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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Shavuot (2009)

Shavuot (2009)

29-30 de maio, 2009 – 6-7 de Sivan



Trecho retirado de:

®FERREIRA, Cláudia Andréa Prata. Considerações sobre o caráter diacrônico das festividades religiosas de Pessach e Shavuot. Conferência realizada em 10 de junho de 2008 no evento “X Jornada de Estudos da Antigüidade – Festivais, Cultura e Poder” promovido pelo CEIA (Centro de Estudos Interdisciplinares da Antigüidade) da Universidade Federal Fluminense (UFF), no período de 09 a 13 de junho de 2008. Local: UFF – Campus do Gragoatá, Bloco C – Niterói, RJ.


Considerações sobre o caráter diacrônico das festividades religiosas de Pessach e Shavuot.

Cláudia Andréa Prata Ferreira (FL/UFRJ e PPGHC/UFRJ).


Shavuot: O feriado judaico de Shavuot (“Semanas”) permite pôr em evidência um aspecto dos festivais religiosos que, freqüentemente, não recebe muito foco: esses eventos são, ao longo do tempo, ressignificados. E a cada vez que ocorre uma substituição de significado, o grupo que logrou estabelecer a nova versão do evento trata logo de espessar esse conteúdo, para consolidá-lo e obter a adesão do povo. Esse esforço de espessamento consiste em desenvolver rituais paralelos, costumes e tradições de alguma forma conectados com aquilo que passou a ser o novo significado, ou o significado principal do festival.[1]


Caráter agrícola de Shavuot: Shavuot é visto como o feriado que lembra o dia em que Deus deu ao povo judeu a Torá (Pentateuco), logo após a descida de Moisés do Monte Sinai. Contudo, na Torá não há referências que o feriado de Shavuot é de qualquer maneira relacionado com Matan Torá, a outorga da Torá. Na Bíblia, Shavuot é estritamente um festival agrícola, que marcava a transição entre a colheita de cevada - que era trazida ao sacerdote no Templo de Jerusalém em 16 de Nisan (Pessach cai em 14 de Nisan) - e o começo da época de amadurecimento do trigo, que começava na primeira semana do mês de Sivan.[2]


A Torá se refere a Shavuot por várias expressões: 1) como Chag haKatzir, a festa da colheita (Êx. 23,14-19); 2) como Chag haShavuot, o festival das semanas (Nm. 28,26); e 3) como Iom haBikurim, o dia dos primeiros frutos, das primícias, quando os lavradores traziam seus produtos ao Templo, como oferenda (Lv 23,9-22). Portanto, sempre significados agrícolas.


Caráter religioso de Shavuot: A festividade de Shavuot foi ressignificada após e em conseqüência da destruição do Segundo Tempo (ano 70 E.C.). Ocorreu uma transformação notável no caráter do festival. Com base no versículo "No terceiro mês de saírem os filhos de Israel da terra do Egito, neste dia chegaram ao deserto do Sinai" (Ex 19,1), o festival tornou-se o aniversário da outorga da Torá (zman matan torateinu, "o tempo da doação de nossa Torá“). A festividade perdeu seu caráter primariamente agrícola e de festa de peregrinação ao Templo para receber um novo significado, uma nova dimensão, a dimensão espiritual.


... a transformação estaria em acordo com um processo observável na Bíblia, pelo qual as antigas festas agrícolas foram convertidas em festivais que marcavam o aniversário de eventos históricos significativos na vida do povo. Um esforço sistemático de revisão de eventos arcaicos, vistos como manifestações de comportamentos mítico-participativos, e sua retradução em termos racionais-autônomos, espiritualizados. Tanto Pessach quanto Sucot são ligados ao Êxodo; era então natural ligar Shavuot com esse evento. (KIRSCHBAUM, S. /2003/)


Como observa Kirschbaum (2003), o espessamento do novo significado da festividade de Shavuot foi intenso, para compensar a inexistência de cerimônias bíblicas conectadas com a outorga da Torá: a introdução do tikun leil Shavuot [3] e a leitura do livro de Rute[4].


