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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 10 de janeiro de 2009

Israel x Gaza x Oriente Médio (82) ....Conflito é um beco com saída para a paz

LINGUAGEM E PRECONCEITO

FSP

Artigo: Pecados originais da guerra e uma saída

Pecados originais da guerra e uma saída

HILLEL SCHENKER

No dia do Ano-Novo, o escritor Nir Baram envolveu-se numa discussão com um âncora da TV pública Canal 1. "Nós, israelenses, precisamos mudar nossa mentalidade automática, que diz sempre que a ação militar vai resolver nossos problemas", disse Baram. O âncora respondeu em nome do consenso nacional: "E como fica o Hamas? Não o vejo mudando sua mentalidade!".


Não há dúvida de que a maioria do público israelense apoia a decisão do governo de atacar Gaza, com o objetivo de "ensinar uma lição ao Hamas". Sob muitos aspectos, o próprio Hamas desencadeou esta guerra, quando, em 19 de dezembro, declarou que não renovaria a "calma" e retomou o disparo de foguetes, ao mesmo tempo em que manobrava para conseguir um "cessar-fogo melhor" do seu ponto de vista -o fim do bloqueio internacional.


Vale notar que o fim do bloqueio era previsto no acordo de cessar-fogo de junho e não foi implementado por Israel e pela comunidade internacional. O governo israelense achou necessário agir militarmente devido à pressão da opinião pública, da mídia e da direita. Afinal, estamos no meio de uma campanha eleitoral [as eleições são em 10 de fevereiro]. E as regras da vida no Oriente Médio ditam que não se pode demonstrar fraqueza. É a essa mentalidade a que Baram se referiu.


Guerra e eleições

A campanha militar é liderada pelo trio formado pelo premiê Olmert, o ministro da Defesa e líder do Partido Trabalhista, Ehud Barak, e a ministra das Relações Exteriores -e também candidata a premiê pelo Kadima- Tzipi Livni.


O elemento-chave aqui é Barak, o militar mais condecorado na história de Israel, mas que enfraqueceu o Partido Trabalhista. O partido que fundou o Estado e que, em seu auge, teve 51 membros no Knesset (de 120 cadeiras), estava previsto para conseguir apenas entre 8 e 11 cadeiras no próximo Knesset (contra 19 em 2006). Olmert estava jogando a carta da paz até o último dia de seu mandato, esperando poder incluir em seu legado um encontro público com os sírios, ao lado de declarações sobre a necessidade de um retorno às fronteiras de 1967. Livni estava dando declarações mais intransigentes, tentando afastar a ameaça de Binyamin Netanyahu, do Likud, pela direita.


A partir de 19 de dezembro, todos os líderes atuais enxergaram uma janela de oportunidade e decidiram fazer uso dela. Eles também aproveitaram o momento entre o final do governo Bush e o início do governo Obama para agir, partindo da premissa de que a comunidade internacional teria dificuldade em intervir. Agora o objetivo de Barak é mostrar que ele pode ser um líder militar eficaz e responsável.


É ele quem vem ganhando mais com a ação militar, tendo quase dobrado a previsão de cadeiras a serem conquistadas pelo Partido Trabalhista, hoje em 16. Quanto a Olmert, ele gostaria de compensar por sua imagem de líder militar fracassado, decorrente da debacle de 2006 no Líbano. Livni não é vista como sendo líder da operação. Mas ela poderá reconquistar crédito quando ingressarmos na fase diplomática.


No curto prazo, um dos resultados políticos da operação é que, pela primeira vez, a combinação de centro-esquerda dos partidos Kadima, Trabalhista e Meretz, apoiada pelos partidos árabes, tem previsão de conquistar uma maioria no Knesset. Se isso acontecer, será Tzipi Livni, e não Netanyahu, quem se tornará premiê. Mas a opinião pública pode ser volúvel, especialmente se o número de baixas israelenses subir.


Sucessão de erros

Há vários pecados originais que levaram a este momento. Um deles foi o fato de o governo Sharon ter insistido em fazer a retirada unilateral de Gaza em 2005, em lugar de negociar e entregar as chaves do território a Mahmoud Abbas e à Autoridade Nacional Palestina (ANP). Isso possibilitou ao Hamas afirmar que sua política de "resistência" obrigara Israel a deixar o território, enquanto a política de negociação de Abbas não dera resultados.


