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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Israel x Gaza x Oriente Médio (68) .... Quem é quem manda no Oriente Médio?


O Globo, Mundo, paginas 26 a 28, em 08/01/2009.


O Globo, Mundo, página 28, em 08/01/2009.

Quem é que manda no Oriente Médio?

Thomas Friedman


Os combates, a morte e a destruição em Gaza são dolorosos de ver. Mas tudo isso é bem familiar. Esta é a última versão do mais longo jogo do Oriente Médio moderno, cujo objetivo pode ser resumido nas seguintes perguntas: Quem é o dono desse hotel? Os judeus podem ter um quarto nele? Não deveríamos explodir seu bar e no lugar construir uma mesquita? Gaza é uma miniversão de três grandes desafios que vêm se esgotando desde 1948: 1) Quem vai ser a potência regional? Egito, Arábia Saudita ou Irã? 2) Há espaço para um Estado judeu no Oriente Médio e, nesse caso, em que termos em relação aos palestinos? 3) Quem vai dominar a sociedade árabe? Islamitas intolerantes com outros credos e que pretendem sufocar a Modernidade e aquelas que querem abraçar o futuro? Vamos ver cada caso.


Quem é o dono desse hotel? A luta pela hegemonia no mundo árabe moderno é tão antiga quanto o Egito de Nasser. O que é novo, no entanto, é que o nãoárabe Irã tem condições agora de obter a primazia, o que é um desafio para o Egito e para a Arábia Saudita. O Irã usou habilidosamente o envio de ajuda militar tanto para o Hamas como para o Hezbollah para criar uma força armada de foguetes nas fronteiras norte e ocidental em Israel. Isto permite a Teerã interromper e reiniciar o conflito israelense-palestino da forma e no tempo que deseja e ainda sair como o protetor verdadeiro dos palestinos, ao contrário do regimes árabes.

— A Gaza que Israel deixou em 2005 era vizinha do Egito.


A Gaza que Israel está voltando a bombardear agora faz vizinhança com o Irã — disse Mamoun Fandy, diretor do departamento de Oriente Médio do Instituto de Estudos Estratégicos. — O Irã é o objetivo último de confrontação.


Não tenho certeza se podemos falar em uma paz israelensepalestina, nem mesmo numa paz isralenseaacute;rabe, acredito que precisamos falar em uma iniciativa iraniana.


Em resumo, toda a noção que se tem sobre as possibilidades de paz entre Israel e Palestina terá que mudar.


Podem os judeus ter um quarto nesse hotel? O Hamas rejeita qualquer forma de reconhecimento do Estado de Israel. Em contraste, o Fatah reconheceu Israel e vice-versa.


Se você acredita, como eu acredito, que a única solução estável para a questão é um Estado binacional, com os palestinos ocupando a Cisjordânia, Gaza e setores árabes de Jerusalém oriental, então você tem que esperar pelo enfraquecimento do Hamas.


Por quê? Porque nada feriu mais os palestinos que a estratégia do Hamas de transformar jovens em suicidas. Porque o Hamas se recusa a qualquer acordo que reconheça Israel e porque os ataques do Hamas no sul de Israel estão minando as chances de se construir um Estado binacional.


Israel provou que pode desfazer assentamentos, como em Gaza. Mas os foguetes do Hamas se mostraram uma ameaça ao sul do país. Eles mandam o seguinte recado: de Gaza, podemos atacar sempre que quisermos o sul de Israel. A partir da Cisjordânia, poderemos atacar até o Aeroporto Internacional de Israel. Que israelense sairá agora da Cisjordânia tendo em vista essa ameaça? Deveríamos explodir o bar do hotel para construir uma mesquita? A derrota do Fatah, mais secular, pelo Hamas em 2007, em Gaza, é parte de uma guerra travada na região entre extremistas e seculares. E não há dúvidas de que o Irã, o Hamas e o Hezbollah querem usar o conflito palestino para transformar Obama em Bush.


A vitória de Obama, nesse caso, é obter um acordo que acabe com os foguetes do Hamas e, ao mesmo tempo abra Gaza economicamente ao mundo, para que tenha menos influência dos radicais.


THOMAS FRIEDMAN é colunista do New York Times


O Globo, Opinião, Demétrio Magnoli, página 7, em 08/01/2009.