Retorno ao caráter agrícola no Israel moderno[5]: No Estado de Israel Moderno foram introduzidos os “Festivais dos Kibutzim” (fazendas agrícolas coletivas), celebrações originadas nas décadas de 1920 e 1930 com a intenção de restaurar o caráter “bíblico” dos feriados judaicos, especialmente o caráter agrícola. Para a ideologia sionista então dominante era fundamental “construir a nação e reconstruir o homem”, esse homem novo deveria ser a negação do “judeu de gueto”. O novo homem desse Estado de Israel Moderno retornava simbolicamente ao seu passado bíblico, como se essa fosse uma “Idade de Ouro”.


Ao longo do tempo, no apogeu da presença do kibutz e da visão de mundo sionista na vida israelense, esses festivais “bíblicos” adquiriram uma tradição própria, já que as gerações de crianças nascidas nos kibutzim cresceram celebrando-os. Os israelenses, em especial os colonos dos Kibutzim perceberam a necessidade de ocasiões festivas, tanto como experiência educacional para as crianças quanto para amenizar a monotonia da vida diária. Dessa forma, os festivais judaicos tradicionais, da época do Templo, serviram assim como base para uma restauração enriquecida por fontes bíblicas e mishnaicas. Nessa perspectiva, Shavuot recupera o seu caráter de festividade agrícola anterior a destruição do Templo (uma nova ressignificação): em Shavuot as sete espécies mencionadas na Bíblia (trigo, cevada, vinha, romãs, oliveiras, figueiras e mel) eram (e talvez ainda sejam, em alguns kibutzim) representadas graficamente e por meio de música e dança. As crianças participavam de uma procissão na qual eram carregados produtos agrícolas, e eram feitas doações para o Fundo Nacional Judaico de Aquisição de Terras.


Shavuot pós-sionista [6]: Kirschbaum observa que o processo de ressignificação de Shavuot não chegou ao seu fim com o êxito do movimento sionista em estabelecer o Estado de Israel Moderno. Para os judeus religiosos (ou judeus praticantes, observantes), Shavuot continua a ser praticado como foi estabelecido pelos rabinos desde a queda do Templo: a sua dimensão espiritual e de outorga da Torá. Contudo, na sociedade israelense, a festividade de Shavuot perdeu seu significado religioso entre os seculares (judeus não religiosos ou judeus laicos) e seu caráter agrícola para o movimento dos trabalhadores e dos kibutzim. A festividade de Shavuot recebeu do público secular um novo significado, que não está relacionado com compras, comida ou diversão – mas sim com estudos: de chag habikurim (primícias) passou a ser chag hatikunim (consertar, construir). Assim, o tikun leil shavuot dos judeus praticantes foi amplamente adotado pelos israelenses seculares, que lotam teatros, centros comunitários e até casas particulares. Mas devidamente transformado. Mais uma vez, ressignificado. Para israelenses e para as diversas comunidades judaicas no exterior Shavuot é uma festividade constantemente ressignificada: seu caráter agrícola perdura pelas passagens bíblicas, por certos costumes de consumir determinados alimentos citados na Bíblia, pela leitura do Livro de Rute e seu caráter espiritual igualmente perdura pela tradição rabínica após a destruição do Templo.



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[1] No caso de Shavuot a ressignificação não é apenas a apropriação de uma festa de origem cananéia com outra leitura dentro do grupo judaico e posteriormente, outra ressignificação pelo grupo cristão: Shavuot perpassa períodos da história judaica com transformações de significados e chega aos dias de hoje com significados distintos para o grupo judaico e mesmo para a sociedade israelense.

[2] A festividade de Shavuot é o segundo dos shalosh regalim, os três festivais de peregrinação (Pessach, Shavuot e Sucot), datas máximas do calendário judaico bíblico, quando os judeus (de Israel e do exterior) convergiam para Jerusalém, para celebrar e trazer as oferendas ao Templo.

