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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Israel x Gaza x Oriente Médio (39) ....Israel divide Gaza em duas partes

FSP (05/01/2009)


A invasão de Gaza

Tentativa do governo de Israel de destronar o Hamas à força tem eficácia incerta e custos humanos intoleráveis.


A CRISE humanitária na faixa de Gaza, deflagrada pela reação brutal das Forças de Defesa de Israel a ataques com foguetes feitos pela milícia extremista Hamas, só vai piorar com a ofensiva terrestre sobre o pequeno e populoso território palestino.


A invasão israelense, iniciada na noite de sábado, intensifica o ambiente de privações e ameaças à integridade física em que vivem os habitantes de Gaza. Além dos intensos bombardeios aéreos, que mataram mais de 450 palestinos -entre eles várias mulheres e crianças-, faltam víveres e medicamentos, e os cortes no fornecimento de água e luz são constantes.


Ao que consta, pois Israel impede a entrada da imprensa no território invadido, o objetivo inicial da ação terrestre é isolar o norte da faixa litorânea, de onde parte a maioria dos ataques com foguetes contra o sul israelense, do restante do território palestino. A cidade de Gaza, com mais de 400 mil habitantes, foi sitiada.


Além dos intoleráveis danos, humanos e materiais, que impõe aos palestinos, o estrangulamento militar desfechado por Israel está repleto de incertezas quanto à sua eficácia. O Hamas, com sua odiosa plataforma que prega o aniquilamento da nação vizinha, não é um movimento adventício, artificial, em Gaza.


O grupo fundamentalista, com ramificações assistenciais e religiosas, criou raízes e tornou-se popular na faixa de Gaza -essa capilaridade, aliás, torna difícil atingir alvos militares sem matar civis. O Hamas venceu as eleições parlamentares palestinas de 2006 e, mais tarde, expulsou de Gaza o Fatah, o partido secular de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP).


Facilitaram a ascensão do extremismo em Gaza a incompetência corrupta do governo do Fatah, o cruel bloqueio à circulação de bens e pessoas imposto por Israel e a opção, tomada por EUA e União Europeia, de ignorar diplomaticamente o Hamas e fortalecer a ANP.


A pressão externa pela mudança do regime em Gaza falhou porque, como frequentemente ocorre com atitudes do gênero, pretendeu atropelar a legitimidade do Hamas aos olhos da população da faixa de Gaza.


A tentativa de destronar o movimento "manu militari" é uma opção ainda mais arriscada. Pode demandar nova ocupação prolongada do território, com custos humanos e políticos conhecidos e benefícios incertos.


A chegada ao Oriente Médio, hoje, do presidente da França, Nicolas Sarkozy, é uma nova oportunidade para que a via diplomática seja reativada. É preciso reengajar as lideranças palestinas, em Gaza e na Cisjordânia, num programa de distensão com Israel, processo que deve ser iniciado pela suspensão imediata das hostilidades entre o Hamas e os israelenses -bem como pela retirada das tropas invasoras do território palestino.


IGOR GIELOW

O Brasil e Gaza


BRASÍLIA - A reação do Brasil à operação israelense em Gaza acrescenta mais um patético capítulo à propensa altivez da política externa do governo Lula. Logicamente, não estou falando do apelo ao fim da violência ou da condenação à brutalidade. Isso tudo é discurso correto, bonito -e inócuo. O problema é outro. A megalomania parece não ter limite, e declarações de diplomatas, políticos e do presidente sobre a necessidade de "deixar o Brasil ajudar a resolver o problema" abundam. E novamente escorregam para o antiamericanismo bananeiro. "Exigem" que Barack Obama "mostre sua cara". Isso depois de fazer uma reunião de líderes continentais para mostrar que o Brasil capitaneia alguma coisa; desnecessário explicar a mensagem que é passada quando a estrela da festa é alguém como Raúl Castro. Imagino as rugas de preocupação de Obama. O Brasil deve ter voz nos assuntos mundiais. Mas não será com bravatas que conseguirá ser ouvido.


Em novembro de 2004, estive em Gaza logo após a morte de Arafat. O texto que escrevi à época já apelava ao lugar-comum mais ouvido hoje: o território é uma prisão.