Gaza sem Pétain

Não há solução militar para o impasse estratégico

DEMÉTRIO MAGNOLI


No verão de 1940, após a queda de Paris, instalou-se em Vichy o regime colaboracionista do marechal Philippe Pétain. O governo de Vichy exercia autoridade civil sobre toda a França, inclusive o Norte, ocupado pelos alemães.


A existência daquele regime, com raízes na vertente da direita francesa atraída pelo fascismo, propiciou à Alemanha uma liberdade de ação militar que não teria se fosse obrigada a posicionar tropas em todo o território francês. A sangrenta ofensiva de Israel é o substituto, pouco eficaz, de um Pétain que inexiste na Faixa de Gaza.


O premier Ariel Sharon promoveu, há três anos, a retirada das tropas e dos assentamentos israelenses de Gaza, concedendo autonomia ao governo da Autoridade Palestina (AP) presidido por Mahmoud Abbas. Diante do congelamento do processo de paz, o gesto descortinava o horizonte estratégico de perenização da soberania israelense sobre toda a Palestina histórica pela colaboração da AP com Israel. Sem forças militares acossadas permanentemente pelo levante palestino na língua de terra destituída de valor real ou simbólico, Israel poderia se concentrar no acalentado projeto de anexação a seu próprio território dos assentamentos na Cisjordânia.


Toda a estratégia ruiu em junho de 2007, em virtude da derrubada do governo de Abbas em Gaza pelo partido fundamentalista Hamas. Israel não pode ter os dois: deve escolher entre as concessões inevitáveis derivadas de um acordo de paz e os custos políticos e militares da ocupação física. Esta é a mensagem enviada pelo Hamas desde que se instalou no poder em Gaza e intensificou o lançamento de foguetes precários sobre o Sul de Israel.


O gabinete israelense de Ehud Olmert preferiu se iludir, insistindo na estratégia de Sharon. Para isso, fixou o objetivo utópico de impor a reunificação do governo palestino sob a AP. Na tentativa de apear os fundamentalistas do poder, Israel negociou apenas com Abbas, isolou diplomaticamente o Hamas e bloqueou as fronteiras de Gaza, ampliando o desemprego, a pobreza e o desespero de 1,5 milhão de palestinos. Sem sucesso: é possível escolher muitas coisas, mas não os representantes de outra nação.


Destacados políticos de Israel indagam, com genuína perplexidade, sobre as motivações dos ataques de foguetes do Hamas. A resposta é óbvia — e Israel deveria conhecê-la desde que, há meses, negociou um cessar-fogo provisório com os fundamentalistas: o governo de fato de Gaza exige ser reconhecido como interlocutor diplomático. Não há alternativa a isso, exceto a tragédia que seria a substituição do Hamas pelos jihadistas de Osama bin Laden. Sob os efeitos do bloqueio econômico israelense, a popularidade do governo de Gaza declinou até um limite perigoso e setores de suas brigadas militares entabularam contatos sigilosos com a al Qaeda. O reinício do lançamento de foguetes sobre Israel teve como motivação imediata a restauração da auréola de resistência que cerca o Hamas.


Não há solução militar para o impasse estratégico. As pilhas de cadáveres provocadas pelos bombardeios aéreos israelenses não servem como dissuasão para um partido fundamentalista que raciocina com base no conceito de martírio. A guerra do ar não pode evitar a continuação das salvas de foguetes. Já a invasão terrestre, com custos políticos incalculáveis, só interromperia os ataques pela reocupação permanente do território, algo intolerável para a opinião pública israelense e internacional. Uma alternativa seria derrubar o governo do Hamas e reconduzir Abbas para Gaza a bordo de um tanque de Israel.


Mas, mesmo na hipótese improvável de que o presidente da AP embarcasse no tanque, um regime títere não sobreviveria à saída das tropas invasoras. Pétain representava um setor significativo da sociedade francesa; Abbas, hoje, é visto como pouco mais que um colaborador de Israel. Dez anos atrás, perguntado sobre o que faria se tivesse nascido palestino, o então candidato a primeiroministro e atual ministro da Defesa, Ehud Barak, replicou: “Eu me uniria a uma organização terrorista.” Ele estava errado, pois o terror é condenável de modo absoluto, em qualquer circunstância. Mas a sua resposta evidencia o absurdo da política conduzida por Israel, que tirou de cena cada um dos potenciais interlocutores palestinos, até sobrar apenas o Hamas.