[3] De acordo com o Midrash, na noite anterior à entrega da Torá no Monte Sinai, os israelitas adormeceram e tiveram que ser acordados por Moisés com trovões e relâmpagos. Para compensar o desrespeito, indiferença e insensibilidade dos “nossos” antepassados, para reparar aquela afronta a Deus, passamos a noite em claro, estudando, demonstrando assim que estamos plenamente conscientes da importância do evento e aguardamos com grande expectativa a Revelação. O costume tem o nome de tikun leil Shavuot, literalmente "o aprimoramento da noite de Shavuot". Os mais observantes passam a noite inteira estudando trechos dos livros sagrados - Bíblia, Mishná, Talmud, Zohar - lendo poemas litúrgicos e recitando orações. Nas comunidades mais liberais, realiza-se um Lernen de Shavuot, uma sessão de estudos ou uma discussão em grupo sobre um tema judaico de interesse geral.

[4] Algumas razões para a leitura do livro de Rute: 1) O Livro de Rute descreve detalhadamente a beleza da época da colheita, que coincide com Shavuot – resgate de seu caráter agrícola. Os judeus podem estar espalhados em várias comunidades pelo mundo, mas a liturgia, as festas judaicas e a leitura do livro de Rute fortalecem os laços que os ligam a e3ste terra especial. 2) No Livro de Rute alguns importantes conceitos são relembrados tais como as leis que tratam de questões sociais que se referem ao pobre, ao estrangeiro, aos órfãos e viúvas, trabalhadores, atitudes de tolerância e benevolência (Lv 19,9-10; 23,22 e Dt 24,20-22). 3) A experiência de Rute, uma mulher moabita que se converteu ao Judaísmo, se assemelha de certa forma à experiência dos israelitas, que se "converteram" plenamente à fé judaica ao receberem a Torá em Shavuot. Assim como a conversão de Rute foi acompanhada de dificuldades e privações, assim também o conhecimento dos mandamentos só se adquire com dedicação e perseverança. A história comovente da lealdade, da devoção, do amor de Rute ao seu povo é um exemplo e uma fonte de inspiração para todos os judeus na ocasião em que é celebrado o aniversário da entrega da Torá. 4) Uma recordação interessante: é da casa de David que sairá o Messias, o Redentor de Israel. No período do Talmud já estava consolidado no judaísmo, a idéia de um Messias descendente de David. O livro de Rute cita explicitamente ao final, David como descendente de Rute. A Tradição Judaica resgata uma dimensão espiritual com o livro de Rute: Rute gera um filho, que recebeu o nome de Obede. Obede veio a ser o pai do rei David, logo será de sua descendência que sairá o Messias de Israel. Dessa forma, Rute é bisavó do rei David. O texto retorna ainda mais ao passado, até Farés, filho de Tamar, uma cananéia, e Judá. O Livro de Rute ao final coloca não apenas uma mulher pagã, mas duas, como ancestrais do rei David. É curioso observar que do ponto de vista bíblico, o genitor mais importante era o pai (e não a mãe, a mulher). Em algum momento do século II (ou até antes), os rabinos mudaram este regra, definindo a mãe como principal genitora na definição da identidade (judaica). Quando os rabinos do período talmúdico incluem o livro de Rute no cânone judaico e a louvam como a prosélita ideal, eles afirmam que a genética não é o fator primordial no judaísmo, mas sim a crença e a prática dos mandamentos. Na Tradição Cristã, o Messias também sairá da Casa de David; Jesus é descendente da Casa de David. Em Mateus 1,1-21 narra a genealogia desde Abraão até o nascimento de Jesus e fica claro que José “pai de Jesus” é descendente da Casa de David. A tradição cristã recebe uma leitura da tradição judaica e ressignifica-a para sua perspectiva.

[5] Adaptado de KIRSCHBAUM, S. /2003/.

[6] Adaptado de KIRSCHBAUM, S. /2003/.




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