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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Richard Wagner e Israel, uma relação ainda muito delicada

O Globo, Segundo Caderno (02/11/2010), página 2

Richard Wagner e Israel, uma relação ainda muito delicada

Convite de festival de óperas do compositor alemão a orquestra israelense causa polêmica

Graça Magalhães-Ruether

Correspondente • BERLIM


O projeto de Katharina Wagner, a bisneta de Richard Wagner, de convidar uma orquestra de Israel para se apresentar no Festival de Bayreuth causou uma enorme polêmica e mostrou que nem 65 anos depois do fim da Segunda Guerra e do regime nazista foi possivel a normalização das relações entre a música de Wagner e Israel.


A ideia do convite para a Orquestra de Câmara de Israel se apresentar em Bayreuth, em julho de 2011, partiu na verdade do novo regente da própria orquestra, o judeu austríaco Roberto Paternostro, como uma tentativa de restabelecer a normalidade e separar o musical do ideológico.

— A ideia é construir uma ponte simbólica — afirmou Katharina Wagner, de 32 anos, que assumiu recentemente, junto com a irmã (por parte de pai) Eva Wagner-Pasquier, a chefia do famoso Festival de Bayreuth, que apresenta todos os anos, no verão, as óperas do compositor alemão.


Em reação às críticas em Israel, Katharina Wagner cancelou há duas semanas uma viagem marcada para o país, mas sustenta o convite para a apresentação da orquestra israelense na sua cidade natal.


Barenboim quebrou tabu

Daniel Barenboim, filho de judeus russos nascido na Argentina e portador de passaporte israelense, foi um dos primeiros a quebrar o tabu.


Da mesma forma que pôs a música a serviço da reconciliação entre israelenses e palestinos, Barenboim, da Orquestra da Ópera Estatal de Berlim, regeu em Israel, em 2001, “As Valquírias”, a segunda ópera da tetralogia “O anel”, e a abertura de “Tristão”, desafiando os críticos. Em protesto, 30 pessoas abandonaram o teatro.


Apesar da “compreensão pelos sentimentos dos sobreviventes do Holocausto”, disse Barenboim, trata-se de um direito democrático, pois, como disse, “ninguém pode proibir ninguém de tocar ou de ouvir a música de Wagner”.


Barenboim não nega que Wagner foi antissemita e criou personagens nas suas óperas que lembram isso, como o Beckmesser de “Os mestres cantores de Nuremberg”, mas diz que acusar o compositor — que faleceu em 1883, cinco décadas antes da subida de Hitler ao poder — de ter sido responsável pelo Holocausto seria um exagero.


Além disso, argumenta ainda Barenboim em defesa de Wagner, o antissemitismo não foi sua invenção. Havia uma discriminação forte dos judeus em Berlim no fim do século XIX. Segundo um porta-voz da prefeitura de Bayreuth, a orquestra israelense não vai cancelar a apresentação, apesar das críticas. Sob a regência de Paternostro, ela deverá tocar Wagner, Franz Liszt, Gustav Mahler e Felix Mendelssohn, como parte do programa do jubileu do bicentenário de nascimento de Franz Liszt, o sogro de Wagner, que faleceu em Bayreuth em 1886.


— Para Bayreuth, a apresentação da orquestra israelense será um acontecimento muito especial, de significado histórico. O papel especial de Bayreuth e de Wagner na ideologia da ditadura nazista não foi esquecido e não deve deixar de ser mencionado por ocasião de eventos importantes como esse — disse o prefeito, Michael Hohl.


Por outro lado, lembrou ele, a apresentação da orquestra teria o papel simbólico de mostrar a vitória da “tolerância, da arte e da cultura” sobre a época mais sombria da História da cidade.

Já Katharina, filha de Wolfgang, neto de Wagner, e da sua segunda esposa, Gudrun, também já falecida, afirmou: — É um sinal muito positivo da orquestra estatal de Israel para com a Alemanha e Bayreuth a decisão de tocar a obra do meu bisavô aqui.


Para Paternostro, a apresentação terá efeito conciliador: —É importante porque o programa não só terá músicas de Wagner, mas também de dois compositores judeus, Gustav Mahler e Felix Mendelssohn.


Segundo Paternostro, apesar do passado nazista do Festival de Bayreuth, “a nova geração de músicos sabe diferenciar o significado musical da obra de Wagner”.


Bayreuth, palco para Hitler

Até agora, todas as tentativas de apresentação da música do compositor alemão em Israel terminaram em uma grande polêmica. Em 1981, a abertura de “Tristão e Isolda” pela Orquestra Filarmônica de Israel, sob a regência de Zubin Mehta, provocou protestos e choro de sobreviventes do Holocausto.


Segundo Paternostro, é dificil tocar Wagner para pessoas que ainda têm um número tatuado no braço, marca da sua passagem por um campo de concentração nazista.


O músico de 53 anos lembra que também a sua mãe, judia austríaca, usou uma estrela amarela pregada na roupa, obrigatória a todos os judeus nas regiões ocupadas pelos nazistas — caso de toda a Áustria a partir de 1938.


O Festival de Bayreuth, fundado em 1876 pelo próprio compositor, costuma ser associado ao regime nazista não apenas pelas declarações antissemitas de Wagner. Depois da morte precoce do seu filho, Siegfried Wagner, o festival foi chefiado pela viúva deste, Winifred, que transformou Bayreuth num palco para Hitler.


Seus filhos, Wieland, falecido nos anos 60, e Wolfgang, morto no ano passado, tentaram, sem sucesso, reduzir a imagem negativa deixada pela mãe. Com o convite a Daniel Barenboim, que dos anos 80 aos anos 90 regeu as principais obras do compositor no festival, Wolfgang Wagner tentou uma reaproximação com os judeus.


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