar por um colega mais jovem, que se esgueirou ao redor, fumou e disparou fogos de artifício em nós. Quando Guy chegou, nós nos sentamos na arquibancada e ele nos contou que iniciou a La Familia para gerar apoio ao Beitar, e que agora ele controla milhares de torcedores por meio de uma pirâmide de subalternos e celulares. A La Familia, ele disse, lhe custou seu casamento. Sua esposa, também membro, no final lhe pediu para escolher -e ele escolheu a La Familia. "Esta é minha família, minha casa, tudo."


"Os jogos de futebol contra Nazaré parecem uma guerra?", eu perguntei.


"O governo espera que o futebol promova a paz. Mas nós não queremos paz. Nós queremos guerra. Há uma semana um árabe matou oito estudantes em um yeshivá. Então nós nos vingaremos. Nós queremos vingança, nós queremos sangue."


"Como terminará?"


"Não é possível obter paz sem guerra. Se você tem um cachorro, você o ama, mas se ele morder você, você bate nele. É o mesmo aqui com os árabes -se ele mata você, você tem que matá-lo. Então eles dizem para você, ok, não faremos mais nada. E então você faz as pazes."


"Você acha que esse dia chegará?"


"Não."

Há outros lados do Beitar. Eu conheci o urbano David Frenkel, um engenheiro de software em uma nova empresa pontocom que era suficientemente obcecado pelo Beitar para segui-lo até as Ilhas Faroë e atravessar a Europa de carro para assistir a 20 minutos de um jogo em Wimbledon. Mas a chegada de Gaydamak e o aumento do racismo acabou com seu fascínio.


E há o gentil Jochi, que vem dos distritos operários de Jerusalém Ocidental e não podia torcer para nenhum outro exceto o Beitar, o motivo para estar tentando contra-atacar: gravando os cantos racistas, os postando na Internet, denunciando os ultras. Mas eu senti que o amor dele está acabando.


Guy Israeli não é o Beitar, e o Beitar não é o futebol israelense, nem um medidor da opinião pública israelense. Mas na ausência de outras vozes na multidão, eu me pergunto se ele está se movendo mais próximo ao centro de gravidade.


*David Goldblatt é o autor de "The Ball is Round: A Global History of Football".


Tradução: George El Khouri Andolfato

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