O segundo erro foi o fato de o governo israelense ter cedido à insistência do governo Bush de que as eleições palestinas fossem realizadas em janeiro de 2006, apesar das reservas de Israel e da ANP em relação ao timing do pleito. O resultado foi a vitória do Hamas.


O terceiro pecado original foi o fato de que, após as eleições, Israel e a comunidade internacional não tentaram relacionar-se com o governo democraticamente eleito do Hamas, mesmo que não houvesse garantia de êxito nisso. E o pecado final foi o fato de o Hamas ter dado um golpe de Estado contra a ANP e jogado com Israel um jogo de falcões e pombas com os mísseis Qassam.


Declaração
Nem todos os israelenses apoiaram a ação militar. Em 27 de dezembro, quando começaram os bombardeios, uma manifestação foi organizada em Tel Aviv -apenas com e-mails e divulgação boca-a-boca- para protestar contra a ação militar e pedir um cessar-fogo imediato e o retorno às negociações. A manifestação atraiu mais de mil participantes. O fórum israelense PeaceNGO, coalizão de mais de 70 grupos que trabalham pela paz e a coexistência, se reuniu em Tel Aviv para formular sua posição.


A decisão foi divulgar uma declaração em três pontos: 1) Pedir um cessar-fogo israelense imediato, sem levar em conta a reação do Hamas, no espírito de um artigo de opinião do destacado escritor israelense David Grossman (cuja voz carrega autoridade moral especial porque seu filho mais jovem foi morto no último e desnecessário dia da guerra de 2006 no Líbano); 2) Declarar que a matança de civis inocentes de ambos os lados é um crime moral e identificar-se com o sofrimento das populações de Gaza e Israel; 3) Simultaneamente, pedir a retomada do processo de paz, baseado na Iniciativa Árabe de Paz, vista como a única alternativa viável.


Há momentos em que uma situação de crise quebra a inércia que afeta muitos dos atores num contexto específico, podendo até mesmo levar a importantes transformações e iniciativas construtivas.


HILLER SCHENKER , jornalista em Tel Aviv, é comentarista sobre assuntos árabe-israelenses e co-editor do "Palestine-Israel Journal". Este artigo foi distribuído pela Agence Global


Tradução de CLARA ALLAIN

Artigo: Conflito é um beco com saída para a paz

MOISÉS RABINOVIC

ESPECIAL PARA A FOLHA


Pelas incontáveis ruas de Gaza chamadas Al Awda, O Retorno, palestinos esperam um dia saudar o retorno de parentes, amigos e milhares de refugiados dispersos pelo mundo. Por elas também sonham em retornar às casas e terras onde moravam antes da criação de Israel, há 60 anos. Mão única para um beco político até agora sem saída, estão congestionadas por miragens entre dunas de areia e lixo à beira do Mediterrâneo. Pois pelas ruas Al Awda, que dão num bloco de ruas Palestina, no favelão de Jabaliya, os únicos "alaedum", os retornados, são os soldados israelenses, mais uma vez, desde o sábado.


Gaza, Tesouro em árabe, é Aza, Forte em hebraico. Aqui morreu Sansão, ao derrubar as colunas do templo sobre cinco governadores e cerca de 3.000 filisteus que se divertiam ao vê-lo cego, traído por Dalila. E aqui teria nascido Iasser Arafat, que dizia ser de Jerusalém, para a qual reivindicava O Retorno, um atalho Al Awda, via negociações de paz.


Desde os tempos bíblicos, Israel sempre soube entrar em Gaza, embora perdendo-se muito na hora de sair. O retorno de agora está sendo anunciado como o mais breve possível, uma devastadora visita inesperada para liquidar o Hamas, sigla do Movimento de Resistência Islâmica que significa Fervor, em árabe, e acabar com os mísseis disparados contra as cidades israelenses do deserto do Negev, mas que já flertam com Tel Aviv.


Foi Israel quem cultivou o fervor do Hamas. Queria abrir um caminho alternativo à OLP, então contrária a qualquer iniciativa de paz. O Hamas não perdeu a chance: famoso por incorruptível, algo inédito nas hostes de Arafat, e dedicado a obras sociais, com líderes religiosos xiitas ligados ao Irã e ao Hizbollah libanês, conquistou o 1,5 milhão de palestinos em Gaza, o voto que o conduziu ao poder, democraticamente, e então expulsou o Fatah para a Cisjordânia.


