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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Tirar sapatos para rever idéias e buscar a paz

Tirar sapatos para rever idéias e buscar a paz

Rabino Nilton Bonder lança livro sobre peregrinação que fez pelo Oriente Médio seguindo os passos de Abraão


Rachel Bertol

O Globo, Segundo Caderno, página 2,em 15/10/2008.


Há dois anos, o rabino Nilton Bonder recebeu um convite que não conseguiu recusar, apesar da agenda concorrida, com casamentos e barmitzvás que devia celebrar. Um professor de Harvard, William Ury, chefe do Departamento de Mediação de Conflitos, chamou-o para ser o único rabino da delegação que iria trilhar, pela primeira vez, o Caminho de Abraão, trajeto turístico-religioso de 1.200 quilômetros que busca refazer no Oriente Médio os passos do patriarca das religiões monoteístas.


A experiência, em novembro de 2006, foi tão marcante — e, muitas vezes, difícil — para Bonder que ele resolveu compartilhar em um livro a história dos percalços que encontrou. Em “Tirando os sapatos” (Rocco), que autografa hoje, às 19h30m, na Travessa do Shopping Leblon, ele conta como chegou a sentir medo na peregrinação da Turquia à Cisjordânia — um medo bastante complexo: de renegar seus fundamentos, de se perder, de sucumbir ao ódio ao outro e, sobretudo, ao ódio de si próprio. Como diz no prefácio o jornalista Ali Kamel, ao nos convidar “a tirar os sapatos”, Bonder “acaba por se revelar por inteiro, como que despido de qualquer proteção”. “Tirar os sapatos” foi a metáfora que encontrou para traduzir sua experiência. — Quis usar muito essa idéia do tirar os sapatos justamente como ato de despojamento das certezas. É importante o movimento de sair dos sapatos, sejam eles quais forem: é o movimento de sair da padronização e arejar as idéias pisando em solo vivo, revendo olhares e escutas — afirma.


Obra tem primeira pessoa como fio condutor

O livro intercala dois tipos de relato: o que escreveu de seu punho, com considerações mais subjetivas, e a ágil narrativa da viagem, compilada pela jornalista Tania Menai a partir de entrevista com o rabino. Diferentemente de boa parte dos livros de Bonder, autor de “A alma imoral” (adaptada para o teatro por Clarice Niskier), a nova obra tem como fio condutor a primeira pessoa.


Na viagem, mais do que tolerar, o desafio foi exercer a hospitalidade. “Nenhum viajante pode sobreviver sem hospitalidade. Há vários níveis de hospitalidade, das mais rudimentares às mais calorosas. Porém, sem hospitalidade não há viagem, não há vida. Essa é a grande virtude que Abraão terá que conhecer e cultivar. Ele se faz um mestre da hospitalidade”, escreve. — A própria figura de Abraão é muito bonita, bastante presente naquela região. Inspira algo que é o contrário do que se imaginaria de povos em guerra, em meio à grande instabilidade política: uma hospitalidade enorme, uma coisa que vai ganhando e amolecendo o coração de forma muito humana. Este é o ponto alto: a capacidade de rever conceitos.


O caminho permite enxergar o ser humano na sua humanidade mais intensa. É um caminho de muita esperança. O trajeto — mapeado aos poucos pela ONG Abraham Path Iniciative — começou em Sanliurfa, na Turquia, cidade a 40 quilômetros de Haran, onde Abraão ouviu o chamado de Deus. De lá, o grupo seguiu por cidades da Síria e da Jordânia, passou por Jerusalém e se despediu em Hebron, no túmulo do patriarca. Em Belém, Bonder se sentiu incomodado como muro construído para separar israelenses e palestinos. No entanto, diz que suas críticas não têm teor político: — Eu me dou o direito de criticar porque esta é minha identidade, mas não faço em nenhum momento uma leitura política. Eu me permito, porque isso é tirar os sapatos: as pessoas só vão encontrar a paz se todo mundo tirar os sapatos, se cada um sair dos seus fundamentos e acolher o outro. Faço isso diante da minha cultura, mas não estou avalizando um lado ou outro.


O livro não é uma declaração política, mas o desejo de que as pessoas possam olhar para o lado, e alarguem a possibilidade de tolerância e convivência em busca de paz.



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