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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ahmadinejad e os direitos humanos


Os artigos sobre Israel sempre atualizados você encontra aqui.



Destaque

Zenit (23/00/2009)


O Globo (23/11/2009)


Página 7 - Ahmadinejad e os direitos humanos

DENIS LERRER ROSENFIELD


A diplo-MÁ-cia brasileira segue o seu curso acelerado em direção ao não reconhecimento dos direitos humanos, embora, às vezes, se compraza em dizer que faz precisamente o contrário. A visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, é mais um exemplo da omissão diplomática que beira a hipocrisia. Ela é posterior, por exemplo, ao constrangedor silêncio em relação a Darfour, oeste do Sudão, onde tribos negras, não muçulmanas, são massacradas por um governo islâmico radical, genocida.


Trata-se de um genocídio em pleno século XXI, com o qual o governo não deixa de compactuar, também em nome de conversas de “bastidores”, supostamente mais eficazes. Os mortos que o digam! Enquanto isto os assassinatos em massa prosseguem, com mais de 200.000 pessoas eliminadas, além daquelas que são mutiladas por toda a vida.


Na comemoração do Dia da Consciência Negra, esta poderia ter sido uma bandeira que deveria ser levantada com força, em nome da condenação mais enérgica do extermínio dessas tribos negras africanas.

A vinda de Ahmadinejad se faz, precisamente, depois de uma “eleição”, condenada nacional e internacionalmente por ter sido fraudada, inclusive por aiatolás do próprio regime, entre os quais um ex-presidente e um ex-primeiroministro. Mesmo eles se insurgiram contra a guinada cada vez mais totalitária do regime, procurando, assim, distinguir duas formas de islamismo, o radical, de tendências totalitárias, e o que não o é. Foram escorraçados, menosprezados, e alguns de seus aliados e parentes foram torturados e assassinados.

Os clamores foram gerais, com a população ousando ir às ruas para protestar.


E o fizeram com coragem, porque tiveram de se enfrentar com a famigerada Guarda Revolucionária, espécie de SS do governo iraniano. Enquanto isto, o presidente Lula se contentou em dizer que se tratava de um mero jogo de futebol, com os perdedores chiando por sua derrota. É uma afronta aos que, lá, lutam pela democracia, pelas liberdades.


O presidente iraniano tem em seu currículo, que mais se aproxima a uma folha corrida, uma série de declarações e atitudes que bem ilustra sua mentalidade totalitária. Não cessa de declarar a “inexistência do holocausto judeu”, que eliminou 6 milhões de pessoas, apenas por pertencerem a um outro credo religioso.

Prega a eliminação do Estado de Israel, imiscuindo-se diretamente nos conflitos do Oriente Médio, armando e financiando o Hamas e o Hezbollah, que compartilham a mesma ideologia.


Inclusive, o presidente da autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, condena energicamente essa ingerência na Faixa de Gaza. Deve-se, aqui, distinguir a recepção feita ao presidente da Autoridade Palestina, homem de paz e diálogo, que em tudo se distingue do presidente iraniano.


Misturar as duas coisas só pode ser fruto do desconhecimento ou da má-fé, com essa última alternativa sendo a mais provável.


As perseguições feitas pelo governo Ahmadinejad atingem com força a comunidade baha’i, pelo simples fato de se tratar de um credo religioso que diverge da religião oficial. São perseguidos.


O governo teocrático do Irã não suporta a divergência, a oposição, tudo identificando a condutas “desviantes”, que devem ser eliminadas em nome da “saúde”, da “pureza” política, de seu regime. Comportamentos “desviantes” são também aqueles dos homossexuais, objeto de condenações e perseguições, que bem revelam a natureza totalitária do regime dos aiatolás, avesso à tolerância religiosa, moral e política. As mulheres, igualmente, são consideradas como seres inferiores, que não podem dispor da sua capacidade de livre escolha, devendo se submeter a líderes religiosos que impõem seus códigos de conduta. Deve-se aqui ressaltar que, antes da chegada dos aiatolás ao poder, as mulheres iranianas gozavam de uma liberdade muito maior, a situação atual configurando um claro retrocesso.


Ora, é esse regime que o governo brasileiro toma por digno de acolhimento e, inclusive, considerando tudo aquilo que se passa naquele país como sendo um mero produto de simples disputas internas. O nosso presidente ainda chegou a dizer que o projeto nuclear iraniano era “pacífico”, por acreditar simplesmente na palavra de Ahmadinejad.


Pode-se acreditar na palavra de uma pessoa que nega fatos históricos? Pode-se acreditar na palavra de uma pessoa que frauda as eleições em seu próprio país? Pode-se acreditar na palavra de uma pessoa que elimina a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral? Pode-se acreditar na palavra de uma pessoa que impõe suas decisões por intermédio de sua polícia política, sua SS, sua Guarda Revolucionária? Procurar respaldar a diplo-MÁ-cia brasileira em nome de uma suposta não ingerência em assuntos internos de outro país é mais uma hipocrisia manifesta, pois é isto, precisamente, que o Brasil está fazendo em Honduras, com a embaixada tornada em foco de insurgência bolivariana, também ela de corte totalitário. Contra todos os tratados internacionais, a embaixada concedeu não um “refúgio” de Zelaya, mas lhe ofereceu um quartel-general, a partir do qual as diretrizes de Chávez são propagadas pelo mundo, graças à TeleSur, também lá instalada. A incoerência diplomática é patente, no momento mesmo em que eleições constitucionalmente estipuladas, antes mesmo da deposição de Zelaya, estão para serem realizadas.

A fraude eleitoral no Irã é elogiada, é assunto interno, enquanto as eleições hondurenhas são condenadas.


Parece que a nossa diplo-MÁ-cia tem uma afinidade eletiva com regimes totalitários, algo nunca antes visto em nossa história diplomática. O tal do diálogo Sul/Sul é nada mais do que uma máscara que vela uma opção pelo desrespeito progressivo a escolhas democráticas e ao respeito dos direitos humanos.


Se esse é o preço a ser pago por um assento no Conselho de Segurança da ONU, a pergunta que se impõe é a seguinte: vale o preço?


DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.



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