Treinou e armou um exército, contrabandeou mísseis cavando túneis na fronteira com o Egito, e começou a atirá-los a conta-gotas e sem mira contra civis israelenses. E à provocação, ainda acrescentou um desafio: não quis renovar a trégua de seis meses esgotada em novembro, acusando Israel de violá-la antes com um bloqueio e isolamento.


Talvez o Hamas tenha julgado Israel impotente para reagir aos mísseis, à véspera de eleições gerais, em fevereiro, o primeiro-ministro caindo por corrupção, e enquanto o presidente eleito Obama não assume a Casa Branca. E contava que os israelenses ainda estivessem traumatizados pela última guerra no Líbano, em 2006.


Dissuasão
Cálculos errados, se assim realmente foram feitos. Para restaurar seu poder de dissuasão contestado, Israel não poupou bombas. Foi a Gaza como aos países árabes vizinhos na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ataques aéreos arrasadores. Depois mandou seus tanques e a infantaria.


O momento eleitoral israelense foi esvaziado porque, em guerra, os eleitores são soldados, e os políticos, unidos pela sobrevivência nacional. O que não quer dizer que o ministro da Defesa, Ehud Barak, se vitorioso, não ganhe algumas cadeiras a mais no Parlamento. Para a nova Casa Branca, será um teste capaz de antecipar a nova estratégia americana para o Oriente Médio.


A rua árabe não confraterniza com o Hamas. Os países moderados sunitas bloquearam os apelos de convocação da Liga Árabe. Ruas de Europa e Ásia foram tomadas por protestos contra a violência da reação israelense, considerada desproporcional -dois olhos por um olho. Israel pode estar perdendo sua guerra de autodefesa na mídia, mas, se sair rápido e vitorioso de Gaza, terá afastado o maior obstáculo atual para um acordo de paz com os palestinos, sob a liderança do Fatah. E os moradores das ruas Al Awda e Palestina ganharão uma saída para um novo país.


MOISÉS RABINOVICI foi correspondente em Israel por oito anos


Iraniano vê metas comuns com Brasil

SOFIA FERNANDES

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


Posições em comum entre Brasil e Irã devem impulsionar uma união entre os dois países para o cumprimento de metas em relação à guerra em Gaza. A declaração foi feita ontem por Mohammad Abbasi, Ministro das Cooperativas do Irã, após reunião com Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais que afirmou que Israel comete "terrorismo de Estado".

De acordo com Abbasi, a guerra em Israel foi o único assunto tratado na conversa. O governo divulgou nota lacônica sobre a visita, e assessores palacianos tentaram vender a idéia de que há divergências entre os países.


O ministro veio ao Brasil com a missão de entregar uma carta do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao presidente Lula. Ele disse em entrevista coletiva que o governo iraniano e todos os que "não concordam com violações" e "se preocupam com a liberdade" apoiam o Hamas. Não concordou com a hipótese de o Hamas ser um títere do Irã no conflito mais amplo de Teerã contra Tel Aviv.


Na carta entregue ao presidente Lula, o presidente iraniano critica a inação internacional e dos árabes e fala que é "indispensável" encontrar caminho jurídico para julgar Israel por crimes de guerra.


Publicações

HAMAS, guia para iniciantes

Khaled Hroub

Editora: Difel

Sinopse: Hamas - Um Guia para Iniciantes, do jornalista da Al-Jazeera e aclamado estudioso estabelecido em Cambridge, Kahled Hroub, que analisa a história do Hamas e sua controvertida agenda. O livro, através de um formato de perguntas e respostas, abrange todas as questões de fundamental importância, incluindo as atitudes do Hamas em relação a Israel e à OLP, suas crenças religiosas, seus ataques suicidas e seu programa de assistência social voltado para as camadas menos favorecidas dentro da Palestina.


UOL Internacional - Der Spiegel


Wolkhard Windfuhr

No Cairo, em 10/01/2009.


A proposta de cessar-fogo egípcio-francesa para a faixa de Gaza continua na mesa. O Hamas, entretanto, está dividido. Um lado está pedindo uma batalha decisiva, enquanto outros continuam a negociar. E ainda está incerto qual lado prevalecerá.



