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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Guardião dos Manuscritos

Nosso Jornal-Rio, Número 25, Dezembro de 2008, página 4.


O Guardião dos Manuscritos


Sheila Sacks


O ano de 1947 é emblemático para os judeus de todo o mundo pela histórica decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) que, em 29 de novembro, bateu o martelo e se decidiu pela criação do estado de Israel. Mas, por uma incrível coincidência, também foi nessa exata data que teve início uma história que já virou lenda. Em Jerusalém, na noite desse glorioso dia, enquanto o rádio transmitia a empolgante notícia da partilha da Palestina, um professor da Universidade Hebraica examinava em sua casa, perplexo, alguns pergaminhos que obtivera de um antiquário árabe da cidade de Belém.


Chefe do Departamento de Arqueologia da universidade, Eleazar Sukenik (1889-1953) não teve dúvidas de que estava diante de uma das maiores descobertas do século.


Naquele momento, Sukenik resolveu comprar os três manuscritos colocados à venda, aos quais vieram se somar, ao longo do tempo, outras dezenas de pergaminhos descobertos nas cavernas do deserto da Judéia e que ficaram conhecidos como os manuscritos do Mar Morto.


Em seu livro “A Mensagem dos Rolos” (1957), o arqueólogo Yigael Yadin (1917-1984), na época chefe de operações da Haganah (exército clandestino judaico que lutava contra a ocupação britânica) e filho de Sukenik, ressaltou o lado simbólico da descoberta dos primeiros manuscritos, ocorrida simultaneamente à criação do estado de Israel. “É como se os pergaminhos tivessem aguardando nas cavernas durante dois mil anos, desde a destruição da independência de Israel, até que o povo judeu retornasse a sua pátria e reconquistasse sua liberdade”, escreveu.


Sete anos depois, em 1954, coube ao mesmo Yadin – que atingiu a patente de general e foi chefe do estado-maior das Forças de Defesa de Israel, de 1949 a 1952 -, adquirir e trazer para Israel os outros quatro manuscritos daquele primeiro lote obtido pelo seu pai, em uma operação complexa e arrojada tendo como cenário a cidade de Nova York.


ENSINO NAS ESCOLAS

Hoje, toda essa preciosidade arqueológica, cultural e religiosa de valor inestimável, pontuada por mais de meio século de surpreendentes histórias paralelas de risco, persistência e coragem, encontra-se à disposição dos visitantes no Santuário do Livro do Museu de Israel, em Jerusalém. Seu curador e diretor é o rabino Adolfo Daniel Roitman, 51 anos, que desde 1994 tem a grandiosa missão de cuidar desse acervo e que de forma extraordinária vem trabalhando na divulgação do conteúdo dos rolos, principalmente no seu ensino nas escolas. Realizandoexposições e palestras em várias partes do mundo, principalmente em universidades, Roitman acredita que os ensinamentos dos manuscritos são fundamentais para a compreensão da civilização ocidental, já que eles representam um momento especial na história da humanidade: a época do encontro entre o Oriente e o Ocidente, entre a cultura grega e a judaica.


Segundo ele, a partir dessa época é que se originaram, de um lado o judaísmo rabínico e do outro o cristianismo que, juntamente com a cultura grega são as três bases de identidade do Ocidente.


De Jerusalém, após regressar do México onde ministrou a aula magna na “Universidad del Claustro “ sobre “Mitos e Realidade dos Rolos do Mar Morto” e participou do “IV Colóquio Internacional Religión y Símbolo”, Roitman fala um pouco mais sobre esse tema apaixonante que atualmente já conta com mais de cem mil títulos, o que bem atesta o crescente interesse que o assunto desperta nas pessoas, independente de suas convicções e crenças. Vale dizer, ainda, que o Santuário do Livro é hoje um dos pontos turísticos mais visitados em Israel.


Por que considera importante ensinar e introduzir no currículo das escolas judaicas e laicas a cultura do Deserto e os Manuscritos do Mar Morto?

- Os manuscritos do Mar Morto são os documentos mais importantes que foram encontrados na terra de Israel e provavelmente também representem o descobrimento arqueológico mais importante do século 20.


Entre 1947 e 1956 foram achados em 11 cavernas na área de Qumran, situada a 25 quilômetros a leste de Jerusalém, aproximadamente mil documentos, incluindo os mais antigos manuscritos bíblicos do mundo. Além disso, entre esses documentos foram encontradas centenas de obras não conhecidas que revelam uma riqueza espiritual judaica inusitada. Entre esses manuscritos estão calendários, peças litúrgicas, textos místicos, obras mágicas e exegéticas que lançam luz sobre a literatura de Israel na época antiga. E daqui, portanto, que toda essa maravilhosa fonte deve ser estudada pelas crianças e jovens com o objetivo de que conheçam o extraordinário legado espiritual do judaísmo antigo e dessa forma consolidem uma imagem mais abrangente, rica e diversificada do pensamento e da literatura do povo judeu, ampliando o seu acervo cultural e equilibrando a imagem rabínica com a realidade que elas conhecem.