A situação de segurança há quatro anos já era frágil. Entrevistava um líder local do Jihad Islâmico quando uma explosão fez o chão tremer, provavelmente um ataque pontual de Israel. Gente correndo para todo lado, repórter e entrevistado agachados no chão. Agora, é isso ao paroxismo.


O Hamas nem de longe é inocente, seus movimentos fazem parte do jogo que permeia hoje o Oriente Médio: a disputa estratégica entre Irã e o condomínio EUA-Israel, aliás o provável motivo por trás do ataque.

Mas a ferocidade israelense tem um custo humano inaceitável. Para ficar na metáfora carcerária, a tropa de choque agora invadiu a prisão a tiros. Não vai acabar bem.


igielow@folhasp.com.br


DO ENVIADO A SDEROT


Uma antiga máxima militar diz que é possível saber como uma guerra começa, mas não como ela terminará. O inconclusivo desfecho da guerra travada no Líbano há dois anos parecia ter ensinado aos israelenses os perigos de uma ofensiva militar sem objetivos realistas. Entretanto, após nove dias de intensos ataques a alvos do Hamas em Gaza, a pergunta permanece aberta: quais as metas de Israel?


O governo e o Exército afirmam que a ofensiva visa o fim dos foguetes lançados por extremistas contra Israel. Mas não escondem que é quase impossível garantir o fim dos disparos. Num dos primeiros dias da ofensiva, a Folha perguntou a Meir Shitrit, ministro do Interior, como Israel consideraria a operação um sucesso.


"Que parem os foguetes e haja calma no sul do país", respondeu, em visita a Sderot, uma das cidades mais alvejadas. Então a ofensiva só vai terminar quando não houver mais nenhum disparo? "O objetivo não é zero míssil, mas zero motivação do Hamas para lançá-los."


O assunto voltou a ser abordado dois dias depois pela chanceler Tzipi Livni, uma das comandantes da ação ao lado do premiê Ehud Olmert e do ministro da Defesa Ehud Barak. "Já atingimos a capacidade do Hamas de lançar foguetes", disse ela.


"Resta saber se atingimos o desejo do Hamas em dispará-los."


Expectativas
Diante de objetivos tão fluidos e difíceis de avaliar, tornou-se quase inevitável especular que a maior ofensiva israelense em décadas tem uma ambição bem maior que a declarada: derrubar o Hamas do poder em Gaza.


Sabendo que ações militares não bastam para depor regimes -uma manobra que exigiria uma indesejável e custosa reocupação da faixa de Gaza-, Israel baixou as expectativas. Publicamente, reduz suas ambições.


Às vezes, contudo, desejos ocultos são expostos.


"O objetivo da operação é acabar com o Hamas", disse, no sábado, o ministro da Indústria Ely Ishai, pouco após o início da incursão terrestre.


O temor dos que defendem metas maximalistas é que uma trégua com o Hamas no poder terá um sabor amargo de empate, dando aos fundamentalistas a legitimidade política que Israel queria eliminar.


Para Yossi Alpher, ex-oficial do Mossad (serviço de inteligência), a operação terrestre aumentou perigosamente a aposta, pois é difícil levar ao fim do regime do Hamas. "Poderíamos ter terminado com isso ontem [sábado] e declarado vitória", disse ao "Independent". "Teria sido uma vitória controvertida e incompleta, mas não uma derrota." (MN)

DO ENVIADO A SDEROT


A cena é no mínimo insólita: espremidos em uma pequena colina, diante de uma bucólica paisagem que inclui campos verdejantes, vacas e cavalos, dezenas de jornalistas acompanham de longe uma concentração urbana de onde sobem colunas de fumaça e ecoam explosões em breves intervalos.


O veto imposto por Israel à entrada da imprensa na faixa de Gaza tem forçado a multidão de jornalistas de todo o mundo que chegou ao país a abusar da criatividade para cobrir os confrontos de longe.


Para os acostumados a acompanhar conflitos de perto, a situação é motivo de revolta e frustração.


"É absurdo", diz Ben Wederman, veterano correspondente da CNN no Oriente Médio, que passa horas na colina aguardando o chamado para entrar no ar. "Não dá para acreditar no argumento israelense de que a proibição é por motivos de segurança. Me parece óbvio que o objetivo é limitar a cobertura."