Na quinta-feira (08/1), no coração da Cidade de Gaza, ocorreu uma cena digna de nota. Na frente de um restaurante de frango fechado, perto do centro cultural vazio, homens mascarados de uniforme distribuíam panfletos de inspiração. "Sem paz com os assassinos de nossos filhos", dizia um. "Resista até a morte, Alá está com você", dizia outro.


Poucos transeuntes, entretanto, pegavam os panfletos. A situação humanitária na faixa de Gaza, que se torna pior a cada dia, não parecia estar levando os palestinos para os braços dos propagandistas fanáticos do Hamas. "Por que vocês estão entregando papel em vez de pão?", perguntou uma mãe com duas filhas, apressando-se.


Há 14 dias, bombas israelenses vêm caindo na faixa de Gaza -mais de 700 palestinos, muitos deles civis, já perderam suas vidas. Os palestinos estão tão cansados desta guerra quanto os israelenses. Se o Hamas pensava que poderia gerar um levante popular, parece ter errado.


Entretanto, cenas como essa, descritas por um morador da faixa de Gaza por telefone, são apenas um elemento de uma realidade que está se tornando cada vez mais clara. E é uma realidade que tem relevância para os esforços internacionais em curso para estabelecer um cessar-fogo no Oriente Médio: o Hamas, atualmente, é incapaz de falar com uma voz única.


O grau de divisão do grupo palestino radical ficou claro durante as negociações de cessar-fogo atualmente ocorrendo no Cairo. Khaled Meshaal, diretor da ala militante do Hamas que mora em Damasco, enviou uma série de membros proeminentes para o Egito na terça-feira para averiguar a possibilidade do Cairo ter um papel de intermediário. A assim chamada "Iniciativa do Cairo", que tinha o objetivo de deter o banho de sangue atual e abordar as raízes do problema, agora cresceu para uma tentativa promissora de colocar um fim rápido à violência.


Ainda assim, mesmo dentro da delegação do Hamas, há opiniões conflitantes quanto ao caminho que o grupo deve seguir nas negociações. Dadas as discordâncias, não é de surpreender que os sinais enviados pelo Hamas na quinta-feira não foram claros.


Muhammad Nasr, nascido em Hebron, há muito é assessor político proeminente de Meshaal e pertence ao politburo do Hamas. Ele conversou várias horas com Omar Suleiman, diretor de inteligência e Egito e potencial sucessor do presidente Hosni Mubarak. A discussão se concentrou nas condições que o Hamas teria que cumprir para que o plano egípcio tivesse sucesso.


Entretanto, o linha dura Nasr recusou-se a ceder. Ele insistiu que o Hamas tem que ter o controle da fronteira da Palestina com o Egito e não pode ser forçado a reconhecer Israel, nem mesmo indiretamente.


Com essa posição, entretanto, ele está em contradição direta com os pilares centrais previstos pela Iniciativa do Cairo. Além de um cessar-fogo imediato e da retirada do exército israelense, o Hamas teria que suspender permanentemente o lançamento de foguetes pela fronteira da faixa de Gaza para Israel. Além disso, a responsabilidade por monitorar a fronteira entre a faixa de Gaza e o Egito seria devolvida à Autoridade Palestina, internacionalmente reconhecida como o governo palestino que controla a Cisjordânia. O Hamas e a Autoridade Palestina, chefiada pelo presidente palestino Mahmoud Abbas, têm sido rivais desde que o Hamas assumiu o controle da faixa de Gaza, no verão de 2007.


Até mesmo o item já discutido em detalhe que prevê observadores árabes e europeus ao longo da fronteira da faixa de Gaza se provou difícil para os políticos do Hamas aceitarem. Se tal missão observadora tiver um mandato forte, quase certamente fechará os túneis sob a fronteira -que além de transportarem alimentos e remédios levam armas contrabandeadas.


Outros negociadores do Hamas, entretanto, como Imad Al-Alami, que acompanhou Nasr ao Cairo, provaram-se mais conciliadores. Al-Alami, conhecido como "o filósofo", não rejeitou de cara as propostas egípcias. Em vez disso, ele prometeu que voltaria à mesa de negociação com contra propostas.


