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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 21 de junho de 2008

Samuel Rawet: Vida e escrita extremadas

O Globo, Suplemento Prosa e Verso, página 05, em 21/06/2008.

Vida e escrita extremadas
Textos de Rawet mostram a vertigem de um escritor que não temia a loucura
Heliete Vaitsman

Indignado, feroz, dolorido, às vezes delirante — assim Samuel Rawet se expõe nestes “Ensaios reunidos” dos quais é impossível sair incólume, assim como não se sai incólume da obra ficcional do escritor, publicada em 2004 pela mesma Civilização Brasileira. Apesar das teorias que negam à biografia qualquer papel no entendimento do texto, o autor que aqui escancara sua vida, seus desejos e suas frustrações nos dá pistas que, embora não obrigatoriamente verdadeiras, ampliam a fruição da leitura presente ou passada. É com a voragem dos que dispensam rede de proteção e a naturalidade dos eruditos que Rawet cita, com apenas algumas linhas de distância, Heidegger e Jackson do Pandeiro, travestis da Lapa e Martin Buber...

transgressão virar moda
O trauma do estranhamento

(não só da terra natal, mas de si mesmo e da família) não desgruda desse judeu nascido na Polônia, mas sentimentalmente carioca, suburbano criado entre Ramos e Olaria, insone freqüentador das madrugadas do Largo do Machado. Na Europa oriental de onde ele chegou em 1936, aos sete anos, o judeu era o estranho por excelência, mais ameaçador que o inimigo. O escritor escapou do Holocausto ao imigrar, mas não escapou do sentimento de exclusão, constituindose em torno dele como sujeito “maldito” muito antes de a transgressão virar moda.

Incompreendido tanto no mundo de origem, a comunidade judaica provinciana e conservadora, quanto no mundo de destino, machista e preconceituoso, Rawet viveu e escreveu de modo extremado. Sua dor diante da miséria humana não admite ilusões. A Klimontov ancestral que aparece em “Contos do imigrante”, seu livro de estréia, de 1956, já embute os males do mundo. “Ah, as neves da minha infância, ah, as doçuras das varadas que levei porque chutei uma bola na rua.

Foram contar ao velho barbudo (já então havia delatores), e o homem espumou na sala do prédio da sinagoga...” recorda, no ensaio “Devaneios de um solitário aprendiz da ironia”, em que fala da teoria da consciência unificada no mesmo parágrafo em que lembra a humilhação, a euforia e o gozo de saberse homossexual.

O escritor formou-se em engenharia, na tradição dos filhos de imigrantes em busca de ascensão. Brilhante, integrou-se à equipe que construiu Brasília e foi nada menos que o principal calculista do Congresso Nacional, tendo participado de projetos na França e em Israel. Até o dia em que largou tudo. Segundo contou numa entrevista, sua gota d’água foi a visão, no final de uma escadaria da futura capital, de Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Joaquim Cardozo: o outsider de ego fraturado não cabia no quadro de senhores estabelecidos e contentes consigo mesmos.

Rawet não procurou alívio na religião, na psicanálise, ou na ciência. Apreciador de Lima Barreto, Drummond e Antonio Carlos Villaça, que elogia no livro, preferiu escrever sem parar: contos, novelas, artigos para jornais e revistas, poesia, teatro, ensaios e crônicas. No prefácio dos “Ensaios”, organizados cronologicamente por Rosana Kohl Bines e José Leonardo Tonus, estes advertem para a vertigem produzida por um escritor que proclama não temer a loucura e que “à síntese e à lógica privilegia o desconexo, o paradoxo, o não linear”, tornando-se cada vez mais contraditório e até escatológico (o primeiro ensaio, de 1970, é “Homossexualismo: sexualidade e valor”; o último, de 1984, é “Filosofia: nem só de cão vive um lobo”).

Impossibilidade de salvação num mundo sem bondade
À maneira de um Bruno Schulz dilacerado, descrê da possibilidade de salvação num mundo sem bondade. Deus não existia, Freud era uma fraude, escreveu, às vésperas de isolarse em Brasília, onde morreu em 1984. A contundência rawetiana era tamanha que houve quem supusesse, quando publicou (em 1977) o ensaio “Kafka e a mineralidade judaica ou a tonga da mironga do kabuletê”, que ele rompera com o judaísmo.

Rawet jamais se aquietou no espaço do não pertencimento. Desajeitado, como se descreve, pensou que poderia organizar um sistema de mundo e talvez se salvar nele. No final, seu grito sem ressonâncias imediatas produziu cansaço, ressentimento e morte em estado de solidão.

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