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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Israel x Gaza x Oriente Médio (17)....Chuva de foguetes em Israel

O Globo, Mundo, páginas 19 e 20, em 01/01/2009.


Página 19

Chuva de foguetes em Israel

Governo amplia zona de emergência após lançamento de 60 mísseis no sul do país

Renata Malkes Especial para O GLOBO • JERUSALÉM


Depois de rejeitar a iniciativa francesa para um cessar-fogo de 48 horas com o Hamas, Israel viveu ontem um dos piores dias desde o início da ofensiva militar contra a Faixa de Gaza, no sábado. Pelo menos 60 foguetes palestinos foram lançados contra território israelense e o ministro da Defesa, Ehud Barak, aumentou a zona de emergência decretada no sul do país. Os moradores de todos os municípios localizados num raio de até 40 quilômetros da fronteira com Gaza foram instruídos a não sair de casa e a buscar refúgio em abrigos antiaéreos. Do lado palestino, o grupo radical islâmico Hamas anunciou que só haverá trégua se Israel acabar com o bloqueio e reabrir as fronteiras da Faixa de Gaza.


Em suas primeiras declarações públicas para a população de Gaza desde o início do bombardeio israelense, o líder do Hamas na região, Ismail Haniyeh, condicionou o início de uma trégua ao fim dos ataques de Israel.


— Primeiro, a agressão sionista deve terminar sem quaisquer condições. Segundo, o cerco deve ser levantado e todos os postos de controle devem ser abertos, porque o cerco é a fonte de todos os problemas de Gaza. Depois disso será possível negociar todos os temas sem qualquer exceção — disse ele, na TV do Hamas. — A vitória está próxima.


Na cidade israelense de Beersheba, a quinta maior do país, um foguete Grad, de fabricação iraniana, atingiu uma escola. Com as aulas suspensas, não houve feridos, mas 34 pessoas tiveram de ser atendidas em estado de choque. Em Ashkelon, dois israelenses ficaram feridos quando um foguete caiu numa área residencial. A ministra do Exterior, Tzipi Livni, visitou a região e disse que o país não vai permitir que tiranos dominem o Oriente Médio.


— Violência e terror são parte da ideologia do Hamas. Gente como eles não vai controlar o Oriente Médio e, por isso, estamos em combate.


Os últimos meses foram inaceitáveis, e, se pensavam que Israel não reagiria, estavam enganados — afirmou a ministra.


A decisão de manter a ofensiva foi tomada após uma reunião do Gabinete que se arrastou por mais de seis horas e mostrou um governo dividido. Enquanto o ministro da Defesa, Ehud Barak, era a favor de um cessar-fogo, Livni e o primeiro-ministro Ehud Olmert insistiram na continuação da ação militar. Barak solicitou a autorização dos ministros para uma convocação de mais 2.500 reservistas. O pedido foi encaminhado à Comissão de Defesa do Parlamento e em 48 horas pode ser aprovado — o que elevaria para nove mil os reservistas mobilizados para uma possível invasão. Enquanto isso, cresce o número de blindados e soldados estacionados na fronteira entre Israel e Gaza, aguardando o sinal verde para uma ofensiva por terra.


Analistas acreditam que as condições meteorológicas serão um fator decisivo para determinar a entrada das tropas em Gaza. Chove muito na região, o que atrapalharia o desempenho do Exército.


A chuva obrigou ainda a Força Aérea a suspender por algumas horas os ataques a Gaza.


Durante a madrugada, a aviação israelense bombardeou 35 alvos. O escritório de Haniyeh foi destruído e pelo menos três civis morreram numa ambulância. Depois de um dia de relativa tranqüilidade, no início da noite foi a vez de os aviões atacarem uma mesquita. De acordo com os militares, o local vinha sendo usado como depósito de foguetes pelo Hamas.


Mais de 400 palestinos já foram mortos nos ataques

já chega a 400, e pelo menos 1.900 ficaram feridos.


O Comitê Internacional da Cruz Vermelha acusou Israel de violar o direito internacional. Segundo o chefe da missão em Gaza, Pierre Wettach, Israel parece ter se esquecido dos princípios básicos de não bombardear áreas civis.


