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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 27 de janeiro de 2008

Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto (Cláudio Lottenberg)

No dia 25 de janeiro de 2008, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os governadores Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, e Jacques Wagner, da Bahia, secretários de Estado, Clara Ant, assessora especial da Presidência, a embaixadora de Israel no Brasil Tzipora Rimon, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil Clifford Sobel, os vice-presidentes da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) Cláudio Lottenberg e Osias Wurman, Sergio Niskier - presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ) e cônsules de diversos países, rabinos e várias lideranças participaram da cerimônia que celebrou o Dia Internacional de Lembrança das Vítimas do Holocausto, no Palácio Itamaraty, Rio de Janeiro, organizada pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil e a FIERJ.

DISCURSO DE CLAUDIO LUIZ LOTTENBERG NO DIA INTERNACIONAL DE LEMBRANÇA DAS VÍTIMAS DO HOLOCAUSTO

Para nós que vivemos em uma terra abençoada como o Brasil, sob a liderança de pessoas que respeitam a diversidade e com real interesse na edificação de um mundo com convivência pacífica, difícil acreditar naquilo que a história pôde registrar. Na tentativa de aniquilar, uma população indefesa com o objetivo de matar o maior número de judeus senão todos na Europa e outros continentes, ou seja, o "holocausto", iniciou-se na última semana de 1941, horas após a invasão alemã na extinta União Soviética. Começava um verdadeiro genocídio de cidadãos de vários paises de fé judaica e outros, que se estendeu por quatro anos, nos quais milhares de judeus foram assassinados diariamente pelo exército alemão e seus nefastos colaboradores como croatas e ucranianos, entre outros. E é incrível, meus senhores, que somente agora que a Alemanha nos permita observar arquivos e testemunhos de fatos que alguns supostos líderes da sociedade contemporânea desejam negar.

E é sobre este cenário nebuloso que desejo falar. O Holocausto não nasceu abruptamente. Passada a primeira guerra mundial, a Alemanha volta a apresentar crises de desemprego e inflação. O suposto líder do movimento nazista começa sua manifestação com menos de uma dezena de pessoas e encontra solo fértil para explicar as razões desta crise, como sendo a presença dos judeus que atuavam de maneira muito construtiva na sociedade alemã. Portanto, senhor presidente, o anti-semitismo em particular e as discriminações, nem sempre nascem de forma transparente, pois tenho absoluta convicção de que ninguém em 1925, logo após o “Acordo de Locarno”, que previa um amplo entendimento no continente europeu, pudesse ao mesmo tempo imaginar estar nascendo a semente da venenosa capacidade de convocação de um homem responsável pela morte de milhares de vidas humanas.

Esquecer o passado pode aos olhos mais inocentes significar olhar para frente como que ignorando a voz da verdade. Para aqueles que tão bem conhecem a história, isto mais significa um oportunismo de no mínimo negligenciar e adulterar os fatos fartamente documentados. Menosprezar e tratar com indiferença a diversidade humana com o exagero do genocídio é não menos desprezível que discriminar. Chegar-se ao absurdo da eugenia, representa o exagero da prepotência, da injustificável auto-suficiência e do desprezo pelo valor humano daquele que diverge de cada um de nós. O cenário maniqueísta, desenhado pelos oportunistas, predispõe a situações que em mãos de extremistas fanáticos podem ainda hoje causar danos irreparáveis a história da humanidade.

Àqueles que desejam enterrar o passado, desprezando seu conhecimento, são justamente os maiores interessados em fazer com que a história se repita. Nós que aqui vivemos sob a luz da justiça, da solidariedade e do respeito, não podemos aceitar que a visão de alguns mal intencionados se aproprie da história, ignorando-a com o sentido único de obter licença para repetir atos cruéis do passado. Os judeus que aqui alcançaram viver encontraram um refúgio seguro e recompuseram suas vidas, educando seus filhos, prosperando e participando da construção de nosso Brasil. Duro lembrar-se do holocausto, porém, muito mais duro é pensar que ao esquecê-lo estamos abrindo um espaço para que ele, de forma silenciosa e traiçoeira, inspire alguns a repeti-lo violando todos os princípios da ética humana.

Senhor presidente, o senhor dá sistematicamente sinais de respeito à diversidade humana, perseguindo a justiça social e, com nossa participação, inclusive, em iniciativas como Itinga. O judaísmo, presidente Lula, diz que qualquer solicitação que nos é feita pode ser questionada. A única solicitação que jamais pode ser questionada, segundo este mesmo judaísmo, é o da fome. Uma pessoa que nos pede um prato de comida, chega a tal ponto da condição humana que não nos é dado o direito de questionar aquilo que ela nos solicita. Há alguns anos acompanho os seus passos. Conhecemo-nos em Israel, o senhor líder trabalhista e eu um recém médico formado. O senhor tem mente aberta: revê posições, está sempre aberto ao diálogo, comparece aos eventos do Holocausto, abre espaços para a cúpula árabe e, portanto, alguém transparente. Que orgulho poder eu hoje, em nome da comunidade judaica do Brasil, poder chamá-lo em público de amigo LULA. E com tanta sensibilidade, senhor presidente, de sua parte, embora tenha que hoje aqui repetir o que lhe foi dito no ano passado, sinceramente não acredito que exista algo mais verdadeiro, sincero e de amigo para amigo.

Onde estava o senhor na segunda guerra mundial? Onde estava alguém com o seu perfil de luta e respeito a todos, que acredita na diversidade, que não admite as injustiças e que busca a igualdade nas oportunidades. O senhor, presidente, não teria permitido que seis milhões de almas humanas tivessem sido assassinadas. O senhor não se aproveitaria como vários fazem para se promover internacionalmente, com ações questionáveis, mas de verdade iria fazer o que sempre fez, que é a busca permanente da conciliação. Nós judeus queremos reconhecer, não só o presidente Lula, mas acima de tudo, o ser humano que se envolve nas questões internacionais, para que este cenário de indiferença não se estabeleça e o mundo não permaneça novamente calado. Há algumas semanas a Inglaterra suspendia a educação do Holocausto nas escolas, alegando ofender os povos mulçumanos. O mérito do conteúdo, não discutiremos, entretanto, este é mais um dos exemplos aonde o fundamentalismo islâmico procura prevalecer, associando-se ao desejo claro que alguns têm, no sentido de demonstrar que quem sabe um cenário tão nebuloso quanto em 1925 ainda possa existir, criando um pequeno espaço de fácil desenvolvimento para aqueles que defendem a intolerância e o extremismo.

Quiséramos todos poder esquecer, mas, infelizmente, teremos sempre que lembrar. Mais forte que a dor da lembrança para as gerações mais jovens é a dor que se alimenta por atitudes de outros governantes, que não os nossos, que a pretexto de uma falsa ilusão de uma sociedade mais justa têm claro o desejo oculto e determinado de um moderno genocídio que o mundo civilizado não deve sequer permitir pensar. Em nome de nossa comunidade agradeço a presença de todos. Muito obrigado!

Extraído de:
Boletim CONIB
Edição nº 69 - 27/01/2008.

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