A paciência está se esgotando na sede do Hamas em Damasco. Ao mesmo tempo, inúmeros ativistas que vieram da faixa de Gaza para o Cairo há muito se convenceram da necessidade da mediação egípcia. Entretanto, o Hamas ainda não conseguiu criar uma posição única.


Com essa falta de união, a rejeição da quinta-feira do plano de paz liderado pelo Egito pela coalizão de grupos palestinos radicais com base em Damasco -ao qual o Hamas pertence- não é considerada sua palavra final. A rejeição da coalizão provavelmente se deve à pressão exercida pela Síria que, segundo os observadores, não ficou entusiasmada com a decisão dos políticos do Hamas de visitarem o Cairo sem a bênção de Damasco.


Na quinta-feira, era difícil prever qual dos dois lados por fim vencerá. Entretanto, o prolongamento das negociações provavelmente dará força aos moderados. Os radicais, aparentemente, abusaram de sua influência. Está cada vez mais claro para eles que nenhum Estado árabe está disposto a entrar em guerra pela faixa de Gaza - além disso, que nenhum país árabe está disposto a suspender o plano de paz árabe -originalmente concebido em 2002 e aprovado pelos Estados árabes em 2007- que pede o reconhecimento formal de Israel.


Aparentemente, o Hamas não é o único grupo que julgou mal a situação. A rede de televisão patrocinada pela Hezbollah, Al-Manar, com base em Beirute, pediu aos cidadãos desmoralizados da faixa de Gaza que lutassem "até o fim" e não desistissem. Da mesma forma, o canal transmitiu entrevistas com convidados escolhidos advertindo sobre "traidores em nossas fileiras" e ameaçando "árabes partidários de Israel". A resposta pública, contudo, não é o que a estação esperava.


Os radicais também acreditavam que o lançamento de foguetes Katyusha do Sul do Líbano para Israel geraria uma ampla aliança entre sunitas palestinos e xiitas libaneses. Até agora, porém, tal coalizão ainda não ocorreu.


Atrás das cenas, houve algum movimento. Uma série de figuras palestinas antigas começou uma ampla campanha em apoio à Iniciativa do Cairo -um plano que não é diferente do sugerido pelo presidente francês Nicolas Sarkozy.


Said Kamal é um desses. Kamal passou muitos anos no Cairo como representante do lendário líder palestino Iasser Arafat e foi secretário geral da Liga Árabe. Na terça-feira, Kamal foi convidado a um programa de televisão libanês chamado Al-Quds, onde ele exortou os palestinos a tirarem vantagem do plano egípcio. "Não há nada melhor a vista para nós e, de qualquer forma, tudo está aberto para negociação", disse ele. "Não há outra forma senão negociar". O Al-Quds, deve-se notar, algumas vezes é chamado de "TV Hamas" no Líbano.


Com esses desdobramentos, parece que a liderança do Hamas por fim terá pouco espaço para manobra. O Egito, afinal, é o único país árabe que faz fronteira com a faixa de Gaza. Deve estar claro até para os radicais e opositores da Iniciativa do Cairo que, no final, todos os caminhos levam ao Cairo.


Tradução: Deborah Weinberg


Der Spiegel – Leia mais:


LINGUAGEM E PRECONCEITO

UOL Internacional – New York Times

No Cairo, cresce a inquietação em torno do conflito em Gaza

Michael Slackman*

No Cairo (Egito), em 10/01/2009.


Dentro da mesquita Al Azhar, um centro milenar de ensino religioso, o pregador criticava os judeus na sexta-feira (09/01). Do lado de fora, as tropas de choque da polícia formavam fileiras, apoiadas por canhões de água e dezenas de policiais à paisana, posicionados para impedir que os fiéis tomassem as ruas para protestar contra a guerra em Gaza.


"Irmãos muçulmanos", disse o pregador nomeado pelo governo, o xeque Eid Abdel Hamid Youssef, "Deus infligiu à nação muçulmana um povo com o qual Deus se enfureceu e ao qual amaldiçoou, os transformando em porcos e macacos. Eles mataram profetas e mensageiros e semearam a corrupção na Terra. Eles são os mais malignos na Terra".