Wederman, assim como a maioria dos jornalistas que invadiram o sul de Israel na última semana, tem recorrido a colaboradores que estão em Gaza para fazer um relato com o mínimo de veracidade do que está ocorrendo. É também o que faz a reportagem da Folha, que tem conversado por telefone com moradores de Gaza para colher detalhes da ofensiva.


Wael Alqarra, que trabalha em uma organização humanitária em Gaza, contou ontem que os ataques israelenses aumentaram ainda mais a sensação de claustrofobia. "Não saímos de casa há uma semana. No máximo vamos até a esquina, quando o mercado está aberto", disse.


Ironicamente, enquanto o veto israelense impede que as grandes redes de notícias como a CNN informem o que acontece ao mundo, em Gaza a presença de três jornalistas da rede Al Jazeera, que já estavam no território quando a ofensiva começou, mantém a população local informada.


"Temos todos os outros canais, mas nenhum se compara à Al Jazeera", diz Wael. (MN)

Desta vez, Israel terá sucesso

LAWRENCE FREEDMAN


A operação em Gaza é consequência direta da guerra de 2006 no sul do Líbano. As semelhanças entre ambas estão levando muitos a prever resultado semelhante, com Israel condenado por provocar sofrimento humano e, ao mesmo tempo, sofrer uma humilhação militar. Como em 2006, Israel reage a provocações lançadas do outro lado de sua fronteira e combate em territórios que ocupou no passado, mas dos quais se retirou na esperança de viver com mais calma. Como em 2006, a operação começou com ataques aéreos criticados como desproporcionais, seguidos, com receios, por uma ofensiva terrestre. Em 2006, os israelenses feriram o Hizbollah, mas não conseguiram alcançar seus objetivos políticos excessivamente ambiciosos. Eles pareceram não ter resposta a dar aos foguetes disparados contra Israel por milícias móveis e se saíram mal no enfrentamento com essas milícias em combates terrestres. O Hamas achou que também poderia lançar ataques de foguetes contra Israel com impunidade. Israel sabe que, se fracassar de novo, terá reduzido qualquer dissuasão contra ataques futuros. Mas a lições aprendidas em 2006 podem ser vistas em todos os aspectos da campanha atual. Em lugar de resposta militar improvisada, o governo israelense avisou o Hamas dos riscos que uma nova ofensiva com foguetes incorreria. Israel não se fixou objetivos pouco realistas: fala mais em reduzir que em eliminar a infraestrutura militar do Hamas. Gaza é um ambiente operacional menos temível que o Líbano. Dividir o território em dois, reduzindo a capacidade de combatentes do norte obterem abastecimento do sul, dá a Israel uma posição que poderá manter se ficar atolado em Gaza por muito tempo. Desta vez foi o Hamas que cometeu os erros maiores. O grupo não levou em conta como poderia reagir um governo israelense a poucas semanas de uma eleição geral. Politicamente, se colocou em uma posição em que um cessar-fogo será visto como derrota, porque vai exigir aceitar o fim dos disparos de foguetes. Os apelos por um cessar-fogo vão aumentar. Se for oferecido monitoramento apropriado, Israel deve aceitar. Sem um cessar-fogo, os riscos para Israel aumentarão. Se os foguetes continuarem a chegar, perguntas serão feitas sobre o que foi conquistado de fato. O valor de qualquer vitória que Israel declarar após um cessar-fogo será contestado se as divergências que tornam esses choques tão regulares continuarem. A premissa de que esta rodada mais recente vai endurecer as atitudes palestinas pode ser acertada. Mas é igualmente provável que uma combinação de cansaço de guerra e um Hamas enfraquecido abra novas oportunidades. Para que estas possam ser aproveitadas, Israel terá que afrouxar seu controle sobre a vida e o território palestino, a fim de que suas declarações sobre seu desejo de paz ganhem mais credibilidade.