O governo israelense autorizou a abertura parcial do posto de Karem Shalom para permitir a entrada de 106 caminhões de ajuda humanitária em Gaza. Três crianças palestinas foram levadas para hospitais israelenses. Segundo o médico Ibrahim Abu Ghazala, pelo menos 15% das vítimas dos bombardeios são menores de 18 anos.


No Cairo, a Liga Árabe convocou uma reunião de emergência para discutir a crise. Os chanceleres dos 22 países-membros foram unânimes em condenar as ações israelenses. O secretário-geral da Liga, Amr Moussa, pediu que as facções palestinas voltem a dialogar e pregou a união como única forma de enfrentar Israel. O representante da Arábia Saudita, Saud al-Faiçal, advertiu que o mundo árabe não poderá ajudar os palestinos enquanto persistir a cisão entre os governos do Fatah, na Cisjordânia, e do Hamas, na Faixa de Gaza.


— Esta tragédia não estaria acontecendo se o povo palestino estivesse unido sob um único governo e uma única voz — disse Faiçal.


Poderio do Hamas se aproxima de Tel Aviv

Meio milhão de israelenses já se encontram ao alcance do arsenal do grupo islâmico

Juan Miguel Muñoz Do El País


l Há três anos custava achar no mapa os pequenos kibutz castigados pelos foguetes Qassam. Sderot, com cerca de 20 mil habitantes, era a única população ameaçada que podia ser chamada de cidade.


Não mais de 30 mil israelenses eram dependentes dos sistemas de alerta.


Ashkelon passou a ser alvo há um ano. E, agora, já no terceiro dia da campanha militar israelense contra Gaza ficou claro que o alcance do Hamas foi estendido. Várias cidades que nunca haviam sofrido ataques foram atingidas. Já são mais de meio milhão de pessoas que devem aprender como se proteger dos foguetes, cada dia mais potentes e precisos.


O efeito psicológico, num país que já se sente sempre acossado, é traumático.


— Alcançamos Ashdod, com certeza — comentava um dirigente do Hamas na Cidade de Gaza em setembro.


Os serviços de segurança israelenses estavam cientes. Há alguns meses, o Exército vinha treinando os cidadãos de Ashkelon, Ashdod, Netivot e Kiryat Gat para lidar com bombardeios.


— Estas instruções salvam vidas. Os civis que morreram em Netivot e Ashkelon na segunda poderiam ter sido salvos. Peço aos cidadãos do sul que não entrem num estado de complacência e entendam que estas diretrizes são questão de vida e morte — advertiu o general Yair Golan.


Em Yavneh, 40 quilômetros ao norte de Gaza e a apenas 20 quilômetros de Tel Aviv, ninguém imaginava que um foguete Katiusha teria impacto em sua vida.


Ninguém sabe exatamente a quantidade de foguetes Katiusha com que conta o Hamas.


Os foguetes mais rudimentares são fabricados em Gaza, de forma artesanal.


Mas os Grad e os Katiusha chegariam através dos túneis construídos na fronteira com o Egito. Desde que, em junho de 2007, o movimento fundamentalista se apoderou do território mediterrâneo em sua luta contra o Fatah, houve tempo para o abastecimento.


Mas até que ponto? Esta é uma questão que pode acabar sendo respondida se o conflito se prolongar por muitos dias.


Até agora, as milícias palestinas dispararam cerca de 350 foguetes e morteiros, causando a morte de quatro israelenses. Se houver uma invasão por terra, poderá se comprovar se as granadas e os explosivos colocados pelo Hamas ampliaram seu poder de fogo. Analistas dizem que o subsolo de Gaza estaria forrado de explosivos, sobretudo nas cercanias das fronteiras.


Página 20

Guerra aprofunda divisão e enfraquece Abbas

Reações contraditórias diante do conflito e falta de diálogo com Hamas e Israel levam a isolamento do líder

Renata Malkes Especial para O GLOBO


JERUSALÉM. Apesar de a guerra estar a dezenas de quilômetros da Cisjordânia, é na cidade de Ramallah que se encontra a maior vítima do conflito armado.


O presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, vem irritando o mundo árabe com reações contraditórias à ofensiva israelense na Faixa de Gaza.


Depois de condenar os ataques aéreos de Israel e expressar solidariedade aos 1,5 milhão de moradores de Gaza, o enfraquecido Abbas fez questão de culpar o grupo radical islâmico Hamas pelas mortes e pela destruição, e disse ainda que os ataques poderiam ser evitados caso o grupo tivesse suspendido o lançamento de foguetes contra Israel.