Arafat foi humilhado tantas vezes que se tornou um líder imprestável. Marwan Barghouti, o mais popuder lar dos opositores nacionalistas de Arafat, um homem que condenou o terror no auge dos atentados suicidas, está preso desde 2002. A guerra contra o Hamas equivale a persistir num rumo que interessa exclusivamente aos jihadistas.


Israel repete sem cessar o mantra de que o Hamas se recusa a reconhecer o Estado judeu. É um argumento tão verdadeiro quanto irrelevante, se não se conhecem as fronteiras definitivas do Estado que exige reconhecimento.


O Hamas já sugeriu o estabelecimento de uma trégua que se prolongaria “até o infinito” na hipótese de acordo para a constituição de um Estado palestino. O partido fundamentalista palestino não é a al Qaeda.


Enquanto Israel emprega o rótulo “terror” para igualar bestas essencialmente distintas, Barack Obama abre um discreto canal de contato com o governo de Gaza.


Um ano atrás, Matan Vilnai, viceministro da Defesa israelense, pronunciou a palavra shoah, que evoca o Holocausto, para descrever o destino de uma Gaza que continuasse a servir de plataforma a ataques contra Israel. No mundo inteiro, propagandistas sem escrúpulos, inspirados pela sua frase raivosa, definem o bloqueio de Gaza e a guerra em curso como atos de genocídio. A meta histórica do antissemitismo, nas suas versões de direita e de esquerda, é fabricar uma identificação entre o Estado judeu e o Estado nazista. A deplorável estratégia de Israel confere uma película de verossimilhança à alegação dos mercadores do ódio.


DEMÉTRIO MAGNOLI é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP.


O Globo, Opinião, Veríssimo, página 7, em 08/01/2009.

A prova do angu

VERISSIMO


Videntes antigos procuravam presságios nas vísceras dos pássaros. Os que tentam antever como será o governo Barack Obama estudam a sua escolha de secretários como se fossem tripas, pois seu gabinete tem algo de angu à baiana. Há conservadores, centristas e menos progressistas do que se esperava, e sua inspiração principal parece ser o governo Clinton — ou seja, mais um passado testado do que o novo prometido. É difícil deduzir o que vem aí dessa mistura. Uma previsão é que Barack proporá outro New Deal como o do Roosevelt para enfrentar a crise econômica — o que também não deixará de ser um apelo ao passado —, mas nada de dramaticamente muito diferente em outras áreas, como a da política externa. Pelo menos baseada na aparência do angu.


Na questão Israel/palestinos as opiniões do Barack não divergem da posição da quase totalidade dos políticos americanos, de ajuda incondicional a Israel. Hillary Clinton, sua secretária de Estado, era senadora por Nova York com forte apoio do voto judaico. A única esperança de que a política americana em relação ao Oriente Médio passe a ser mais equilibrada vem de uma declaração que o Barack fez durante a campanha, segundo a qual ser a favor de Israel não significa ser necessariamente a favor do Likud, o partido de extrema direita tão intransigente nas suas pregações e ações quanto os radicais do outro lado. O implícito reconhecimento que a política expansionista e do revide desproporcional é de uma corrente política não favorece a segurança de Israel e, portanto, não merece apoio incondicional, é um vislumbre de mudança. Se o Barack não estava apenas fazendo uma frase. A mistura de conveniência política com ódios irracionais é o que tem de mais repugnante na crise crônica do Oriente Médio. Toda essa gente morrendo para que o Hamas pareça mais duro do que as outras facções palestinas contra Israel e o governo israelense pareça duro o suficiente para derrotar o ainda mais duro Bibi Netanyahu nas eleições de fevereiro. As ambições sectárias de lado a lado medidas em crianças mortas.


Se você pode entender a reação de Israel diante do terror palestino, e para isso basta se imaginar vivendo entre vizinhos que simplesmente negam a sua existência, também não pode deixar de lamentar que a retribuição de Israel seja o terror no mesmo nível. Nenhuma corrente ou facção tem o direito de fazer isto com a reputação de um povo com o passado e o acervo moral do povo judeu. No Oriente Médio se tem o triste espetáculo de uma nação sacrificando sua história para garantir sua geografia. O que o governo Barack Obama fará a respeito de tudo isso? Bom, isso será a prova do angu.


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