LAWRENCE FREEDMAN é professor de estudos da guerra no King's College de Londres. Este artigo foi publicado no "Financial Times"


DO "FINANCIAL TIMES"


A decisão de Israel de invadir Gaza é uma aposta perigosa. Se o objetivo é reduzir o número de foguetes que o Hamas é capaz de disparar contra Israel, ele poderá ser alcançado -por enquanto. Mas, se o que Israel pretende é extirpar o coração de seus adversários palestinos mais implacáveis, seu esforço vai fracassar. Tanto em um caso quanto no outro, o número crescente de mortos e feridos, incluindo civis, decorrentes do desproporcional bombardeio em áreas urbanas, vai manchar a reputação de Israel e solapar a tal ponto a opinião árabe e palestina moderada que sua posição política sairá enfraquecida. O Hamas vem tentando insensatamente imitar o exemplo do Hizbollah -entre outras coisas, aperfeiçoando seus foguetes de fabricação caseira para que possam ter alcance mais longo, sob a ilusão equivocada de que poderá reproduzir no sul de Israel o equilíbrio de terror criado pelos xiitas na fronteira israelo-libanesa. Mas os milicianos do Hamas conseguirão infligir baixas às tropas israelenses se estas penetrarem no labirinto da Cidade de Gaza. Israel não conseguiu controlar Gaza ou fechar o Hamas no passado, mesmo depois de assassinar quase todos os seus líderes veteranos. O Hamas tem raízes profundas, e seu poder de maior atração popular vem da resistência à ocupação israelense. Grupos como esses são vencedores pelo simples fato de sobreviverem.


Meia verdade

Israel criou a maior ofensiva de relações públicas até hoje, que inclui barrar a entrada de jornalistas em Gaza. O objetivo é atribuir a culpa pela crise ao Hamas, incluindo-o na "guerra ao terror" global. Mas a afirmação de que o extremismo dos islâmicos é a causa principal do sofrimento de Gaza, depois de Israel ter oferecido liberdade aos palestinos, retirando-se do encrave mediterrâneo em 2005, constitui menos do que uma meia verdade. Os moradores de Gaza vivem sob bloqueio desde que os palestinos tiveram a temeridade de eleger o Hamas, três anos atrás, e Israel vem ampliando sua ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, árabe. Esse é um conflito que só poderá acabar se um Estado palestino independente for criado em todas essas terras ocupadas. O que é necessário agora é: um cessar-fogo com monitoramento internacional, de duração suficiente para que as negociações com essa base sejam retomadas e concluídas; que Israel então ponha fim ao bloqueio, e que novas eleições decidam quem fala pelos palestinos: o Fatah, o Hamas, ou uma combinação de ambos. O governo Obama, prestes a assumir o poder nos EUA, deve assinalar claramente que pretende buscar uma solução de dois Estados baseada nos parâmetros expostos por Bill Clinton em 2000 e no plano de paz proposto pela Liga Árabe em 2002. Uma declaração de intenções pode até influenciar os eleitores israelenses e palestinos, levando-os a eleger líderes capazes de fechar um acordo desse tipo.


Este texto é opinião editorial do FT de hoje


Tradução de CLARA ALLAIN

Israel
Apesar de ter voltado a descartar um cessar-fogo ontem, nos bastidores sugere que aceitaria um acordo diplomático, com várias condições: que a fronteira de Gaza com o Egito seja monitorada por soldados armados -americanos, de preferência- com plenos poderes militares; que seja construído um muro subterrâneo para impedir que o Hamas cave túneis na região para se rearmar; em último caso, que seja instalada uma força internacional no norte e no sul de Gaza, a exemplo da força da ONU que existe no sul do Líbano, comandada pela França.


Hamas
Condiciona qualquer trégua ao fim imediato do bloqueio econômico israelense a Gaza, sua prioridade política. Mas, sob fogo, negocia um cessar-fogo com mediação egípcia.


Estados Unidos

O veto a uma resolução no CS da ONU que pedia uma trégua imediata evidencia a decisão de Washington de dar carta branca a Israel. Os EUA veem com bons olhos a ideia de uma força armada para controlar a fronteira entre Gaza e o Egito.


Egito
O Cairo, que havia mediado a última trégua entre Hamas e Israel, tenta convencer o grupo islâmico a aceitar um novo cessar-fogo que inclua a volta do monitoramento da Autoridade Nacional Palestina na fronteira Gaza-Egito -condição imposta pela União Europeia para o regresso de seus observadores à região

Liga Árabe

A Liga Árabe vem tentando, até agora sem sucesso, emplacar uma resolução no CS da ONU que exige o fim dos ataques israelenses. Os países árabes também querem uma missão de monitoramento internacional, mas com ênfase na proteção aos civis palestinos.