Enquanto a guerra em Gaza chega ao seu 14º dia, os governos árabes sentiram sua legitimidade contestada com uma virulência incomum. A cada dia que passa, a cada palestino que morre, a popularidade do Hamas e de outros movimentos radicais cresce ainda mais nas ruas árabes, enquanto a dos líderes árabes no poder despenca.


Em nenhum outro lugar no mundo árabe a distância entre as ruas e o governo é tão grande quanto aqui no Egito, que tem um acordo de paz com Israel e se recusa a permitir o livre trânsito de bens e pessoas por sua fronteira com Gaza, uma decisão que é atacada por líderes árabes e islâmicos e é profundamente perturbadora para muitos egípcios.


E assim o governo do presidente Hosni Mubarak pareceu se apoiar em sua fórmula padrão para preservação da autoridade na Oração de Sexta-Feira, empregando suas forças de segurança para manter a calma na rua e em instituições religiosas do governo como Al Azhar, buscando apaziguar o sentimento público, neste caso uma reação contra os judeus em resposta a Gaza.


"A pressão está crescendo no Egito", disse Abdel Raouf el-Reedy, um ex-embaixador egípcio nos Estados Unidos. "Como é possível manter o embaixador israelense aqui? Como é possível manter o embaixador egípcio em Israel? Como é possível ainda exportar gás para Israel apesar da ordem judicial para suspensão? O sistema está na defensiva. A opinião pública está claramente do lado do Hamas."


O clima nas ruas do Cairo é sombrio. Há uma presença pesada de segurança. Tropas de choque armadas estão reunidas do lado de fora de organizações profissionais, como o Sindicato dos Médicos, que são freqüentemente dirigidas por membros alinhados com a Irmandade Muçulmana, o movimento islâmico oficialmente ilegal, porém tolerado. Veículos de transporte de tropas congestionam as pequenas travessas da cidade.

Em três dias de entrevistas realizadas aqui, as pessoas parecem abatidas com as críticas públicas feitas contra seu país, decepcionadas com o fracasso de seu próprio governo em ajudar os palestinos e doentes com as mortes de centenas de palestinos, muitos deles combatentes, mas também muitas mulheres e crianças. Repetidas vezes, os egípcios disseram que sentem que os únicos em que podem confiar são os radicais islâmicos -não seu governo.


"O trabalho da Irmandade Muçulmana lhe dá credibilidade", disse Heba Omar, 27 anos, que coletou cerca de US$ 4 mil juntos aos seus vizinhos para doar para uma caridade controlada pelos membros da irmandade. "Eles fazem o que podem em momentos de crise."


Na quinta-feira, três jovens olhavam em meio à garoa para as águas cinzentas do Nilo, com livros escolares debaixo do braço, com jaquetas fechadas até o queixo por causa do frio do inverno. "É claro que estamos tristes", disse Muhammad Atef, em uma voz baixa e desanimada. "Não podemos fazer nada. Não há nada em nossas mãos."


Atef e seus colegas de escola, Hazem Khaled e Ramy Morsy, todos com 19 anos e estudando para serem eletricistas, estavam caminhando ao longo do Nilo, do lado oposto à imponente torre que abriga o Ministério das Relações Exteriores do Egito.


Os diplomatas que estão lidando com a crise estão em Nova York, na ONU. Mas os jovens disseram que estão olhando para outro lugar em busca de uma chance de ajudar os palestinos. "Os islamitas são muito próximos de nós", disse Atef.


"São pessoas em que podemos confiar", disse Khaled.


"Nós confiamos nas organizações islamitas", disse Morse.


Conversas como esta têm ajudado a pressionar o Egito a mudar sua posição em relação à Gaza, se não suas políticas de fato. Quando a guerra teve início, o ministro das Relações Exteriores, Ahmed Aboul Gheit, atacou o Hamas, o acusando de ter incitado a violência ao não dar ouvidos aos alertas de Israel para que suspendesse os disparos de foguetes.


O Egito adotou uma posição semelhante em 2006, acusando o Hezbollah de ter provocado Israel e provocado a campanha de bombardeio contra o Líbano, ao capturar dois soldados israelenses em 2006. Mas agora, como daquela vez, o governo mudou rapidamente de posição diante do ultraje público.


"Mubarak perdeu a credibilidade, não apenas no mundo árabe, mas também no Egito", disse Fahmy Howeidy, um escritor egípcio com inclinação islamita cujo trabalho costumava ser publicado no principal jornal controlado pelo governo, o "Al Ahram".