— Ele está acabado politicamente.


Em tempos de crise, com seus compatriotas morrendo, isso era tudo o que a população palestina e o mundo árabe não queriam ouvir de um líder — disse o cientista político Sufian Abu Zaiyda, da Universidade de Bir Zeit. — Abbas está contribuindo para o fortalecimento do Hamas. Mais uma vez, o grupo islâmico ganha a fama de maior inimigo do Estado judeu e, a cada morte, mais uma voz de apoio será ouvida pelo Hamas.


Somente ontem, quinto dia de conflito, Abbas endureceu um pouco o discurso, ameaçando suspender as negociações com Israel. Ele classificou a guerra de “agressão bárbara e criminosa” e acusou Israel de cometer “a mais sangrenta das matanças”.


Depois de dias de silêncio, o presidente dos EUA, George W. Bush, telefonou ontem a Abbas para discutir a situação. De acordo com o porta-voz da Casa Branca Gordon Johndroe, a conversa foi rápida e objetiva.


O premier palestino, Salam Fayyed, agradeceu aos americanos um pacote de ajuda de US$ 85 milhões destinados a um fundo de ajuda aos palestinos das Nações Unidas, e o diálogo foi encerrado com um vago acordo entre os líderes.


— Bush e Abbas concordaram que, caso haja um cessarfogo, ele deve ser totalmente respeitado pelo Hamas — contou o porta-voz.


Analistas acreditam que a falta de medidas no campo diplomático para acabar com a crise em Gaza é apenas o mais recente fracasso de Abbas, conhecido pelos palestinos por seu antigo nome de guerra, Abu Mazen.


Mesmo antes da ofensiva militar israelense, ele já era tido como frágil, pela incapacidade de retomar o diálogo entre o partido governista Fatah e o Hamas, isolando Gaza da Cisjordânia e mergulhando a política palestina numa crise sem precedentes.


Sem diálogo com o Hamas e sem acordo com Israel Segundo a última pesquisa do Centro Palestino de Estatística, apenas 20% dos moradores da Cisjordânia aprovam a administração de Abbas. Outro motivo do descontentamento é a falta de avanços nas negociações de paz com Israel.


— As pessoas esperam uma liderança forte, e não é o que temos aqui. Faltam ação e carisma.

A curto prazo, a popularidade de Abu Mazen vai despencar e, a longo prazo, ele acabará marginalizado — arriscou o exministro do Planejamento da ANP Ghassan Khatib.


O próximo desafio político já está à espreita de Abbas. Em outubro passado, o grupo radical islâmico Hamas assinou uma resolução ressaltando que o mandato do presidente expira em janeiro.


Abbas, no entanto, eleito em 2005 para quatro anos, alega que seu mandato foi prolongado por lei até 2010.


Desunião palestina até no Brasil

Manifestantes ligados ao Fatah e ao Hamas brigam durante protesto contra Israel

Henrique Gomes Batista


BRASÍLIA. A divisão entre palestinos ligados ao Fatah e ao Hamas acabou se refletindo ontem, em manifestação realizada em frente à embaixada de Israel em Brasília.


O protesto que reuniu cerca de 80 pessoas terminou em confusão, com socos, chutes e pontapés.

O motivo da briga foi a divergência sobre o rumo que a carreata, prevista para depois da manifestação, tomaria. O grupo de palestinos de origem egípcia, mais próximo ao Hamas, não aceitou a proposta do grupo de origem libanesa, mais ligado ao Fatah, de que a carreata passasse por outras embaixadas árabes, como a do Egito.


Para alguns, a proposta representaria uma afronta aos egípcios que, segundo eles, defendem a Palestina. O outro grupo afirmava que o Egito vem sendo criticado por algumas instituições pacifistas.

— Mais que o estado de ânimo deste povo, esta confusão demonstra o desespero deles em salvar os que lá (na Faixa de Gaza) estão. Há divisão entre os palestinos e nós sabemos que esta divisão serve aos interesses de Israel e dos EUA, que jogam e apostam nessa divisão — afirmou Acilino Ribeiro, coordenador nacional do Movimento Democracia Direta (MDD).


Novas manifestações estão previstas para ocorrer em favor da Palestina nos próximos dias nas cidades do Rio, São Paulo, Curitiba (PR) e Teresina (PI).