Turquia
O premiê turco vem buscando apoio para o seu plano de paz em duas fases: 1) uma trégua imediata seguida do envio de observadores nos moldes da missão da ONU no sul do Líbano; 2) mediação para unificar as posições árabes e reconciliar o Hamas e o Fatah.


União Européia

A nova Presidência tcheca do bloco apoiou a invasão, antes de se retratar sob críticas. Uma missão da UE, que inclui tchecos e diplomatas da Comissão Europeia, está buscando uma trégua, mas o bloco não tem posição clara sobre os contornos do acordo.


França
Mesmo depois de entregar a presidência francesa da UE, o presidente Nicolas Sarkozy segue ativo na mediação do conflito. Seu plano de cessar-fogo não está claro, mas ele espera usar sua relação cordial com a Síria para pressionar Damasco a exigir um cessar-fogo do Hamas.

Somos campo de jogo de interesses externos

Para cientista político, disputas regionais contaminaram luta política de palestinos


"O Hamas é um movimento enraizado, popular e ativo; se pretendem acabar com o grupo, vão fracassar", diz palestino de Jerusalém


SAMY ADGHIRNI

DA REPORTAGEM LOCAL


O cientista político Bashir Bashir diz, nesta entrevista por telefone, que territórios palestinos viraram campo de disputa de interesses estrangeiros e que o enraizamento político do Hamas impede sua destruição.


FOLHA - Que impacto a ofensiva em Gaza teve sobre o Hamas?

BASHIR BASHIR - É evidente que, diante da pressão sofrida, o Hamas está vendo a sua popularidade crescer. O ataque não é contra o Hamas, mas contra Gaza. Os palestinos sentem isso. Como o Hamas está no front, acaba se beneficiando da compaixão nacional. Essa visão não é unânime. Há críticas constantes ao grupo. Mas prevalece a impressão de que as pessoas devem se solidarizar com os moradores de Gaza, e isso passa pelo Hamas.


FOLHA - Os ataques parecem estar enfraquecendo o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e o Fatah.

BASHIR - Abu Mazen [codinome de Abbas] demorou a reagir e, quando o fez, escolheu culpar o Hamas. Isso não corresponde ao que se esperava de um líder que, teoricamente, representa todos palestinos. As declarações destoaram da visão popular e dos interesses nacionais.


FOLHA - Mas esse enfraquecimento não vai contra os interesses de Israel, que diz querer consolidar sua liderança para negociar a paz?

BASHIR - O discurso israelense que pretende fazer de Abu Mazen um líder popular é infundado. Ele ofereceu a Israel uma tranquilidade quase total na Cisjordânia e está cooperando com os israelenses, inclusive na segurança. O que obteve em troca dessa cumplicidade e coordenação? Nada. Israel não removeu nenhum dos 400 postos de controle na Cisjordânia. Continua atacando em Nablus, Jenin e Ramallah e expandindo os assentamentos ilegais. Se o objetivo é fortalecer Abu Mazen -embora os palestinos não queiram que os israelenses fortaleçam quem quer que seja-, então devem pôr fim à ocupação.


FOLHA - Os ataques em Gaza aumentam ou reduzem as chances de reconciliação entre Hamas e Fatah?

BASHIR - É uma pergunta difícil. O fato é que nós, palestinos, precisamos nos mobilizar para pressionar os dois partidos a se reconciliarem. Mas esse diálogo depende de muitas incógnitas. Uma deles, infelizmente, é o fato de que, após a morte de Iasser Arafat, nós nos tornamos uma espécie de campo de futebol onde equipes de fora se enfrentam. Perdemos boa parte do controle sobre o nosso processo decisório. Os palestinos não estão mais sozinhos na hora de definir o que querem para o futuro. Hoje já não se trata apenas de pressão popular. A equação inclui os protagonistas regionais, que passaram a ter muita influência -Síria, Irã, Egito, Jordânia e outras entidades que tentam pautar a agenda política palestina. Até então, os atores regionais tinham influência limitada graças à obsessão de Arafat com a autonomia decisória palestina. Os palestinos hoje estão fragmentados, e isso compromete nossa credibilidade. Por outro lado, o Hamas não tem interesse em ter um Estado em Gaza, nem o Fatah em governar apenas a Cisjordânia. Todos sabem que isso precisa ser resolvido.