O Egito buscou rapidamente recuperar sua posição ao promover uma iniciativa de cessar-fogo. Ela fracassou e a pressão está novamente crescendo. Especialistas políticos e militares daqui disseram que as autoridades estão buscando fortalecer o Fatah, a facção secular palestina, que foi expulsa pelo Hamas e agora está encarregada da Cisjordânia. Mas eles temem que à medida que prosseguem os combates, sua relutância em ajudar o Hamas resultará no oposto. O Fatah poderá ser minado e o Hamas fortalecido.


"Eu não acho que o Fatah poderá voltar para Gaza", disse Reedy. "Esta é a ironia do poderio militar de Israel. Ele não eliminará o Hamas. O Hamas sobreviverá na mente das pessoas."


Para as pessoas comuns, as preocupações do Estado empalidecem diante do desejo de ajudar a deter o derramamento de sangue. Na Oração de Sexta-Feira, que serve como um nexo entre religião e política para os muçulmanos, os principais estudiosos islâmicos no Oriente Médio pediram para os muçulmanos de todo o mundo se unirem sob a bandeira do Islã para ajudar. E os pregadores ouviram seu pedido, freqüentemente se voltando contra Israel, o povo judeu, os Estados Unidos e Mubarak.


"A verdade sobre os judeus é que mataram profetas e mensageiros, romperam pactos e promessas entre eles e outras nações", disse Ilyas Ait Siarabi, durante seu sermão em uma mesquita de bairro em Argel. "E eles buscam derramar o sangue e matar as almas de velhos, mulheres e crianças fracas inocentes."


Na Al Azhar controlada pelo governo, no Cairo, o xeque Yousef encerrou seu sermão pedindo por unidade. "Irmãos muçulmanos, a divisão atual entre os muçulmanos é o que os enfraquecem e permite que os inimigos os atinjam", ele disse, com sua voz reverberando pelos alto-falantes montados do lado de fora da mesquita. "O que temos que fazer, irmãos muçulmanos, é nos unirmos e fortalecermos nossas frentes externas e internas."


Antes do início do serviço religioso, uma mulher se levantou em frente ao setor das mulheres -homens e mulheres rezam em áreas separadas da mesquita- e pediu a todos que permanecessem após seu encerramento. Ela disse que queria que as mulheres criassem uma parede para proteger os homens, que planejavam protestar, de serem levados ou agredidos pela polícia. Quando a cerimônia terminou, uma mulher se ergueu e gritou: "Abram a fronteira, abram a fronteira".


Um policial gritou para que todos partissem e a congregação saiu para a rua repleta de seguranças e tropas de choque. A manifestação não ocorreu.


Tradução: George El Khouri Andolfato


LINGUAGEM E PRECONCEITO

UOL Internacional – Financial Times

LINGUAGEM E PRECONCEITO


Daniel Dombey

Em Washington (EUA) – 10/01/2009.


Na semana que vem, quando expuser as suas ideias sobre o Oriente Médio e outras regiões do mundo, Hillary Clinton romperá o silêncio quase completo da equipe de Obama sobre a guerra na faixa de Gaza.

A futura secretária de Estado será observada pelo mundo inteiro depois que outros países assumiram a liderança na busca de um cessar-fogo, enquanto o presidente eleito Barack Obama, que assume o cargo em 20 de janeiro, se limitava a emitir observações vagas e genéricas sobre o conflito.


Talvez o símbolo mais contundente do que está à espera de Washington tenha sido a abstenção do governo Bush, nesta semana, durante a votação de uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) pedindo um cessar-fogo na faixa de Gaza. Alguns enxergam nessa abstenção mais uma prova da relutância dos Estados Unidos de censurar Israel. Outros, especialmente dentro do Estado judeu, veem o fato de Washington não ter se oposto à resolução como uma das indicações mais importantes da distância entre os Estados Unidos e Israel nos últimos anos.


Durante a audiência de confirmação no Senado na próxima terça-feira, o centro das atenções deverá ser a visão de Hillary Clinton sobre políticas externas, e não qualquer dúvida séria quanto à possibilidade de ela assumir o cargo de secretária de Estado. "Ela conta com um apoio muito forte", diz Richard Lugar, o mais importante parlamentar republicano no Comitê de Relações Exteriores do Senado.