Existem escolas secundárias em Israel ou em outros países que já adotaram o estudo dos Manuscritos como uma matéria dentro do currículo escolar?

- Lamentavelmente e apesar de que já se passaram 60 anos dessa descoberta, não se elaborou, ainda, uma estratégia sistemática de estudos desses textos. Contudo, por minha própria iniciativa, desenvolvemos em Israel um programa-piloto para ensinar os manuscritos dentro da grade curricular sobre estudos bíblicos nas escolas secundárias.


Esse programa-piloto foi intitulado “O tema do Deserto na Bíblia e nos Rolos do Mar Morto”, e foi posto em execução com bastante êxito em três colégios secundários de Jerusalém.


Além desse projeto, e neste caso por iniciativa da Universidade Hebraica, há alguns anos foi realizado um curso piloto para alunos do curso secundário da escola Dekel-Vilnay, na cidade de Maale Adumim, a leste de Jerusalém. Contudo, ambos os programas educativos não tiveram prosseguimento, mas tenho esperança que o novo centro de informação e educação do Santuário do Livro, inaugurado em 2007, possa retomar esses projetos e dessa maneira alcançar o público de todas as idades para esse fabuloso mundo dos manuscritos.


Já manteve contato com as comunidades judaicas da América Latina no sentido de tornar possível o estudo dos Manuscritos nas escolas?

- Algum tempo atrás eu participei de um projeto educativo do “Centro Melton para Educação Judaica” da Universidade Hebraica, para o qual preparei um curso à distância, com 12 aulas, sobre o “Judaísmo do Segundo Templo” e do qual também fui o coordenador. O curso foi muito bem recebido pelos participantes, o que tem me motivado a pensar na possibilidade de desenvolver um curso semelhante sobre os rolos do Mar Morto. Cabe destacar que nesse projeto do Centro Melton participaram docentes de várias comunidades da América Latina, como as do México, Colômbia, Venezuela, Argentina e outras, possibilitando a esses educadores conhecerem a riqueza e a potencialidade do tema.


Qual o texto dos rolos que considera fundamental para o favorecimento de um clima de fraternidade entre as religiões?

- Entre os manuscritos bíblicos mais antigos do mundo achados em Qumran foram encontradas 22 cópias do livro bíblico do profeta Isaías. Entre essas cópias, um rolo da caverna 1 tinha sido escrito há 2.100 anos. Esse profeta é o mais citado nos rolos do Mar Morto e, além disso, é o livro profético mais conhecido de todos os que foram descobertos. De acordo com o que se sabe esse profeta está identificado com a mensagem da Paz Universal, portanto, nesse momento eu creio que é o rolo mais adequado para comunicar ou favorecer um clima de tolerância e fraternidade entre as religiões.


Cabe acrescentar, ainda, que esse livro também é o mais citado no Novo Testamento, o que demonstra igualmente que esse profeta era uma figura central para os primeiros cristãos (em suas origens, também judeus).


Escritor e conferencista

Adolfo Roitman nasceu na Argentina e formou-se em Ciências Antropológicas pela Universidade de Buenos Aires. Em 1986 concluiu o rabinato no Seminário Rabínico Latinoamericano, filiado ao “The Jewish Theological Seminary (JTS), de Nova York. Em Israel estudou na Universidade Hebraica de Jerusalém onde se graduou, com louvor, em “Religiões Comparadas” . Na mesma universidade, em 1993, obteve o seu doutorado em “Pensamento Judaico na Antiguidade”. Casado e pai de três filhos, Roitman foi professor no Departamento de Pensamento Judaico na Universidade Hebraica e no “Schechter Institute of Jewish Studies”, de Jerusalém. É professor palestrante em diversas universidades norte-americanas (Hartford, New York, Texas Christian) e membro da “Society of Biblical Literature” e da “World Union of Jewish Studies”. Autor de dezenas de artigos veiculados em jornais e revistas internacionais sobre interpretação bíblica, literatura judaica, pensamento e religião e os pergaminhos do Mar Morto, Roitman também tem vários livros publicados, entre eles, “Os Sectários de Qumram”, “Imaginando o Templo: Pergaminhos Pedras e Símbolos” e “ O Santuário do Livro e o Mistério do Templo”.



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