Lula classifica de carnificina os ataques de Israel aos palestinos

Celso Amorim fala com Ban Ki-moon e Condoleezza sobre reunião de cúpula

Luiza Damé* e Eliane Oliveira


I FERNANDO DE NORONHA (PE) e BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou ontem de carnificina os ataques de Israel na Faixa de Gaza. Lula insistiu na realização de um encontro de cúpula do grupo de Annapolis, formado por 48 países. Há cerca de um ano, israelenses e palestinos deram início à negociação de um processo de paz em Annapolis, nos EUA, cujo objetivo era chegar a um acordo já em fevereiro de 2009.


O presidente disse ter proposto ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que falasse com o chanceler da França para impulsionar a retomada da reunião de Annapolis, que deveria ter sido feita na Rússia, mas não ocorreu.


— É preciso fazer, porque não é possível que no século XXI você tenha uma carnificina como essa que está havendo no Oriente Médio — comentou o presidente, que passou a virada do ano na ilha de Fernando de Noronha.


Segundo Lula, a única proposta possível é a paz e, para conseguila, é necessário envolver nas negociações todos os grupos envolvidos no conflito: Autoridade Nacional Palestina (ANP) e Hamas, do lado palestino, e o governo de Israel, incluindo a ala mais radical.


— Se todos os grupos não estiverem presentes, não tem paz.


Brasil quer mandar alimentos e remédios A necessidade de se convocar o mais rapidamente possível uma reunião de cúpula cujo fim seria uma trégua imediata, seguida de um acordo entre israelenses e palestinos, foi discutida em telefonemas de Amorim para a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e o secretáriogeral da ONU, Ban Ki-moon.


A seus interlocutores, o chanceler reiterou o apoio do Brasil à iniciativa e se pôs à disposição para participar do processo de paz. Amorim destacou que é preciso fortalecer a ANP e possibilitar que a ajuda humanitária chegue com mais eficácia à Faixa de Gaza, onde ocorrem os bombardeios israelenses. O secretáriogeral sugeriu ao chanceler brasileiro que se estude a possibilidade de o Brasil colaborar com a ONU no envio de alimentos e remédios.


A pedido da embaixada palestina em Brasília, o governo brasileiro decidiu enviar medicamentos para suprir os centros médicos de Gaza. O Itamaraty informa estar mobilizando, em caráter de urgência, o Grupo Interministerial de Assistência Humanitária Internacional, com o objetivo de atender às solicitações da ANP.


Jornalistas fazem cobertura precária em redações improvisadas em cafés

Cortes de energia e perigo dificultam trabalho, restrito a palestinos


JERUSALÉM. Enquanto os mísseis israelenses explodem nas ruas da Cidade de Gaza, o Café Delice foi transformado em redação.


Nos arredores da Praça alJundi al-Majhoul, o maior centro comercial da região, dezenas de jornalistas palestinos travam uma verdadeira batalha para enviar a tempo notícias, fotos e vídeos da operação militar que vem chocando o mundo. Diante da ameaça de bombardeios, dos freqüentes cortes de energia e da instabilidade das linhas telefônicas, o envio de material do front para centenas de redações mundo afora transformou-se em tarefa quase impossível. Repórteres contam que a cada dia é preciso buscar um bar ou café diferente, onde haja conexão com a internet e um mínimo de segurança.


— Nosso escritório fica no sexto andar de um prédio próximo ao quartel-general do Hamas, que já foi bombardeado.


Há cinco dias não vamos lá. Temos medo de ser o próximo alvo.


A saída é buscar cafés, mas a maioria fechou. Quando encontramos um lugar novo, logo a notícia se espalha e toda a imprensa vem trabalhar no mesmo local, tornando a conexão com a internet ainda mais lenta. As condições estão péssimas — contou o produtor Zouheir alNajjar, da rede de TV France 2.


No edifício Sorouk, onde estão concentradas as redações de TVs e agências de notícias, apenas poucos técnicos de rádio e TV ainda aparecem por lá.


A maioria trabalha na rua, já que os escritórios da imprensa ficam em andares altos, e o pânico dos bombardeios israelenses tomou conta da mídia. O repórter Moen al-Helo, que trabalha para diversos veículos de imprensa do mundo árabe, disse que nunca viu tamanha desordem e confusão, mesmo entre os jornalistas da Faixa de Gaza.


— A mídia sempre se acha imune em tempos de crise, mas desta vez todo cuidado é pouco.


Com a imprensa estrangeira impedida de entrar, temos cerca de 300 palestinos trabalhando.
Alguns sequer são profissionais.


Um boletim que enviaria em 30 minutos hoje leva quase duas horas — disse al-Helo ao GLOBO, por telefone.


Suprema Corte ordena entrada de jornalistas Ontem, a Suprema Corte de Justiça de Israel determinou que o governo israelense permita a entrada de jornalistas estrangeiros na Faixa de Gaza. Em resposta a uma ação movida pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Israel, a Justiça determinou que o Exército permita a entrada de até 12 jornalistas, sempre que o posto de fronteira de Erez seja aberto. O governo ainda não se pronunciou sobre o veredicto.

— A proibição viola a liberdade de expressão e de imprensa.


Países como a Coréia do Norte, Mianmar e o Zimbábue censuram a ação da imprensa em zonas de conflito. Israel é uma democracia e deve permanecer assim até em tempos de guerra — declarou o advogado da associação, Gilad Sher.(R.M.)


Globo online

G1

FSP

CLAUDIA ANTUNES

EDITORA DE MUNDO


Depois de trabalhar 20 anos no Departamento de Estado dos EUA, como negociador do conflito entre israelenses e palestinos, Aaron David Miller acaba de lançar seu quarto livro, "The Much too Promised Land" (a terra muito prometida). Nele, seguindo uma tradição de especialistas que trocam o governo pela academia, Miller faz uma autocrítica do viés pró-Israel de Washington nas negociações.


Mas ele não vê perspectivas de mudança nisso. Hoje no Centro Woodrow Wilson, em Washington, Miller diz, por telefone, que o ataque israelense a Gaza reduziu a "quase zero" as perspectivas de um acordo com os palestinos.


FOLHA - Vários moderados, em Israel e nos EUA, vinham instando Obama a lançar uma ofensiva diplomática para salvar a ideia dos dois Estados. Como o ataque israelense vai afetar as negociações?

MILLER - Vai reduzir uma perspectiva já muito pequena para perto de zero. Eu nunca acreditei, mesmo antes dessa operação, que seria possível ter um acordo entre israelenses e palestinos agora. Mas a ação israelense tornará as coisas mais difíceis. E, mesmo que isso não acontecesse, as três principais razões pelas quais um acordo final entre Israel e os palestinos não é possível agora vão ser agravadas pelo ataque. A primeira é um movimento nacional palestino dividido. Mesmo se o Hamas ficar enfraquecido, isso significará que [o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud] Abbas agora será capaz de impor uma posição negociadora? Duvido. A segunda são os temas da negociação em si, Jerusalém, fronteiras, segurança. Há diferenças enormes entre os dois lados em cada uma dessas questões. A terceira é a própria indecisão de Israel. O país vota em de fevereiro e não há consenso sobre o preço a pagar por um acordo. E aí você tem o comportamento de Israel não relacionado a necessidades de segurança, como a intensificação da colonização [da Cisjordânia], o confisco de terras, a demolição de casas [de palestinos]. Tudo isso continua.


FOLHA - Obama pressionaria Israel a parar com isso?

MILLER - Não, a menos que ele tenha a oportunidade de conseguir alguma coisa. Se ele sentir a perspectiva de um rompimento do impasse, então, como aconteceu nas poucas vezes em que um governo americano foi duro com Israel, ele vai atuar. Mas ele não irá contra Israel por princípio, e vai dar a Israel, no que concerne à segurança, um tremendo raio de ação.


FOLHA - A própria ideia dos dois Estados ameaça morrer..

MILLER - É verdade. Mas nada pode superar os problemas que enfrentamos. Não é possível pacificar o movimento nacional palestino nem convencer os israelenses do preço que terão de pagar. Nem os EUA estão dispostos a ser duros e justos.


FOLHA - Há a possibilidade de os EUA aceitarem um governo palestino que inclua o Hamas?
MILLER -
Teoricamente sim, mas não acredito que um governo Obama fará isso. Os palestinos é que têm de tomar a decisão-chave de adotar uma posição negociadora unificada, dentro do seu movimento nacional. Ninguém fará isso por eles.

FSP online

Aurora

Yahoo Notícias

BBC Brasil

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