Um foco das atenções será o Hamas. Obama descartou publicamente contatos diretos com o grupo, mas até mesmo o governo Bush abrandou a sua política de total isolamento da organização islâmica quando encorajou o Egito a mediar um cessar-fogo, que entrou em colapso no ano passado, entre o Hamas e Israel.


Mas a promessa de Barack Obama e Hillary Clinton de se concentrarem na paz no Oriente Médio a partir do momento em que assumirem os seus cargos tem como pano de fundo uma década e meia de apoio cada vez maior dos Estados Unidos a Israel, desde que o ex-presidente George H.W. Bush utilizou garantias de empréstimos para pressionar o país. Nesta semana, o Senado dos Estados Unidos apoiou unanimemente uma resolução declarando que "está com Israel" e na sexta-feira (09/01) a Câmara dos Deputados estava pronta a apoiar uma medida similar.


Nos últimos dez anos, Hillary Clinton destacou-se como uma aliada confiável de Israel. Durante a sua campanha contra Barack Obama pela candidatura à presidência pelo Partido Democrata, ela advertiu que os Estados Unidos poderiam "obliterar" o Irã no caso de um ataque nuclear contra Israel, explicando que a filosofia de dissuasão utilizada na Guerra Fria poderia ajudar a conter as ambições de Teerã.


No ano passado, na conferência anual da Aipac, o grupo pró-israelense, ela afirmou que rejeita negociar com o Hamas enquanto o grupo recusar-se a reconhecer Israel.


Mesmo assim, alguns analistas acreditam que Hillary Clinton poderá reajustar as suas posições assim que assumir o cargo. "O tipo de postura de linha dura que presenciamos na senadora diminuirá neste seu novo papel", afirma Steve Clemons, pesquisador da New America Foundation, instituição com sede em Washington. "A campanha de Hillary Clinton acabou, e ela não será mas uma senadora pelo Estado de Nova York, que representa um dos nichos maiores e mais ricos de doadores de campanha judeus nos Estados Unidos".


Grande parte do trabalho cotidiano em relação à questão israelense-palestina deverá ficar a cargo do novo enviado para a região, que trabalhará com Dennis Ross, uma ex-autoridade graduada do Departamento de Estado, que foi o escolhido para um papel abrangente na abordagem da questão iraniana. O Irã é acusado por vários analistas norte-americanos de travar uma "guerra por procuração" contra Israel por meio do Hamas e do movimento xiita libanês Hezbollah. Um terceiro enviado, Richard Holbrooke, embaixador para as Nações Unidas durante o governo de Bill Clinton, deverá trabalhar com as questões do Afeganistão e do Paquistão.

Anne-Marie Slaughter, uma acadêmica da Universidade de Princeton cogitada para assumir um cargo importante no Departamento de Estado de Hillary Clinton, disse em uma conferência em Washington nesta semana que o novo governo não lidará com a questão israelense-palestina de forma isolada, mas sim como um de uma série de problemas inter-relacionados. "Tanto o presidente eleito Barack Obama quanto a secretária de Estado Hillary Clinton acreditam que o Oriente Médio é uma área que vai de Israel até a Índia", disse ela.


Mas alguns observadores especulam que Hillary Clinton poderá tentar garantir uma voz forte para si própria caso os enviados assumam um papel proeminente, enquanto outras figuras do novo governo - seja o vice-presidente eleito Joe Biden, seja o secretário de Defesa, Robert Gates - também procurarem estabelecer políticas externas.


"A mim parece que é sempre melhor começar com menos enviados do que com muitos para depois ter que reduzir esse número", afirmou ao "Financial Times" Richard Armitage, ex-vice-secretário de Estado do governo de George W. Bush.


O maior de todos os riscos é o de uma cisão com Barack Obama, que durante as primárias adotou uma linha nitidamente mais branda em relação ao Irã do que Hillary Clinton. Os inimigos do novo governo, tanto no cenário doméstico quanto no externo, já estão procurando identificar tais tensões. "A verdadeira questão na área de política externa durante o primeiro ano será quanto tempo demorará até que Hillary Clinton e Barack Obama entrem em um conflito aberto", afirma a ex-autoridade do governo Bush.


LINGUAGEM E PRECONCEITO

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