FOLHA - Mas muita gente não sente saudade da gestão corrupta e centralizadora de Arafat.

BASHIR - Arafat de fato era, além de um líder problemático e envolvido em corrupção, uma personalidade autoritária. Mas o cenário político palestino sob sua gestão sempre foi pluralista, eficiente e democrático. Arafat consultava todos os protagonistas palestinos, incluindo o Hamas, que não faz parte da OLP [Organização para a Libertação da Palestina]. Nossa cena sempre teve gente de esquerda, direita e centro.


FOLHA - Qual é a chance de o Hamas ganhar as eleições deste ano?

BASHIR - O Hamas pode ganhar, sim, claro. O problema é que a democracia no Oriente Médio é aceita apenas parcialmente pelas potências. Ela só é tolerada quando leva ao poder as "pessoas certas". Isso não é democracia, mas "hipocracia".

Não tem sentido o Hamas aceitar participar do jogo político e o resultado acabar rejeitado. Não sou pró-Hamas. Mas sei que não há futuro democrático na Palestina sem o Hamas.

O discurso que consiste em dizer que o ataque em Gaza visa destruir o Hamas não tem sentido. Acabar com o grupo significaria aniquilar 30% da população palestina. Não estamos falando de fanáticos e lunáticos nem de alguns milhares de quadros que podem ser eliminados. Estamos falando de um movimento de campo enraizado, muito popular e ativo. Se os bombardeios pretendem acabar com o grupo, estão fadados ao fracasso. Podem enfraquecê-lo, mas a longo prazo o Hamas sairá fortalecido.


DA REPORTAGEM LOCAL

Cidadão palestino residente em Jerusalém, Bashir Bashir é um cientista político especializado em resolução de conflitos e processos de reconciliação nacional e internacional. É doutor em teoria política pela London School of Economics, onde também foi professor.


Atualmente leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém e mantém diálogo constante com intelectuais israelenses de várias tendências.


Bashir é coautor do documento "Retomando a Iniciativa", publicado em agosto pelo think tank Grupo Palestino de Estudos Estratégicos. O texto é um manifesto no qual os autores expressam descrença em relação aos caminhos trilhados até agora na busca pela paz entre israelenses e palestinos e apontam novas ideias, como um Estado binacional.


País quer cessar-fogo com supervisão internacional como no Líbano, diz analista


"O importante é saber se o poder de dissuasão de Israel saiu fortalecido, e a ofensiva militar serviu para isso", diz professor de Tel Aviv


MARCELO NINIO

ENVIADO ESPECIAL A SDEROT (ISRAEL)


A intransigência do Hamas, que não dialoga com Israel nem reconhece seu direito de existir, tornou a ofensiva em Gaza inevitável. A opinião é de Eyal Zisser, para quem Israel gostaria de tirar o grupo do poder, mas sabe que isso exigiria a indesejável reocupação de Gaza.


FOLHA - Entre os supostos objetivos de Israel nesta ofensiva, há um declarado, a suspensão dos disparos de foguetes de Gaza, e um não-declarado, que é derrubar o Hamas. Ambos parecem inalcançáveis. Quais as metas realistas?

EYAL ZISSER - Reocupar a faixa de Gaza é possível, mas isso não interessa a Israel. O objetivo da ofensiva é obter um acordo de cessar-fogo como no Líbano [em 2006], para colocar um fim ao disparo de foguetes. Isso incluiria algum tipo de supervisão internacional que impeça o disparo de foguetes e também controle a fronteira de Gaza com o Egito, para não permitir a entrada de armas. Acho que Israel gostaria de tirar o Hamas do poder, mas entende que esse não é um objetivo realista. Para derrubar o Hamas, é preciso não apenas entrar em Gaza. É necessário controlar o território, o que Israel não quer voltar a fazer.


FOLHA - Qual será o impacto dos ataques sobre o Hamas?

ZISSER - O Hamas sofreu um golpe muito duro e acho que aprendeu uma lição, mas não foi destruído. O resultado é que, no futuro, será mais cuidadoso em seu confronto com Israel. Nada além disso.


FOLHA - Israel corre o risco de obter justamente o oposto, fortalecendo o Hamas politicamente, como ocorreu com o Hizbollah no Líbano?

ZISSER - Sim, isso é o que sempre acontece nesse tipo de confronto, e só não se repetirá agora se o Hamas não conseguir sobreviver. E não vejo, no momento, uma alternativa com credibilidade, então a população continuará apoiando o Hamas. Mas é preciso lembrar também que esse é um fortalecimento ilusório. No Líbano, o Hizbollah sofreu sofreu grandes perdas. Grupo nenhum escapa ileso de mais de um mês de ataques. Foi enfraquecido, mas conseguiu vender a idéia de que ficou mais forte. Na situação atual de Gaza, deve acontecer a mesma coisa: aconteça o que acontecer, o Hamas cantará vitória. O importante é saber se o poder de dissuasão de Israel saiu fortalecido, e eu acho que, tanto no Líbano como em Gaza, a ofensiva militar israelense serviu para isso. Então, quem exatamente saiu fortalecido?


FOLHA - O governo israelense afirma que o objetivo da ofensiva em Gaza é estabelecer uma "nova realidade". Isso significa um novo cenário político?

ZISSER - Depois de oito anos de disparos, se houver calma no sul de Israel e o Hamas não ousar fazer provocações, lançar mais foguetes, essa será uma nova realidade. Ainda é cedo para dizer se ela incluirá um novo cenário político. Se a ofensiva fosse interrompida agora, sem dúvida o Hamas sobreviveria. Numa visão mais abrangente, incluindo outros inimigos, como Irã e Síria, não vejo mudanças. Mas o fato de os regimes árabes silenciarem sobre a operação israelense significa que a maioria apóia Israel contra o Hamas.


FOLHA - O primeiro-ministro Ehud Olmert disse que a ofensiva era inevitável. Mas, olhando para os últimos três anos, desde a eleição do Hamas, Israel não poderia ter agido para evitar essa escalada?
ZISSER -
Não era possível evitar por um motivo simples: o Hamas se recusa a dialogar com Israel e a reconhecer o seu direito de existência. Foi essa intransigência que levou à escalada atual.


FOLHA - Não está claro se Israel tem um plano político para o pós-guerra. Qual deveria ser a estratégia política israelense após a ofensiva?

ZISSER - Não sei se Israel tem um plano, mas sinceramente espero que sim. Na minha opinião, o plano político deve estar casado com o plano militar. O objetivo deve ser chegar a uma situação em que o Hamas esteja suficientemente enfraquecido para que possa haver um acordo, com a ajuda da comunidade internacional, em que o grupo não queira e não possa disparar mísseis contra Israel. Depois disso, a condição básica para que Israel possa entrar em negociações com o Hamas é que o grupo reconheça seu direito de existir. Mas isso não parece estar nos planos do Hamas.


FOLHA - Há sinais de que o Hamas poderia voltar a se unir ao Fatah para obter trégua e dialogar com Israel indiretamente. O Fatah, mesmo sendo aliado de Israel, teria legitimidade para unir os palestinos?

ZISSER - Nenhum regime árabe é legítimo, a questão é se ele é forte. Se o Fatah servir de interlocutor confiável para os dois lados e conseguir passar a imagem entre os palestinos de que salvou a faixa de Gaza do caos, talvez isso seja possível.

DO ENVIADO A SDEROT

O professor Eyal Zisser é especialista em cenários pós-guerra. Diretor do Centro Moshe Dayan de Estudos do Oriente Médio, da Universidade de Tel Aviv, nos últimos anos dedicou-se a estudar o impacto da segunda Guerra do Líbano (2006) sobre Israel e o mundo árabe.


Ao contrário da impressão geral produzida na região e no mundo pela ausência de uma vitória decisiva de Israel no confronto contra o Hizbollah no Líbano, Zisser acha que é errado concluir que os fundamentalistas levaram vantagem.


Doutorado pela Universidade de Tel Aviv em 1992, foi professor visitante da Universidade Cornell (EUA) e pesquisador visitante do Washington Institute para Política do Oriente Médio. É autor de livros como "Líbano: o Desafio da Independência".


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