Pesquisar este blog

Total de visualizações de página

Perfil

Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

Translate

Seguidores

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Israel x Gaza x Oriente Médio (284) .... O "puzzle" da indecisão israelita

Público (Portugal, 10/02/2009)


O "puzzle" da indecisão israelita

10.02.2009, Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém


Bibi Netanyhau ou Tzipi Livni? Coligação à direita, à esquerda ou de unidade? Avigdor Lieberman, o fenómeno, pode decidir


1. Knesset, o Parlamento

Aqui, a História tem 60 anos e está neste corredor 1949: Haim e Vera Weizmann, casal presidencial, a caminho da primeira sessão do parlamento. 1956: Ben Gurion no restaurante do edifício antigo, com os cabelos brancos sempre em pé. 1957: Ben Gurion levado de maca, depois de um doente mental ter atirado uma granada para o plenário. 1970: Golda Meir, a olhar da escuridão, temível, com um cigarro. 1977: Menahem Begin a sorrir depois de ter derrotado 30 anos de trabalhistas. 1978: Moshe Dayan, o mítico general da pala, conversa com Weizmann. 1980: militantes na bancada do público, com letras nas T-shirts a formar a frase "Paz Agora". 1980: Sadat a sussurrar ao ouvido de Begin, após o acordo israelo-egípcio.

Foi a última paz.


Depois, deputados e ministros sucederam-se neste corredor, a caminho do plenário, mas Israel nunca conseguiu sair da guerra.


"Conhece as tapeçarias?", pergunta Giora Pordes, um sósia de António Lobo Antunes que há muito é assessor de imprensa no Knesset e está a fazer uma visita guiada ao PÚBLICO.


Estuga o passo no chão de mármore que 50 mil pessoas por ano atravessam em visita, até ao átrio de Marc Chagall. Aí está o imenso tríptico de tapeçarias concebido como uma paisagem com múltiplas cenas bíblicas, gente, animais e plantas, um ano antes da Guerra dos Seis Dias. No corredor das fotografias a preto e branco que contam a história, também lá está essa, Chagall com Golda Meir diante das tapeçarias em 1966, ele a rir, ela de mão na boca, do espanto.


Continuando, chega-se ao edifício novo, onde agora funcionam as comissões e neste momento há dezenas de jovens agarrados a papéis, muitos deles religiosos, com "kipas". "Estamos a treiná-los para a contagem dos votos dos diplomatas e dos soldados, que vai ser feita aqui", explica Pordes.


Mas o centro de tudo é o plenário, deserto há meses, a aguardar os novos habitantes. Inaugurado em 1967, continua a ser uma típica sala dos anos sessenta, em ocre e castanho, com uma parede em pedra esculpida, cadeiras de couro, mesas de linhas rectas.


O semicírculo central, 24 cadeiras, é para o Governo. "É maior do que o costume, por causa da coligação", explica Pordes. Da eleição de hoje é muito provável que resulte um Governo igualmente grande, por causa da coligação.


Depois, de frente para a bancada de imprensa, ficam os deputados do(s) partidos(s) do Governo e, de costas, a oposição.


Aqui fazem-se as leis de Israel, e é cada uma destas 120 cadeiras que hoje está a ser disputada por um país indeciso (entre 15 a 30 por cento) e farto do conflito com os palestinianos.


2. Kotel, o Templo

Aqui, a História tem 3000 anos e está neste muro Primeiro, Salomão construiu o Templo, que os babilónios destruíram. Depois Herodes construiu o Segundo Templo, que foi destruído pelos romanos. Resta um muro, dito das Lamentações, ou Ocidental. Os judeus chamam-lhe normalmente Kotel, ou seja, Templo. A qualquer hora aqui estão, virados para o muro, a rezar, inclinando o corpo para a frente repetidamente, os homens à esquerda (a maior parte do muro), as mulheres à direita.


E a qualquer hora há soldados, porque todos os israelitas, com excepção de ultra-ortodoxos e árabes, são chamados para a tropa.


Neste momento, fora das muralhas da Cidade Velha, centenas de jovens cadetes esperam, com as suas fardas da Marinha, enquanto cá dentro, diante do muro, centenas de jovens soldados rezam, de arma automática virada para a frente e apontada para o chão.


Isto é Israel.


Maor, de 23 anos, já rezou e observa os soldados. Tem aquela "kipa" preta de veludo que é sinal dos sefarditas ultra-ortodoxos. E confirma-se: sempre votou Shas, o partido dos sefarditas ultra-ortodoxos, e vai votar Shas hoje. "Agora os governos apoiam menos os religiosos, querem dar o resto aos árabes e a gente que não merece viver neste país. É como o Obama, dizem que apoiam Israel, mas só querem que as pessoas votem neles." Obama? "É um árabe, olhe para o nome dele. Não se pode confiar nos árabes. Só nos querem matar, e matar, e matar."


É por isso que Maor acredita na paz, mas não acredita na paz com os árabes. "Tem que se correr com eles." Para onde? "Não interessa. O que foi feito em Gaza devia ser feito na Cisjordânia até não haver nem mais um árabe em Israel. Massacrá-los todos, como nos massacraram." O Shas diz isso? "Não, o Shas não o diz. Mas é o que eu acho."


Já o rabino Yecheil Gvra, que vem de rezar, com as suas barbas brancas, podia sentar-se "com um sheikh a falar" e entendiam-se. "Não temos problemas, somos ambos religiosos. Nós crescemos com os árabes, e podemos viver com eles." Mas só pode haver um país. "Porque duas pessoas não se sentam na mesma cadeira. Podemos viver com os árabes desde que lhes expliquemos que esta é a terra que deixámos há 2000 anos e nos está prometida. É muito simples, faça as contas. Quantos anos tem este muro? 3000 anos. E quantos anos tem o islão? 1400. Está a ver? Os muçulmanos podem ficar, mas aqui é o clube dos judeus."


3. Mount Scopus, a universidade

Aqui, a História é o futuro Michal já foi soldado, como os seus colegas. Agora, aos 27 anos, doutoranda de árabe clássico, está no meio de Jerusalém Oriental, mas num enclave judaico desde a guerra de 1948, a Universidade Hebraica, no Monte Scopus.


E à entrada da Faculdade de Ciências Sociais olha para grande quadro com o resultado das eleições israelitas antecipadas entre os estudantes. Vencedor? A esquerda moderada do Meretz, com 27 lugares. Depois, Likud 18, Verdes 16, Trabalhistas 14, Kadima 12, Religiosos 10, Lieberman 9, religiosos de extrema-direita 8, comunistas do Hadash 6.


"Que bom, a maior parte dos estudantes ainda sente uma responsabilidade humana por outras pessoas", diz, a sorrir, melancólica. "Isto reflecte uma realidade alternativa na qual eu gostava de viver." Vai votar Meretz, partido que apoiou a guerra, mas só de início.


Os pais de Michal, em Beersheva, Sul de Israel, estiveram ao alcance de rockets e ela inquietou-se. Não esteve contra a guerra no começo, mas depois sim.


Nestas eleições dominadas pelo pós-guerra, com a direita de Bibi Netanyhau e o centro-direita de Tzipi Livni quase empatados, e a extrema-direita como fiel da balança, qual é a coisa mais importante em jogo para Michal? "A consciência da sociedade israelita, no sentido da paciência e da humanidade", diz, depois de pensar. "Não acho que sejamos menos humanos que os outros, mas, por estarmos nestas circunstâncias, temos que nos examinar todos os dias."



Veja mais:

10/02/2009


Nenhum comentário: